sábado, 23 de janeiro de 2016

A CORRUPÇÃO É MUNDIAL?



  

Jornal Hoje em Dia 



Aproveito uma viagem a Portugal e Espanha para tecer algumas considerações sobre o que se passa na Europa em termos políticos e econômicos. E comparo com a crise que atravessamos e tanto nos assusta.
A globalização é um fenômeno histórico mais profundo do que o imaginado. Países como os da Península Ibérica, que tiveram governos fortes por décadas – mas de exemplar austeridade e espírito público, o que não tem nada com as limitações no livre exercício da democracia – pagam caro a liberdade conquistada.
A roubalheira está instalada em todos os partidos. Muitas lideranças políticas presas, bens bloqueados e cobrança implacável de multas e impostos.
Na Espanha, a tia do atual rei responde criminalmente por malfeitos do marido em entidades onde ela figura como dirigente.
Em Portugal, o ex-primeiro-ministro Sócrates ficou bons meses na cadeia e parece que será condenado tais as evidências de seu enriquecimento ilícito. Neste processo aparecem muito suas ligações comerciais com a Venezuela de Chávez e o Brasil de Lula.
No campo político, nos dois países, a centro-direita teve o primeiro lugar, mas a esquerda se uniu, gerando uma situação inusitada.
Apesar da grave crise na economia, que vinha sendo superada com sacrifício, Portugal tem um governo de esquerda cujas primeiras medidas foram as de restituir feriados (quatro) e aumentar os dias de férias, além de pressionar para obter mudanças na privatização da TAP.
A Espanha chegou a marcar o Dia de Reis, importante lá, como sendo “das rainhas” para combater o machismo cristão. Tudo que parece brincadeira, infelizmente, não é.
O resultado desta confusão política tem sido a interrupção nos processos de recuperação do emprego e da credibilidade, com agravamento do social. Também ocorre uma crescente intervenção do Judiciário, inclusive ordenando despesas inoportunas.
Portanto, crise política, econômica, moral, não é privilégio do Brasil. Mas também a ação contra a corrupção pela primeira vez atinge altos mandatários e seus familiares. O que é um fato positivo se não sofrer constrangimentos, como no caso da Venezuela.
No mais, a Europa terá novos problemas com a economia grega e a ação política da Rússia, que de certa forma quer refazer de outra maneira seu domínio sobre as antigas repúblicas soviéticas.
Alemães e ingleses continuam no rumo coerente com a história de desenvolvimento econômico e social que possuem.
Que desta transição venha um novo mundo e não um retrocesso bolivariano.
PS: A grande figura exaltada pelos conservadores europeus é um latino-americano: Mauricio Macri, novo presidente da Argentina.


SERTÃO BRASILEIRO



  

Manoel Hygino



“Essa coisa de escrever, essa estranha coisa-necessidade de escrever começou com a História. A própria”. Assim começou o prestigioso poeta Ronaldo Werneck, de Cataguases para o Brasil, entrevista ao A União – Correio das Artes, de João Pessoa, cinco anos atrás.
Faço uso do seu pensamento ao ler “Cadernos de Ediclar – Memórias do Brejo das Almas”, de Karla Celene Campos, lançado pela Millenium, em Montes Claros, no final do ano passado, com prefácio de Charles Rodrigues Luís. Para o prefaciador, a autora é exímia amazona das letras, para percorrer grandes distâncias em vigorosas montarias.
Não é fácil emitir opinião sobre os livros de Karla, cuja bibliografia conheço de outras belas cavalgadas. Antes de mais nada, seria lícito estender o elogio a outras autoras mineiras da região. Ali se formou um celeiro de excelentes escritoras para fazer companhia adequada a Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro, que conquistaram – sem favor algum – cadeiras na Casa de Machado de Assis.
Justifica-se a anotação final de Maria Inês Silveira Carlos ao declarar que Karla, graduada em letras pela Unimontes, jornalista pela Fafi-BH, pós-graduada em literatura brasileira e espanhola pela PUC Minas e pela Eurocenter, de Salamanca, “representa a força, a raça e a vitória da mulher norte-mineira”. Por que tão alto privilégio a um dos mais esquecidos rincões do Estado?
A partir de uma personagem popular e querida de Brejo das Almas (cujo nome sensibilizou e marcou ilustres autores), hoje Francisco Sá, Karla oferece um retrato vívido e colorido do burgo em que nasceu e de que Ediclar é representativo. Simples e simplório, mas com desenvoltura e criatividade, tornou-se figura amada em todos os círculos, fazendo poesia e com iniciativas que tocaram a alma da cidade, como a formação da sua primeira escola de samba – a “Estrela Dalva”.
Sob a maestria esfuziante da escritora e com os versos de Ediclar, forma-se uma vívida ideia da cidade, sua gente, velhos e moços, suas tradições, os momentos de alegria e de dor. Karla descreve bem, sem apelar para a sofisticação vocabular. “Iaiá era uma mulher miúda, olhos brilhantes, corpo esperto. Quando a conheci, seus cabelos já revelavam a visita apressada do tempo”, até porque o tempo, esse pintor de cabelos, é incontentável.
O dia não nasce: “Faz pouco mais de uma hora que o dia abriu os olhos”. E há indagações: “Hoje as crianças não têm verrugas como tínhamos... Não existem mais verrugas? Ou não existem mais estrelas? Ou foram as pessoas que perderam o encantamento de contá-las”. “Tanta poluição em todos os céus; tanta luminosidade a espantar a beleza do escuro da noite; tanta falta de tempo para contar estrelas; tanta falta de interesse pelas coisas mágicas do céu. As pessoas não perdem mais o senso... Não escutam, não conversam, não amam, não entendem estrelas... Como Bilac, como nós...”
O livro também propicia pitadas de histórias, da cidade e da região, das famílias que por ali se estabeleceram desde que pedras preciosas foram encontradas a partir de fins do século XVII, princípio do XVIII. Para manter a ordem entre os garimpeiros, o imperador mandando para ali o sargento-mor Jerônimo Xavier de Souza, sobrinho nada menos do que de Tiradentes. Percebe-se que, para este comentário, o espaço precisaria ser maior.

COISAS DA VIDA



  

José Eutáquio de Oliveira




Todos os dias, o mesmo ritual. Por volta das sete da manhã, quando Custódio abria o bar, o homem e o vira-lata branco (troncudinho, manchas bem marrons na cara e na barriga) que o acompanhava, podiam ser vistos de prontidão na calçada em frente ao número 560 da rua Congonhas. De pé, jornal do dia debaixo do braço, cigarrilha no canto da boca, ar circunspecto a contemplar, imóvel, os passantes, o homem e seu cachorro esperavam com calma o Custódio proceder aos trabalhos de abertura do bar e de colocação das mesas e cadeiras. Minutos depois, quando o cheiro gostoso do café novo coado e do pão quentinho recém-chegado da padaria ao lado recendia no recinto, o homem se dirigia até a mesa que ficava logo na entrada – do lado esquerdo de quem entra – e ocupava a cadeira que dava a frente para o corredor. O cão o acompanhava, e deitava-se preguiçosamente, debaixo da mesa ocupada por seu dono.
Antes de abrir o jornal, o homem fazia um breve sinal com a cabeça para o Custódio, que cuidava então de lhe servir o café da manhã de sempre: ovos mexidos, uma média de café com leite e pão quente com manteiga na chapa... E uma caixa de cigarrilhas holandesas. Depois de ler as notícias fumando uma cigarrilha atrás da outra, ele deixava o jornal arrumado na mesa, pedia a conta, pagava e ia embora.
Media por volta de um metro e setenta e cinco, era forte, cabelos e barba grisalhos, e olhos azuis penetrantes quando se dignavam a fitar alguém. Com qualquer tempo vestia-se sempre com um casaco de couro marrom, calças tipo jardineira blues jeans, camisas de malha branca, botinas amareladas. Para alguns da turma do bar ele tinha um jeito do John Wayne, para mim ele era um tipo Ernest Hemingway. Nunca ouvimos a sua voz.
Como um relógio suíço, ao meio dia, o homem e seu cão voltavam ao bar. Retomava o mesmo lugar que ocupara no café da manhã – que, por sinal já estava reservado para ele – para almoçar o de sempre: prato do dia, acompanhado de uma dose de cachaça de Salinas. Comia devagar, compartilhando as sobras com o vira-lata, prestando atenção ao noticiário do rádio e desconhecendo por completo os demais frequentadores do recinto. Terminado o almoço, pedia um café, sacava de papel e caneta de sua pasta e se punha a escrever coisas... “Esse velho deve ser um agente da CIA pago para vigiar a gente”, conjecturava o Marx Marceneiro, o militante comunista da turma; “que nada, ele deve ser um fugitivo nazista que veio parar em Belo Horizonte correndo dos judeus”, pontificava o Tonico Velho, que estudava História na Fafich. Cá com os meus botões, eu achava o homem um sósia do Hemingway que, como o escritor americano, era um solitário que vivia a escrever contos nos bares e cafés da vida. “Um dia vou escrever contos e romances como eles”, eu pensava.
No início da noite, ele parava de escrever, guardava seus papéis na pasta, pedia uma cerveja e uma de Salinas, e ficava em seu lugar bebendo e fumando cigarrilhas, uma atrás da outra. Às vezes parecia que prestava atenção em nossas conversas e que gostava das nossas serestas de boteco. Pouco antes de o bar fechar as portas, ele pedia a conta com um gesto, pagava e sumia na noite. Certa manhã, antes das sete, apenas o vira-lata esperou o Custódio abrir o bar.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

OBRAS DE ARTE



  

Luciano Luppi



Quanto vale uma obra de arte? Quanto vale uma pintura numa tela? Uma escultura? Quanto vale uma entrada para uma peça de teatro? Para um show musical? Quanto vale um ingresso para assistir a um filme no cinema? Ao fazer essas perguntas, estou me referindo a apenas ao valor monetário, pois é evidente que os valores expressivos, simbólicos, sociais, psicológicos, estéticos, históricos e outros são enormes e bem mais difíceis de avalizar.
Focando estes questionamentos apenas nas artes plásticas, pergunto: o que faz um quadro de Van Gogh valer R$ 201 milhões, enquanto o produto de um outro pintor da mesma época, com o mesmo nível de refinamento artístico, mas pouco conhecido, custa infinitamente menos? Para complicar ainda mais: o que faz um quadro do próprio Van Gogh, com os famosos girassóis, valer admiravelmente mais que outro quadro do mesmo artista, indiscutivelmente com o mesma qualidade? O que fez esta pintura se tornar famosa e valer uma fortuna impressionante? Com certeza não será pelos girassóis, nem pelo tema, nem pelo apuro técnico, nem pelo autor e nem pela época (pois, como se sabe, o próprio autor só vendeu uma tela durante a sua breve vida).
Não se discute a qualidade nem a importância de Van Gogh, apenas se interroga sobre as desigualdades absurdas nos valores praticados no mercado, quer sejam entre pinturas do mesmo artista ou entre outros artistas. Mesmo não tendo sido reconhecido no seu tempo, a vida e a obra deste genial autor já foi cantada em verso e prosa por todos os cantos do mundo. Sua vida atribulada e miserável já deixou sua marca na história da humanidade, e o mercado das artes plásticas se alimenta de histórias, verdadeiras ou não, sobre a vida e as obras dos artistas, suas excentricidades, suas glórias e tragédias.
Alimenta-se, também, da trajetória de circulação de determinadas obras por quais mãos elas passaram, a quem elas pertenceram, quais reis, magnatas, homens e mulheres famosos delas se serviram ou se locupletaram.
Alimenta-se, ainda, da especulação financeira, quer seja lícita ou não, do jogo de valoração intencional explorado por investidores, marchand, galeristas, curadores, críticos especializados, colecionadores e até artistas.
Este mercado alimenta-se de tantas coisas, tantos interesses excrescentes à própria arte, que não fica difícil entender porque existem disparidades imensas na sua precificação. E será assim com todas as artes? Ou existem diferenças significativas em cada uma das atividades?
Como cada área artística tem necessidades e trajetórias específicas, é natural que a especulação financeira envolvida em cada um desses segmentos passe por outros canais e outros filtros, mas o assunto é bastante complexo e exigiria um outro artigo.


AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...