domingo, 15 de maio de 2016

MOMENTOS DE TENSÃO E ESPERANÇA



Especialistas de diferentes áreas apontam caminhos para tirar o país da crise

Tatiana Moraes 



Pelos próximos seis meses, no mínimo, o Brasil será comandado sob uma batuta liberal. O plano de governo a ser seguido é completamente diferente do apresentado por Dilma Rousseff quando ela e o atual presidente em exercício, Michel Temer, ganharam as eleições, em outubro de 2010. Trata-se de uma reviravolta. Um giro de 180º.
Se antes as ações sociais prevaleciam, agora o foco está na ordem e no progresso. Ministérios considerados emblemáticos do governo PT foram cortados e cortes na previdência são esperados. O Hoje em Dia conversou com especialistas nas principais áreas de desafio do governo em exercício para colher análise, perspectivas e propostas.

Retomada do crescimento, segundo Paulo Haddad
Sem fortes ajustes estruturais o país dificilmente voltará a crescer. A análise é do ex-ministro do Planejamento e da Fazenda do governo Itamar, Paulo Haddad, que defende a redução da taxa básica de juros, hoje em 14,25%, como mola-propulsora da economia brasileira.
Afinal, para ser farto, o crédito precisa ser barato. A reboque, ele costuma levar o varejo e, consequentemente, a indústria.
“Precisamos de uma nova e forte conjuntura, capaz de criar ambiente para que a Selic seja reduzida. Com os juros baixos, a indústria e o varejo vão voltar a gerar empregos”, afirma o especialista.
Vale lembrar que, em 2015, o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 3,8% no confronto com o ano anterior, para R$ 5,9 trilhões. Para 2016, o relatório Focus do Banco Central (BC), divulgado em 6 de maio, projeta nova retração de 3,6%.
Cortes
Haddad defende um corte drástico nos custos da máquina pública. A reorganização começaria com eliminação dos ministérios. Ponto para Temer, que cortou 10 pastas. Mas foi pouco, segundo o economista. Dilma tinha 32 ministros. Segundo Haddad, pelo menos 20 teriam que ser guilhotinados para que o corte fizesse sentido econômico.
Ainda segundo o ex-ministro, promover as reformas tributária, previdenciária, trabalhista e analisar periodicamente os resultados e a eficácia dos programas do governo é fundamental.
No “Uma ponte para o futuro”, documento do PMDB considerado leme do governo, todos os programas deveriam ser avaliados anualmente pelo Congresso. Aqueles considerados desnecessários, seriam encerrados. Haddad acredita ser uma boa medida. “Precisamos implantar o orçamento base zero”, diz.
O problema é que programas importantes para o desenvolvimento social passariam a depender de alianças políticas com deputados e senadores. E, segundo Haddad, a intervenção do Estado para a inclusão social das populações carentes ainda é fundamental, ao contrário do que defendem muitos economistas.
Ele afirma que o atual “círculo vicioso” da crise é consequência de economias mal gerenciadas. Nestes casos, os pobres ficam cada vez mais pobres, e os ricos, cada vez mais ricos. Mas a distribuição de renda é assunto para outro especialista.

O fato de o país ter atualmente mais de 11 milhões de desempregados soa mal ao mercado internacional e afasta os investidores. Afinal, são 11 milhões de pessoas fora do mercado consumidor

A reforma da Previdência, segundo Roberto de Carvalho Santos
Uma profunda reforma na previdência é desnecessária. É o que afirma o presidente do Instituto de Estudos Previdenciários (Ieprev), Roberto de Carvalho Santos. Ele afirma que a previdência urbana é superavitária em R$ 8 bilhões, em média. A previdência rural, relativa aos agricultores familiares, no entanto, é responsável pelo rombo. O motivo é simples: o homem do campo não contribui com a previdência.
“Temos que enxergar a previdência como uma forma de distribuir renda”, pondera. Ele explica que alguns estudiosos defendem que o benefício dos trabalhadores rurais seja transferido para a pasta da assistência social. Neste caso, porém, só receberiam a aposentadoria aqueles que provarem serem pobres. “Estaríamos formando pobres pois, quem não for, acabaria sendo”, diz.
Aumentar a idade mínima para a aposentadoria, como prevê o plano Temer, também não seria solução. “Quem trabalha desde cedo e contribui desde cedo será prejudicado, pois vai contribuir mais tempo do que os outros. Os jovens não vão querer trabalhar com carteira”, justifica. Além disso, Santos comenta que nos países desenvolvidos a expectativa de vida é de 84 anos e, por isso, a aposentadoria se dá aos 65, 67 anos.
No Brasil, as pessoas se aposentam, em média, aos 55 anos. No entanto, a expectativa de vida é de 74 anos. Há, ainda, o fator previdenciário. “A maioria das pessoas que se aposentam com 50 anos recebe 40% do salário. Ou seja, elas escolhem deixar uma parte do dinheiro para trás. O sistema já é justo”, explica.
Soluções
Entre as alterações que poderiam ser feitas, ele sugere idades iguais para aposentaria para homens e mulheres, inclusive na fórmula 85/95, que une idade e tempo de contribuição, e fim dos benefícios impróprios.
“As filhas solteiras de militares recebem pensão. E quem paga essa conta é o tesouro. Além disso, militares também recebem aposentaria na íntegra. A regra tem de ser a mesma para todos”, diz.

No Brasil, as pessoas se aposentam, em média, aos 55 anos. No entanto, a expectativa de vida é de 74 anos

Inclusão internacional, segundo Stefan Salej
Não é só o povo brasileiro que têm enxergado o país com desconfiança. O investidor internacional também tem visto o Brasil com maus olhos. Tanto que as três principais agências de crédito do mundo, Fitch, S&P e Mood’s revisaram recentemente as notas brasileiras para grau especulativo. Isso significa que investir em solo tupiniquim não é uma boa. Pelo menos, até que reformas sejam consolidadas.

“Os investimentos não voltarão simplesmente pela troca de governo e pelo ministério que foi formado. São necessárias ações firmes, como a redução da dívida”, afirma o ex-presidente da Fiemg, cientista político e especialista em economia internacional, Stefan Salej. Ele criticou a escolha do Ministro da Indústria, Marcos Pereira (PRB), e elogiou José Serra (PSDB) na cadeira das Relações Exteriores. “A indústria está caindo dois dígitos e o ministro é praticamente desconhecido, inexperiente. Serra não. Serra é conhecido em todo o mundo”, pondera.
Na avaliação do especialista, o fato de o país ter mais de 11 milhões de desempregados soa mal ao mercado internacional e afasta os investidores. “Afinal, são mais 11 milhões de pessoas fora do mercado consumidor, quadro que terá de ser analisado com afinco pelo presidente em exercício Michel Temer”, diz Salej.
Leis trabalhistas
De acordo com ele, a legislação trabalhista é outro entrave para a atração de investimentos estrangeiros diretos.
“O Brasil tem o sistema trabalhista mais complexo do mundo, um dos mais onerosos”, critica.
A solução, segundo Salej, seria flexibilizar as legislação do trabalho que vigora atualmente, realizando uma grande reforma.
“Essa árvore de Natal que são os direitos dos trabalhadores tem que mudar. Tem direito que prejudica o próprio trabalhador. E prejudica a empresa também”, critica.

Riscos para a distribuição de renda, segundo Cláudio Gontijo
Depois de mais de uma década avançando na distribuição de renda, o Brasil pode sofrer um baque e voltar a concentrar a riqueza. Com planos de privatizar estruturas públicas e fazer drásticas alterações na previdência, o novo governo corre o risco de promover uma involução do coeficiente de Gini brasileiro.
O índice mede a concentração de renda dos países. Quanto mais próximo de zero, mais distribuída é a riqueza daquela nação. O coeficiente do Brasil, que em 2001 era 0,563, evoluiu para 0,489 em 2014, último dado divulgado.
O professor de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-presidente do Conselho Regional de Economia do Estado (Corecon-MG), Cláudio Gontijo, lembra que nos documentos “Uma ponte para o futuro” e “Travessia Social”, ambos utilizados para nortear o novo governo, a privatização é citada diversas vezes. Na última quinta-feira (12), Temer, por meio de medida provisória, lançou o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Como foi um dos primeiros atos do presidente em exercício, o anúncio foi visto como um sinal de que privatizações acontecerão.
“Quem precisa utilizar serviços públicos deve se preocupar”, alerta o economista. Ele prevê que o privado deve imperar sobre o público, inclusive nos serviços básicos como na saúde e educação.
No caso da previdência, o “Uma ponte para o futuro” prega a desvinculação entre o salário mínimo e os benefícios dos aposentados e pensionistas. Hoje, as aposentadorias não podem ser inferiores ao salário. Caso haja a desindexação, isso pode acabar. “Se aposentados começarem a receber menos de um salário mínimo a distribuição de renda será absolutamente afetada”, critica.
Outra questão citada pelo economista, que consta do plano Temer, é o fim dos ajustes automáticos do salário mínimo. Atualmente, ele é reajustado anualmente pelo PIB reatroativo mais o INPC, ou seja, a inflação. “Se o salário pode parar de ser reajustado pela inflação, será mais um problema para agravar a distribuição de renda”, alerta.

Como reerguer a indústria, segundo Lincoln Gonçalves
Mudanças radicais no tratamento dado à indústria são necessárias para que o setor volte a prosperar. “Precisamos que o governo nos trate de forma linear, como age com a agricultura. As normas mudam muito para a indústria, há muita insegurança jurídica e benefícios para setores específicos”, critica o presidente do Conselho de Política Econômica da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Gonçalves.
Diminuir a taxa básica de juros, hoje em 14,25%, também é fundamental para que haja uma recuperação da indústria. Com a Selic em queda, o mercado interno seria estimulado. Para que o produto brasileiro seja competitivo no exterior, o representante da indústria defende que o dólar fique acima de R$ 3,70. “O dólar a R$ 3,70 já está incorporado à inflação”, diz.
As questões trabalhistas também são citadas pelo representante da indústria como fundamentais. “A reforma trabalhista é imperativa. As leis do trabalho são velhas, temos que discutir algo mais novo”, afirma.
O representante das indústrias destaca que o que é acordado nas Convenções Trabalhistas deve estar acima da CLT. Se o trabalhador e a empresa definirem que é melhor abrir a empresa de segunda a quinta durante mais horas e não abrir às sextas, por exemplo, seria correto.
O problema é que flexibilizar os contratos dos trabalhadores pode dar margem para tirar alguns direitos, como 13º salário, férias remuneradas, um terço de férias, entre outros.

O esperado retrocesso na política social, na opinião de Nilmário Miranda
A incorporação dos ministérios voltados às questões sociais e de vulnerabilidade pelo ministério da Justiça foi duramente criticada pelo secretário dos Direitos Humanos do governo Lula e secretário de Estado de Direitos Humanos, Cidadania e Participação Social de Minas Gerais, Nilmário Miranda. O Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, que também incluía a juventude, perdeu a pasta. “As questões sociais deixaram de ser questão de política para se tornar questão de polícia”, afirma o deputado.
Nilmário Miranda diz que o fim do ministério é um sinal claro do presidente em exercício Michel Temer de que os movimentos sociais não terão espaço no novo governo. “Mulheres, LGBT, negros e outros não têm representatividade neste governo”, critica. A própria composição ministerial, formada por homens, ricos e brancos, seria mostra de representatividade do novo governo. “É para estas pessoas que eles irão governar”, afirma.
Mais conservador, o governo em exercício tende a aprovar pautas polêmicas, entre elas o Estatuto da Família, que entende como família apenas relações formadas por homens e mulheres, por meio de casamento ou união estável. Se apenas um dos pais criar o filho, também será considerado família. Homossexuais são excluídos.
“Já temos mais de 30 tipos de famílias na sociedade. Não podemos excluir estas pessoas com base na religião dos parlamentares. O Estado é laico”, critica Nilmário.

A Reforma Tributária, segundo Guilherme de Almeida Henriques
Não se pode falar em reforma tributária sem pensar em reforma fiscal, ressalta o professor de Direito Tributário da PucMinas e da Milton Campos, Guilherme de Almeida Henriques. Para melhorar as contas do governo, ele afirma que existem duas formas. Uma é aumentar impostos. A outra, e indicada pelo especialista, é reduzir os gastos do governo.
No Brasil, o imposto é indireto, cobrado no consumo. “Nos países mais desenvolvidos é diferente, mas ainda não temos condições de mudar a estrutura”, afirma. A taxação das grandes fortunas e a tributação dos lucros e dividendos são descartadas pelo especialista no médio prazo. “Os empresários podem ver com maus olhos estas medidas. Além disso, são medidas superficiais para o momento”, diz. A unificação de impostos é citada por ele como uma das soluções.

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sábado, 14 de maio de 2016

VAMOS ACABAR COM A APATIA DA POLÍTICA BRASILEIRA APÓS O IMPEACHMENT - CENÁRIO ECONÔMICO PREOCUPANTE



5 fatos alarmantes sobre a economia brasileira (e por que você deve se preocupar de verdade com ela)





Poucos momentos na história brasileira foram tão incertos quanto o atual. Vivenciando uma crise política própria, o governo parece não encontrar base que sustente um projeto de mudanças para a economia. Tentativas incipientes de apresentar reformas como a da previdência, atualmente em discussão, esbarram na falta de foco dedicado pelo Planalto, que hora tem de salvar a economia, hora tem de salvar a si mesmo. Diante de um cenário como este, alguns economistas acreditam que determinados cenários futuros antes vistos como improváveis e pouco realistas, agora estão cada vez mais prestes a se tornarem realidade.
Projetar cenários é parte do trabalho de economistas e analistas investimento, além de parte fundamental do planejamento das empresas. Sem perspectivas para sair do cenário atual, de crise política e fiscal, o prolongamento da crise é dado como certo – e com ele, uma série de problemas, causados em boa parte pela apatia na qual se encontra a política brasileira.
Abaixo selecionamos 5 destes cenários futuros. E por que você deve começar a se preocupar com eles.
1. A renda per capita brasileira em 2020 será, na melhor das hipóteses, igual a de 2010.

Nesse exato momento, nós provavelmente estamos apenas no meio daquele que será conhecido como o período de menor crescimento em toda a história brasileira. A constatação é parte de um relatório realizado pelo Banco Central junto ao mercado financeiro. A expectativa de quem lida diariamente com investimentos é a de que a economia chegará em 2017 com uma renda per capita semelhante a de 2008. Na melhor das hipóteses, em um cenário improvável de retomada no crescimento em 2017, chegaríamos a 2020 com a mesma renda per capita de 2010, configurando que essa será a primeira vez em toda nossa história econômica em que a renda per capita das famílias brasileiras não crescerá entre o início e o fim de uma década.
É bem verdade que acertar previsão de PIB não é uma especialidade do mercado. Nos últimos 10 anos, por exemplo, em nenhum momento o mercado previu o PIB, o câmbio ou a inflação de dezembro com um ano de antecedência – e em cinco dos últimos seis anos, o mercado previu um crescimento maior do aquele que foi obtido de fato. Em dezembro de 2014, por exemplo, a expectativa do mercado era de que a economia brasileira crescesse 0,55%. Ao final do ano, a expectativa era de um crescimento de – 3,5%, enquanto a realidade, revelada pouco tempo depois do IBGE, foi de um crescimento de – 3,8%. O mercado erra, mas via de regra por ser otimista. O importante, porém, é que por se tratar de um relatório semanal, é possível acompanhar as mudanças de expectativas com certa precisão.
Os erros por sua vez têm certa razão de ser. E a história da analista demitida pelo Santander ao alertar que a reeleição de Dilma Rousseff resultaria em uma piora da economia mostra o que pode ocorrer com aqueles cujas previsões não agradam muito ao establishment político.
2. A previdência pública não irá continuar a existir nas regras atuais, e você talvez nem mesmo se aposente por ela.

Respondendo por 42% de todos os gastos primários do governo, a previdência é hoje, de longe, o maior peso no orçamento público. Gastamos com pensões, aposentadorias e outros benefícios, 12% do PIB atualmente, número semelhante ao de países europeus, com a pequena diferença de que temos uma população muito mais jovem.
Há menos de duas décadas, porém, os gastos com previdência representavam cerca de 5% do PIB. Para 2016, a expectativa é de que o déficit da previdência atinja R$ 120 bilhões – 40,5% acima do resultado de 2015, dando sinais de que há pouca ou nenhuma chance de reverter a situação no curto prazo.
Um dos seis únicos países do mundo sem idade mínima para aposentadoria, o Brasil possui ainda alguns outros problemas quando o assunto é previdência. Nosso sistema previdenciário baseia-se na redistribuição de renda entre aqueles que trabalham atualmente e os que já se aposentaram. O resultado é uma conta cada dia mais difícil de fechar e que, segundo o TCU, possui um déficit previsto de R$ 2,3 trilhões (despesas certas sem receita), até que o último trabalhador atual acabe de receber sua aposentadoria.
Para muitos, o déficit é irreal, uma vez que a aposentadoria urbana não gera déficits, apenas a aposentadoria rural. Criada na constituição de 1988, o direito à aposentadoria rural sem necessidade de contribuição prévia foi responsável por um déficit de R$ 90 bilhões em 2015.  Para cada R$ 1 contribuído por trabalhadores rurais atualmente, a previdência pagou R$ 10.
Independente da conta que se faça, as previdências rural e urbana são solidárias, o que significa que uma deva sustentar a outra em caso de déficit. O resultado está em uma deterioração rápida das contas, que apresenta um cenário no qual você terá de aposentar-se após os 70 anos, ou receber um valor irrisório perto daquilo que contribuiu.
3. A dívida pública brasileira deve sair de controle, com riscos até mesmo de calote.

O aumento da dívida pública brasileira de 53% para 68% do PIB em apenas dois anos, entre 2013 e 2015, acendeu um sinal de alerta. Com um déficit nominal de 10,34% do PIB nos últimos 12 meses, a diferença entre o que o governo arrecada e o que ele gasta cresce cada dia mais, em boa parte pois o custo de financiar a dívida tem subido junto.
Para o mercado, a dívida pública deverá chegar em 2018 em 80% do PIB. Considerando o custo de refinanciar esta dívida, temos uma situação mais dramática do que a tragédia grega de poucos anos antes. Enquanto a Grécia teve de financiar sua dívida de 170% do PIB com juros de 4% a.a., refinanciamos a nossa com juros um pouco acima dos 14,25%.
Atualmente, cerca de R$ 1 trilhão, ou 35% da dívida total, possui um prazo menor do que 7 meses. São as chamadas “obrigações compromissadas” do Banco Central. O resultado disto reside no fato de que o BC, ao praticar este overnight, requer cada vez mais recursos para refinanciar a dívida, exaurindo a capacidade do mercado, reduzindo o crédito na economia e elevando o custo.
Enfrentando um déficit primário, a capacidade do governo de combater o déficit tem sido cada dia mais limitada. Inclua-se na conta os erros do Banco Central em tentar controlar o câmbio, que causaram prejuízos de R$ 110 bilhões entre 2014 e 2015, e o resultado será uma dívida fora de controle.
O cenário preocupante leva analistas como o banco Goldman Sachs a cogitarem algo até pouco tempo atrás bastante improvável: uma suspensão por parte do governo do pagamento da dívida. Em outras palavras, um calote.

4. A carga tributária brasileira irá continuar subindo.

Atualmente em 36% do PIB, a carga tributária possui alguns títulos – como o de mais complexo do mundo. Para pagar impostos, os brasileiros dedicam 2.600 horas por ano, cerca de 2 vezes o tempo gasto pelo segundo colocado, a Bolívia. Este número, porém, maior do que o de países como o Canadá, é ainda insuficiente para garantir as determinações da constituição ou mesmo pagar todas os gastos do governo.
Crescendo de 25,4% em 1994 para os atuais 36,3%, a carga tributária brasileira é parte de um processo cada vez mais irreversível. A constituição atribui ao governo diversas obrigações. Incapaz de cumprir tais funções, o governo demanda cada vez mais recursos em uma ciranda cujo único resultado é o aumento do custo deste mesmo governo.
Ainda que nenhum centavo de imposto tenha sido destinado ao pagamento de juros nos últimos dois anos, a situação fiscal brasileira está cada vez mais comprometida, em função da própria recessão na economia. Cerca de 90% dos gastos públicos federais são considerados irredutíveis. São aposentadorias, transferências de renda e outros gastos cujo governo é obrigado a corrigir, ainda que seja pela inflação. Sem poder reduzi-los, os cortes no orçamento devem pesar sobre a parcela diminuta relativa a investimentos em custeio, que representa cerca de 10% dos gastos totais.
Como os gastos são rígidos por lei, mesmo com arrecadação em queda, há pouca ou nenhuma esperança de que sejam diminuídos. E tal engessamento do orçamento não para de crescer. Ao criar determinações para que % de receitas advindas de royalties sejam destinados à educação ou saúde, o Congresso torna cada vez mais o executivo um mero executor das determinações orçamentários do Legislativo. O resultado é inevitável: um governo não poderá abrir mão das receitas (ou seja: do aumento dos impostos), pois não poderá cortar a maior parte dos gastos.
5. Os erros atuais e passados continuarão a ser repetidos no futuro, independente do quão politizados se tornem os cidadãos brasileiros.

Segundo dados da OCDE, 2/3 dos países mais ricos do mundo chegaram a 2013, último ano de dados disponíveis, com uma carga tributária menor do que em 2000 – e a Suécia e o Canadá são os campeões em reduzir suas cargas tributárias nesse período. Atualmente, a carga tributária canadense, um país com índices socioeconômicos e infraestrutura muito superiores à brasileira, é menor do que a carga tributária brasileira, em boa parte pois os gastos com previdência no Canadá são quase irrisórios, uma vez que a população local poupa recursos para sua aposentadoria.
Possivelmente esta capacidade de se adaptar a cenários adversos da economia global, onde cada vez mais bens e serviços migram em busca de locais mais propícios à produção, seja o que torne tais países efetivamente desenvolvidos. Nos últimos 10 anos, enquanto Brasil e Canadá aproveitavam o ciclo de riqueza propiciado pelo aumento no preço de produtos como minério de ferro ou a soja e o trigo, ambos traçaram caminhos distintos. O Brasil elevou o consumo, enquanto o Canadá elevou a poupança.
Apontar a educação como a causa destas decisões, ou a capacidade de um povo de discernir sobre a política, é algo tentador, mas via de regra renega o fato de que cada país está preso ao seu próprio conjunto de regras.
Nada é tão repetitivo no Brasil quanto o ciclo de governos reformistas, seguido por governos gastadores e por último, governos que entram em crise. Você provavelmente divida isto por presidentes. É possível vislumbrar FHC, Lula e Dilma em cada uma destas posições, mas as coisas são um pouco mais profundas. Lula em seu primeiro mandato foi possivelmente o presidente que mais seguiu as normas fiscais apontadas como ideais pelo FMI – em resumo: superávit primário elevado, inflação sob controle e câmbio flutuante.
Os bons resultados com esta política, porém, não impediram que ao substituir Palocci por Mantega, os rumos da economia se invertessem. A tentação de um presidente em gastar alinhada à tentação de uma população em apoiar medidas que elevem o crédito e o consumo sempre serão difíceis de resistir, pouco importando questões subjetivas como a educação.
Em suma, não se trata de eleger bons ou maus políticos, mas obedecer aos incentivos dos eleitores que punem ou mal avaliam governos reformistas e aplaudem governos gastadores. São esses eleitores, e os seus filhos, quem pagarão a conta no final.

DILMA NÃO ENTENDEU A REGRA DO JOGO



A regra do jogo

 Hélio Schwartsman




SÃO PAULO - Traição e injustiça. Parece um título de romance de Jane Austen, mas são as palavras escolhidas por Dilma Rousseff para descrever os mais recentes lances do processo de impeachment que a afastou da Presidência. Mas será que ela foi realmente vítima de uma traição? E de uma injustiça?
Minha tendência é responder afirmativamente à primeira pergunta e negativamente à segunda. Dilma tem todos os motivos do mundo para sentir-se traída -e por vários personagens. A lista começa com Temer e Cunha, mas inclui parte substancial do exército de políticos que emergiram do pleito de 2014 como aliados da presidente. A coalizão governista reunia nominalmente 60% dos deputados e 72% dos senadores. Vê-los mudar de lado ao sabor dos ventos pode ser pessoalmente dolorido para quem é deixado para trás, mas a traição é o estado natural da política.
É até possível argumentar que, como o primeiro compromisso de um político é para com seus eleitores, ele age virtuosamente quando abandona aliados que já não representam os interesses de sua base. Quem não tem estômago para enfrentar isso nem deveria entrar no jogo.
Quanto à injustiça, o discurso de Dilma é mais capcioso. Ela sustenta que todos os governantes dão suas pedaladas, mas só ela é que paga o pato. Há aí, acredito, uma compreensão equivocada do que seja o impeachment. Sua real dimensão não é jurídica, mas política -e isso está embutido nas regras do jogo desde a Constituição de 1891.
A lei que define os crimes de responsabilidade traz tipos tão abertos e subjetivos que, numa interpretação rigorosa, todos os ocupantes do Planalto violam algum de seus dispositivos, mas o mecanismo de responsabilização só é acionado na hipótese de crise grave. Se a popularidade estiver alta, o presidente pode fazer o diabo e ainda receberá elogios. Se Dilma não percebeu isso, fica mais fácil entender por que ela caiu.

MOREIRA FRANCO E OS VARGAS



A saga dos Vargas

Manoel Hygino 





Os velhos astros da política brasileira continuam brilhando, mesmo post mortem. Quando saiu a lista dos ministros de Michel Temer, procurou-se o nome de Moreira Franco, sempre ao lado do vice-presidente em numerosas ocasiões, além do que a vida política lhes permitiu ao longo de décadas.
Algum cargo importante, todavia, devia estar-lhe reservado, considerando sua intensa atuação na gestão dos negócios públicos.
Como Francelino Pereira, que descera do interior do Piauí para Minas Gerais, Wellington Moreira Franco, nascido em outubro de 1944, embarcou em sua Teresina natal para fazer América no Sudeste, mais exatamente na antiga capital da República. Foi uma porção de coisas, ocupou cargos relevantes e exerceu funções importantes, principalmente no Rio de Janeiro, Estado de que foi governador de 1987 a 1991.
Não sei como a família Vargas entrou em sua vida, mas incontestavelmente lhe foi importante para o futuro. O fato é que a aproximação se fez através de Amaral Peixoto e Alzira Vargas, um casal que entrou para a história brasileira e nela permaneceu antes, durante e depois da ditadura do presidente nascido em São Borja.
Naquele já remoto tempo, Amaral Peixoto foi até objeto de anedotas, apelidado de “Almirante”. Por que? Porque se dizia que ele comandava a frota de barcas que faziam a ligação Rio de Janeiro-Niterói. De qualquer modo, o casal Ernani do Amaral Peixoto-Alzira, a filha preferida de Getúlio, marcou presença em muitas iniciativas em favor do Estado do Rio. Alzira, que fumava cigarro com piteira, era uma celebridade e brilhava nas reuniões sociais e no grand monde internacional.
O prestígio do casal influenciou certamente no crescimento de Wellington na carreira depois de passar por renomados colégios cariocas. Alzira se destacava nos momentos decisivos de Getúlio e Dona Darcy, como uma espécie de meio de campo harmonizador para o par que viera de terra gaúcha para o vendaval da capital da República.
Quando houve a tentativa integralista de chegar ao poder, a partir da tomada do Palácio das Laranjeiras, Alzira lá estava com o presidente naquela madrugada que contribuíria para mudar os destinos nacionais. A família Vargas, coadjuvada por alguns poucos soldados da guarda, soube responder com coragem. Revólveres foram distribuídos entre a família e houve reação, até que dispositivos das Forças Armadas chegaram. O plano falhou, como antes falharam os comunistas na intentona de 1935.
Muitos anos depois, em agosto de 1954, nos momentos mais difíceis, senão cruéis, para os Vargas e para a nação, Alzira não arredou pé do lado do pai, até em reuniões de lideranças militares e civis, entre eles Tancredo Neves. Ela acompanhou a evolução dos acontecimentos até o desfecho fatal, na manhã sinistra do dia 24, no Catete.
Pois Moreira Franco se casou com uma filha de Amaral Peixoto e D. Alzira, aproximando o Sul do Nordeste. O casamento foi com Celina Vargas, socióloga, intelectual, união de que nasceram dois filhos e uma filha.
A união se estendeu até 1989; em 1995, o segundo enlace foi com Clara Maria, filha de um político fluminense.
A saga dos Vargas se manteve até então.

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...