Reunião
expõe ao menos dois crimes de Bolsonaro, apontam juristas
Carla
Jiménez,Afonso Benites,Felipe Betim
© ADRIANO MACHADO
(Reuters) Bolsonaro conversa com jornalistas após a divulgação de vídeo de
reunião ministerial.
A íntegra da reunião do conselho de ministros de Jair
Bolsonaro revelada nesta sexta-feira por ordem do decano do Supremo Tribunal
Federal, Celso de Mello, expôs como nunca o modus operandi do Governo
ultradireitista e desmontou a versão do presidente de que ele jamais havia
cobrado mudanças na estrutura de segurança, Polícia Federal incluída, para
proteger seus familiares. Nas imagens, Bolsonaro aparece não apenas ameaçando
trocar “ministro” caso não fosse atendido na missão de preservar seus parentes
de “sacanagens” —ele mira na direção do então ministro da Justiça, Sergio Moro
no exato momento—, como fala também da necessidade de proteger “amigos”. O
Planalto vinha repetindo que o presidente, na reunião, se referia à segurança
pessoal de seus familiares, que cabe ao GSI (Gabinete Segurança Institucional),
e não a policiais federais. A menção aos amigos, porém, complica ainda mais a
linha de defesa de Bolsonaro no inquérito que apura se ele tentou interferir na
PF, uma vez que o GSI não teria como se envolver na proteção de quem não seja
da sua família.
De acordo com juristas ouvidos pelo EL PAÍS, o vídeo
corrobora a tese de Moro de que houve intenção de intervir na corporação
policial, e aponta para ao menos dois crimes: advocacia administrativa e
prevaricação. O primeiro é um crime previsto no Código Penal, que é patrocinar,
direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública. Já
a prevaricação diz respeito a ações ou omissões de funcionário público para
atender objetivo de terceiros.
“O vídeo traz uma fala bastante clara do presidente dizendo
que não mediria esforços para interferir em estrutura governamental —no caso, a
Polícia Federal— para proteger familiares e amigos. Isso corrobora a versão do
ex-ministro Sérgio Moro”, diz Eloísa Machado, professora de direito
constitucional na FGV Direito de São Paulo. “Não podemos esquecer que, de fato,
o presidente promoveu mudança na Polícia Federal, indicando pessoa muito
próxima da família e que depoimentos do inquérito confirmam também essa
versão”, explica Machado. “O vídeo derruba a justificativa do Bolsonaro de que
ele se referia à segurança do GSI, e não à PF. Ele fala expressamente em ‘foder
amigos meus’, e amigo de presidente não tem segurança do GSI. Só pode ser a
PF”, concorda Rafael Mafei, da USP.
Um jurista próximo à Procuradoria Geral da República, avalia
que o vídeo é muito ruim do ponto de vista jurídico para o presidente
Bolsonaro. “Ele demonstra muita preocupação. Ele quer o tempo todo puxar esse
assunto. Ele avisa aos ministros o tempo todo que precisa deles. Aquela reunião
foi para o Moro”, acredita. Ele destaca que o presidente falou que contava com
“inteligência particular”, e que a PF não informava nada. “Não tinha nada a ver
com segurança, ele criticou a PF. Mesmo não sendo assunto, ele falava, e mudava
o assunto”, explica ele.
A pressão sobre Moro ficou destacada em vários momentos da
reunião. Em um deles, Bolsonaro disse que o ministro deveria se manifestar
sobre a prisão de pessoas que furavam a quarentena para conter os contágios do
novo coronavírus. “Tem que falar, pô! Vai ficar quieto até quando? Ou eu
tenho que continuar me expondo? Tem que falar, botar pra fora, esculachar!”. Em
outra ocasião, voltou ao tema da “interferência” e avisou seus ministros de que
iria interferir em suas pastas se fosse preciso. Reclamou que a Polícia Federal
não passava informações ao Planalto. “Eu tenho o poder e vou interferir em
todos os ministérios, sem exceção”. E prosseguiu: “Eu não posso ser
surpreendido com notícias. Eu tenho a PF que não me dá informações. Eu
tenho as... as inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. ABIN
tem os seus problemas, tenho algumas informações”.
Depois, em entrevista à Jovem Pan após a divulgação do
vídeo, o presidente voltou a reforçar a ideia de que exigia de Moro espécie de
proteção via PF. “O tempo todo vivendo sob tensão, possibilidade de busca e
apreensão na casa de filho meu, onde provas seriam plantadas. Levantei isso,
graças a Deus tenho amigos policiais civis e policiais militares do Rio de
Janeiro, que isso tava sendo armado pra cima de mim”, disse Bolsonaro. “Moro,
eu não quero que me blinde, mas você tem a missão de não deixar eu ser
chantageado”, lembrou.
Efeito político e
próximos passos
O conteúdo do vídeo agora será analisado pela Procuradoria
Geral da República —que também terá e mãos uma série de depoimentos e as novas acusações
feitas pelo ex-aliado de Bolsonaro Paulo Marinho. “Certamente esse vídeo ajuda
a compor o acervo probatório indiciário de crimes”, diz Eloísa Machado. A
pressão agora recai sobre Augusto Aras, uma vez que ele pode acusar formalmente
o presidente de crime. “Com certeza há substância para abrir um pedido de
afastamento. Se vai abrir ou não é outra coisa. Mas isto é muito mais que o
Fiat Elba que afastou o presidente [Fernando] Collor e muito mais que a
pedalada fiscal da presidenta Dilma [Rousseff]”, diz o jurista próximo à PGR.
Machado, da FGV, concorda. “São crimes comuns, que também geram afastamento e
perda do cargo, caso aconteça a condenação”, conclui.
Para o advogado Marco Aurélio de Carvalho, o
procurador-geral Augusto Aras, tem a obrigação de apontar o crime de
prevaricação do presidente diante do conteúdo do vídeo, ou ele mesmo pode ser
acusado de prevaricação. “Essa tentativa de interferência se enquadra
plenamente no artigo 85 da Constituição Federal e é suficiente para dar ensejo,
entre outras, a pedido de cassação do presidente”, diz o advogado Cristiano
Vilela, da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil em
São Paulo.
A grande pergunta é como Aras, indicado por Bolsonaro em
setembro de 2019 como alguém “alinhado” ao Planalto, reagirá. Se decidir pela
denúncia contra Bolsonaro, ela ainda precisará dos votos dois terços dos
deputados para virar uma ação penal e, assim, afastar o presidente do Planalto.
Para tentar prever o quanto de pressão o procurador-geral e o Congresso terão
na matéria, uma variável é quanto de desgaste as imagens, cheias de palavrõs e
vulgaridades, trarão para o apoio popular de Bolsonaro, já afetado pela crise
do coronavírus. Rafael Mafei, da USP, é cético: “O vídeo alimenta a base de
Bolsonaro”.
Em sua defesa, o presidente disse que considerou a
divulgação do vídeo como positiva. “Até que foi boa. Cada um pense, interprete
da maneira que quiser esse vídeo, mas é a maneira que eu tenho de ser. E vou
continuar sendo assim porque antes da eleição eu era assim. Como militar eu era
assim”, afirmou em entrevista à rádio Jovem Pan. Ainda tratou as revelações de
Moro como falsas. “É mais um tiro n’água, mais uma farsa como tantas outras que
eu acompanho em minha vida”.
O escritor autoexilado nos Estados Unidos e ideólogo do
bolsonarismo, Olavo de Carvalho, concordou com a ideia de as imagens mostram um
presidente “autêntico”: “Ouvi dizer que o Moro e o Celso de Mello estavam
escondendo um vídeo do Bolsonaro, para depois exibir e dizer: ‘Ah, vamos
mostrar ao povo quem é o Bolsonaro’. Pois mostraram, Bolsonaro é o presidente
que todos os brasileiros quiseram e querem. É o presidente que não suporta ver
uma elite armada oprimindo um povo desarmado.”
Processo contra
Weintraub e impeachment
Ao citar “povo desarmado”, Carvalho se referia ao trecho da
reunião em que Bolsonaro falou abertamente que pretende armar a população. Um
dos intuitos declarados foi o de intimidar prefeitos que decretaram quarentena
durante a pandemia de coronavírus. "O que eu quero, ministro da Justiça e
ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um
filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui!”.
As imagens ainda revelaram o plano do ministro Ricardo
Salles (Meio Ambiente) de se aproveitar da crise sanitária para alterar uma
série de regras de proteção ambiental, mostram Damares Alves (Direitos Humanos)
ameaçando governadores de prisão e escancaram a conduta do ministro da
Educação, Abraham Weintraub, que ameaçou autoridades e ministros do Supremo
Tribunal Federal. “Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia.
Começando no STF”, disse Weintraub. O ministro da Educação é o que está mais
próximo de se complicar por causa do vídeo. Na decisão que liberou a íntegra
das imagens, Celso de Mello apontou “indício de crimes contra a honra” do
Supremo.
No meio político, a reação foi imediata. A oposição, que não
tem maioria no Congresso e ainda não convenceu o presidente da Câmara, Rodrigo
Maia, a por em andamento um processo de impeachment, não poupou indignação:
“Repleto de crimes, ameaças à democracia, quebras de decoro e de falta de ética
para gerir uma nação. São inaptos, mas também são abjetos. Bolsonaro não pode
continuar a frente da presidência da República! Tem que cair pelo bem do país”,
escreveu o senador Randolfe Rodrigues (REDE).
A antiga líder do Governo no Congresso, a deputada Joice
Hasselmann (PSL-SP), disse que o Ministério Público não pode mais segurar
qualquer denúncia contra Bolsonaro. “As provas são cabais e podem embasar tanto
um processo de impeachment quanto de interdição. Bolsonaro conseguiu dar
munição aos dois. É um mito!”, ironizou.

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