Tensão entre Supremo e
Planalto escala e ministro da Defesa decide endossar advertência à Corte
Afonso
Benites,Flávia Marreiro
© ADRIANO MACHADO (Reuters) O
presidente Bolsonaro no dia 22, em frente ao Palácio da Alvorada.
O Judiciário se prepara para receber nos próximos dias uma enxurrada de
representações contra o presidente Jair Bolsonaro (sem
partido) e ao menos quatro de seus ministros. A razão são potenciais crimes
cometidos na reunião ministerial do dia 22 de
abril. As imagens do encontro foram divulgadas nesta sexta-feira,
por ordem do decano do Supremo Tribunal Federal, o ministro Celso de Mello,
como um dos procedimentos do inquérito 4831, que apura se o presidente cometeu
cinco delitos ao tentar interferir politicamente na Polícia Federal.
A nova ofensiva legal contra o Governo Bolsonaro esperada para os
próximos dias deve aumentar a tensão entre o Planalto e o Supremo num momento
em que até o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, decidiu
publicamente apoiar declarações do ministro do Gabinete de Segurança
Institucional (GSI), general Augusto Heleno de advertência à Corte. Na sexta,
Heleno advertira das consequências “imprevisíveis” para a “estabilidade
nacional” caso o Supremo decidisse requisitar o celular do presidente no curso
da investigação —há um pedido em análise na Procuradoria-Geral da República. O
ministro Celso de Mello teve de esclarecer que apenas encaminhou o requerimento
apresentado por partidos políticos, e que não decidiu nada sobre o tema.
Primeiro, Azevedo disse à CNN que endossava a mensagem de Heleno porque o
celular do presidente é “um assunto de segurança institucional” Depois, em
nota, Azevedo se disse "preocupado em relação a harmonia e independência
entre os poderes, princípio fundamental da Constituição Federal (Art 2°), que
deve ser uma via de mão dupla”.
É a terceira vez que Azevedo se manifesta sobre a crise política em
menos de dois meses. Quando Bolsonaro participou de atos pró-intervenção
militar há algumas semanas, o ministro lançou nota frisando o compromisso da
caserna com a ordem constitucional. Desta vez, ficou explícito o tom duro do
recado à Corte e a ideia de que toma para si o papel de avaliador da harmonia
entre poderes. A frequente voz do ministro da Defesa, um general da ativa, na política
interna —algo no mínimo inusual em democracias estáveis—, é mais um sintoma da
crise institucional em curso e do dúbio papel que as Forças Armadas decidiram
assumir no atual Governo, o de maior participação militar desde o fim da
ditadura. Bolsonaro, sempre que pode, tenta transmitir a imagem de união
simbiótica entre Planalto e militares. Neste sábado, questionado sobre a ameaça
do ministro do GSI, que ele próprio autorizou na sexta, disse que ele, Heleno e
Azevedo fazem parte do “mesmo time".
Heleno, aliás, é um dos ministros que deve ser alvo de um inquérito do
Ministério Público justamente por causa da nota de sexta. Várias lideranças
políticas criticaram o ministro, acusando-o de infringir a lei da segurança
nacional e ameaçar dar um golpe ao emitira mensagem à imprensa pouco antes da
publicação do vídeo da reunião ministerial. A oposição promete tentar
convocá-lo a se explicar no Congresso.
Novas mensagens entre Moro e Bolsonaro
Em meio à tensão, segue vindo à tona detalhes da investigação principal
—a que apura se Bolsonaro interferiu ou não na PF. Nesse sábado, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que, no mesmo dia do agora famoso
encontro ministerial, o presidente Bolsonaro informou seu ex-ministro da
Justiça, Sergio Moro, que naquela semana demitiria o então diretor-geral da PF,
Maurício Valeixo. A informação consta da investigação e demonstra que partiu de
Bolsonaro a decisão de interferir na PF demitindo o homem de confiança do
ex-juiz da operação Lava Jato.
“Moro, Valeixo sai esta semana”, disse o presidente, às 6h26 do dia 22 de
abril. “Está decidido”, afirmou ele em outra mensagem, enviada na sequência,
encerrando a conversa. “Você pode dizer apenas a forma. A pedido ou ex oficio
(sic)”. Moro, conforme a reportagem, respondeu 11 minutos mais tarde:
“Presidente, sobre esse assunto precisamos conversar pessoalmente. Estou ah
disposição para tanto (sic)”. As mensagens solapam ainda mais a versão de
Bolsonaro de que Valeixo pedira demissão e dá mais fôlego à tese de morto.
Os problemas do presidente não param aí. Dois procuradores da República
e um policial federal ouvidos pela reportagem relataram que, por causa das
declarações na reunião e após ela, o presidente ainda pode ser investigado
também por falar da existência de um sistema paralelo de informações de
segurança que o abasteceria com dados de inteligência. Um dos procuradores
afirmou que é preciso saber se esse sistema particular realmente existe, qual é
a sua estrutura e como ele é financiado, se com recursos públicos ou privados.
Ou se tudo não passa de bravata. Não há nada no ordenamento jurídico que
permita o presidente a ter um aparelho privado de arapongas.
No encontro ministerial, Bolsonaro reclamou que a PF e a Agência Brasileira de Informações
(ABIN), os sistemas oficiais que devem fornecer à presidência desses dados,
falhavam em repassá-los. Mas que o seu, particular, funcionava. “O meu
[sistema] particular funciona. Os ofi... que tem oficialmente, desinforma. E
voltando ao ... ao tema: prefiro não ter informação do que ser desinformado por
sistema de informações que eu tenho (sic)”, disse Bolsonaro no encontro.
A existência de tal sistema já havia sido revelada pelo ex-ministro da
Secretaria-Geral da Presidência e ex-presidente do PSL, Gustavo Bebianno, morto
no começo do ano, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, e pela
deputada federal e ex-líder do Governo Bolsonaro no Congresso, Joice Hasselmann, na Comissão Parlamentar de
Inquérito das Fake News.
Ainda na sexta-feira, o presidente admitiu em duas ocasiões que havia
pessoas fora das agências oficiais que o abasteciam de dados. Em entrevista à Jovem
Pan disse que são amigos que o ajudam. Citou jornalista, policiais e
militares que trabalham em diversas cidades do país. Ao tratar desse sistema
paralelo de informações na entrevista à rádio disse: “É um colega de vocês da
imprensa que com certeza eu tenho, é um sargento no Batalhão de Operações
Especiais no Rio, um capitão do Exército em Nioaque (MS), é um capitão da
Polícia Civil em Manaus, é um amigo que eu fiz em um determinado local”.
Mais tarde, na chegada ao Palácio da Alvorada, foi além e afirmou que
policiais civis e militares do Rio de Janeiro o informaram sobre investigações
que estariam sendo feitas contra seus familiares. “Estou o tempo todo vivendo
sob tensão, possibilidade de busca e apreensão sobre filho meu onde provas
seriam plantadas. Levantei isso [porque] graças a Deus eu tenho amigos
policiais civis e policiais militares no Rio de Janeiro que [me disseram que]
estava sendo armado pra cima de mim”, disse. O senador Flávio Bolsonaro,
primogênito do presidente, é investigado pelo Ministério Público do Rio de um
suposto esquema de apropriação dos salários de assessores, a rachadinha.
Na semana passada, seu suplente no Senado, o empresário e dirigente do PSDB Paulo Marinho,
declarou que um delegado da PF vazou informações ao senador sobre apurações que
envolveriam assessores da família Bolsonaro.
Três da “ala ideológica”
Outros ministros que devem ser alvos do Ministério Público Federal são
Abraham Weintraub (Educação), Ricardo Salles (Meio
Ambiente) e Damares Alves (Direitos Humanos), tidos como da ala “ideológica”,
os mais ativos defensores de teses ultradireitistas. Já há representações
contra eles elaboradas por parlamentares de partidos da oposição como REDE, PDT
e PSB.
Os procuradores entendem que Weintraub, que na reunião disse que os
ministros do Supremo deveriam ser presos, dificilmente escapará de ser
responsabilizado pelo menos pelo crime de injúria por ter chamado ministros do
STF de vagabundos e ter defendido suas prisões. O ministro também criticou os
povos indígenas e cigano. Entre os investigadores há quem defenda que ele
responda por outros delitos, como incitação da ordem política ou social, fazer
propaganda de discriminação racial e de processos violentos para a alteração da
ordem pública ou social, assim como a tentativa de impedir o livre exercício
dos Poderes da União.
Já sobre Ricardo Salles, os supostos delitos se baseiam em suas
declarações de que o Governo deveria se aproveitar do momento em que a imprensa
estava dedicada a fazer a cobertura da pandemia de covid-19 para passar diversas medidas infralegais
de regulamentação ambiental, várias delas consideradas como um
desmonte da pasta gerenciada por Salles. “Precisa ter um esforço nosso aqui
enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de
imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o
regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de
ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo”,
afirmou o ministro no encontro do dia 22 de abril.
Sobre Damares Alves, as investigações seriam sobre ela ter dito que
pediria a prisão de governadores e prefeitos que impuseram regras rígidas de isolamento
social em seus Estados e municípios. No entendimento dos investigadores, a
ministra poderia estar afrontando uma decisão do Supremo de que são os chefes
dos poderes Executivo locais quem devem decidir quais medidas devem ser
adotadas durante a pandemia, e não o Governo federal.
Em quatro representações que já chegaram ao Supremo e deverão ser
encaminhadas à Procuradoria-Geral da República os parlamentares da oposição
afirmaram que o encontro de Bolsonaro e seus ministros “apresenta um conjunto
de ofensas e ameaças —expressas ou veladas—, em expressões indecorosas,
grosseiras e constrangedoras, contra diferentes pessoas, povos e instituições”.
Entre os congressistas que assinaram essas representações estão os senadores
Randolfe Rodrigues e Fabiano Contarato (ambos da REDE) e os deputados André
Figueiredo (PDT), Alessandro Molon (PSB) e Joênia Wapichana (REDE).

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