Impeachment de Dilma é
maior derrota de Lula
Josias de Souza
Ninguém declarou ainda, talvez por pena, mas o principal derrotado com o
avanço do impeachment é Lula. Se o Senado ratificar a decisão da Câmara,
mandando a presidente para casa mais cedo, Dilma fará as malas, avisará aos
netos que está voltando para Porto Alegre e emitirá um aviso aos repórteres:
“Vocês não terão mais Dilma Rousseff para chutar.” Lula não pode se dar ao luxo
de sair de cena. Terá de se reinventar sem descer do palco. E com a Lava Jato a
lhe roçar os calcanhares de vidro.
Depois de passar à história como primeiro presidente a fazer a sucessora
duas vezes, Lula reescreve o verbete da enciclopédia como o único mandatário
que é desfeito pela própria criatura. Dilma ajudou bastante, mas é Lula o
principal responsável pelo desastre. Primeiro porque o petrolão, espécie de
mensalão hipertrofiado, foi urdido na gestão dele. Segundo porque o fiasco
econômico que estilhaça a presidência de Dilma é decorrência natural do mito da
supergerente, um conto do vigário de Lula em que a maioria dos brasileiros
caiu.
A reivenção de Lula será um triste espetáculo. Já estava habituado a
derrotas. Perdeu três eleições presidenciais. E sempre levantou, sacudiu o pó e
seguiu adiante. Mas dessa vez é diferente. Lula caiu do alto de sua empáfia.
Por enquanto, comporta-se como o sujeito que, tendo despencado de um edifício
de dez andares, ao passar pelo quarto piso, exclama: “Até aqui tudo bem.”
Quando notar que o chão se aproxima com a velocidade de um raio, Lula
iniciará a fase da negação. Repetirá em público o que diz em privado desde o
início do segundo reinado de madame: 1) “Dilma não ouve o que eu digo”; 2)
“Quando ouve não faz.” As frases são injustas e inúteis. São injustas porque
Dilma nunca escondeu a devoção que dedica ao criador. São inúteis porque,
depois que Dilma terceirizou sua gestão ao criador, qualquer criança de cinco
anos sabe que Lula enxerga no espelho a imagem de um culpado.
Ele chegou a esta condição por seus próprios deméritos. Por dois
mandatos, abasteceu sua base congressual de propinas. O mensalão secou antes
que a cúpula do PT fosse para a cadeia. Mas havia um insuspeitado petrolão.
Deflagrada sob Dilma, a Lava Jato emparedou os corruptos. E mandou para cadeia
os corruptores. A jazida mixou. Deu-se, então, o previsível: a interrupção do
fornecimento regular de propinas converteu aliados em traidores.
Há na Câmara 102 deputados filiados a partidos de oposição. O
impedimento de madame foi aprovado por uma massa de impressionantes 367 votos.
Nessa conta há 265 silvérios. Quer dizer: os governos financiaram o que agora
chamam de “golpe''. Dilma foi picada pelas serpentes “golpistas” que os
esquemas da era Lula engordaram. A mais venenosa chama-se Eduardo Cunha.

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