Planalto classifica
situação da petista como 'dramática'
Estadão
Ministros e a cúpula do PT avaliam que será muito
difícil reverter o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff
no Senado, mas já começaram a ofensiva para barrar a deposição no plenário da
Casa. Embora a autorização para abertura do processo não tenha pego o Palácio
do Planalto de surpresa, o tamanho da derrota impressionou o governo.
O Planalto dá como certa a admissão do processo na
Comissão Especial a ser instalada no Senado nas próximas 48 horas e considera a
situação "dramática". Hoje, no plenário do Senado, o governo tem 28
votos, mas na primeira votação precisa de 41.
"Eu vou lutar até o fim", afirmou Dilma,
de acordo com relato dos que estiveram com ela, no Palácio da Alvorada. "A
luta continuará até o último instante nas ruas, na Justiça e no Parlamento. Não
podemos descansar. Quem pensa que eu vou renunciar pode tirar o cavalinho da
chuva", emendou a presidente. Ela acompanhou a votação no Alvorada, onde
se reuniu com Lula - que ontem completou um mês de nomeação suspensa na Casa
Civil - e com ministros do PT.
O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo,
escalado como porta-voz do governo após a votação, disse que Dilma não vai
renunciar e que ela fará um pronunciamento hoje. O ministro-chefe do Gabinete
Pessoal da Presidência, Jaques Wagner, classificou a decisão como
"retrocesso". "Acreditamos que o Senado, que representa a
Federação, possa observar com mais nitidez as acusações contra a presidenta,
uma vez que atingem também alguns governadores de Estado."
Apesar da declaração de resistência do governo, nos
bastidores o Planalto avalia que a guerra será ainda mais dura. Em conversas
reservadas, dirigentes do PT diziam ontem que a única chance de sobrevivência
de Dilma reside na ampliação do desgaste do vice-presidente Michel Temer.
Na noite deste domingo, quando a votação do
impeachment na Câmara já indicava a derrota, o comentário no Alvorada era que
Temer "não vai ter paz" de hoje em diante. Dilma mostrou
inconformismo com o fato de a sessão ser conduzida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ),
presidente da Câmara e réu da Operação Lava Jato.
"Mesmo que Temer venha a ser um presidente
interino, não vai aguentar três meses no cargo. Ele é sócio de Cunha e nós
vamos expor toda sua fragilidade. Vamos infernizar", disse o senador
Lindbergh Farias (PT-RJ). "De inferno o PT entende, mas nós queremos o
contrário. Queremos o céu", rebateu o senador Romero Jucá (PMDB-RR).
O governo aposta agora no presidente do Senado,
Renan Calheiros (PMDB-AL), para evitar que prazos de tramitação do processo
sejam atropelados.
Auxiliares da presidente admitiram, porém, que a
situação ficou mais difícil por causa da larga margem de votos com que o impeachment
foi aprovado na Câmara. Na prática, ocorreu o que o Planalto temia, uma goleada
de "7 a 1". Até recentemente, quando acreditavam ser possível
reverter o processo, ministros afirmavam que um governo sem 172 votos na Câmara
- número que era necessário para barrar o impeachment - não teria mesmo
condições de administrar o País.
Na última hora, o Planalto apelou para as ausências
- que contariam a favor de Dilma. Esperava de 20 a 30 faltas, mas apenas dois
deputados não apareceram.
Eleições
Na coletiva no Palácio do Planalto, ao ser
perguntado sobre a proposta de convocar novas eleições, José Eduardo Cardozo
disse que a presidente está disposta a "dialogar com setores da sociedade
que querem encontrar saídas para a crise dentro das regras constitucionais."
A tese tem respaldo de integrantes do PT, por
acharem que poderia beneficiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Também é uma forma de alvejar Temer. "Qual a legitimidade terá um
vice-presidente que não foi eleito pelo voto popular?", perguntou o
ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias (PT-MG), que reassumiu o
mandato de deputado para votar contra o impeachment. "Qualquer governo que
nasça de golpe não é reconhecido pelo PT", disse o presidente do partido,
Rui Falcão.
Bicicleta
No dia em que seria votado o destino de seu
mandato, Dilma fez a sua pedalada matinal, só que um pouco mais tarde do que de
costume. Saiu por volta das 7 horas, mas preferiu encurtar o passeio de
bicicleta, que durou 45 minutos. No trajeto, manteve a passagem pelo Palácio do
Jaburu, residência oficial de Temer. As informações são do jornal "O
Estado de S. Paulo".

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