domingo, 17 de maio de 2020

COM O AUMENTO DO DÓLAR A DÍVIDA DAS EMPRESAS BRASILEIRAS QUASE DUPLICOU


Explosão do dólar encarece em quase R$ 1 tri dívidas de empresas no exterior

Renato Jakitas 







© Suzano Papel e Celulose/Divulgação A alta do câmbio não causa tanta preocupação para a Suzano Papel e Celulose, que também tem receitas em dólar. 


A disparada do dólar que na última terça-feira chegou a bater R$ 5,90, maior patamar da história da moeda diante do real, aumentou em R$ 907 bilhões o total que bancos e empresas terão de desembolsar para fazer frente às dívidas no exterior. Ainda que os empréstimos na moeda estrangeira tenham crescido pouco no período, a variação cambial faz com que sejam necessários quase R$ 1 trilhão de reais a mais para pagar os mesmos compromissos. De acordo com o Banco Central, a dívida total em dólar das empresas no Brasil está em US$ 482 bilhões (R$ 2,84 trilhões).
Segundo o BC, a situação é complicada para cerca de 20% das empresas brasileiras que não contam com instrumentos de proteção à variação de câmbio, chamado de hedge cambial pelo mercado, o que deixaria esses empreendimentos totalmente vulneráveis às flutuações do dólar. Esse dado sobre o hedge é de 2018, mas segundo Carlos Antonio Rocca, coordenador do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe), essas empresas não aumentaram de maneira expressiva o investimento em instrumentos de proteção desde então. "Esses negócios estão à mercê do dólar e o aumento de 47% do dólar dificulta a vida", diz.
Dados da própria Fipe, indicam que, na média, as grandes empresas brasileiras - com o capital aberto e fechado - estão, neste momento, com 57,7% de sua dívida total em moedas estrangeiras, um aumento superior a 10 pontos porcentuais do início do ano para cá. "Esse aumento acontece porque o dólar subiu e desequilibrou a proporção, que antes era minoritária", afirma Rocca.
Sozinhas, as companhias de capital aberto, que têm mais acesso aos recursos externos, ampliaram sua exposição em dólar de 57,3%, no início do ano, para 66,2%. As de capital fechado foram de 35,9% para 45%. O levantamento da Fipe abarca um universo com 1.599 empresas, sendo 288 delas abertas e 1.311 fechadas.
US$ 482 bilhões
Dados do BC mostram que a dívida externa de bancos e empresas somavam US$ 482 bilhões no fim de março. Esse valor inclui empréstimos bancários, títulos de dívida, crédito comercial e operações intercompanhias - por exemplo, dinheiro que as sedes de companhias multinacionais enviam à título de empréstimo para subsidiárias locais.
Em dólar, o montante não oscila expressivamente há cinco anos. Convertida para reais, a dívida passou do equivalente a R$ 1,939 trilhão no começo de janeiro para R$ 2,846 trilhões na última terça-feira, dia 13 - uma diferença de R$ 907 bilhões.
O cenário pode assustar os investidores que recebem com preocupação os dados divulgados na atual temporada de balanços financeiros, mas é preciso tempo para saber qual o impacto real do dólar no caixa das companhias. Isso porque só uma pequena parte desse débito é de curto prazo, o resto será quitado nos próximos anos.
Mesmo assim, analistas do mercado financeiro observam com atenção o momento, Segundo eles, apesar das grandes empresas hoje protegerem uma parte da dívida com ferramentas disponíveis no mercado, ainda há aquelas muito expostas. "Empresas do setor aéreo, algumas importadoras e varejistas ainda investem pouco em hedge", diz um operador de mesa de câmbio que pede para não se identificar.
Um exemplo é o da Azul Linhas Aéreas. A empresa tem hoje uma dívida bruta de R$ 20 bilhões, mas, desse montante, R$ 14 bilhões são referentes ao arrendamento das aeronaves, portanto em dólar. Em seu último balanço, a empresa afirma que faz hedge apenas dos custos com combustível, adquirido em moeda estrangeira. Deixa com isso 70% de sua dívida flutuando ao sabor dos humores cambiais.
Em nota, a Azul informa que, para minimizar a alta do dólar, negociou uma postergação do pagamento dos arrendamentos das aeronaves, mas não informou os novos prazos. "Neste cenário, usamos um hedge natural que é basicamente aumentar o preço das passagens para compensar a pressão nos custos devido a variação cambial", afirma, em nota.
Proteção natural
Outras empresas, além da Azul, também têm boa parte de sua dívida em dólar. Mas por serem exportadoras, recebem em dólar e, por isso, não se preocupam com a aquisição de produtos financeiros que travem a cotação do dólar. É o caso da Suzano, que produz papel e celulose. As variações cambiais e monetárias impactaram negativamente o resultado financeiro da Suzano em R$ 12,420 bilhões no primeiro trimestre de 2020, mas isso tende a ser relativizado pelo investidor. Em torno de 94% da dívida bruta da empresa é calculada em dólar. Ao mesmo tempo, 83% da sua receita líquida no período foi gerada no mercado externo.
"Seguimos otimistas com a tese de investimentos e mantemos a recomendação de compra (de ações da Suzano", escreveu na última terça a analista da XP Investimentos Betina Roxo.
"A gente precisa dividir o efeito do dólar na dívida. Uma coisa é a marcação da dívida e outra e o efetivo pagamento. A explosão da dívida tem um efeito no balanço agora mas não tem efeito de caixa no futuro", afirma o diretor-geral do banco Indosuez, Fábio Passos.
Periodicamente, o BC estima o total da dívida externa das empresas sem proteção cambial. O dado mais recente, de abril, aponta o valor equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB) - essa proporção era de 9% em 2016.

BOLSONARO SOFRE PRESSÃO DOS GOVERNOS ESTADUAIS PARA FAZER UM PLANO CONTRA O CORONAVÍRUS


Bolsonaro é pressionado a sancionar programa de enfrentamento à crise

Bruna Lima 




© Evaristo Sá/AFP Os secretários estaduais de Fazenda enviaram uma carta ao presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), cobrando a sanção do projeto de lei que cria o Programa Federativo de Enfrentamento ao Coronavírus. O documento, assinado pelos representantes dos 26 estados e do Distrito Federal, apresenta a preocupação com a "delonga na sanção do PLP/2020", que está à disposição do chefe do executivo federal desde 7 de maio.
A criação do programa é o que garantirá verba da União a estados e municípios no enfrentamento à pandemia. Na carta, os secretários ressaltam que a situação de emergência mundial está imposta há dois meses pela Organização Mundial da Saúde (OMS), razão pela qual os gestores enfrentam dificuldades financeiras e carecem do auxílio federal para manter os serviços essenciais aos brasileiros.
"É urgente a liberação dos valores do auxílio aprovado nos termos encaminhados pelo Poder Legislativo, ainda que sejam recursos insuficientes para o tamanho das intervenções públicas necessárias nessa crise, considerando, especialmente, o impacto econômico e a consequente queda de arrecadação que compromete a manutenção das atividades essenciais dos Estados e Municípios", diz a carta.
A ajuda prevista de R$ 60 bilhões em transferências diretas deve ser usada como moeda de troca pelo governo para a abertura gradual das atividades econômicas. Além da liberação da verba, o projeto também suspende dívida e não execução por parte da União das garantias firmadas nos contratos de operação de crédito junto as instituições nacionais e organismos internacionais.

PETROBRAS ABSORVE O MAIOR PREJUIZO DA HISTÓRIA


Por que o maior prejuízo da história da Petrobras animou o mercado

Victor Irajá






© Marcelo Sayão/EFE/VEJA PREJUÍZO HISTÓRICO - A Petrobras registrou em seus balanços perda de R$ 48 bilhões 


É difícil animar-se depois de amargar um prejuízo de 48,5 bilhões de reais, mas não impossível. Pode parecer loucura, mas as contas divulgadas pela Petrobras deixaram os investidores aliviados, mesmo que os números divulgados pela empresa fossem piores do que o esperado. Antes dos ventos de Brasília contaminarem o mercado financeiro com o pedido de demissão do segundo ministro da Saúde em meio à pandemia da Covid-19, as ações da estatal subiam com fôlego depois de um resultado, digamos, pavoroso. Depois de Nelson Teich entregar o chapéu, os papéis perderam força, mas subiam 3,1% mesmo com a queda de 1,3% registrada peloIbovespa por volta de 13h. Os números divulgados pela companhia levam em conta os três primeiros meses do ano, antes da pandemia atingir em cheio o consumo de combustíveis no Brasil e o preço do petróleo internacional, que caiu de patamares de 60 dólares o barril para a casa entre 20 e 30 dólares. “A recessão global não chegou a impactar significativamente o desempenho da companhia no primeiro trimestre, devendo fazê-lo nos trimestres seguintes”, reconheceu o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, em mensagem aos acionistas.
Sim, as contas vieram piores do que o projetado por analistas de mercado, mas, por incrível que pareça, é um bom sinal. A Petrobras realizou uma manobra contábil chamado impairment, em tradução literal: deterioração. Na prática, a Petrobras reconheceu o cenário catastrófico para as petroleiras ao redor do mundo e, deliberadamente, reduziu a avaliação de quanto valiam seus ativos. Sem a deterioração, os resultados seriam extremamente mais brandos, um prejuízo de apenas 4,6 bilhões de reais no período. A jogada passou ao mercado sinais de transparência de gestão ao reconhecer que os dias não são nada bons e mostrou profissionalismo do comando da estatal. “A Petrobras teve muita agilidade em adaptar aos novos tempos. Como fruto dessa pandemia, houve uma queda brutal do preço do petróleo internacional e outra redução brutal no consumo”, explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). A manobra, por sua vez, não impacta o dinheiro em caixa da Petrobras — principal preocupação de todas as empresas em meio à crise econômica despachada na bagagem pelo novo coronavírus.
Os próximos meses, vale dizer, não são nada animadores. A indústria petrolífera é uma das mais expostas ao impacto do coronavírus. As pessoas não estão enchendo os tanques dos carros (ou pelo menos com menos frequência) e as companhias aéreas estão com os seus aviões parados nos hangares. Analisados à lupa, porém, os resultados (ainda) não são tão desalentadores. A empresa apresentou aumento de 36,4% nos lucros se descontados juros, impostos, depreciação de ativos e amortização de dívidas, o chamado Ebitida, na comparação com o mesmo trimestre do ano passado e avanço de 2,7% em relação ao quarto trimestre. Isso porque as exportações subiram e a produção de petróleo registrou alta de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado. “A Petrobras se transformou na maior exportadora de petróleo da América Latina e gasta menos com o refino para a produção de combustível para o consumo interno”, destaca Pires.
A disparada do dólar deve acometer as contas da petroleira nos próximos três meses contábeis — abril, maio e junho —, visto que 80% das dívidas da empresa são cotadas em moeda americana. O corte de produção de petróleo por parte dos maiores produtores de xisto do mundo, a Arábia Saudita, numa tentativa de elevar o preço do óleo pode, ao menos, mitigar os efeitos nocivos da baixa do consumo. A volta da atividade em países europeus e a China, cujo envio de xisto recuou 48% nos três primeiros meses do ano, também são notícias acalantadoras. O país volta, aos poucos, à normalidade passado o pior momento da crise de saúde. O alento deve vir apenas no segundo semestre quando, espera-se, o pico da pandemia já tiver passado, as pessoas voltarem a sair de casa, as indústrias reagirem e o consumo de petróleo voltar com vigor. “Prevejo que o preço do barril volte a patamares entre 50 e 55 dólares no segundo semestre, e, quando isso acontecer, os ativos da empresa voltam a se valorizar”, afirma Pires.
A Petrobras e os estados produtores sofrem com a perda de receitas. Pelo lado da estatal, há o adiamento dos planos de investimento e de venda de ativos, como as refinarias que estavam para ser privatizadas este ano. No ímpeto de focar sua atividade na exploração de petróleo e abrir mão de processos como o refino ou o transporte, a Petrobras vinha transformando-se e desinchando desde a gestão de Pedro Parente, ainda sob o governo de Michel Temer. A última vez que a empresa havia realizado o impairment havia sido em 2017, na ressaca dos escândalos e aparelhamento da estatal promovido pelas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT. Desta vez, o mercado internacional como um todo sucumbe. E caberá ao tempo (e o enfrentamento à doença) que as pessoas e empresas voltem a consumir com vigor. E caberá à Petrobras ter energia para impulsionar o Brasil para a frente.

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...