Por
que o maior prejuízo da história da Petrobras animou o mercado
Victor Irajá
© Marcelo Sayão/EFE/VEJA PREJUÍZO HISTÓRICO - A Petrobras
registrou em seus balanços perda de R$ 48 bilhões
É difícil animar-se depois de amargar um prejuízo de 48,5
bilhões de reais, mas não impossível. Pode parecer loucura, mas as contas
divulgadas pela Petrobras deixaram os investidores aliviados, mesmo que os
números divulgados pela empresa fossem piores do que o esperado. Antes dos
ventos de Brasília contaminarem o mercado financeiro com o pedido de demissão
do segundo ministro da Saúde em meio à pandemia da Covid-19, as ações da
estatal subiam com fôlego depois de um resultado, digamos, pavoroso. Depois de Nelson
Teich entregar o chapéu, os papéis perderam força, mas subiam 3,1% mesmo com a
queda de 1,3% registrada peloIbovespa por volta de 13h. Os números divulgados
pela companhia levam em conta os três primeiros meses do ano, antes da pandemia
atingir em cheio o consumo de combustíveis no Brasil e o preço do petróleo
internacional, que caiu de patamares de 60 dólares o barril para a casa entre
20 e 30 dólares. “A recessão global não chegou a impactar significativamente o
desempenho da companhia no primeiro trimestre, devendo fazê-lo nos trimestres
seguintes”, reconheceu o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, em
mensagem aos acionistas.
Sim, as contas vieram piores do que o projetado por
analistas de mercado, mas, por incrível que pareça, é um bom sinal. A Petrobras
realizou uma manobra contábil chamado impairment, em tradução literal:
deterioração. Na prática, a Petrobras reconheceu o cenário catastrófico para as
petroleiras ao redor do mundo e, deliberadamente, reduziu a avaliação de quanto
valiam seus ativos. Sem a deterioração, os resultados seriam extremamente mais
brandos, um prejuízo de apenas 4,6 bilhões de reais no período. A jogada passou
ao mercado sinais de transparência de gestão ao reconhecer que os dias não são
nada bons e mostrou profissionalismo do comando da estatal. “A Petrobras teve
muita agilidade em adaptar aos novos tempos. Como fruto dessa pandemia, houve
uma queda brutal do preço do petróleo internacional e outra redução brutal no
consumo”, explica Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra
Estrutura (CBIE). A manobra, por sua vez, não impacta o dinheiro em caixa da
Petrobras — principal preocupação de todas as empresas em meio à crise
econômica despachada na bagagem pelo novo coronavírus.
Os próximos meses, vale dizer, não são nada animadores. A
indústria petrolífera é uma das mais expostas ao impacto do coronavírus. As
pessoas não estão enchendo os tanques dos carros (ou pelo menos com menos
frequência) e as companhias aéreas estão com os seus aviões parados nos hangares.
Analisados à lupa, porém, os resultados (ainda) não são tão desalentadores. A
empresa apresentou aumento de 36,4% nos lucros se descontados juros, impostos,
depreciação de ativos e amortização de dívidas, o chamado Ebitida, na
comparação com o mesmo trimestre do ano passado e avanço de 2,7% em relação ao
quarto trimestre. Isso porque as exportações subiram e a produção de petróleo
registrou alta de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado. “A
Petrobras se transformou na maior exportadora de petróleo da América Latina e
gasta menos com o refino para a produção de combustível para o consumo
interno”, destaca Pires.
A disparada do dólar deve acometer as contas da petroleira
nos próximos três meses contábeis — abril, maio e junho —, visto que 80% das
dívidas da empresa são cotadas em moeda americana. O corte de produção de
petróleo por parte dos maiores produtores de xisto do mundo, a Arábia Saudita,
numa tentativa de elevar o preço do óleo pode, ao menos, mitigar os efeitos
nocivos da baixa do consumo. A volta da atividade em países europeus e a China,
cujo envio de xisto recuou 48% nos três primeiros meses do ano, também são
notícias acalantadoras. O país volta, aos poucos, à normalidade passado o pior
momento da crise de saúde. O alento deve vir apenas no segundo semestre quando,
espera-se, o pico da pandemia já tiver passado, as pessoas voltarem a sair de
casa, as indústrias reagirem e o consumo de petróleo voltar com vigor. “Prevejo
que o preço do barril volte a patamares entre 50 e 55 dólares no segundo
semestre, e, quando isso acontecer, os ativos da empresa voltam a se
valorizar”, afirma Pires.
A Petrobras e os estados produtores sofrem com a perda de
receitas. Pelo lado da estatal, há o adiamento dos planos de investimento e de
venda de ativos, como as refinarias que estavam para ser privatizadas este ano.
No ímpeto de focar sua atividade na exploração de petróleo e abrir mão de
processos como o refino ou o transporte, a Petrobras vinha transformando-se e
desinchando desde a gestão de Pedro Parente, ainda sob o governo de Michel
Temer. A última vez que a empresa havia realizado o impairment havia sido em
2017, na ressaca dos escândalos e aparelhamento da estatal promovido pelas
gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT. Desta vez, o
mercado internacional como um todo sucumbe. E caberá ao tempo (e o
enfrentamento à doença) que as pessoas e empresas voltem a consumir com vigor.
E caberá à Petrobras ter energia para impulsionar o Brasil para a frente.

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