Azul, Gol e Latam caem nas
mãos dos bancos ao aceitarem socorro do governo
Diego Gimenes
© Hélvio Romero/AE/VEJA NO ESCURO —
Aviação civil ficou em maus lençois com a pandemia: exposição a aquisições
internacionais aumentou
Quando a pandemia do novo coronavírus começou a afetar a demanda
por voos domésticos e internacionais, representantes do setor aéreo brasileiro
se reuniram com o secretário nacional de Aviação Civil, Ronei Saggioro
Glanzmann, com integrantes dos Ministérios da Economia e da Infraestrutura e
também com membros do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) para definir um socorro que evitasse
o colapso do mercado. Foram dois meses de negociações para que, enfim, se
chegasse a um acordo: o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, anunciou
na teleconferência do banco nesta sexta-feira, 15, que as três principais
companhias aéreas que atuam no país — Azul, Gol e Latam — aderiram à ajuda
setorial, avaliada em 6 bilhões de reais (2 bilhões de reais para cada). O
alento, no entanto, ainda gera dúvidas sobre sua eficácia. Como os bancos envolvidos na transação estão
adquirindo participações nas empresas há um temor que, no futuro, algum
conglomerado estrangeiro se aproveite disso para ganhar mercado no país — algo
que já aconteceu com a TAM, comprada pela chilena Lan em 2010.
Em maio de 2019, o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) expediu uma
Medida Provisória, que posteriormente se tornou lei. Sua principal função era
aprovar a abertura do mercado para a participação de 100% de capital
estrangeiro nas companhias aéreas brasileiras. Sendo assim, o momento de
fragilidade do setor, que amarga perdas catastróficas por conta dos efeitos da
pandemia, pode ser um chamariz para que companhias estrangeiras ganhem cada vez
mais espaço no país. Em outras palavras: os tubarões estão sentindo cheiro de
sangue. “Existe esse risco. Um cenário que pode acontecer é o de bancos
passarem essas ações para um fundo de investimento, dono de algum conglomerado
internacional, e as decisões estratégicas do tráfego aéreo brasileiro passarem
a ser tomadas por outros países, o que geraria outras preocupações”, diz
Francisco Lyra, presidente do Instituto Brasileiro de Aviação (IBA)
e da consultoria C-Fly Aviation. “Uma coisa que o BNDES não deixou claro,
ainda, é se existe a carência e se esse empréstimo é de longuíssimo prazo. Sem
esses fatores, o risco de inadimplência é muito alto, porque ninguém sabe ao
certo quando a demanda de passageiros voltará”, completa.
© Valter Campanato/Agência Brasil MÃO
ESTENDIDA — Gustavo Montezano, presidente do BNDES: aéreas aceitaram socorro
proposto de 6 bilhões de reais /
De acordo com a proposta, que iria expirar hoje, além do BNDES, o apoio
virá por meio de um grupo de bancos: Bradesco, como líder, Itaú e Santander. Do
investimento total, 75% será repassado mediante subscrição, pelos bancos, de
debêntures simples e 25% via bônus conversíveis em ações emitidos pelas
companhias aéreas. O instrumento desenhado pelos bancos prevê um fôlego
financeiro às companhias até o primeiro trimestre de 2021. Esperava-se que o
socorro fosse anunciado por Montezano em abril, mas as negociações com as
companhias aéreas emperraram. Por muito tempo, discutiu-se a forma como seria o
acordo. O BNDES reivindicava o preço de conversão próximo ao atual,
aproveitando-se da distorção momentânea do valor de mercado dessas empresas.
Lembra-se que, em geral, as companhias aéreas não possuem ativos próprios o
suficiente para entregar como garantias em caso de virem a sucumbir de vez.
Espaços em aeroportos, por exemplo, são alugados. As aeronaves, por sua vez,
são arrendadas. Os slots (as autorizações de voos) são concessões. Assim,
sobrava pouco patrimônio para ser oferecido como contrapartida. Ao adquirir
participações nas empresas, no entanto, resta a dúvida se os bancos terão
interesse em manter suas posições ou repassarão suas fatias para fundos estrangeiros
oportunistas.
Mas não são apenas as companhias aéreas que sofrem e clamam por uma
ajuda. As empresas de serviços auxiliares ao transporte aéreo, que empregam
38.000 pessoas, já demitiram cerca de 25% da força de trabalho. Para elas,
espera-se um socorro de ao menos 450 milhões de reais, valor que será destinado
por meio de recursos disponíveis no FNAC, o Fundo Nacional de Aviação
Civil, gerido atualmente pela Secretaria de Fomento, Planejamento e
Parcerias, como garantia para a concessão das linhas de crédito por parte do
BNDES. Esses recursos, normalmente, são aplicados para o desenvolvimento do
setor e das infraestruturas aeroportuárias e aeronáuticas civil, podendo ser
aplicados na ampliação e na reestruturação de aeroportos. Com a crise, no entanto,
o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, estuda a implementação
de uma Medida Provisória ou até um Projeto de Lei que flexibilize a utilização
do fundo.
“O secretário Ronei e o ministro Narciso estão desenhando já há três
semanas uma legislação para socorrer o nosso mercado. Eu acho que deveria
alterar só o decreto do FNAC, deixando a lei como está. Não iria por esse
caminho, porque pode demorar mais. Mas entendo que eles prefiram assim por
conta de uma segurança jurídica por parte do governo”, diz Ricardo Miguel,
presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços Auxiliares ao
Transporte Aéreo (Abesata). Ele diz que as empresas auxiliares de transporte
aéreo estão sofrendo com a escassez de voo e também porque as principais operadoras
de voos domésticos deixaram de pagar, por um momento, as taxas para os serviços
terceirizados. “Hoje, nós só precisamos de 20% da carga de trabalho para
funcionar. Há excesso de funcionários. Cerca de 25% foi demitido e uma parte
das empresas acionou a MP para diminuição da jornada e do salário. Como o
transporte aéreo parou, o nosso faturamento praticamente zerou”, diz Miguel.
© Avio Interiors/Divulgação ESCUDO
ANTI-COVID — Companhias aéreas internacionais sugerem utilizar barreiras para
diminuir disseminação: perda de assentos da ordem de 30% /
A Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA, na sigla em
inglês), estima, num cenário otimista, que os níveis de demanda por voos de
2019 não sejam excedidos até 2023, pelo menos. A demanda global de passageiros
para 2021 deve ficar 32% menor que a previsão inicial para o ano e 24% inferior
aos índices de 2019. A entidade condiciona esse cenário a uma abertura dos
mercados domésticos no terceiro trimestre. Em 13 de maio, o CEO da Boeing,
David Calhoun, projetou um cenário catastrófico para o setor aéreo global e,
ainda, profetizou sobre a quebra de uma grande companhia americana, a qual ele
não divulgou. Recentemente, o governo americano disponibilizou um pacote de
estímulos avaliado em 25 bilhões de dólares para ajudar .

© J. Countess/Getty Images NÃO GOSTEI
— O megainvestidor Warren Buffett: o fundo Berkshire Hathaway vendeu todas as
ações em companhias aéreas /
No início de maio, o bilionário Warren Buffett, um dos figurões do
mercado financeiro, revelou que o fundo Berkshire Hathaway, sua empresa de
investimentos, vendeu todas as posições que tinha nas principais companhias
aéreas americanas em abril devido à pandemia do novo coronavírus. Segundo ele,
as pessoas não vão voltar a voar tanto nos próximos dois ou três anos após a
pandemia. “O mundo mudou para as aéreas. Alguns negócios, e esse infelizmente é
o caso da indústria da aviação, serão realmente afetados”, disse o investidor,
no encontro anual do conglomerado, em Omaha, Estados Unidos.
No mundo, a IATA estima que os novos protocolos da aviação, com regras
de distanciamento social, podem obrigar as empresas a aumentarem o valores das
passagens aéreas. Dependendo do tipo de aeronave, a medida pode reduzir a taxa
de ocupação dos aviões entre 33% e 50%. Segundo a IATA, o reajuste variaria de
acordo com o continente, podendo chegar a 43% na América do Norte e 54% na
Ásia. Na América Latina, a entidade estima um aumento de 49% no preço dos
bilhetes. “Esta é uma medida inócua e que vai ocasionar num prejuízo brutal
para as companhias aéreas”, diz Francisco Lyra. “Toda aeronave, para atingir o
ponto de equilíbrio entre lucro e prejuízo, precisa ter pelo menos 65% de sua
ocupação. Se você tira um terço de sua capacidade, é óbvio que as companhias
terão de aumentar o valor das passagens”, complementa. A Associação Brasileira
das Empresas Aéreas, a Abear, diz que não há neste momento qualquer estudo para
restringir o número de passageiros por viagem. O que há, de fato, é um cenário
nebuloso na rota das aéreas.



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