Desde Catilina
Manoel Hygino
“Quousque tandem
abutere patientia nostra? A pergunta foi feita por Cícero a Catilina, seu
poderoso inimigo na velha Roma. “Até quando abusarás de nossa paciência”? Mas,
sabia, certamente, o célebre orador que tinha diante de si um adversário
perigoso e corajoso, embora ele próprio lembraria Carlos Lacerda, do século XX
no Brasil, capaz de desafiar Getulio Vargas.
Catilina, partidário
de Sila, já demonstrava sua crueldade com os que não estavam ao seu lado.
Cícero fora informado de que o inimigo mandara matá-lo em sua própria casa, mas
que o plano fracassara. Acusado Catilina, no Senado, pelo antagonista, tentou
fugir para junto de seu Exército, escapando à Espanha. Com sucessivas
decepções, resistiu perto de Pistóia com três mil homens, mas caiu com eles,
após encarniçada resistência.
No Brasil de hoje,
assistimos à não dissimulada guerra entre grupos poderosos, além da que já
deixou mais de 120 mil combatentes, brasileiros de muitos rincões, contra o
coronavírus. As batalhas que aqui se tratam envolvem riscos, muitos e reais,
envolvendo litigantes que não se afinam.
A Imprensa do país
entrou em meio às batalhas, como sempre acontece aqui e alhures, em todos os
tempos. Através dela, a sociedade conhece (?) a evolução dos fatos, com versões
diversas, de acordo com os interesses dos grupos, esquecida reiteradamente a
verdade.
E o coronavírus
segue sua marcha inexorável eliminando vidas ou deixando-as trancadas. Num
cerco ainda mais cruel, agrava-se a situação econômico-financeira nacional,
reduzem-se duramente as atividades produtivas, fecham-se portas da indústria e
do comércio, avulta o número de desempregados, enquanto a fome e as
enfermidades (se pouco maligna a pandemia) ganham terreno em todas as regiões.
Para onde estamos indo? Até quando suportará a população a angústia? O
prestigiado jornalista Luiz Carlos Azedo se manifesta: “Aqui no Brasil, diante
da maior crise sanitária que o país enfrenta, desde a epidemia de gripe
espanhola de 1918, e de uma recessão que cavalga a pandemia, nossas
instituições estão funcionando”.
No entanto, os
resultados práticos são pouco proveitosos. E os jornalistas tentam descobrir
mistérios, guardados a sete chaves, sem conseguirem desvendá-los. Por que? Há
algo de espúrio, ilegal ou podre? O ministro do STF, seu decano, quase às
vésperas de deixar o alto cargo, Celso de Mello, expõe seu ponto de vista. “Na
realidade, os estatutos do poder, numa República fundada em bases democráticas,
não podem privilegiar o mistério, porque a supressão do regime visível de
governo – que tem na transparência a condição de legitimidade de seus próprios
atos – sempre coincide com os tempos sombrios em que declinam as liberdades e
transgridem-se os direitos dos cidadãos”. Quem é ou são os Catilinas nesta hora
tão delicada da história brasileira?

Nenhum comentário:
Postar um comentário