Socorro a Estados provoca rompimento de Maia e Guedes
Adriana Fernandes
© Gabriela Biló / Estadão Desgaste começou por
controle de R$ 30 bilhões do Orçamento
BRASÍLIA – A votação do projeto de socorro emergencial do governo a Estados e municípios
rompeu a relação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ),
com o ministro da
Economia, Paulo Guedes. Os dois não têm mais contato, como
revelou o próprio presidente Jair Bolsonaro em entrevista após a demissão de Luiz Henrique Mandetta do cargo de ministro da Saúde.
Guedes está convencido que Maia trabalha para “explodir”
as finanças de Bolsonaro e inviabilizar uma recuperação econômica do País numa
articulação com os dois principais adversários do presidente: os
governadores João Doria (São Paulo)
e Wilson Witzel (Rio de Janeiro).
A auxiliares e amigos, Guedes tem repetido nas
últimas semanas que o governo não vai financiar o que chama de “farra
eleitoral” com disfarce de combate à
covid-19. O ministro compartilha da visão do presidente, que, em
entrevista à CNN, acusou Maia de querer dar um golpe político no governo ao colocar os
governadores contra Bolsonaro e posar de “primeiro-ministro”.Como
pano de fundo da guerra estão as disputas eleitorais deste ano e, mais à
frente, a corrida pela Presidência em 2022.
O presidente da Câmara considera que os R$ 40 bilhões oferecidos aos
governadores e prefeitos é muito pouco diante do tamanho do problema
e que o Palácio do Planalto age para prejudicar a ação dos seus dois principais
adversários, justamente nos Estados com mais vítimas.
Numa das últimas mensagens trocadas com Maia, o
ministro mandou uma mensagem pelo celular acompanhada de artigo dos economistas
Marcos Lisboa e Marcos Mendes alertando para o problema que a proposta de ajuda
aos Estados poderia gerar. A resposta do outro lado: “Está tudo tranquilo. Eu
vou aprovar”. Guedes disse que não havia acordo. “Daqui não passo”, declarou o
ministro da Economia, que vem chamando o projeto da Câmara de “arrombamento
geral da República”.
O projeto foi aprovado na Câmara apesar de o governo articular o apoio
aos líderes dos partidos do chamado Centrão e apresentar números que mostravam
um impacto de R$ 220 bilhões da ajuda.
Maia desidratou o projeto depois que o Ministério da Economia mostrou que o seu
Estado, o Rio, seria contemplado com R$ 45 bilhões – R$ 15,1 bilhões em perdão de
dívida. No Senado ainda não houve acordo para votação nesta
semana. Em carta, 25 governadores pediram aos senadores mantenham integralmente o
projeto.
Desgaste começou por
controle de R$ 30 bilhões
Embora a gota d´água da discórdia tenha sido a
decisão de Maia de colocar em votação o projeto com um custo considerado alto
demais para a equipe econômica, o desgaste já vinha de antes: da disputa pelo
controle de R$ 30 bilhões do Orçamento, previstos nas chamadas emendas de
relator, que levou a embate duro com o Congresso antes da pandemia.
Enquanto o governo aposta no esvaziamento do poder
de Maia junto aos líderes do Centrão com a aproximação do fim do seu mandato, o
presidente da Câmara está certo que Bolsonaro será rendido pelos fatos e terá
que socorrer os Estados com muito mais dinheiro diante do avanço do coronavírus
no Brasil.

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