Prós e contras
envolvem entrada do país na OCDE
Daniela Franco
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Sediada na França, entidade tem diretrizes liberais
que podem favorecer e prejudicar economia brasileira
O anúncio da
recomendação dos Estados Unidos para que o Brasil ocupe uma cadeira entre os
membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) foi
amplamente comemorado pelo governo federal, ao longo da semana.
Especialistas dizem,
contudo, que o “preço” pago para obter tal sinalização pode ter sido bem mais
alto do que os benefícios obtidos, caso o país entre de fato para o chamado
“clube dos ricos”.
A pedido dos EUA,
por exemplo, o Brasil abriu mão do status de país em desenvolvimento junto à
Organização Mundial do Comércio (OMC).
Na prática, o país passa a competir em pé de igualdade com nações desenvolvidas nas transações internacionais.
Na prática, o país passa a competir em pé de igualdade com nações desenvolvidas nas transações internacionais.
Segundo o consultor
para assuntos internacionais da Federação das Indústrias de Minas Gerais
(Fiemg), Alexandre Brito, deixamos de ter direito ao Tratamento Especial
Diferenciado em relação à OMC, traduzido em prazos para se adequar a certas
normas e mais liberdade para a prática de políticas protecionistas.
Indústria
Como possível membro de uma instituição regida por princípios neoliberais, caso da OCDE, o Brasil precisaria abolir tais práticas protecionistas, algumas responsáveis por fomentar a indústria nacional.
Como possível membro de uma instituição regida por princípios neoliberais, caso da OCDE, o Brasil precisaria abolir tais práticas protecionistas, algumas responsáveis por fomentar a indústria nacional.
Para o professor do
Departamento de Ciências Econômicas da UFMG Fabrício Missio, abrir mão desse
tipo de incentivo à indústria pode prejudicar o desenvolvimento. “Já não temos
uma indústria muito madura, sobretudo a de tecnologia, e permitir a entrada de
produtos importados competindo diretamente com ela pode não ser o mais
interessante, principalmente a curto e médio prazo”, opina.
Segundo dados da
Confederação Nacional da Indústria (CNI), o setor no Brasil é responsável por
21,2% do valor do Produto Interno Bruto. A indústria de transformação, que é a
de maior valor agregado, representa 11,4% do PIB do país, índices considerados
baixos por Missio. O setor no Brasil representa 2,1% da produção mundial. Em
Minas, a indústria gerou 25,4% do PIB em 2017.
“O interesse dos EUA
é sempre comercial, e é claro que a retirada dessas medidas protecionistas
internas abre a concorrência para os produtos vindos de lá para um mercado
importante, como é nosso caso”, pondera o professor. Embora considere
precipitada a decisão de abrir mão do status na OMC, o especialista acredita
que a chancela da OCDE será vantajosa, a longo prazo, se o país souber
aproveitar as oportunidades oferecidas.
Algumas delas são
destacadas pela coordenadora da Assessoria Técnica da Federação da Agricultura
e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg), Aline Veloso. Ela considera, por
exemplo, que, mesmo com a retirada de vantagens na OMC, a entrada na OCDE pode
incentivar os setores exportadores do país a investirem em inovação e a
tornarem-se mais competitivos. “Temos pessoas, temos vontade e estamos num
momento oportuno para adotar essas ações e aproveitar essas oportunidades”, diz
ela.
Impasses
Vale lembrar ainda que, embora o presidente Jair Bolsonaro tenha agenda liberal, táticas como a que tem sido usada pelo Banco Central para manter o controle cambial, por exemplo, não serão vistas com bons olhos, caso o país ingresse na OCDE.
Vale lembrar ainda que, embora o presidente Jair Bolsonaro tenha agenda liberal, táticas como a que tem sido usada pelo Banco Central para manter o controle cambial, por exemplo, não serão vistas com bons olhos, caso o país ingresse na OCDE.
A adesão do país ao
organismo internacional, se a recomendação dos EUA for aceita pelos demais
membros, deve ser concluída em até cinco anos.
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