As malas e os males
Manoel Hygino
Objeto de crítica
dos apaixonados pelas velhas formas de poesia, os modernistas ganharam
principalmente espaço e prestígio a partir de 1922, quando da Semana de Arte,
em São Paulo. Drummond, em seu laboratório literário, não escapou à exacerbada
sanha de veementes adeptos dos antigos.
Havia muitas pedras
no meio do caminho do poeta de Itabira, mas foram ultrapassadas. Sua criação se
tornou popular e celebrada, tanto que Flávio Perri, ex-embaixador do Brasil que
serviu ao Itamaraty em Genebra e Nova York – ONU, em Paris e Roma, escolheu
para título de seu livro de estreia “Nel Mezzo del Camim”, há mais de quinze
anos.
Drummond encontrou
uma pedra no meio do caminho. Há mais de um século, também, quando vinha da
Mumbuca para Montes Claros, conduzindo um carro de bois e, ao passar pela
Vargem do Barreiro, a légua e meia da cidade, o carreiro Rozendo tropeçou em um
objeto de peso enorme.
Apanhou a pedra
esquisita e, levando-a na cidade até a casa de Augusto Dias de Abreu, que
entendia da coisa, verificou tratar-se de uma pepita de ouro, pesando 728
gramas e meia. A pedra foi vendida a Sérgio Guedes, por intermédio de Neco
Lopes, por 400$000 e daí pra frente nada mais se soube dos referidos
personagens, sequer do destino da pepita.
Há gente com e sem
sorte nos caminhos da vida e nos muitos andares da sociedade. Os ventos de
setembro viravam redemoinhos, suscitando na memória a lenda do diabinho, o
operador do fenômeno descrito por Guimarães Rosa, lembrado por Paulo Narciso:
“Redemoinho; o senhor sabe – a briga de Ventos. Quando um esbarra com o outro,
e se enrolam, o doido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no
alto, o ponto às voltas, folharada, e ramaredo quebrado, o estalar de pios
assovios, se torcendo turvo, esgarabulhando... (redemunho era d’ele- diabo). O
demônio se vertia ali, outro viajava. Estive dando risadas. O demo!”.
Decorreu o tempo,
incessante e inexorável. A Polícia Federal - aplaudida no desfile de 7 de
Setembro, em Brasília – já filmara um homem de confiança do presidente transportando
à mão uma assás competente mala carregada de dinheiro, que alcançaria a
expressiva quantia de R$ 500 mil. A Federal prejudicou a sorte alheia, em pleno
cotidiano paulistano.
Em outro estado e
capital, dias depois, a referida PF, que parece não ter outros afazeres,
identificou em um apartamento, em Salvador, em área nobre, o bunker em que se
escondiam várias malas e caixas cheias de cédulas nacionais e estrangeiras. Que
trabalho para as máquinas especializadas em contar dinheiro! Mais de R$ 50
milhões e dólares formavam o Tesouro Perdido, não mais disfarçado em ouro para
incomodar carroceiros de sertões inóspitos.
No tempo presente,
não se perde tempo e oportunidade em carregar o minério, precioso e bruto, para
avaliação de ourives. A tramoia, aparentemente generalizada, circula em cédulas
ou em diversidade de contas do sistema financeiro.
Quanto às
explicações de possíveis suspeitos ou culpáveis, são sempre as mesmas e os
apresentadores de televisão já as sabem de cor. São todos inocentes, embora –
só no caso da Petrobras – o prejuízo aos cofres públicos seja da ordem de R$ 29
bilhões. Quem o diz é o Tribunal de Contas da União.

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