Dos acordos e desacordos
comerciais
Stefan Salej
Apesar de que a semana está cheia de notícias da transição do governo dos
Estados Unidos (o presidente eleito só toma posse no dia 20 de janeiro e até lá
tem tempo para conversar ainda com o nosso presidente Temer, já que os dois
ainda não conversaram), mas há outras preocupações na área de comércio
internacional que não foram ofuscadas pela eleição de Trump. Ou foram e não
percebemos.
Enquanto o Canadá conseguiu, depois de sete anos de negociações, fechar
um acordo amplo de comércio e cooperação com União Europeia, o Mercosul,
nascido em Ouro Preto há 25 anos, continua negociando, e negociando um acordo
comercial com a mesma União Europeia. Está na mesa que a UE acabou de aceitar o
Equador (que está brigado conosco na área diplomática em função do impeachment
da companheira Rousseff) no acordo de comércio com o Peru e a Colômbia.
Por outro lado, na campanha presidencial norte-americana, ficou claro
que o hoje vencedor Trump vai rever o acordo de livre comércio entre os Estados
Unidos, México e Canada, como também o transpacífico (o acordo dos acordos) e
rever a negociação do acordo entre os Estados Unidos e a União Europeia.
Resumindo: está se redesenhando o mapa comercial do mundo. E se a esse quadro
adicionarmos o reconhecimento definitivo da China como economia de mercado na
Organização Mundial do Comercio (onde o brasileiro Azevedo quer mais um mandato
de diretor geral), temos um quadro um tanto quanto indefinido para o exportador
brasileiro. Você pode exportar baseado na sua capacidade empresarial, mas se
houver barreiras nos países importadores, ou se seus concorrentes tiverem mais
facilidades, o jogo muda ou até impede você de exportar.
E são acordos comerciais entre os países que permitem isso. De um lado,
estamos amarrados pelas regras do Mercosul, uma associação de países difícil de
se entender e com a qual conviver. De outro lado, pelos interesses e reposição
do comercio global. O fato é, que o exportador brasileiro neste momento não tem
a mínima interferência nas negociações que estão em curso, como Mercosul-UE, e
nem na consolidação negociadora do próprio Mercosul. Mas também não sabe qual a
posição estratégica do governo brasileiro para orientar seu planejamento
empresarial.
A situação está menos dramática na área de agronegócios, onde o próprio
setor assumiu a liderança e obrigou os outros atores a seguir o navio do
almirante. Mas, iludidos com que temos boas reservas cambiais, e que o agro e
os minerais sustentam a balança comercial, criando superávit, as exportações de
manufaturados, serviços e produtos de tecnologia estão mancando. E sem acordos
comerciais, só o bater dos tambores da promoção comercial (incluindo sem
diminuir custo Brasil), vai ser difícil conseguir encher o caixa com dólares e
euros para poder gastar em viagens e importações.

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