sexta-feira, 22 de julho de 2016

O BANCO CENTRAL PROTEJE OS OUTROS BANCOS



A relação promíscua do BC com os bancos

José Antônio Bicalho 




Alexandre Tombini, antecessor de Ilan Goldfajn na presidência do Banco Central, nunca foi visto com bons olhos pelo mercado. Já Goldfajn é o queridinho.

A maior crítica a Tombini era a permissividade do BC e a ingerência do governo sobre as políticas monetária e cambial. Dizia-se, nos quatro anos e meio de seu mandato (janeiro de 2011 a julho deste ano), que quem presidia de fato o BC era Dilma.

Não é verdade. O que de fato aconteceu na era Tombini foi uma convergência entre a política monetária do Banco Central e a atuação do governo para baratear o crédito. Na sua gestão, o Copom levou o juro básico ao menor patamar da história, a 7,25%, entre agosto de 2012 e abril de 2013. Ao mesmo tempo, os bancos estatais Caixa e Banco do Brasil forçaram a redução dos juros na ponta ao tomador final (pessoas físicas e jurídicas). Foi assim, em maior ou menor grau, até a entrada de Levy na Fazenda, no primeiro ano do segundo governo Dilma.

Tombini era funcionário concursado do BC. Já Goldfajn era, até o início do mês passado, economista-chefe do Itaú. Trata-se de uma mudança de paradigma importante dentro da instituição.

No governo Dilma, a diretoria do BC foi blindada à entrada de banqueiros. O raciocínio era simples e coerente. Se quem ganha dinheiro com os juros são os bancos, os representantes dos bancos não poderiam determinar a taxa de juro. Já Temer abriu a porteira.

Como mostrei na coluna de segunda-feira (pode ser lida no portal do Hoje em Dia, clicando em opinião e depois em colunas), nas mais importantes diretorias do BC também foram colocados funcionários de bancos. Na Política Monetária, quem manda atualmente é Reinaldo Le Grazie, ex-diretor do Bradesco Asset Management; na Política Econômica, Carlos Viana, que era economista-chefe da Opportunity Asset; e em Assuntos Internacionais, Tiago Berriel, que veio da gestora de fundos Pacífico.

Foram estas pessoas que decidiram na reunião de ontem do Copom que a taxa de juro será mantida em absurdos 14,25% ao mês por, pelo menos, mais dois meses. Não existe justificativa para isso, a não ser preservar o lucro dos antigos patrões dos diretores do BC.

A inflação que se quer combater não é de demanda. Não existe inflação de demanda na depressão econômica. A pressão atual vem dos preços administrados e da entressafra agrícola. E, ainda, de um resquício de ajuste dos preços à desvalorização cambial. Então, os juros são inócuos.

O mercado aplaudiu a decisão do BC, entendendo a manutenção da Selic como um sinal independência do governo e intolerância com a inflação. Uma leitura obtusa e enviesada. Na verdade, o BC sinalizou que o setor financeiro continuará sendo privilegiado em detrimento do setor produtivo e que a inflação continuará a ser utilizada como desculpa para a manutenção dos juros escorchantes.

Não é com a ingerência do governo no BC que devemos nos preocupar, mas com a ingerência dos bancos.

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