A crise chega à ONU
Manoel Hygino
Contam-se as horas para a votação pela Câmara dos Deputados do
impeachment. Nunca, jamais, em tempo algum, o Brasil sofreu um processo de
estagnação como o atual, enquanto as pessoas, muito naturalmente, se perguntam:
e depois?
Em verdade, jamais um pesadelo foi tão amplo e profundo, se possível
aplicar os dois adjetivos para classificar a presente situação. Nem Freud
poderia talvez explicar o clima estabelecido, envolvendo os mais de duzentos
milhões de habitantes de um país, grande e bobo, como o classificava o
acadêmico Eduardo Almeida Reis. A nação está abalada muito justificadamente
pelos acontecimentos (de causas sabidas, embora nem sempre provadas), inclusive
os novos atos que emergem aos cidadãos a todo instante.
Antigamente se dizia que o Brasil se encontrava à beira do abismo.
Depois, surgiu a versão de que o abismo era menor que os imensos problemas
criados por indefinido número de pessoas, descompromissadas com os superiores
interesses e causas nacionais.
Jamais um pesadelo foi tão amplo e profundo, se possível aplicar os dois
adjetivos para classificar a presente situação
Enquanto se negociavam votos a favor e contra o impedimento, com métodos
que razões denigrem o nome, o prestígio e o conceito da nação e de seus
dirigentes, percebe-se que o mundo se inquieta pelo descalabro que nos corrói e
as sombrias perspectivas da população que se dizia abençoada por Deus.
Não se trata, porém, de um problema político meramente doméstico, como
inicialmente admitiu o secretário-geral da ONU, titular do importante posto
exercido pelo chanceler Oswaldo Aranha.
Ban Ki-Moon, com a serenidade que o cargo impõe, formulou o primeiro
apelo em relação ao Brasil nos quase dez anos de Secretaria na ONU, em atitude
rara nos raros contatos das Nações Unidas com nosso país: “O Brasil é muito
importante e qualquer instabilidade política é uma preocupação social para nós.
Peço que os líderes adotem soluções harmoniosas de tranquilidade. Sei que é um
desafio que o país vive. Mas acho que irá conseguir superar”.
Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Direitos
Humanos, falando à imprensa na Suíça, foi além e advertiu mais vigorosamente.
“Renovamos nosso apelo para todos os lados para garantir que o Poder Judiciário
seja respeitado, que as instituições democráticas pelas quais o Brasil tanto
lutou para ter sejam respeitadas e não sejam minados no processo”.
O bom-senso não rege nossos destinos, como conviria. A preocupação
internacional é legítima. Houve um apelo até ao Judiciário, que precisa atuar
com “escrúpulos, dentro das regras do direito doméstico e internacional,
evitando posições político-partidárias”.
Mas como é possível evitar a judicialização se as decisões maiores são
transferidas para a mais alta corte de Justiça do país? Rubert Colville, porta-voz
da ONU, declarou: Preocupa-nos a possibilidade de um círculo vicioso que acabe
afetando a credibilidade tanto do Executivo quanto do Judiciário”.

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