No vendaval do impeachment
Manoel Hygino
Depois de muitíssimas horas a assistir os debates e discursos sobre o
impeachment pela televisão, não restaram exemplares lições de oratória, lucidez
e patriotismo. Seria útil, assim, lembrar episódios da brumosa nuvem de uma
tempestade que ainda paira sobre a nação. A repetitiva argumentação das duas
correntes não contribuiu para deixar magistrais registros do que no Parlamento
se disse, no quase sempre pobre e inadequado vocabulário (às vezes grosseiros)
dos participantes das reuniões. Serviu, contudo, para revelar que houve
interesse, até porque imprescindível, em respeitar a Constituição.
As sessões a que se assistiu mostraram o nível intelectual dos
representantes que os cidadãos escolheram para representá-los. Algo que não
exalta as tradições dos grandes tribunos que historicamente brilharam nas duas
Câmaras do Congresso. Sem embargo, cumpriu-se, de algum modo, o que se
esperava, pelo menos no que concerne à forma e ao ritual.
Estas observações conduzem naturalmente ao discurso pronunciado por Rui
Barbosa, em 1920, aos formandos da Faculdade de Direito do Largo de São
Francisco, em São Paulo. A peça pela riqueza de ensinamentos recebeu o título
de “Oração aos Moços” e foi lida pelo professor Reinaldo Porchat, em face do
debilitado estado de saúde do paraninfo. Quase um século após a solenidade,
suas considerações merecem leitura e meditação pelo que contém de grandeza
espiritual.
Não faltou a Rui ensejo de tecer críticas, enfatizando que estamos “num
país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são
as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos
respeitáveis, as que põem e dispõem, as que mandam e desmandam em tudo; a
saber: num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não há moral, pública ou juridicamente
falando”.
Meça-se a crueza no exame de uma situação ainda não inteiramente mudada.
Perduram vícios, pois “no Brasil, a lei se deslegitima, anula e se torna
inexistente, não só pela bastardia da origem, senão ainda pelos horrores da
aplicação”. O estadista baiano, que não galgou à Presidência da República, não
deixa escapar oportunidade de apelar às escrituras. Declarou: “Ora, dizia São
Paulo que boa é a lei, onde executada com legitimidade.
As sessões a que se assistiu mostraram o nível intelectual dos
representantes que os cidadãos escolheram para representá-los
Para Rui, “de nada aproveitam leis, bem se sabe, não existindo quem as
ampare contra os abusos; e o amparo sobre todos essencial é o de uma Justiça
tão alta no seu poder, quanto na sua missão”.
Em determinado trecho de sua célebre oração, Rui lembrou Canuto, rei dos
vândalos. Este mandara executar uma quadrilha de salteadores quando um deles
pôs embargos, declarando-se parente de “el-Rei”. Foi peremptório Canuto na
decisão: “Se provar ser nosso parente, que o coloquem na forca mais alta”.

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