Mais do que gênio musical,
Prince era um artista completo
Alexandre Matias
A morte de Prince só não é
tão impactante quanto a de David Bowie no início deste ano
pois o artista inglês havia acabado de lançar um novo disco dias antes do
anúncio de sua passagem. Prince até tinha voltado ao noticiário
devido a um incidente médico na semana passada que deixou seus fãs apreensivos,
mas parecia ter sido apenas um susto. Até a trágica notícia desta quinta-feira.
Não é exagero dizer que Prince seja um artista equivalente à importância
do próprio Bowie. Ele também rompeu barreiras entre gêneros musicais, artísticos
e sociais, expandindo os limites de sua obra para outras mídias enquanto criava
uma personalidade masculina andrógina dona de todas as etapas de sua extensa
produção. Como Bowie também era um compositor e intérprete brilhante, emotivo e
perigoso na mesma medida. Mais que Bowie, era um monstro da produção musical,
um multiinstrumentista virtuoso, dançarino irresistível – um gênio musical que
roçava ombros com James Brown, Marvin Gaye, Aretha Franklin, Stevie Wonder e
Michael Jackson, sempre mirando em entidades de uma dimensão superior, como
Miles Davis, Duke Ellington, Nina Simone.
Era uma versão masculina da Madonna que tocava todos os instrumentos que
queria aprender, um George Clinton que pilotava uma espaçonave sexual, inventor
de um funk sintético recheado de soul music e coberto pela estética do rock.
Ele ajudou a soul music e a discoteca a se transformarem no R&B moderno ao
acompanhar a evolução apontada pelo hip hop tocando instrumentos em vez de
discos. Um explorador sônico que usava timbres eletrônicos como desculpa para
desbravar ambientes musicais improváveis – e grudentos.
Porque além de tudo, ele era um senhor hitmaker. Daqueles compositores
com o toque de Midas, que transformam uma frase de efeito e um riff de guitarra
em uma canção memorável, que todos sabemos assobiar, que cantarolamos sem saber
a letra ou balbuciamos as partes instrumentais. Da disco music minimalista de
“Kiss'' (que sozinha pariu praticamente toda a cena eletrônica francesa dos
anos 90, Daft Punk incluso) ao R&B guitarreiro de “When Doves Cry'', da
monumental balada “Purple Rain'' ao o rap apocalíptico de “Sign O'the Times'',
do gospel new wave de “Let's Go Crazy'' ao soul funk de “I Wanna Be Your
Lover''. É um rosário de dezenas de músicas que impregnam nas entranhas do
cérebro ao mesmo tempo em que movimentam pés e quadris quase involuntariamente.
Também desafiou o showbusiness e pagou um alto preço por isso. Quando descobriu
que os originais de suas gravações não lhe pertenciam, resolveu encerrar seu
contrato entregando suas piores músicas em discos fracos no início dos anos 90,
para apenas cumprir tabela. Quando percebeu que o mercado podia faturar até
mesmo com discos que ele não considerava suficientemente bons, resolveu trocar
de nome e batizou-se com um símbolo impronunciável apenas para dificultar o
trabalho de sua gravadora para vendê-lo. O resultado foi a transformação da
personalidade do artista em uma figura excêntrica que queria ser chamada por um
imagem que não podia ser pronunciada, rotulando aquele desafio comercial de
maluquice e vendendo aquele novo Prince para seu velho público como se ele
tivesse apenas sendo exigente. A partir daí resolveu radicalizar e tirar fotos
com a palavra “escravo'' em inglês escrita no rosto. Não era só uma metáfora:
Prince se considerava escravo de um sistema que era dono de suas próprias
composições. Quando o contrato terminou, no fim dos anos 90, ele desafogou toda
sua produção do período em um disco triplo chamado Emancipation, cuja capa
exibia duas mãos quebrando uma corrente, numa imagem didática do acontecimento
para seu público. Mas aí o estrago já estava feito e parte de seus antigos fãs
acharam que o artista havia mesmo perdido a noção.
Essa desconfiança com o sistema também o deixou reticente com a internet
e vez por outra surgia uma notícia de que o artista pedia para que suas músicas
fossem retiradas de algum serviço online. Ele não tem conta em redes sociais,
tem pouquíssimas músicas em aplicativos de streaming, é dificílimo de ser
encontrado no YouTube e até mesmo em sites de download de torrents. Sua
histórica aversão ao meio digital como plataforma de distribuição acabou
impedindo que ele atingisse um público ainda maior.
Mas isso não diminui sua importância. Um artista completo, um gênio
musical, um homem da renascença, um popstar – Prince fará falta e é importante
que seu legado continue vivo.

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