segunda-feira, 25 de abril de 2016

FUGINDO DE NÓS MESMOS



De que guerra estamos fugindo?
Leida Reis



Maurício Lima, de 40 anos, pode ser considerado um fotógrafo de sorte. Ele trabalha no jornal The New York Times e ganhou o prêmio Pulitzer deste ano com imagens belas e tristes de refugiados da Síria, do Iraque e do Afeganistão. Já havia sido escolhido o melhor da fotografia ibero-americana com a cobertura das manifestações violentas em 2013, no Rio e em São Paulo, além de uma reportagem sobre a vida na Amazônia, em contraponto com a Copa do Mundo. A guerra na Ucrânia foi igualmente retratada com maestria pelas lentes de Maurício Lima.

Pensando melhor, Maurício Lima talvez não tenha tanta sorte assim. Ele é uma daquelas pessoas proibidas terminantemente de esquecer que o mundo está em guerra. A arte de captar desilusões no olhar de quem sobrevive e cheiro de injustiça em corpos entregues ao fim tem sua premiação, mas também tem seu preço.

A Unicef preferiu fugir da realidade nua e crua das fotos. Criou Sofia – que significa sabedoria e é o nome mais adotado para meninas em todo o mundo –, um rosto em 3D de uma garota que representa as crianças vítimas das fugas devastadoras das guerras. A entidade quis dar um rosto a todas as crianças invisíveis que fogem de homens armados que adentram suas casas, sentem medo dentro de barcos encharcados, morrem de fome e de frio. Os estúdios PixelGrinder criaram Sofia usando 500 fotos de crianças tiradas em zonas de conflito, como Sudão do Sul, Burundi, Ucrânia e Iêmen.
Maurício Lima não fotografará Sofia.

Sofia são muitas, essa é a sua maior verdade.

Maurício e Sofia são personagens de uma vida real, dividida entre o que se pode tocar, o que é de carne e osso, e o tecnológico, também capaz de nos remeter à dor dilacerante da guerra no mundo, que tortura e mata.

Se olhamos Sofia com a desculpa de que ela é apenas uma imagem, chegará o fotógrafo para nos mostrar o quão é real o rosto dessa criança, que grita pela vida. E quando nos recolhemos ao descanso das nossas casas, à noite, sabendo da disputa política a que o Brasil se submete, qual a guerra mais terrível para nossas consciências? São todas. Porque não fomos capazes de salvar o mundo do que há de pior em nós mesmos.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...