José Antônio Bicalho
Ok. Admito que venho criticando a
inércia do governo no combate à crise e que não tenho dado o devido espaço a
algumas iniciativas tomadas para o destravamento e a reativação da economia.
Vamos, então, a elas, não apenas para que não me chamem de injusto, mas também
para tentar verificar se, no conjunto, possuem força para tirar a economia do
buraco no qual o ex-ministro Joaquim Levy a jogou.
A primeira e mais importante é, sem
dúvida, a desvalorização do câmbio. Mesmo que o movimento fosse inevitável, já
que faltaria força ao Banco Central para conter a pressão de mercado, o certo é
que o governo permitiu e coordenou a flutuação declinante do real frente ao
dólar até o patamar atual de R$ 4, há anos reclamado pelo empresariado.
Os benefícios são, logicamente, o
incentivo à exportação, importante nesse momento de depressão dos preços das
commodities, e a substituição das importações, que compensará em parte a queda
do consumo interno.
Mas vamos àquilo que é fruto do
planejamento e da iniciativa do governo, e não da força do mercado. Para
destravar a agenda dos investimentos em infraestrutura, o governo anunciou no
início da semana o aumento da participação do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) no financiamento de projetos. Em hidrovias e
ferrovias, essa participação sobe de 70% para 80%, e em portos, de 50% para
70%. Em rodovias foram mantidos os 70% e em aeroportos, a participação subiu de
30% para 40%. Além de mais dinheiro, o crédito ficou mais barato, com maior
percentual do financiamento lastreado na Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP).
Trata-se de medida necessária para
incentivar a atração de capital internacional para obras e concessões de
infraestrutura e fazer decolar os desacreditados fundos de investimento em
debêntures de infraestrutura. Diante da queda nas exportações, da crise na
Petrobras e do recuo da atividade industrial, o investimento em infraestrutura
é a principal carta em mãos do governo para tentar incrementar a economia a
partir de setores estruturantes, como construção pesada, siderurgia, cimento,
bens de capital e outros.
Também nesta semana, tivemos o anúncio
da Caixa de que ampliará a fatia máxima de financiamento de imóveis usados de
50% para 70%. A medida beneficiará de maneira indireta as construtoras, já que
é com o dinheiro da venda do imóvel usado que a maior parte dos compradores de
imóveis novos pagam a entrada do financiamento. A construção civil está na
ponta de uma cadeia econômica extensa e não é preciso lembrar a importância do
setor para a geração de empregos.
A estas iniciativas se soma outra mais
antiga, do fim de janeiro, que prevê o aumento da oferta de crédito ao
consumidor e às empresas por meio da concessão de R$ 83 bilhões via bancos
públicos. E olhando para frente, o governo promete enviar ao Congresso as
reformas tributária e previdenciária, e trabalha numa reforma fiscal que lhe dê
maior autonomia na gestão dos gastos obrigatórios, uma terrível amarra.
Aí estão as principais ações do
governo no sentido de reverter a crise e recolocar o país nos trilhos do
crescimento, mirando o médio e longo prazos. Mas é no curto prazo que está o
problema. Para fazer a economia voltar a girar, é fundamental um empurrão
inicial. Este viria de um drástico corte na taxa básica de juros, de injeções
de liquidez direcionadas ao crédito para consumo e financiamento da produção e
do anúncio de um programa de investimento direto do governo em infraestrutura.
O governo precisa ser pró-ativo para afastar o baixo astral e o pessimismo que
domina os agentes econômicos. Se demorar mais, corre o risco de já ter perdido
todo o dinheiro, crédito ou capital político para fazê-lo.

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