sexta-feira, 11 de março de 2016

PRIMEIRO - TERMINAR AS OBRAS INACABADAS E ABANDONADAS




José Antônio Bicalho




Ok. Admito que venho criticando a inércia do governo no combate à crise e que não tenho dado o devido espaço a algumas iniciativas tomadas para o destravamento e a reativação da economia. Vamos, então, a elas, não apenas para que não me chamem de injusto, mas também para tentar verificar se, no conjunto, possuem força para tirar a economia do buraco no qual o ex-ministro Joaquim Levy a jogou.
A primeira e mais importante é, sem dúvida, a desvalorização do câmbio. Mesmo que o movimento fosse inevitável, já que faltaria força ao Banco Central para conter a pressão de mercado, o certo é que o governo permitiu e coordenou a flutuação declinante do real frente ao dólar até o patamar atual de R$ 4, há anos reclamado pelo empresariado.
Os benefícios são, logicamente, o incentivo à exportação, importante nesse momento de depressão dos preços das commodities, e a substituição das importações, que compensará em parte a queda do consumo interno.
Mas vamos àquilo que é fruto do planejamento e da iniciativa do governo, e não da força do mercado. Para destravar a agenda dos investimentos em infraestrutura, o governo anunciou no início da semana o aumento da participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento de projetos. Em hidrovias e ferrovias, essa participação sobe de 70% para 80%, e em portos, de 50% para 70%. Em rodovias foram mantidos os 70% e em aeroportos, a participação subiu de 30% para 40%. Além de mais dinheiro, o crédito ficou mais barato, com maior percentual do financiamento lastreado na Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP).
Trata-se de medida necessária para incentivar a atração de capital internacional para obras e concessões de infraestrutura e fazer decolar os desacreditados fundos de investimento em debêntures de infraestrutura. Diante da queda nas exportações, da crise na Petrobras e do recuo da atividade industrial, o investimento em infraestrutura é a principal carta em mãos do governo para tentar incrementar a economia a partir de setores estruturantes, como construção pesada, siderurgia, cimento, bens de capital e outros.
Também nesta semana, tivemos o anúncio da Caixa de que ampliará a fatia máxima de financiamento de imóveis usados de 50% para 70%. A medida beneficiará de maneira indireta as construtoras, já que é com o dinheiro da venda do imóvel usado que a maior parte dos compradores de imóveis novos pagam a entrada do financiamento. A construção civil está na ponta de uma cadeia econômica extensa e não é preciso lembrar a importância do setor para a geração de empregos.
A estas iniciativas se soma outra mais antiga, do fim de janeiro, que prevê o aumento da oferta de crédito ao consumidor e às empresas por meio da concessão de R$ 83 bilhões via bancos públicos. E olhando para frente, o governo promete enviar ao Congresso as reformas tributária e previdenciária, e trabalha numa reforma fiscal que lhe dê maior autonomia na gestão dos gastos obrigatórios, uma terrível amarra.
Aí estão as principais ações do governo no sentido de reverter a crise e recolocar o país nos trilhos do crescimento, mirando o médio e longo prazos. Mas é no curto prazo que está o problema. Para fazer a economia voltar a girar, é fundamental um empurrão inicial. Este viria de um drástico corte na taxa básica de juros, de injeções de liquidez direcionadas ao crédito para consumo e financiamento da produção e do anúncio de um programa de investimento direto do governo em infraestrutura. O governo precisa ser pró-ativo para afastar o baixo astral e o pessimismo que domina os agentes econômicos. Se demorar mais, corre o risco de já ter perdido todo o dinheiro, crédito ou capital político para fazê-lo.

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