sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

DEPRESSÃO HUMANA




Simone Demolinari



Entristecer faz parte da condição humana. É uma reação comum frente a uma frustração que impacta de maneira particular cada pessoa.
Por exemplo: alguém que foi demitido pode se sentir muito triste, enquanto outro nem se abala com o fato.
O que vai determinar o esmorecimento é a estrutura emocional de cada um – por isso, é um equívoco medir o sofrimento alheio através da autorreferência: “se eu perdi o emprego com dois filhos para criar, por que fulano, que é solteiro, está nesse sofrimento todo?”
Outro equívoco de quem julga é tentar demover a tristeza usando a desqualificação: “Não acredito que você esteja triste por ter perdido aquele emprego, que nem era bom”.
Há também quem compare o problema a uma dor maior que não tem nada a ver: “tanta gente doente no mundo e você aí triste porque perdeu o emprego?”.
Na maioria das vezes, essas falas têm a boa intenção de atenuar o sofrimento. O problema é que o fato principal perde a relevância e dá lugar a outras angústias: perder o emprego vai além da demissão, sente-se a dor de ser dispensável, inferiorizado, trocado, rejeitado. Fragilidades adormecidas vêm à tona. É preciso tratar com zelo a dor alheia – não é porque você não a sente que o outro também não deve sentir.
Se a tristeza merece cuidado, a depressão merece todo respeito.
Um quadro depressivo não é só aquele que incapacita o indivíduo. A distimia por exemplo, por não ser tão severa, acaba se incorporando ao estilo de vida da pessoa como se fosse um traço da sua personalidade. São indivíduos constantemente com o humor deprimido, sem energia, com sono ruim, apetite alterado, sem entusiasmo, irritadiços e que acabam levando o rótulo de “pessoas difíceis de conviver”. Já a depressão maior é marcante – nela, o indivíduo perde completamente o sentido da vida, juntamente com a incapacidade de sentir prazer, e apresenta fadiga crônica, falta de forças até para atividades simples, como tomar banho. O corpo da pessoa fica tão pesado que sua melhor amiga passa a ser a cama. Passa-se ali horas, dias ou meses.
Infelizmente, o maior entrave para superar a doença ainda é o preconceito. Doenças mentais são preconceituosamente vinculadas à fraqueza. Prova disso é que dificilmente algum diabético se recusaria a usar a insulina, alguém com câncer, a fazer quimioterapia, ou um doente renal, a se submeter à hemodiálise – mas frequentemente alguém deprimido recusa tratamento. Prefere vencer a doença com a força de vontade. Talvez, uma tentativa de mostrar para si mesmo que não é fraco.
Não há dúvida que mudar hábitos ruins e adquirir métodos saudáveis seja imprescindível para ajudar na recuperação não só da depressão, mas de qualquer doença, porém, é inegável o preconceito que acomete as doenças mentais. Como se a mente não pudesse adoecer.
Com base nesse preconceito e sem entender ao certo onde começa a depressão, muitos demoram a pedir ajuda. O escritor Andrew Salomon narrou com rara sabedoria a diferença entre tristeza e depressão: quando perguntaram a Santo Antônio como ele conseguia diferenciar entre os anjos que vinham a ele humildemente e os demônios que vinham sob rico disfarce, ele disse que percebia a diferença pelo modo como se sentia depois que eles iam embora.
Quando um anjo nos deixa, nos sentimos fortalecidos pela sua presença; já quando um demônio nos deixa, sentimos o terror de sua passagem.


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