Simone
Demolinari
Entristecer faz parte da condição
humana. É uma reação comum frente a uma frustração que impacta de maneira
particular cada pessoa.
Por exemplo: alguém que foi demitido
pode se sentir muito triste, enquanto outro nem se abala com o fato.
O que vai determinar o esmorecimento é a estrutura emocional de cada um – por isso, é um equívoco medir o sofrimento alheio através da autorreferência: “se eu perdi o emprego com dois filhos para criar, por que fulano, que é solteiro, está nesse sofrimento todo?”
O que vai determinar o esmorecimento é a estrutura emocional de cada um – por isso, é um equívoco medir o sofrimento alheio através da autorreferência: “se eu perdi o emprego com dois filhos para criar, por que fulano, que é solteiro, está nesse sofrimento todo?”
Outro equívoco de quem julga é tentar
demover a tristeza usando a desqualificação: “Não acredito que você esteja
triste por ter perdido aquele emprego, que nem era bom”.
Há também quem compare o problema a
uma dor maior que não tem nada a ver: “tanta gente doente no mundo e você aí
triste porque perdeu o emprego?”.
Na maioria das vezes, essas falas têm
a boa intenção de atenuar o sofrimento. O problema é que o fato principal perde
a relevância e dá lugar a outras angústias: perder o emprego vai além da
demissão, sente-se a dor de ser dispensável, inferiorizado, trocado, rejeitado.
Fragilidades adormecidas vêm à tona. É preciso tratar com zelo a dor alheia –
não é porque você não a sente que o outro também não deve sentir.
Se a tristeza merece cuidado, a
depressão merece todo respeito.
Um quadro depressivo não é só aquele
que incapacita o indivíduo. A distimia por exemplo, por não ser tão severa, acaba
se incorporando ao estilo de vida da pessoa como se fosse um traço da sua
personalidade. São indivíduos constantemente com o humor deprimido, sem
energia, com sono ruim, apetite alterado, sem entusiasmo, irritadiços e que
acabam levando o rótulo de “pessoas difíceis de conviver”. Já a depressão maior
é marcante – nela, o indivíduo perde completamente o sentido da vida,
juntamente com a incapacidade de sentir prazer, e apresenta fadiga crônica,
falta de forças até para atividades simples, como tomar banho. O corpo da
pessoa fica tão pesado que sua melhor amiga passa a ser a cama. Passa-se ali
horas, dias ou meses.
Infelizmente, o maior entrave para
superar a doença ainda é o preconceito. Doenças mentais são preconceituosamente
vinculadas à fraqueza. Prova disso é que dificilmente algum diabético se
recusaria a usar a insulina, alguém com câncer, a fazer quimioterapia, ou um
doente renal, a se submeter à hemodiálise – mas frequentemente alguém deprimido
recusa tratamento. Prefere vencer a doença com a força de vontade. Talvez, uma
tentativa de mostrar para si mesmo que não é fraco.
Não há dúvida que mudar hábitos ruins
e adquirir métodos saudáveis seja imprescindível para ajudar na recuperação não
só da depressão, mas de qualquer doença, porém, é inegável o preconceito que
acomete as doenças mentais. Como se a mente não pudesse adoecer.
Com base nesse preconceito e sem
entender ao certo onde começa a depressão, muitos demoram a pedir ajuda. O
escritor Andrew Salomon narrou com rara sabedoria a diferença entre tristeza e
depressão: quando perguntaram a Santo Antônio como ele conseguia diferenciar
entre os anjos que vinham a ele humildemente e os demônios que vinham sob rico
disfarce, ele disse que percebia a diferença pelo modo como se sentia depois
que eles iam embora.
Quando um anjo nos deixa, nos sentimos
fortalecidos pela sua presença; já quando um demônio nos deixa, sentimos o
terror de sua passagem.

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