José
Antônio Bicalho
Se tudo correr dentro do previsto, o
governo envia nesta quarta (21) ao Congresso a revisão da meta fiscal de 2015.
Conheceremos, então, de que forma o governo pretende limpar das contas públicas
as chamadas pedaladas fiscais (os atrasos no repasse de recursos dos programas
sociais do governo e de pagamento de juros aos bancos públicos) sem gerar um
desastre.
Nessa terça (20), agências de notícias
com acesso aos cálculos dos técnicos da equipe econômica já falavam que o
governo terá que assumir um déficit superior a R$ 50 bilhões, fruto do
somatório da limpeza das pedaladas com a atualização das perdas de arrecadação
com o desaquecimento da economia.
Assumir o déficit será desgastante,
mas é obrigatório já que a manutenção das pedaladas fiscais poderão servir de
argumento para responsabilizar Dilma em seu atual mandato e justificar um
pedido de abertura de processo de impeachment. Mas existem mecanismos para
minimizar o tamanho do rombo, principalmente junto ao BNDES.
O banco é credor e ao mesmo tempo
devedor do governo. Encontros de dívidas e adiantamento de pagamentos poderão
ser propostos e é isso que saberemos nesta quarta. Mas, independentemente das
saídas encontradas, o fato é que algum déficit primário para este ano parece
ser inevitável.
No vermelho
Teremos, então, três anos seguidos de
déficits primários, já que no ano passado as contas fecharam no vermelho em R$
32 bilhões e, para o próximo, pela proposta orçamentária de 2016 entregue ao
Senado no mês passado, é previsto novo déficit de R$ 30,5 bilhões (o
equivalente a 0,5% do PIB).
Como vocês se lembram, no início do
ano o governo havia previsto um superávit próximo de R$ 66 bilhões, equivalente
a 1,1% do PIB. Mas com as dificuldades para aprovar os cortes de despesa no
Congresso e o derretimento da arrecadação, já em julho o governo enviou ao
Congresso a primeira revisão da meta fiscal, para apenas R$ 8 bilhões, ou 0,15%
do PIB. Essa sequer foi ainda votada e aprovada e lança-se, nesta quarta (21),
a bomba do déficit sobre o Congresso.
Sem rumo
Déficit não é pecado. Por vezes,
pode-se gastar mais do que se arrecada e lançar mais alguns bilhões no estoque
da dívida, desde que se tenha algum propósito de crescimento e meta de reversão
da crise. Às ações do governo nesse sentido, dá-se o nome de política
anticíclica. Hoje, não temos nenhuma.
O que o governo faz é unicamente
cortar gastos, o que gera mais recessão e põe para rodar o moto-contínuo da
queda da arrecadação e de mais déficit.
O efeito mais perverso desse movimento
é o aumento da relação entre dívida pública e PIB. Provavelmente na próxima
semana o Tesouro Nacional divulgará o relatório da dívida de setembro, e
teremos uma noção mais precisa dessa evolução. Mas, pelos dados até outubro, a
dívida neste ano já havia crescido 17%, para R$ 2,296 trilhões, agregando-se ao
montante novos R$ 390 bilhões. Trata-se de uma velocidade que ameaça a equipe
econômica de perda do controle.

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