quarta-feira, 27 de abril de 2022

EXCALIBUR A MUNIÇÃO DE CANHÕES PESADOS

Foto: REUTERS/Alexander ErmochenkoPor Roberto Godoy – Jornal Estadão

Projéteis podem cruzar o céu por até 40 km para destruir concentrações de blindados, um posto de comando ou um núcleo de tropas em movimento

No século 5, a “Excalibur”, a espada do rei Arthur, tinha o poder de queimar os olhos e cegar o inimigo no campo de batalha. Cerca de 1600 anos depois, Excalibur, a munição de canhões pesados fornecida pelos EUA ao Exército da Ucrânia, pode mais.

Pode cruzar o céu por até 40 km para destruir concentrações de blindados, um posto de comando ou um núcleo de tropas em movimento. É capaz de atingir depósitos de suprimentos e de levar o fogo aos tanques de estocagem de combustíveis.

Excalibur, o projétil de artilharia, faz magia tecnológica: disparado como uma granada de canhão, em seguida abre pequenas asas estabilizadoras, segue as coordenadas programadas no GPS de bordo e chega ao destino transformado em míssil.

Ucranianos tomam tanque russo nos arredores de Kiev, em meados de abril: conflito se deslocou para leste

Ucranianos tomam tanque russo nos arredores de Kiev, em meados de abril: conflito se deslocou para leste Foto: NYT / NYT

Além do propelente químico convencional, usa um foguete miniaturizado para acelerar a 2.970 km/ hora no final da trajetória. Isso dura pouco. Mas é o tempo suficiente para ajustar a precisão.

O erro em relação ao ponto de impacto é inferior a 4 metros. Quase sempre não passa de 3 metros. É o diferencial: reduzir os danos colaterais.

O canhão entregue aos ucranianos é o M777, de 155 mm, o padrão do arsenal dos marine’ americanos. Até agora, já foram transferidos às forças de Kiev, 18 unidades com 40 mil projéteis. Entre as cerca de 2.200 munições simples destinadas a cada canhão, há perto de 150 cargas da classe Excalibur.

O preço dessas, por unidade, é de US$ 68 mil, segundo o setor de compras do Pentágono. O pacote todo é parte da ajuda de US$ 800 milhões dos EUA ao esforço de guerra da Ucrânia.

Os canhões obuseiros, pesam 4,2 toneladas, medem 10 metros e são operados por 8 artilheiros. As granadas comuns de 155mm tem abrangência de 23 km a 30 km.

Pesam 45 kg com 22 kg de explosivos de alta potência. A cadência de tiro é de 2 a 4 disparos por minuto, sob controle de um computador.

Os M777 chegaram na semana passada, “em um terminal fora da Ucrânia”, de acordo com o Pentágono, entre os dias 19 e 20, a bordo de imensos cargueiros C-17.

Foram então levados para uma instalação, não revelada, onde um grupo de militares ucranianos está sendo treinado para operar o equipamento. São instrutores, que depois vão preparar um efetivo maior.

O ciclo exige apenas 56 horas de ensaios. A maior dificuldade é a mudança de especificação. A artilharia ucraniana usa obuses moveis russos MsTA com granadas de 152mm.

Na reunião do presidente Volodmir Zelenski com os secretários americanos de Estado, Antony Blinken, e da Defesa, general Lloyd Austin, o clima estava tenso.

A viagem dos altos dirigentes foi cercada de sigilo e cuidados extremos. O voo só foi confirmado depois do pouso. Onde? Talvez na Polônia. Ou na Romênia.

Blinken disse que do avião até Kiev o percurso foi feito de trem. Austin comentou que o avião foi escoltado por caças em vários momentos.

A segurança dos secretários teria sido reforçada por um time dos super soldados Seal, da Marinha dos Estados Unidos, um dos melhores grupos combatentes do mundo. Não houve confirmação. Nem desmentido.

O encontro, iniciado de madrugada, discutiu o reforço de US$ 700 milhões em armamento e material variado. Acabou ficando em US$ 300 milhões. Mais adiante o restante será negociado.

 

FOTÓGRAFO DE SORTE

 

  1. Cultura 

Ninguém mentira, apenas o mundo tridimensional tangível era diferente do imaginado

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

Ela começou a usar um aplicativo de encontros. Estava fora da sua zona de conforto. As amigas tinham dito que funcionava. Parecia uma capitulação: o fim do flerte e do olhar furtivo no bar. Por que não tentar? Maria Alice criou coragem, fez um perfil e, instigada pela claque das colegas, entrou no jogo da sedução da internet.

Houve dezenas de acessos e de cantadas, das mais sutis às mais vulgares. Havia homens babacas no bar e nas redes, pensou. Havia, igualmente, os interessantes. 

Fotografia
Uma foto em um aplicativo de relacionamento é o ponto de partida para a crônica de Leandro Karnal Foto: Shutterbug75/Pixabay

Não foi o nome nem o corpo. Maria Alice foi seduzida por uma foto. Arthur estava em preto e branco, de perfil. Ele contemplava algo insinuado pelo olhar terno. Ela queria ser o objeto que ele contemplava. Aquele olhar era algo intenso, arfante, calmo e forte ao mesmo tempo. A essência da foto precedeu a existência. Ela pensou e conseguiu: tomariam um café na Paulista no fim da tarde.

O encontro ocorreu ao entardecer de um dia de abril. O céu do quarto mês é algo metafísico. Ela intuiu que aquele crepúsculo seria decisivo. Tudo foi dito no primeiro olhar ao vivo. Arthur? A voz dela não escondia a decepção. Era feio o mancebo? Não? Mal-arrumado, tosco de feições ou deselegante? De forma alguma! Apenas… ele era muito distante da foto. O olhar sépia da imagem era um contraste com o real. Ela baixou os olhos, constrangida. Ninguém mentira, apenas o mundo tridimensional tangível era diferente do imaginado. Ele notou logo. Era um homem com certo equilíbrio. Não ficou magoado. Achou-a doce. Por ele seguiriam em frente.

Era evidente que Maria Alice desejava sair dali. Terno, sem ressentimentos visíveis, o jovem perguntou: “O que eu posso fazer por você?”. Ela respondeu à queima-roupa, sem o tato diplomático que era sua marca: “Você poderia me dar o nome do seu fotógrafo?”. Ele entendeu, sorriu e passou o número de Alfredo… 

Maria Alice se desculpou e saiu constrangida. A foto tinha virado uma espécie de obsessão. Marcou hora com o profissional para o dia seguinte. Ainda seria abril, quem sabe se… Sim, desde que chegou ao estúdio na Vila Madalena, ela entendeu que não era o olhar de Arthur que ela desejara, todavia a sensibilidade de Alfredo que captara algo que excedia o carisma do fotografado. Foi amor à primeira vista. Casaram-se em três meses. Como o místico que encontra deus na obra da Natureza, Maria Alice encontrara sua divindade no fotógrafo que fizera o famoso retrato. Ela havia confundido criador e criatura, porém, agora estava feliz e com novas esperanças…

CONFLITO DE GERAÇÕES DEVEM COLABORAR ENTRE SI

 

UOL EdTech | EdCorp

Se o conceito darwinista de evolução considera que as espécies se adaptaram às mais diferentes situações para sobreviver, o entendimento sociológico da evolução não está muito longe disso. Mudanças sempre existiram, mas não na intensidade do último século, e profissionais de diferentes gerações precisam não só conviver, mas colaborar.

Com a geração Z (nascidos entre 1996 e 2010) chegando na vida adulta e ingressando no mercado de trabalho, estamos vivendo um momento único na história, com profissionais de 5 gerações diferentes ainda na ativa. E, ainda que existam conflitos de ideias e posicionamento entre eles, investir na diversidade etária é também um dos principais caminhos para escala e inovação. E é sobre isso que vamos falar hoje.

Enquanto boomers (nascidos entre 1946 e 1964) e millennials (nascidos entre 1980 e 1995) se digladiam num conflito de ideias e ideais não só no mercado de trabalho mas na economia em geral, profissionais de outras gerações ficam à sombra desse combate, sem pender nem para um lado e nem para o outro, como é o caso das gerações X (nascidos entre 1965 e 1979), Z e a Geração Silenciosa (de 1928 a 1945).

A razão para os boomers e os millennials estarem em lados opostos em tanta evidência tem muito a ver com o mundo e o cenário econômico que eles conheceram na infância e no começo da vida adulta: os boomers, filhos da Grande Geração (1901 a 1927) e da Geração Silenciosa viram na infância a recuperação de grandes crises e pós-guerras, um período de grandes liberações, a popularização da tv como mídia de massa e um período de bonança econômica fruto do trabalho de seus pais no começo da vida adulta. Eles são, inclusive, a geração com maior acumulo de patrimônio atualmente.

Já os millennials, filhos dos boomers e da geração X, tiveram uma infância abastada e permissiva, foram os pioneiros da revolução digital do .com, ingressando no mundo digital de maneira muito orgânica e são a geração com maior nível de educação. Mas também a única que enfrentou 3 crises econômicas globais e uma pandemia em sua vida adulta, sendo assim a geração mais instruída e com o menor acúmulo de patrimônio atuante no mercado.

É importante pensar, porém, que essas gerações não são as únicas presentes no mercado atual; é claro que se espera que pessoas com 70+ anos estejam aposentadas, mas a realidade do trabalho é outra. Não só por conta das turbulências econômicas das últimas décadas, mas porque como o trabalho hoje é mais intelectual que operacional, a troca entre gerações além de rica, é imprescindível para a evolução dos negócios. O que se precisa observar e mitigar para que profissionais de diferentes gerações troquem o conflito pela colaboração é:

explorar os pontos fortes de cada geração: enquanto os millennials e os zoomers são digital first, os profissionais mais experientes têm mais vivência de transformações do mercado e de modelos de negócio. O ganha-ganha dessa troca é a mentoria em negócios para os mais jovens e o beabá do digital para os mais experientes.

entender que a forma de trabalhar e as prioridades são diferentes: é possível que os profissionais mais experientes dêem preferência ao trabalho presencial. Mas, para os profissionais mais jovens – principalmente os da geração Z, que muitos deles nunca nem sequer foram ao escritório em suas jornadas profissionais. E, claro, os millennials que, apesar de terem vivido o presencial em boa parte de suas carreiras, se adequaram bem também a modelos mais assíncronos de trabalho. Compreender como e o que motiva cada profissional a trabalhar e entregar seus melhores resultados é um dos principais desafios para engajar equipes com grandes diferenças geracionais.

conflito nem sempre é sinal de problema: embora muitas empresas e profissionais evitem conflitos a qualquer custo, o antagonismo de ideias é essencial para a evolução de produtos, serviços e posicionamentos estratégicos e de marca. Se bem mediados e direcionados, o conflito geracional de percepções é um dos principais ganhos para a inovação e a evolução dos negócios.

como a cultura da empresa lida com as diferentes gerações: é muito comum que os mais jovens não sejam considerados em decisões estratégicas – ou mesmo táticas – do negócio, enquanto que os mais velhos fiquem “livres” de precisar se adequar a novas tecnologias ou formas de trabalhar porque trazem muita bagagem e conhecimento para a mesa. Embora isso aconteça de maneira velada, enquanto as culturas organizacionais permitirem esse tipo de ação, isso só continuará alimentando o conflito geracional ao invés de eliminá-lo.

Conforme caminhamos para um futuro em que aposentadoria não significa sair da força de trabalho e novas formas de trabalhar surgem diariamente, integrar as diferentes gerações é um dos principais desafios do mercado. Como a sua empresa está lidando com isso?

Como integrar diferentes gerações?

Capacitar os colaboradores da sua empresa não só para o dia a dia do trabalho, mas para as relações e trocas entre profissionais de diferentes gerações é imprescindível. E as coleções SapiênCia têm títulos voltados para esse tipo de capacitação. Confira algumas sugestões:

1 – Colaboração ágil e facilitação

2 – Inspirando equipes

3 – Cultura inclusiva e representatividade

4 – Barreiras invisíveis: os vieses inconscientes

5 – Liderança inclusive

6 – O papel do RH na promoção da diversidade

7 – Mudanças de mundo e transformação cultural

8 – Desenvolva times estratégicos

ESCALANDO NEGÓCIOS DA VALEON

1 – Qual é o seu mercado? Qual é o tamanho dele?

O nosso mercado será atingir os 766 mil habitantes do Vale do Aço e poder divulgar os produtos / serviços para vocês clientes, lojistas, prestadores de serviços e profissionais autônomos e obter dos consumidores e usuários a sua audiência.

A ValeOn atenderá a todos os nichos de mercado da região e especialmente aos pequenos e microempresários da região que não conseguem entrar no comércio eletrônico para usufruir dos benefícios que ele proporciona. Pretendemos cadastrar todas as empresas locais com CNPJ ou não e coloca-las na internet.

2 – Qual problema a sua empresa está tentando resolver? O mercado já expressou a necessidade dessa solução?

A nossa Plataforma de Compras e Vendas que ora disponibilizamos para utilização das Empresas, Prestadores de Serviços e Profissionais Autônomos e para a audiência é um produto inovador sem concorrentes na região e foi projetada para atender às necessidades locais e oferecemos condições de adesão muito mais em conta que qualquer outro meio de comunicação.

Viemos para suprir as demandas da região no que tange a divulgação de produtos/serviços cuja finalidade é a prestação de serviços diferenciados para a conquista cada vez maior de mais clientes e públicos.

O nosso diferencial está focado nas empresas da região ao resolvermos a dor da falta de comunicação entre as empresas e seus clientes. Essa dor é resolvida através de uma tecnologia eficiente que permite que cada empresa / serviços tenha o seu próprio site e possa expor os seus produtos e promoções para os seus clientes / usuários ao utilizar a plataforma da ValeOn.

3 – Quais métodos você usará para o crescimento? O seu mercado está propício para esse tipo de crescimento?

Estratégias para o crescimento da nossa empresa

  1. Investimento na satisfação do cliente. Fidelizar é mais barato do que atrair novos clientes.
  2. Equilíbrio financeiro e rentabilidade. Capital de giro, controle de fluxo de caixa e análises de rentabilidade são termos que devem fazer parte da rotina de uma empresa que tenha o objetivo de crescer.
  3. Desenvolvimento de um planejamento estratégico. Planejar-se estrategicamente é como definir com antecedência um roteiro de viagem ao destino final.
  4. Investimento em marketing. Sem marketing, nem gigantes como a Coca-Cola sobreviveriam em um mercado feroz e competitivo ao extremo.
  5. Recrutamento e gestão de pessoas. Pessoas são sempre o maior patrimônio de uma empresa.

O mercado é um ambiente altamente volátil e competitivo. Para conquistar o sucesso, os gestores precisam estar conectados às demandas de consumo e preparados para respondê-las com eficiência.

Para isso, é essencial que os líderes procurem conhecer (e entender) as preferências do cliente e as tendências em vigor. Em um cenário em que tudo muda o tempo todo, ignorar as movimentações externas é um equívoco geralmente fatal.

Planeje-se, portanto, para reservar um tempo dedicado ao estudo do consumidor e (por que não?) da concorrência. Ao observar as melhores práticas e conhecer quais têm sido os retornos, assim podemos identificar oportunidades para melhorar nossa operação e, assim, desenvolver a bossa empresa.

4 – Quem são seus principais concorrentes e há quanto tempo eles estão no mercado? Quão grandes eles são comparados à sua empresa? Descreva suas marcas.

Nossos concorrentes indiretos costumam ser sites da área, sites de diretório e sites de mídia social. Nós não estamos apenas competindo com outras marcas – estamos competindo com todos os sites que desejam nos desconectar do nosso potencial comprador.

Nosso concorrente maior ainda é a comunicação offline que é formada por meios de comunicação de massa como rádios, propagandas de TV, revistas, outdoors, panfletos e outras mídias impressas e estão no mercado há muito tempo, bem antes da nossa Startup Valeon.

5 – Sua empresa está bem estabelecida? Quais práticas e procedimentos são considerados parte da identidade do setor?

A nossa empresa Startup Valeon é bem estabelecida e concentramos em objetivos financeiros e comerciais de curto prazo, desconsideramos a concorrência recém chegada no mercado até que deixem de ser calouros, e ignoramos as pequenas tendências de mercado até que representem mudanças catastróficas.

“Empresas bem estabelecidas igual à Startp Valeon devemos começar a pensar como disruptores”, diz Paul Earle, professor leitor adjunto de inovação e empreendedorismo na Kellogg School. “Não é uma escolha. Toda a nossa existência está em risco”.

6 – Se você quiser superar seus concorrentes, será necessário escalar o seu negócio?

A escalabilidade é um conceito administrativo usado para identificar as oportunidades de que um negócio aumente o faturamento, sem que precise alavancar seus custos operacionais em igual medida. Ou seja: a arte de fazer mais, com menos!

Então, podemos resumir que um empreendimento escalável é aquele que consegue aumentar sua produtividade, alcance e receita sem aumentar os gastos. Na maioria dos casos, a escalabilidade é atingida por conta de boas redes de relacionamento e decisões gerenciais bem acertadas.

Além disso, vale lembrar que um negócio escalável também passa por uma fase de otimização, que é o conceito focado em enxugar o funcionamento de uma empresa, examinando gastos, cortando desperdícios e eliminando a ociosidade.

Sendo assim, a otimização acaba sendo uma etapa inevitável até a conquista da escalabilidade. Afinal de contas, é disso que se trata esse conceito: atingir o máximo de eficiência, aumentando clientes, vendas, projetos e afins, sem expandir os gastos da operação de maneira expressiva.

Pretendemos escalar o nosso negócio que é o site marketplace da Startup Valeon da seguinte forma:

  • objetivo final em alguma métrica clara, como crescimento percentual em vendas, projetos, clientes e afins;
  • etapas e práticas que serão tomadas ao longo do ano para alcançar a meta;
  • decisões acertadas na contratação de novos colaboradores;
  • gerenciamento de recursos focado em otimização.

terça-feira, 26 de abril de 2022

RECUO DO STF

 

Relação entre os poderes

Por
Renan Ramalho – Gazeta do Povo
Brasília

O Palácio do Planalto visto do Supremo: STF deve aguardar mais tempo antes de analisar indulto de Bolsonaro para Daniel Silveira| Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deverão evitar, ao menos no curto prazo, reações duras, seja por meio de declarações fortes ou decisões adversas, ao indulto concedido pelo presidente Jair Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), e à nota do Ministério da Defesa que repudiou falas recentes do ministro Luís Roberto Barroso sobre a participação das Forças Armadas no processo eleitoral.

A avaliação de boa parte deles, apurou a Gazeta do Povo, é de que o momento exige acalmar os ânimos e evitar ações que escalem uma nova crise institucional com o Executivo. Um dado diferencial em relação a outros episódios de tensão é que, desta vez, o STF está mais isolado que no passado, quando recebeu apoio dos presidentes da Câmara e do Senado, o que não ocorreu agora. Uma oposição das Forças Armadas deixaria a situação ainda pior.

No STF, o decreto de Bolsonaro que perdoou a pena de prisão de Silveira pegou os ministros de surpresa e, nos bastidores, alguns criticaram o presidente da Corte, Luiz Fux, por não antever esse cenário – um diálogo mais constante com o Executivo e o Congresso poderia ter antecipado um cenário assim, de modo a preparar previamente uma resposta ou uma solução para o caso. Seu entorno avalia que a Corte precisará dar uma resposta firme, mas serena, em relação ao episódio. Várias questões levam a essa postura, de ordem jurídica, política e institucional.

Dificuldades jurídicas e políticas para derrubar o indulto no STF
No aspecto jurídico, a jurisprudência mais recente do Supremo reconhece a ampla liberdade discricionária do presidente da República para conceder a graça individual ou o indulto coletivo. Esse entendimento foi firmado há três anos no julgamento que validou um decreto do ex-presidente Michel Temer (MDB), editado em 2017, que beneficiou condenados por corrupção.

Apesar de vários juristas, em geral críticos de Bolsonaro, terem apontado na imprensa problemas no decreto do presidente, e inspirado partidos de oposição a contestá-los na Corte, ainda não há, entre os ministros, um consenso mínimo sobre um caminho jurídico robusto e viável para derrubá-lo.

Vários argumentos contrários – desvio de finalidade, ausência de trânsito em julgado, quebra da impessoalidade ou moralidade – foram, em alguma medida, enfrentados no julgamento de 2018.

“Compete ao Presidente da República definir a concessão ou não do indulto, bem como seus requisitos e a extensão desse verdadeiro ato de clemência constitucional, a partir de critérios de conveniência e oportunidade”, diz a ementa da decisão, que sintetiza o entendimento firmado, e que foi redigida por Alexandre de Moraes, relator da condenação de Silveira.

A ementa também diz que o Judiciário – no caso, o próprio STF – pode analisar a constitucionalidade do decreto, mas não seu mérito, “que deve ser entendido como juízo de conveniência e oportunidade do Presidente da República, que poderá, entre as hipóteses legais e moralmente admissíveis, escolher aquela que entender como a melhor”.

Para muitos ministros, significa que o STF poderia tão somente derrubar um decreto que descumprisse uma regra expressa da Constituição, no caso, uma que proíbe o perdão de crimes hediondos, tortura, terrorismo e tráfico de drogas – esse, aliás, é o entendimento da ministra Rosa Weber, que foi sorteada para relatar as ações contra o decreto a favor de Silveira.

No julgamento do indulto de Temer, ela também disse que, no seu entendimento, o ato é político e não administrativo, o que, em tese, afastaria argumentos de que o decreto não atenderia aos princípios exigidos da administração pública (moralidade e impessoalidade).

Não foram só a surpresa e a dificuldade jurídica que levaram os ministros a recuar, mas também o desafio de orquestrar uma maioria interna para uma solução que derrube o decreto. Em primeiro lugar, os atuais cinco ministros que votaram a favor do indulto de Temer teriam de virar ou relativizar o entendimento que adotaram em 2018.

Além disso, a perspectiva é que Kassio Nunes Marques e André Mendonça votem por manter o decreto – o último estaria propenso a isso depois das críticas que recebeu de apoiadores do presidente por condenar Silveira. Uma decisão rápida do plenário, nesse momento, teria alto risco de manter o indulto, o que representaria uma derrota humilhante para o STF.

O melhor, avaliam vários ministros, é deixar um tempo passar para uma decisão que contemple todos os lados do entrevero entre os poderes.

Nesse sentido, o STF poderia abrir mão da condenação, e da pena de prisão e multa, mas desde que ficasse assentado que o TSE poderia declarar Silveira inelegível pela Lei da Ficha Limpa – sob o fundamento jurídico que o indulto só elimina a punição penal, mas não efeitos secundários da condenação, compreensão que já tem precedentes e foi adotado por Rosa Weber em 2018. Afinal, o principal interesse dos ministros é impedir que Silveira, apoiado por Bolsonaro, se lance candidato ao Senado e faça uma campanha com a bandeira de confrontar o STF, como já demonstrou inúmeras vezes em discursos e atos.

A expectativa é que essa solução acalme, em alguma medida, o Executivo, levando-se não só o fato de Bolsonaro ter feito do indulto uma questão de honra – nesta segunda, ele disse a agricultores, importante base de apoio, que o decreto “é constitucional e será cumprido” – como também informações de que generais e chefes do Centrão avalizaram a medida.

O Congresso, por sua vez, seria atendido na pretensão de dar a palavra final sobre a cassação do mandato de Silveira. Na semana passada, logo após a condenação do deputado, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), apresentou um recurso ao STF exigindo que a perda do mandato seja decidida em votação interna, e não decretada de forma automática, como indicou o voto de Alexandre de Moraes e seguido pela maioria dos ministros.

Essa espécie de “acordão”, no entanto, considerada ideal, ainda precisa ser alinhavada internamente e com os interlocutores dos demais poderes nos bastidores.

Outro fator que favorece a postura de dar um tempo para esfriar a crise é a postura de Rosa Weber, a relatora das ações contra o decreto. A ministra, que já costuma ser reservada – nunca fala fora dos autos, se afasta de conchavos internos e é avessa às articulações políticas – ainda não deu nenhum sinal do que fará aos ministros com quem mais dialoga.

O mais provável é que, antes de qualquer coisa, ela siga o manual: peça manifestações de todos os órgãos envolvidos sobre a questão – Presidência da República, Advocacia-Geral da União, Congresso, Procuradoria-Geral da República. Só depois de recebidos os pareceres, ela poderia então levar a questão diretamente ao plenário e não tomar uma decisão liminar monocrática.


Contenção no TSE
O silêncio, por ora, também deve prevalecer no TSE, cujo presidente Edson Fachin não sinalizou qualquer disposição, nesta segunda-feira (25), de responder à nota da Defesa que considerou como “ofensa grave” e “irresponsável” uma declaração do ex-presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, deste domingo (24), segundo a qual as Forças Armadas foram “orientadas para atacar o processo e tentar desacreditá-lo”.

Uma primeira razão para não responder é que Barroso, apesar de ter sido o responsável por convidar as Forças Armadas para certificar a segurança do sistema de votação, não integra mais o TSE e que sua crítica foi direcionada a Bolsonaro, não aos militares em geral.

Fachin, por outro lado, tem tentado angariar apoio institucional de forma discreta e por meio do diálogo, de modo a respaldar a posição da Corte em caso de conflito com o Executivo.

Nesta segunda, por exemplo, numa reunião que estava marcada desde março, o ministro reuniu em seu gabinete representantes de todas as instituições que, assim como as Forças Armadas, foram chamadas para compor a Comissão de Transparência Eleitoral (CTE). Ele anunciou a aprovação de um Plano de Ação, que incorpora sugestões feitas pelos militares e por outras entidades para aprimorar a segurança e a confiança nas urnas eletrônicas.

No discurso inicial, deu boas-vindas para as senadoras Eliziane Gama (Cidadania-MA) e Kátia Abreu (PP-TO) e a deputada Margarete Coelho (PP-AL), todas bastante influentes no Congresso, e que agora passam a compor o grupo. Fachin fez um apelo para que todas as instituições colaborem não só para acompanhar de perto as medidas adotadas para melhorar o sistema, como também garantam apoio ao tribunal diante das críticas e desconfianças.

“O Tribunal Superior Eleitoral avança com passos firmes em direção ao cumprimento da sua missão de diplomar as eleitas e eleitos das futuras eleições gerais não apenas porque fazemos bom uso de recursos tecnológicos. Antes, o nosso êxito e credibilidade têm raiz na crença que compartilhamos de que a democracia é inegociável, de que a Justiça Eleitoral é um patrimônio imaterial da sociedade brasileira e de que atacá-la equivale a atacar a própria democracia”, disse o ministro.


Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/republica/ordem-no-stf-e-no-tse-e-de-recuo-apos-indulto-a-silveira-e-nota-dura-da-defesa/
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POLÍTICA CAMBIAL, CARGA DE IMPOSTOS E JUDICIALIZAÇÃO SÃO OS ENTRAVES DA INDUSTRIALIZAÇÃO

Editorial
Por
Gazeta do Povo

| Foto: Arquivo/Gazeta do Povo

Nos anos 1970, um dos temas mais presentes nos debates políticos e econômicos era a necessidade de o Brasil se industrializar. O significado disso vinha da constatação de que o subdesenvolvimento brasileiro responsável pela baixa renda por habitante e pela pobreza decorria de o país ter focado sua economia na agricultura, com um setor industrial pequeno, atrasado e primário. Na linguagem da contabilidade nacional, a economia é registrada sob três grandes setores: o setor primário (atividades produtivas ligadas às matérias-primas oriundas da agricultura, pecuária, mineral, extração vegetal, florestal e pesca); o setor secundário (indústria de transformação das matérias-primas e recursos naturais em bens e serviços aptos para consumo ou investimento); e o setor terciário (comércio, transporte, armazenagem, movimentação portuária, aeroportos, educação, saúde, lazer, turismo, atividades culturais etc.).

O Brasil era caracterizado como economia focada na produção do setor primário, na exportação de matérias-primas e commodities agrícolas e minerais, e altamente dependente de suprimentos internacionais de produtos de consumo industrializados, máquinas, equipamentos, tecnologias e capitais financeiros. Os motivos que os críticos invocavam para condenar a política econômica adotada pelos governos dos últimos 200 anos, desde que o país declarou sua independência em 1822, era o atraso tecnológico, industrialização pequena e atrasada, baixos salários, baixo valor agregado dos produtos do setor primário e, por isso mesmo, incapacidade de superar a pobreza.

Os termos de trocas internacionais são desvantajosos para um país focado no setor primário, atrasado em termos de parque industrial e importador de produtos feitos com as matérias-primas exportadas por ele, cujo exemplo mais simples é a exportação de minério de ferro a preços baixos comparados com os altos preços pagos na importação de aço feito do próprio minério. Um exemplo atual da insuficiência da indústria de transformação, fácil para a compreensão do problema, é a relação de preço de uma saca de café exportada pelo Brasil com o preço de importação de cápsulas de café prontas para consumo, cuja diferença de preços representa perda para a economia nacional e consequências em termos de baixa geração de emprego, produto, renda e tributos.

O setor industrial sempre foi prejudicado com a precariedade na infraestrutura física, a elevada carga tributária, o ambiente jurídico lento e instável, a legislação trabalhista complicada, a burocracia sufocante e a instabilidade macroeconômica

Assim, o núcleo do debate nos anos 1970 era que o Brasil não houvera conseguido desenvolver um setor industrial robusto capaz de contribuir para o progresso econômico, aumento da renda por habitante, elevação do nível de emprego e maiores salários médios. Um dado sintomático dessa realidade é que, do total da população brasileira em 1970 (94 milhões de habitantes), 46% vivam na zona rural. O êxodo rural que se seguiu após a grande geada em 1975 e prosseguiu nos anos 1980 encontrou um país urbano de economia industrial pequena e atrasada, incapaz de abrigar a multidão de famílias vindas da zona rural, em geral com baixa escolaridade e precária qualificação técnica. Por óbvio, o setor comercial e demais serviços decorrem da robustez ou fragilidade do setor primário e do setor secundário. Sendo estes dois setores pequenos, atrasados em tecnologia e com baixa produtividade, o resultado é pobreza e subdesenvolvimento.

Nesse cenário, fazia sentido que a grande questão da economia brasileira fosse a necessidade de acelerar o desenvolvimento do setor secundário pela criação de um parque industrial nacional moderno e grande o suficiente para atender a população do país, que seguia crescendo. Aos tropeços, o Brasil conseguiu alguma expansão de seu setor secundário; as políticas industriais criaram parques fabris, sobretudo nas cidades acima de 100 mil habitantes. Porém, o acelerado crescimento populacional (214 milhões de habitantes ao fim de 2021) e a rápida evolução da tecnologia dos anos 1990 para cá fizeram que o Brasil chegasse ao fim da segunda década deste século 21 com um setor industrial relativamente pequeno, envelhecido em termos de idade, atrasado em modernização tecnológica e carente de urgente crescimento e modernização, ainda que em alguns poucos segmentos o Brasil esteja em padrões bastante avançados.

Se a industrialização tardia levou o país ao baixo grau de industrialização nos anos 1970 e 1980, dificultou o aumento da renda média nacional e impôs taxas de desemprego altas na maioria dos anos, outro efeito decorreu desse cenário real: o setor industrial brasileiro não teve desenvolvimento tecnológico rápido e nos padrões dos países desenvolvidos, e seguiu com baixa produtividade, de forma que a cada vez que o país tentou abrir sua economia ao exterior, como aconteceu no governo Collor, no início dos anos 1990, houve a revelação de que as empresas industriais brasileiras não conseguiam competir com os concorrentes estrangeiros. Assim, os empresários do setor passaram a demandar medidas protecionistas e subsídios, além de muitas propostas para reduzir a abertura da economia ao exterior. Ainda hoje, a economia brasileira é considerada uma das mais fechadas entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento.


De qualquer forma, nos anos 1970 e 1980 houve alguma expansão industrial no Brasil, embora a passos lentos. Na sequência, sobretudo após a abertura ensaiada pelo governo Collor, a grita se concentrou na “desindustrialização”, isto é, temia-se que o Brasil veria fechamento de muitas fábricas, pela incapacidade de competirem no exterior e com produtos importados mais baratos que os fabricados internamente. A desindustrialização, em forma de fechamento de empresas industriais nacionais, acabou ocorrendo em setores específicos, e o mais grave é que o Brasil sofreu o processo de desindustrialização antes de atingir elevado grau de industrialização.

Foi nesse contexto que as empresas industriais começaram a pedir três coisas: baixa taxa de juros, taxa de câmbio desvalorizada (elevado preço do dólar), subsídios tributários e linhas oficiais de crédito para financiamento de bens de capital. Essa mesma discussão está ocorrendo atualmente, tanto que bastou o preço do dólar cair de R$ 5,70 para R$ 4,60 em poucas semanas entre março e abril de 2022 para que surgissem vozes, não poucas, exaltando que o país sufocará o setor industrial exportador e vários setores que, embora não exportem, não conseguirão competir com o produto importado.

É justo reconhecer que o setor industrial sempre foi prejudicado com a precariedade na infraestrutura física (transportes, armazenagem, energia, portos e aeroportos – atividades historicamente dominadas pelo setor estatal), a elevada carga tributária, o ambiente jurídico lento e instável, a legislação trabalhista complicada, a burocracia sufocante e a instabilidade macroeconômica, sobretudo por obra da inflação. Nesse cenário, é lícito exigir dos governantes que, a partir do ano que vem, após as eleições federias e estaduais, o país consiga melhorar sua legislação de investimento estrangeiro e os marcos regulatórios da infraestrutura (incluindo as concessões e as privatizações), bem como a definição da política cambial, da abertura ao exterior e da política de importação de tecnologias.


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ELON MUSK COMPRA TWITTER

 

Estados Unidos
Por
Agência EFE – Gazeta do Povo

Segundo a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, o presidente Joe Biden defende “que as plataformas de tecnologia devem ser responsabilizadas pelos danos que causam”| Foto: EFE/EPA/Oliver Contreras

A Casa Branca reiterou nesta segunda-feira (25) seu pedido para que o Congresso dos Estados Unidos aprove novos regulamentos que obriguem redes sociais como o Twitter a serem responsabilizadas pelos “danos que causam”.

A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, fez esta declaração logo após o Twitter anunciar que havia aceitado a oferta de aquisição do empresário sul-africano Elon Musk por cerca de US$ 44 bilhões (cerca de R$ 215 bilhões).

Psaki se recusou a comentar a “transação específica” entre Musk e o Twitter, mas disse que, seja quem for o dono da empresa, o presidente dos EUA, Joe Biden, “há muito se preocupa com o poder das grandes plataformas de mídia social”.

“(Biden) vem dizendo há muito tempo que as plataformas de tecnologia devem ser responsabilizadas pelos danos que causam”, ressaltou a porta-voz em sua entrevista coletiva diária.

Psaki declarou ainda que o presidente americano “apoia fortemente a aprovação de reformas fundamentais para atingir esse objetivo”, incluindo reformas antitruste que “exigem mais transparência” nesses tipos de fusões ou aquisições.

Biden também acredita que deve ser reformada a chamada Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações de 1996, lembrou a porta-voz.

Essa seção estipula que as grandes empresas de internet estão isentas de quase todas as consequências legais decorrentes do conteúdo postado em suas plataformas e até mesmo de suas próprias decisões de remoção de conteúdo, porque deveriam ser meros intermediários ou canais.

Por fim, Psaki acrescentou que há “interesse bipartidário” no Congresso em promover esse tipo de reforma, algo que “tranquiliza” Biden.

Antes de comprar o Twitter, Musk vinha sendo altamente crítico à rede social e questionou se suas regras seguem “rigorosamente” o princípio da liberdade de expressão.

Essas regras levaram à suspensão de contas de figuras da direita, incluindo o ex-presidente dos EUA Donald Trump (2017-2021), banido do Twitter desde janeiro de 2021 depois que a empresa alegou que suas mensagens instigaram o ataque ao Capitólio.

Em entrevista à emissora Fox News nesta segunda-feira, Trump comentou que não quer voltar ao Twitter e que planeja em breve ingressar na rede social alternativa que vem promovendo, a Truth Social.
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NOVA YORK – O que está em jogo na oferta de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, pelo Twitter? A proposta de compra da plataforma por US$ 44 bilhões foi analisada nesta semana pelo Conselho de Administração da empresa e um acordo foi fechado entre o bilionário e acionistas. 

Mas uma confluência de interesses pode fazer com que o impacto da aquisição da rede social pelo bilionário fundador da Tesla vá muito além dos negócios — influenciando desde os rumos da democracia nos Estados Unidos à política em diversos países.

Musk tem deixado claro que seu principal objetivo ao comprar o Twitter é apoiar a liberdade irrestrita de publicações na plataforma e reduzir o uso de marcadores ou remoções de conteúdos inapropriados. 

— É muito importante que exista uma arena inclusiva para a liberdade de expressão — afirmou o bilionário este mês em uma conferência. — O Twitter se tornou uma praça pública de fato, então é muito importante que as pessoas tenham tanto a possibilidade concreta como a percepção de que são livres para falar, dentro dos limites da lei.

Apesar de seu próprio histórico pessoal de tolerância com discursos contrários aos seus interesses seja dúbio, Musk definiu assim, na conferência, o que seria na sua visão a liberdade de expressão:

— Um bom sinal se há liberdade de expressão é o seguinte: alguém que você não gosta pode falar algo que você não gosta? Se a resposta é sim, então há liberdade de expressão.

Musk costuma dizer que prefere ficar longe da política, mas há bons motivos para suspeitar que tendo o Twitter como uma empresa sua, ele poderia reativar a conta do ex-presidente americano Donald Trump.

Trump foi banido permanentemente do Twitter após a invasão do Capitólio, em janeiro do ano passado, “devido ao risco de novas incitações à violência”, como justificou a plataforma na ocasião. 

Na mesma conferência em que defendeu a liberdade de expressão, Musk disse que seria “muito cauteloso” em relação a banimentos permanentes em plataformas como o Twitter.

Em outros momentos, sua visão de mundo se aproximou à de Trump, como há dois anos, quando o então presidente americano apoiou os planos da Tesla de reabrir sua fábrica na Califórnia em pleno lockdown do estado para conter a Covid.

E, em tuítes recentes, o bilionário aparentemente absorveu muitas das ideias da extrema direita americana em sua guerra cultural: “O vírus da mente desperta está deixando a Netflix impossível de se assistir”, escreveu.

O site de análise política Politico pontuou, recentemente, que os políticos conservadores americanos consideram que Trump será o “salvador do Twitter”.

Em entrevista ao site, o deputado republicano Darrell Issa, da Califórnia, disse que Musk “poderia levar o Twitter a uma direção muito melhor” para aqueles que, segundo Issa, foram “injustamente silenciados ou censurados pela ofensiva do Twitter contra o discurso conservador e contra as ideias de que a plataforma não gosta”.

“Os censores do Twitter estão enlouquecendo porque não podem comprar o silêncio de Elon Musk. Claramente, as big techs não conseguem lidar com quem pensa diferente delas”, tuitou a senadora republicana pelo Tennessee Marsha Blackburn. 

Musk sempre foi um grande doador do American Civil Liberties Union, entidade que defende o “livre discurso” de todos os candidatos e que argumenta que todos os políticos deveriam ter acesso ilimitado e sem travas às mídias sociais, não importa os riscos envolvidos.

É por isso que a proposta de Musk pelo Twitter parece ser bem mais do que uma aquisição de negócios, mas sim uma “compra política”, remetendo a episódios do passado, como a aquisição, pelo bilionário australiano Rupert Murdoch, do New York Post em 1976 e do Wall Street Journal em 2007.

Musk, que já disse “não ligar para as questões econômicas” de comprar o Twitter, parece querer um diferente tipo de poder: controlar um dos maiores megafones do mundo e, com isso, conseguir impor sua ideologia libertária em temas como moderação – ou falta de moderação – e desinformação.

E assim como Murdoch já foi acusado de usar suas publicações para defender os interesses de seus negócios, Musk também terá não só motivações pessoais como financeiras para reabilitar vozes hoje banidas pelo Twitter. Por exemplo, se Trump for reeleito e a Tesla conseguir retomar seus créditos tributários para a produção de veículos elétricos, Musk pode ser tentado a permitir sua volta ao Twitter.

E, com mais de 80 milhões de seguidores, Musk já usa o Twitter como uma máquina poderosa de marketing para suas empresas.

A pressão política pode ser ainda mais forte fora dos Estados Unidos. Em 2020, o Twitter começou a marcar como “mídia de filiação estatal” as contas de membros do governo e de grupos de comunicação governamentais da China.

Além de marcar essas publicações, a plataforma adotou medidas para que esses tuítes não tivessem grande alcance na rede. A Tesla tem grandes interesses comerciais na China e, para atingi-los, precisa do apoio do presidente Xi Jinping. Como Musk lidaria com essa moderação do Twitter em relação aos posts de órgãos estatais chineses?

E, se outro titã do mundo tecnológico, Jeff Bezos, da Amazon, prometeu — e até agora cumpriu — não misturar negócios com decisões editoriais após sua aquisição do Washington Post em 2013, Musk parece estar fazendo justamente o contrário. 

O bilionário não cansa de repetir que “vai se envolver” no Twitter. Então, qualquer que seja a ideologia que ele poderá implantar caso compre a plataforma, isso terá impacto não só para os acionistas do Twitter — mas para todos nós.

Brad Stone, da Bloomberg News

NOVA YORK

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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