O deputado de esquerda Gabriel Boric, eleito presidente do Chile em 19 de dezembro.| Foto: Elvis González/EFE
Em um segundo turno que terminou com vantagem mais larga do que previam as pesquisas de opinião, o esquerdista Gabriel Boric foi eleito o novo presidente do Chile, derrotando por uma margem de mais de dez pontos porcentuais o advogado José Antonio Kast, conservador de direita e que imediatamente reconheceu a derrota, parabenizando seu oponente. A vitória de qualquer um dos dois candidatos já representaria maior afastamento do centro político desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (à direita, no caso de Kast; e à esquerda, como será com Boric), o que apenas tornará mais desafiadora a missão de reunir uma sociedade que aprofundou suas divisões desde os protestos de 2019.
Com Boric à frente do governo, o Chile certamente embarca em um rumo novo – mas não necessariamente melhor que o anterior. Nas últimas décadas, o país implantou um modelo liberal e de respeito à liberdade econômica que fez do Chile a única nação sul-americana a integrar a OCDE, constantemente figurando entre os líderes no continente sul-americano em IDH, renda per capita e nos rankings da Heritage Foundation e do Banco Mundial. Pesquisa de 2018 da OCDE indicava que, dentre todos os países-membros, o Chile tinha os melhores índices de mobilidade social. Mesmo assim, nem todos os chilenos conseguiram se beneficiar deste modelo, que não conseguiu eliminar a pobreza, nem reduzir drasticamente as desigualdades tão características da América Latina.
Com Boric à frente do governo, o Chile certamente embarca em um rumo novo – mas não necessariamente melhor que o anterior
Ainda que tenha levado o Chile a uma posição invejável, ao menos para os padrões do continente latino-americano, não há dúvidas de que o modelo chileno poderia ser aperfeiçoado, levando o Estado a um papel mais subsidiário, sem no entanto reduzir a liberdade econômica ou apelar para intervencionismos que já têm um histórico de fracasso onde quer que sejam implantados – o caso mais evidente é o dos vizinhos argentinos. Mas não parece ser essa a vontade de Boric.
O candidato vitorioso, da coalizão Aprovo Dignidade – formada por forças políticas como a Frente Ampla e o Partido Comunista –, notabilizou-se pelas críticas ferrenhas ao que chama de “modelo neoliberal”, prometendo que o Chile, depois de ter sido o “auge do neoliberalismo na América Latina”, seria o seu “cemitério”. No segundo turno, para conquistar os eleitores mais ao centro, Boric moderou o discurso: “Jamais disse que estes 30 anos foram perdidos”, afirmou no último debate antes da votação deste dia 19. Mesmo assim, está bem claro que o esquerdista tem em mente não um Estado subsidiário, mas efetivamente grande e provedor.
A vitória de Boric também dá impulso à ala majoritária da assembleia constituinte eleita em maio deste ano, igualmente mais disposta a reverter o modelo atual chileno que em mantê-lo ou aperfeiçoá-lo. A nova carta será apresentada em meados de 2022 e terá de passar por um referendo. Se o segundo turno presidencial contar como uma “prévia” desta futura consulta, é grande a possibilidade de que passe a vigorar no Chile uma Constituição que rejeite a possibilidade de um liberalismo mais atento aos pobres, abraçando de vez o Estado de bem-estar social.
Estamos presenciando o início da “brasileirização” – ou, pior, da “argentinização” – do Chile? Se a prática corresponder ao discurso, certamente. Mas nem sempre isso ocorre, e há a possibilidade de que Boric perceba que seria um grande erro governar apenas para o nicho do qual ele provém; ou, uma vez no governo, ele poderia se tornar mais pragmático, como foi o caso, por exemplo, do petismo quando finalmente passou a realizar leilões de infraestrutura não porque concordasse com eles, mas por perceber (muito a contragosto) que o Estado não era capaz de manter estradas ou aeroportos em condições satisfatórias. Os eleitores de Boric, ou ao menos boa parte deles, espera que o novo presidente jogue fora o bebê junto com a água do banho, enterrando um modelo que, apesar de suas limitações, trouxe crescimento e prosperidade ao Chile. Que o novo presidente tenha a coragem de contrariar essas expectativas mais radicais.
Relatório final Por Olavo Soares – Gazeta do Povo Brasília
Senador Esperidião Amin fala em reunião da CMO, presidida por Rose de Freitas: votação do relatório final do Orçamento deve ocorrer nesta terça-feira (20)| Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
O relatório final do Orçamento de 2022, que o Congresso Nacional deve votar nesta terça-feira (21), prevê a destinação de R$ 5,1 bilhões em verbas públicas para o Fundo Especial de Financiamento de Campanhas (FEFC), montante superior em cerca de R$ 3 bilhões ao repassado em anos anteriores para o já famoso fundo eleitoral. O documento também estabelece que o salário mínimo de 2022 deve ficar em R$ 1.211,98.
O texto, elaborado pelo deputado Hugo Leal (PSD-RJ), trabalha com um cenário de piora da economia nacional no próximo ano. Indicadores como taxa de juros, preço do dólar e inflação são previstos, para 2022, como piores do que os do ano atual.
Os parâmetros do texto de Leal, porém, ainda estão em discussão. A verba do FEFC tem sido contestada por parlamentares de diferentes partidos — muitos defendem a redução da quantia. Há também debates em relação aos valores destinados à educação.
A falta de acordo em torno do texto fez com que a votação, que estava prevista para esta segunda-feira (20), fosse transferida para o dia seguinte. A decisão foi tomada pela presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), senadora Rose de Freitas (MDB-ES). Em pronunciamento durante reunião da CMO, a parlamentar brincou com o senador Wellington Fagundes (PL-MT), dizendo que eles e outros congressistas precisarão “varar a madrugada” para aprimorar o texto. Fagundes é o subrelator de educação do Orçamento.
Rose criticou parlamentares por causa da falta de consenso em torno da proposta: “ninguém é obrigado a assumir compromisso, mas se assumiu é obrigado a cumprir”.
A expectativa da senadora e dos demais parlamentares envolvidos na elaboração do Orçamento é promover a votação do relatório de Leal nesta terça e, no mesmo dia, realizar a votação pelo plenário do Congresso, o que representaria a conclusão das discussões.
O texto de Hugo Leal adiciona R$ 3 bilhões no fundo eleitoral em comparação ao que havia sido indicado pelo governo federal, que foi de R$ 2,1 bilhões. O montante, porém, é inferior a R$ 5,7 bilhões, valor que corresponde ao teto para o FEFC e que foi recentemente referendado pelo Congresso — na semana passada, deputados e senadores derrubaram um veto do presidente Jair Bolsonaro que impedia o estabelecimento do teto do fundão em R$ 5,7 bilhões. Na votação que levou à derrubada, parlamentares alegaram que o Congresso não havia definido que o valor do fundo eleitoral seria de R$ 5,7 bilhões, apenas que este seria um parâmetro máximo.
Parlamentares da CMO pedem a redução da quantia. Durante a reunião da comissão desta segunda, o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) e o senador Esperidião Amin (PP-SC) afirmaram que são favoráveis ao financiamento público de campanhas, mas requisitaram que o montante seja inferior. Amin declarou que “a sociedade não aceita” os R$ 5,1 bilhões.
Outra definição do relatório de Leal é a de designar R$ 16,5 bilhões para as chamadas emendas de relator do Orçamento, que têm o nome técnico de RP-9. As emendas de relator são o que ficou conhecido como “orçamento secreto”, por não terem critérios muito claros sobre a escolha dos parlamentares que são contemplados com os recursos. Para adversários de Bolsonaro, o montante é utilizado pelo governo para “comprar” apoio no Congresso, especialmente em períodos de votações mais ásperas.
Os R$ 16,5 bilhões previstos para as RP-9 são menos do que o que foi destinado para a subdivisão em 2021, quando chegaram a R$ 16,9 bilhões. A redução, porém, não isentou o texto de Leal de críticas. Na reunião da CMO, a deputada Adriana Ventura (Novo-SP) disse que a despesa precisa de mais transparência do que ocorre atualmente. O partido da parlamentar, nas redes sociais, disse que “as emendas do relator precisam acabar. O Novo seguirá trabalhando diariamente para que o seu dinheiro seja respeitado”.
Relatório mostra cenário sombrio para a economia Em seu relatório, Hugo Leal aponta um cenário de más notícias para a economia nacional em 2022. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), um dos indicadores que mede a inflação, é estimado em 10,18% no próximo ano. A previsão é pior do que a feita pelo governo em seu projeto inicial para o Orçamento, que estava em 8,4%.
Outro tópico em que o relatório revê — e para pior — as projeções do governo diz respeito às previsões de crescimento da economia para 2021 e 2022. Em agosto, o governo disse que o PIB nacional cresceria 5,3% em 2021 e 2,5% em 2022. Agora, as expectativas são de 4,71% em 2021 e 0,51% em 2022. Os novos números são pautados no Boletim Focus, produzido pelo Banco Central junto a agentes do mercado financeiro.
Há ainda expectativa de nova elevação da taxa básica de juros, a Selic. Segundo Leal, a Selic deve estar em 9,15% em 2021 e 10,90% ao fim de 2022 — inicialmente, as expectativas para a taxa eram de 6,4% em 2021 e de 6,65% ao término do ano que vem.
Também há projeções negativas para o dólar. A referência é da moeda dos EUA estar cotada em R$ 5,50 ao fim de 2021. Antes, a taxa estava especulada em R$ 5,20.
Comissão do Senado adia análise e privatização dos Correios pode não ocorrer em 2022. O que você achou da decisão? Gostei. É preciso mais tempo para analisar a proposta de venda da estatal Não gostei. Os Correios têm de ser privatizados o quanto antes Funcionalismo também trava votação
Além da quantia para o fundo eleitoral, outro aspecto que dificulta a tramitação do orçamento é a promessa de Bolsonaro de conceder aumento a servidores públicos. Recentemente, o presidente declarou que tem a intenção de reajustar salários de profissionais de carreiras de segurança. Segundo ele, há uma “injustiça” com a categoria.
Rose de Freitas afirmou em entrevista à imprensa nesta segunda que o governo precisa indicar a fonte de recursos que custeará o aumento. Segundo a parlamentar, que fez reuniões com membros do Ministério da Economia, o governo não declarou como planeja executar o aumento. Bolsonaro falou da inserção de R$ 2,8 bilhões para a medida.
Os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG): Congresso Nacional é soberano| Foto: Roque de Sá/Agência Senado
O partido Novo entrou no Supremo Tribunal Federal contra o fundo eleitoral R$ 5,7 bilhões, tentando manter o veto do presidente Jair Bolsonaro que conservaria o fundo eleitoral em R$ 2,1 bilhões. É com o dinheiro dos nossos impostos que vão financiar campanha eleitoral ano que vem, até de partido que você pode não querer, que não é o seu partido de preferência. É uma coisa incrível isso!
Agora, o Novo está agindo igualzinho à Rede, partidinho pequeno que não tem voto na Câmara nem no Senado, perde e então recorre ao “tapetão” do Supremo, como se um ministro do STF fosse mais forte que todo o Congresso Nacional. Isso é um absurdo!
Se o Congresso Nacional decidiu, essa é a força maior. A força do representante dos estados brasileiros no Senado e representante dos eleitores brasileiros na Câmara. Não tem força maior, a menos que tenha ocorrido uma evidente inconstitucionalidade e não é o caso. O eleitor é que vá cobrar nas urnas, veja quem votou diferente do que ele gostaria que votasse e se foi o seu deputado, o seu representante, chame a atenção dele. Não vote mais nele.
A Justiça interferindo no Executivo mais uma vez A decisão de uma juíza de primeira instância tirando do cargo a presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) foi derrubada pelo desembargador presidente do Tribunal Regional Federal da 2ª Região nesta segunda-feira (20). Isso é outro absurdo! É a Justiça interferindo em questões rotineiras do Poder Executivo. A Justiça não é o Executivo e nem o Legislativo para fazer leis ou mudar a Constituição.
E é um absurdo também o argumento do desembargador que caçou a liminar da juíza, ponderando que o fato em si já passou, que foi antes dessa presidente ser presidente. Apareceram lá uns cacos de cerâmica na obra de uma loja Havan e pararam a obra por isso. E não é uma cerâmica marajoara nem nada, deve ser uma cerâmica relativamente recente, de 200 anos para cá. Isso não chega ser exatamente um achado histórico. Mas já resolveram isso, então não tinha razão para continuar com isso.
Orçamento sem reajuste para servidor
O Congresso vai entrar em férias no dia 23 de dezembro, tem que deixar o Orçamento pronto e, até agora, o que a gente sabe é que o relator colocou no relatório que o salário mínimo será de R$ 1.210 no ano que vem. E a folha de pagamento da União não terá reajuste.
Política precisa ser pautada pela verdade E vocês ficaram sabendo do jantar entre Alckmin e Lula? Foi assunto nas redes sociais. Imagine só quem estava lá? Renan Calheiros, Rodrigo Maia, Omar Aziz, o presidente do MDB, Baleia Rossi, o Paulinho da Força, o Gilberto Kassab, o Randolfe Rodrigues e até o Arthur Virgílio, que estava disputando a indicação do PSDB para presidente da República até outro dia. Outros presidenciáveis como Ciro Gomes, Simone Tebet e Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, foram convidados, mas não compareceram.
Agora, é interessante: as regras das eleições do ano que vem proíbem que haja mentira na campanha eleitoral. Aí eu pergunto: as ofensas e declarações mútuas e recíprocas quando Alckmin e Lula foram candidatos à Presidência lá em 2006 eram verdade ou mentira? E o que estão dizendo hoje? Porque o que dizem hoje não combina com o que diziam em 2006.
Vão ter que esclarecer isso para os eleitores, que certamente vão querer saber, o porquê da união desses dois adversários históricos, tradicionais e severamente oponentes.
Vocês vão dizer “são coisas da política”, mas será que a política está dispensada de ter ética e de falar a verdade? Acho que é exatamente o contrário. Política precisa ser pautada pela ética e pela verdade.
Beco é grafitado para homenagear os jovens mortos em Paraisópolis no ultimo domingo (1/12).
Comunidade de Paraisópolis, em São Paulo: candidatos vão prometer, mais uma vez, o fim da pobreza.| Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O ano eleitoral está aí adiante e, desde já, parece que a pobreza vai estar no centro dos debates. Má notícia para os pobres. Todas as vezes em que candidatos, partidos e o universo à sua volta começam a dizer que estão interessados em resolver a pobreza, pode-se garantir uma coisa: todos vão se aproveitar do tema para se elegerem, ninguém vai resolver nada e os pobres vão levar na cabeça.
Qual poderia ser a dúvida? Nos quase 40 anos que se passaram desde a redemocratização, e especialmente depois da “Constituição Cidadã” de 1988, todo o discurso político do Brasil pretende salvar os pobres – ou eliminar “a fome”, “a miséria”, a “desigualdade”, etc. De lá para cá não se resolveu absolutamente coisa nenhuma; é óbvio que tudo aquilo que foi tentado, proposto e feito neste tempo todo deu completamente errado.
Se falar contra a pobreza servisse para alguma coisa, por que o Brasil continua tão pobre? A economia cresceu dos anos 80 para cá, mas a população cresceu mais ou menos no mesmo ritmo. O resultado foi uma soma zero em termos de renda per capita.
A pobreza continua a existir no Brasil porque todas as doutrinas ideológicas que orientam a política brasileira vão na direção exatamente contrária ao interesse dos pobres. A consequência inevitável disso é que as forças que mandam no país tomam, em todos os níveis, decisões de governo que fazem a redução da miséria e dos miseráveis ficar materialmente impossível.
Há 40 anos o mundo político transfere, sem parar, mais e mais recursos para o setor público – sua folha de pagamento, suas aposentadorias e suas despesas de funcionamento. O que resulta essa deformidade é o completo oposto de distribuição de renda; é concentração direta na veia, e determinada por lei.
Como algum candidato pode falar a sério em combater a pobreza quando os políticos acabam de rejeitar o veto presidencial ao “Fundo Eleitoral” e, por conta disso, metem a mão em quase R$ 6 bilhões para gastarem nas campanhas, ou no que bem entenderem?
Durante os próximos meses a população vai ser massacrada com discurseira demagógica contra “a fome”, etc. Mas nenhum candidato ou partido vai deixar de se forrar de dinheiro tirado do público – ou seja, dos mesmíssimos pobres que querem tanto ajudar. Voando pelo país em seus jatinhos último tipo, todos vão propor mais despesa de governo, mais “programas sociais”, mais poder e recursos para o Estado.
Ninguém vai pregar uma única medida que ajude realmente a reduzir a pobreza – a começar pela oferta de mais oportunidades, algo que só existe numa economia que tenha liberdade para crescer. Os pobres, naturalmente, continuarão pobres.
Eleições 2022 Cidadãos xingados de liberais fascistas nos últimos anos querem saber onde protocolam os documentos para a anistia. Delfim Netto, ACM, Sarney e Maluf já conseguiram. Marina Silva não.
Por Madeleine Lacsko – Gazeta do Povo
Lula e Alckmin (no centro) fizeram primeiro aceno público desde o início das negociações para 2022| Foto: Ricardo Stuckert/PT
De tédio a gente não morre. O grupo Prerrô, formado por ilustres advogados brasileiros – alguns deles queridíssimos amigos – promoveu um jantar no restaurante preferido dos convescotes de final de ano da burguesia jurídica, A Figueira Rubayat. Serviu para unir o Santo com o Operário, Lula (agora ex-bandido) com Alckmin (agora ex-fascista). Bravos revolucionários pagaram R$ 500 para entrar. Justíssimo.
No último convescote da burguesia jurídica a que compareci no mesmo restaurante não paguei nada. Ainda ganhei um conjunto de cortadores de queijo que até hoje não descobri como usa porque não cheguei a esse nível espiritual. Mas também não teve formação de nenhum par improvável como Lula e Alckmin. Muito menos político mostrando aos meus queridos amigos do Prerrô quem é que manda nessa pátria em chuteiras. Sim, eles sapatearam nas prerrogativas bem no encontro dos caras.
O Prerrô às vezes é descrito como anti-lavajatista. Conheço vários dos integrantes. Alguns encaixam-se na descrição e outros não. Vejo mais como garantistas de diferentes áreas do Direito e diferentes vertentes políticas. Era um grupo de whatsapp que acabou virando uma espécie de associação. “O Prerrogativas foi criando há cerca de cinco anos, como um grupo fechado no WhatsApp, primeiro para defender as prerrogativas profissionais dos advogados, sistematicamente violadas no Brasil da Lava Jato. Prerrogativas, diga-se, não se confundem com privilégios. Aquelas são as garantias previstas em lei para que advogados possam representar e defender os interesses de seus clientes sem restrições”, diz o site.
O jantar Lula-Alckmin é organizado pelo grupo que defende as garantias legais dos advogados. Pois bem, quem o Lula resolve homenagear? Delfim Netto, que assinou o AI-5 e disse recentemente que assinaria de novo. O cara resolveu retirar todas as prerrogativas, mas para o Prerrô ele pode ser elogiado e o problema é o Moro. Fosse agir com justiça, anistiava além do Alckmin o Bolsonaro também. Afinal, ele protestava contra a ditadura que o Delfim Netto apoiou. Merece anistia progressista.
“Não podemos nos esquecer daqueles que em 2018 acharam que a escolha era difícil. São responsáveis diretos e [têm] as mãos sujas de sangue. O grupo Prerrogativas, entretanto, nunca se escondeu na conveniência do silêncio”, discursou o queridíssimo Marco Aurélio de Carvalho, que encabeça o grupo Prerrô. Minutos antes, ele havia silenciado quando se elogiou um signatário do AI-5 que foi o único a dizer nos tempos atuais que assinaria de novo. Nem o Bolsonaro engolia a truculência desse povo, organizava passeata na época.
Às vezes a gente não entende direito o que é ou não democrático nem o que é ou não calar diante do autoritarismo. Maldosos diriam que é um escândalo calar diante da dupla Lula-Alckmin passando pano para Delfim Netto, que não tinha nem motivo para ser citado ali além de uma demonstração cabal do poder de Lula sobre os demais. Nada disso, precisamos atualizar o seu dicionário.
O que quer dizer democrata? Capacho do Lula. O Alckmin nunca foi fascista, dizem os tucanos. Mentira. Era fascista sim, mas agora encontrou a redenção porque abraçou o Lula. Isso já aconteceu com Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e até com o próprio Delfim Netto. Ao aceitar o senhor Lula, os espíritos sem luz da política encontram a redenção definitiva. Ganharão também um free pass progressista à la José de Abreu. Não importa o que façam, tudo pode.
Os tucanos estão numa posição confortável dizendo que Geraldo Alckmin saiu do PSDB, então isso não quer dizer que eles aceitaram o petismo nem o lulismo. Mas isso quer dizer que todo mundo que não idolatra Lula pode ter sido chamado de liberal fascista esses anos todos à toa. A anistia será ampla, geral e irrestrita? José Serra, por exemplo, continua sendo fascista ou também foi redimido? E Doria? Marina Silva ainda é fascista ou já deixou de ser? Queria saber onde a gente protocola os documentos para tirar a carteirinha de ex-fascista.
Tempos atrás, fiz uma lista atualizada de todo mundo que os petistas tinham chamado de fascista na última semana. A Anistia Alckmin vale também para todo esse pessoal? O senador Randolfe Rodrigues estava no jantar, isso estende a unção do desfacistamento para Marina Silva? Seria justo até porque ela apoiou Haddad na eleição passada e não recebeu nem um muito obrigado. Mas daí teríamos um problema enorme com a militância virtual petista, achar o que fazer da vida. Nos últimos anos, a atividade principal é passar o dia na internet achando fascismo até em barraquinha de cachorro-quente.
Suponhamos que a unção do desfascistamento só tenha sido dada pelo senhor Lula àqueles que foram ao jantar. Daí fica complicado. O marqueteiro digital do Bolsonaro, um que até prestou depoimento acusado de disparos em massa, estava lá. Baleia Rossi, do golpista PMDB de Michel Temer também. Gilberto Kassab, se bobear, já até montou o grupo de whatsapp do Ministério e presidentes de estatais. E o pessoal condenando o editorial da “escolha muito difícil”, bancando herói da democracia mundial. Quem conta?
Nessas horas, eu sinceramente entendo o que o Ciro Gomes foi fazer em Paris. Vai ser xingado para sempre porque se ausentou e permitiu que o fascismo tomasse conta da nossa pátria? Vai. Só que a Marina Silva, que pediu voto para o PT mesmo depois de tudo o que tinham feito a ela, também vai ser xingada sempre. Não importa quem você é, o que você fez, como age ou prega, importa se idolatra ou não nosso supremo senhor Lula. Mais fácil o fascista receber a unção do desfascistamento do que alguém ser respeitado por talibã político.
A política real é composição, não estão errados eles. Até Jair Bolsonaro e Ciro Gomes estiveram na base de Lula em 2002. Está errado quem acha que política é moralismo, sair xingando os outros, achando que ninguém presta ou se comportando feito torcida organizada de futebol. Não deixa de ser divertidíssimo ver os discursos moralistas e puristas durante o maior evento de realpolitik da nossa história recente. Tem quem compre. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.
Banco agora busca comprador para Botafogo e diz que perfil de investidores interessados no Brasil não é o de bilionários árabes
André Jankavski, O Estado de S.Paulo
A venda do Cruzeiro para o ex-jogador Ronaldo Nazário marca o início da era de transformação dos grandes clubes de futebol brasileiros em empresas. Mas, para que isso aconteça, há uma grande articulação nos bastidores para que bancos de investimento e consultorias tragam investidores para um mercado que ainda engatinha. Nessa disputa, quem marcou o primeiro gol foi a XP, que articulou a venda do Cruzeiro. E a empresa já corre atrás de novos negócios nessa área.
De acordo com Pedro Mesquita, sócio da XP e responsável por essa área dentro do banco criado por Guilherme Benchimol, as próximas operações devem acontecer em breve. Segundo ele, existem investidores interessados nos clubes brasileiros. A conta é a seguinte: investir em real nos times, que mesmo com todos os problemas ainda conseguem revelar diversos craques, para depois vender jogadores em dólar ou euro.
Assinatura do contrato entre Cruzeiro e Ronaldo; investir em real nos times brasileiros para depois vender jogadores em dólar ou euro segue a lógica da venda de commodities Foto: XP/ Divulgação
Para dar conta da demanda, a XP montou um time de cinco pessoas, dentro da sua área de banco de investimento, totalmente focado em esporte. Mas a equipe pode aumentar nos próximos meses. “É um mercado que não existia e que vai crescer muito. Estamos querendo ajudar o futebol brasileiro como um todo. Vemos isso como uma alavanca social. Por isso, não estamos restritos a times apenas da série A”, diz Mesquita. Segundo ele, o negócio com os clubes não difere de operações normais de fusão e aquisição com as quais o banco está acostumado.
O perfil dos investidores interessados, segundo o executivo, não tem sido o dos endinheirados dos países árabes, como é visto em times como o Manchester City, da Inglaterra, e o Paris Saint-Germain, da França. “São empresários que estão investindo no mundo inteiro e com uma cabeça de sustentabilidade e profissionalização, e que veem no Brasil um mercado amador e com grande potencial”, afirma.
Segundo Amir Somoggi, fundador da consultoria Sports Value, a XP está de olho em um mercado que movimentou US$ 5 bilhões nos últimos anos contando apenas compra e venda de clubes de futebol. “É pouco pensando no mercado de fusões e aquisições, mas está crescendo e é um mercado que está em bastante evidência”, diz Somoggi. “E a venda de um clube endividado como o Cruzeiro, como foi e para quem foi, ajuda na estratégia.”
Rivais
Além da XP, outros grupos também estão de olho nesse mercado. A consultoria EY já possui uma área dedicada a esportes há anos e auxiliou o Cruzeiro na concepção do projeto de clube-empresa. Além dela, a consultoria Alvarez & Marsal (que também trabalhou no projeto do Cruzeiro) e o banco BTG Pactual também estão atrás de clubes. “Diversos clubes estão procurando a nossa consultoria pensando nessa possibilidade de migrar para o modelo de SAF (Sociedade Anônima do Futebol)”, afirma Pedro Daniel, sócio da EY especializado no mercado.
Além de Cruzeiro e Botafogo, que estão sob a batuta da XP, o Estadão apurou que América-MG e Chapecoense também estão adiantados para realizar a venda dos seus departamentos de futebol.
Maioria das evidências até agora se baseia em experimentos de laboratório, que não capturam toda a gama da resposta imunológica do corpo. Mas, ainda assim, os resultados são alarmantes, apontam especialistas
Stephanie Nolen, The New York Times
Um crescente corpo de pesquisas preliminares sugere que as vacinascontra a covidutilizadas na maior parte do mundo quase não oferecem defesa contra a infecção pela variante Ômicron, que é altamente contagiosa.
Todas as vacinas ainda parecem fornecer um grau significativo de proteção contra formas graves da doença causadas pela Ômicron, que é o objetivo mais importante. Mas apenas as vacinas da Pfizere da Moderna, quando completadas por uma dose de reforço, parecem ter sucesso inicial em barrar as infecções, e essas vacinas não estão disponíveis na maior parte do mundo.
As outras vacinas – entre elas as da AstraZeneca, Johnson & Johnsone vacinas fabricadas na Chinae na Rússia– fazem pouco ou nada para impedir a disseminação da Ômicron, mostram as primeiras pesquisas. E como a maioria dos países construiu seus programas de inoculação em torno dessas vacinas, a lacuna pode ter um impacto profundo no curso da pandemia.
Uma onda global de infecções em um mundo onde bilhões de pessoas continuam sem vacina não só ameaça a saúde de indivíduos vulneráveis, mas também aumenta a oportunidade para o surgimento de ainda mais variantes. A diferença na capacidade de resistência dos países diante da pandemia quase certamente se agravará. E as notícias sobre a eficácia limitada das vacinas contra a infecção por Ômicron podem diminuir a demanda por vacinação em todo o mundo em desenvolvimento, onde muitas pessoas já estão hesitantes ou preocupadas com outros problemas de saúde.
A maioria das evidências até agora se baseia em experimentos de laboratório, que não capturam toda a gama da resposta imunológica do corpo e não rastreiam o efeito em populações do mundo real. Mas, ainda assim, os resultados são alarmantes.
Na foto, campanha de imunização na África do Sul; pesquisas de laboratório ainda preliminares sugerem que vacinas contra a covid podem ser ineficazes contra a infecção pela variante Ômicron, mas ainda previnem contra casos graves, internações e óbitos Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko
As doses da Pfizer e da Moderna usam a nova tecnologia de RNA mensageiro, a qual oferece consistentemente a melhor proteção contra infecções de todas as variantes. Todas as outras vacinas se baseiam em métodos mais antigos para desencadear resposta imunológica.
As vacinas chinesas Sinopharme Sinovac– que representam quase metade de todas as vacinas administradas globalmente – oferecem proteção quase nula contra a infecção por Ômicron. A grande maioria das pessoas na China recebeu essas injeções, que também são amplamente utilizadas em países de baixa e média renda, como Méxicoe Brasil.
Um estudo preliminar de eficácia na Grã-Bretanhadescobriu que a vacina Oxford-AstraZeneca não mostrou capacidade de interromper a infecção por Ômicron seis meses após a aplicação. Noventa por cento das pessoas vacinadas na Índiareceberam esta vacina, sob a marca Covishield; esta também tem sido amplamente utilizada em grande parte da Áfricasubsaariana, onde o Covax, o programa global de vacinas contra a covid, distribuiu 67 milhões de doses para 44 países.
Os pesquisadores preveem que a vacina russa Sputnik, que também está sendo usada na África e na América Latina, apresentará taxas semelhantes de proteção contra a Ômicron.
A demanda pela vacina Johnson & Johnson vem aumentando na África, porque seu regime de aplicação de dose única facilita a aplicação em locais com poucos recursos. Mas também mostrou capacidade insignificante de barrar a infecção por Ômicron.
Os anticorpos são a primeira linha de defesa induzida pelas vacinas. Mas as injeções também estimulam o crescimento de células T, e estudos preliminares sugerem que essas células T ainda reconhecem a variante Ômicron, o que é importante na prevenção de doenças graves.
“O que você perde primeiro é a proteção contra infecções leves assintomáticas, o que você retém muito mais é a proteção contra doença grave e morte”, disse John Moore, especialista em vírus da Weill Cornell Medicine, em Nova York. Ele caracterizou como “uma fresta de esperança” o fato de a Ômicron até agora parecer menos letal do que a variante Delta.
Mas essa proteção não será suficiente para evitar que a Ômicron cause um transtorno global, disse J. Stephen Morrison, diretor do Centro de Políticas de Saúde Global do Center for International and Strategic Studies.
“A escala da infecção por si só sobrecarregará os sistemas de saúde, simplesmente porque o denominador será potencialmente muito grande”, disse ele. “Se você tem um surto de infecção em todo o mundo, um choque, como é que o mundo vai ficar? Será ‘a guerra acabou’ ou ‘a guerra acaba de entrar numa nova fase’? Ainda não começamos a pensar em nada disso.”
Pessoas com casos positivos podem ter apenas infecção assintomática ou doença leve, mas são capazes de transmitir o vírus para pessoas não vacinadas, as quais correm o risco de ficar gravemente doentes e de se tornar fonte de novas variantes.
O Dr. Seth Berkley, CEO da Gavi, a aliança global de vacinas, disse que são necessários mais dados para tirar conclusões sobre a eficácia das vacinas contra a Ômicron – e que a vacinação acelerada deve continuar a ser o foco da resposta à pandemia.
Dados preliminares da África do Sul sugerem que, com a Ômicron, há uma chance muito maior de pessoas que já tiveram covid serem reinfectadas do que com o vírus original e variantes anteriores. Mas alguns especialistas em saúde pública dizem acreditar que países que já passaram por ondas violentas de covid, como Brasil e Índia, podem ter alguma defesa contra a Ômicron, e a vacinação após a infecção produz altos níveis de anticorpos.
“A combinação de vacinação com exposição ao vírus parece ser mais forte do que apenas a vacina”, disse Ramanan Laxminarayan, pesquisador de saúde pública em Nova Delhi. A Índia, observou ele, tem uma taxa de vacinação de adultos de apenas cerca de 40%, mas 90% de exposição ao vírus em algumas regiões.
“Sem dúvida, a Ômicron vai inundar a Índia”, disse ele. “Mas espero que o país esteja protegido até certo ponto, por causa da vacinação e da exposição.”
A China não tem essa camada de proteção para ajudar suas vacinas fracas. Por causa dos esforços agressivos para impedir a propagação do vírus dentro de suas fronteiras, relativamente poucas pessoas foram expostas anteriormente. Estima-se que apenas 7% das pessoas em Wuhan, onde a pandemia começou, foram infectadas.
Grande parte da América Latina confiou nas vacinas chinesas e russas e na AstraZeneca. Mario Rosemblatt, professor de imunologia da Universidade do Chile, disse que mais de 90% dos chilenos haviam tomado duas doses de vacina, mas a grande maioria delas era Coronavac, a vacina da Sinovac. A alta cobertura vacinal combinada com os primeiros relatos de que a Ômicron não causa doenças graves está levando a uma falsa sensação de segurança no país, disse ele.
“Precisamos fazer as pessoas entenderem que não é assim que funciona: se tivermos alta transmissibilidade, o sistema de saúde ficará saturado porque o número de pessoas adoecendo será maior”, disse ele.
O Brasil recomendou que todas as pessoas vacinadas recebessem uma terceira dose e começou a usar a vacina da Pfizer para todos os reforços, mas apenas 40% dos vacinados compareceram para receber a injeção extra. O Dr. Amilcar Tanuri, especialista em vírus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, disse com cauteloso otimismo que os altos níveis de exposição anterior à covid podem diminuir o impacto da Ômicron, mas observou que os brasileiros mais vulneráveis, vacinados primeiro, tomaram Coronavac e dezenas de outros milhões receberam AstraZeneca.
Morrison qualificou a capacidade da Ômicron de escapar à proteção da vacina como “um grande revés” para os países de baixa e média renda, onde, longe de qualquer discussão sobre doses de reforço, o foco ainda está na distribuição das primeiras doses.
“O mundo fica dividido em duas partes”, ele disse. “São aqueles que têm um caminho rápido para as doses de reforço contra aqueles que tiveram um progresso muito limitado e de repente estão sujeitos a este novo açoite.”
Apenas 13% das pessoas na África receberam pelo menos uma dose da vacina contra a covid.
Laxminarayan disse que o governo indiano, do qual ele é conselheiro ocasional, estava avaliando a possibilidade de distribuir doses de reforço, mas a variante Delta ainda representa uma ameaça significativa na Índia, e duas doses de vacina oferecem proteção contra a cepa. Isso representa uma escolha difícil para o governo: concentrar-se em levar duas doses para pessoas que continuam não vacinadas ou apenas parcialmente vacinadas, ou tentar aplicar doses de reforço em idosos e pessoas com condições médicas de alto risco, para protegê-los da Ômicron?
A notícia de que as vacinas sem RNA mensageiro oferecem pouca proteção contra a infecção por Ômicron pode prejudicar ainda mais a demanda por vacinas em países que já estão com dificuldades, disse Morrison.
“Esse fato questiona todo o valor das vacinas”, disse ele. “Para quem já está atrasado, vai alimentar o sentimento antivacina e enfraquecer a confiança.”
Tolbert Nyenswah, pesquisador sênior da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, disse que a ameaça emergente aos países do sul global que contam com vacinas que não são de RNA mensageiro era uma prova do fracasso dos países ricos em compartilhar essa tecnologia e ajudar a aumentar a produção em países de baixa e média renda.
Como consequência, variantes perigosas continuarão a emergir de regiões com baixa cobertura vacinal e prolongarão a pandemia, previu Nyenswah, que foi vice-ministro da Saúde da Libéria durante o pior surto de ebola no país.
Berkley, da Gavi, disse que seria um erro grave de parte dos países abrandar o impulso da vacinação ou presumir que só vale a pena distribuir vacinas de RNA mensageiro.
“Podemos estar vendo uma situação em que os países dizem: ‘Se os países desenvolvidos não querem essas vacinas, também não queremos'”, disse ele. “Seria uma interpretação errada, é claro, uma vez que essas vacinas previnem contra doenças graves e morte.”
Este artigo foi publicado originalmente no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU