terça-feira, 19 de maio de 2020

PARA REVERTER ESSA QUEDA DA ECONOMIA SÓ A REFORMA TRIBUTÁRIA COM IMPOSTO ÚNICO SOBRE O CONSUMO


Brasil caminha para maior crise econômica de sua história

Larissa Linder 

Combinação de instabilidade política com catástrofe sanitária ameaça ser explosiva para uma economia já cambaleante. Números e projeções apontam que esta não será apenas uma recessão, mas a maior que o país já viveu.



 

© Getty Images/A. Anholete Bolsonaro acena para manifestantes: instabilidade política contribui para deteriorar economia 


O clima de "agora vai" em relação à economia brasileira que se viu no começo do ano, especialmente por parte do mercado, se esvaiu no ritmo da subida da curva de mortos pela covid-19. Se antes da pandemia já havia quem olhasse cético para a recuperação da economia do país, que em 2019 avançou 1,1%, agora já não há dúvidas de que o Brasil vai afundar em 2020 e, possivelmente, também em 2021.
Esta não será, no entanto, só mais uma crise. Para economistas entrevistados pela DW Brasil, pode ser a pior que o país já viveu. Isso porque ela surge em um momento no qual tentava-se retomar o crescimento, ou seja, com uma economia ainda cambaleante e meio à instabilidade política. Além disso, não será possível contar com o setor externo, também severamente afetado pela pandemia.
A soma da perspectiva econômica ruim e da instabilidade política fez a consultoria Gavekal Research comparar o Brasil a um prédio em chamas no seu relatório para investidores da última semana. "Neste momento, é melhor deixar o Brasil para o especialistas, malucos, oportunistas de longo prazo e aqueles sem outras opções", diz o texto assinado pelo economista Armando Castelar.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 5,3%, enquanto a mais recente previsão do governo é de recuo de 4,7%. Quaisquer desses números já representam a pior retração desde 1901, quando começou o levantamento mais confiável do indicador. Até hoje, o maior declínio foi de 4,35%, em 1990.
"Com base nos nossos indicadores de confiança, sentimento e ciclo, esta realmente está sendo uma crise atípica e mais intensa que qualquer outra que tenhamos observado", afirma a economista do Ibre-FGV Viviane Seda.
Em uma projeção da Genial Investimentos, a queda do PIB se mostra bastante sensível ao número de dias em que a economia ficará parada. No cenário mais otimista, com 50 dias de isolamento social, o recuo seria de 3,3%. No mais pessimista, de 70 dias, a cifra vai para 8,6%.
Mas não é só do PIB que se espera um recorde. A taxa de desemprego pode chegar a 18,7% no país - ante os atuais 12,2% - ao final deste ano, na estimativa da Fundação Getulio Vargas (FGV). Seria a maior desde os anos 1980, quando começou a pesquisa, segundo a coordenadora do boletim macroeconômico do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV), Silvia Mattos.
Isso porque no passado, diz a economista, apesar de o Brasil ter vivido uma série de crises, a inflação corroía tanto os salários que acabava não sendo tão custoso manter empregos. O cenário é diferente hoje.
Esses quase 19% representariam 19,6 milhões de brasileiros sem trabalho algum ao final deste ano - sem contar os que sequer entram na estatística porque simplesmente desistem de procurar uma vaga.
Quando se olha apenas para as vagas com carteira assinada, a estimativa do governo federal, divulgada na sexta-feira (15/05), pelo jornal O Globo, é de perda de 3 milhões de postos de trabalho. Seria a maior destruição de vagas formais já registrada no país, superior ao que se viu nos três anos da última crise, entre 2015 e 2017.
"Tem uma característica diferente desta vez, o setor de serviços, que é mais prejudicado, e foi isso que sustentou um pouco a recuperação frágil da nossa economia”, explica Mattos. O choque no setor, que precisou praticamente parar por conta das políticas de quarentena para combater o novo coronavírus, impacta muito porque os serviços respondem por dois terços do PIB e dos empregos do país.
A FGV espera uma retração de 4,4% nos serviços, e de 7,4% na indústria. A construção civil, segmento da indústria que amargou quedas por cinco anos seguidos e só no ano passado voltou a crescer, deve recuar 11,4%. Isso também é dramático para o mercado de trabalho, já que o setor é um dos mais intensivos em mão de obra no contexto brasileiro. A agropecuária é o único setor com previsão de alta, de 2,9%.
A coordenadora do departamento de Economia do Insper, Juliana Inhasz, alerta ainda para a perspectiva de agravamento da desigualdade: "Deve haver uma piora da distribuição de renda, porque quem é mais afetado é a população da periferia, que normalmente está alocada em trabalhos mais vulneráveis e está perdendo o emprego com mais facilidade neste momento", explica. "E outras variáveis vem junto, como a piora de diferença salarial entre gêneros, porque o momento começa a desfavorecer inúmeras reivindicações".
O que os números já mostram
A crise do coronavírus já levou 1,5 milhão de brasileiros para o seguro-desemprego. Entre março e abril, houve alta de 31% nos pedidos na comparação com o mesmo período do ano passado, conforme dados do Ministério da Economia. Quem não perdeu o emprego teve salário e jornada reduzidos. Mais de 7 milhões de trabalhadores estão sob esse novo regime, e recebem, em média, 752 reais mensais.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, mostrou, na última sexta-feira, que o trimestre encerrado em março registrou 12,2% de taxa de desocupação, ante 12,7% no mesmo período em 2019. Houve aumento na comparação com o trimestre imediatamente anterior - 1,2 milhão a mais de desocupados -, mas é preciso considerar um efeito sazonal do término das vagas temporárias de Natal.
A PNAD do primeiro trimestre é, contudo, um indicativo parcial da crise do coronavírus, já que as políticas de quarentena começaram efetivamente na segunda quinzena de março. A expectativa é que o período seguinte da pesquisa traga um quadro mais fidedigno do impacto da pandemia.
O volume de serviços em março, divulgado pelo IBGE, mostrou umrecuo de 6,9%em comparação com fevereiro, já com ajuste sazonal. É a pior queda da série histórica, que começa em 2011. Na comparação com março de 2019, o volume de serviços recuou 2,7%, interrompendo uma sequência de seis taxas positivas.
O setor industrial também tem seus recordes para apresentar. Em uma pesquisa da FGV com 1006 empresas da indústria da transformação, 14,4% afirmaram ter paralisado a produção em abril, a maior proporção da série histórica, que começa em 2001. A produção de veículos, calçados e vestuário foram as que mais sofreram. Mesmo nas crises de 2008-2009 e 2014-2016, a média de empresas paralisadas não passou de 2%.
Além disso, a produção industrial brasileira encolheu 9,1% em março, na comparação com fevereiro, o pior resultado para março da série histórica da pesquisa do IBGE, iniciada em 2002.
Por fim, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do PIB, caiu 5,9% em março na comparação com o mês anterior.
O fator político
A pandemia afetará economicamente o mundo todo: o Fundo Monetário Internacional (FMI) espera retração global de 3%, a maior desde a crise de 1929. Mas o Brasil tem o ingrediente da instabilidade política, com trocas constantes de ministros, pedidos de impeachment, brigas entre o Executivo e o Legislativo e entre o presidente da República e governadores.
Se até aqui o consumo vinha pautando o crescimento, agora já não se pode contar tanto com ele. E para se contar com investimentos, sejam internos ou externos, é preciso previsibilidade - a incerteza é uma das coisas que mais atrapalham o investimento. O Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) da FGV bateu recorde histórico em março, ficando 30 pontos acima do recorde anterior, de setembro de 2015, período em que o país enfrentava recessão e logo após o Brasil ter perdido grau de investimento.
"Essa incerteza política não deveria aumentar no meio de um agente comum, que é destrutivo e ninguém ganha com essa situação, o natural deveria ser até ter um arrefecimento", diz Mattos.
A incerteza política afeta também a taxa de câmbio, segundo economistas. O dólar americano disparou neste ano frente a todo tipo de moeda, mas quando se compara o real a outras moedas de países emergentes, vê-se que foi a que mais se desvalorizou, com perda de 30%. Isso apesar de o Banco Central estar constantemente vendendo reservas em moeda estrangeira, que caíram de 386 bilhões de dólares em agosto para 339 bilhões em abril.
Claro que na conta da desvalorização do real ante o dólar também entra a taxa de juros. Com os cortes da taxa básica Selic, que tem renovado mínimas históricas, é consequência lógica a fuga de moeda estrangeira. Mas, se os juros baixos afastam investidores estrangeiros de curto prazo, deveriam fazer o investimento de médio e longo prazo crescer, o que já não vinha ocorrendo antes da pandemia.
Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, a incerteza política terá mais efeito no processo de retomada, e menos no curto prazo. "Eu acho que no curto prazo o impacto mais importante é do isolamento, mas no médio e longo prazos tem o impacto da incerteza da política na rapidez com que a economia volta", avalia.
Autor: Larissa Linder

segunda-feira, 18 de maio de 2020

ANTES DA PANDEMIA A ORDEM ERA JUNTAR, APROXIMAR E AGORA É ISOLAR?


'Novo normal'? Mundo pós-pandemia deve concretizar mudanças vividas no isolamento

Patrícia Santos Dumont






A mudança de comportamento imposta pela pandemia do novo coronavírus impactou mais do que os vínculos interpessoais, fragilizados pela falta de contato decorrente do confinamento. Relações de consumo também mudaram. Muita gente passou a ser mais solidária - famosos e anônimos - e consciente das mazelas sociais. Nas redes sociais, a temática ambiental também ganhou força. Os reflexos observados no meio ambiente, que, em meio ao caos, “respirou” mais aliviado, segundo especialistas, são para lá de positivos. Queira Deus, duradouros. 
Especialistas se dividem quanto a acreditar num resultado perene, passada a pandemia. Para alguns, as transformações atuais se farão cada vez mais necessárias e ficarão, por isso, mais presentes. Outros argumentam que é preciso ir além para que a consciência coletiva se sobreponha de verdade à individual.
Luto pela realidade
Psicóloga clínica e familiar, Daniela Bittar tem presenciado a mudanças todos os dias na própria vida e no consultório. Segundo ela, há uma espécie de luto coletivo pela perda de uma realidade que nunca mais será a mesma. 
“Luto pela ‘normalidade’ que se conhecia, pelo funcionamento das coisas como eram, pelos planejamentos, pela sensação de segurança, pela liberdade, pelo financeiro. Espera-se que, neste momento, em que as pessoas estão reclusas, que pensem que não é preciso ser produtivo o tempo inteiro”, reflete a profissional, clamando por um modelo de consumo mais sustentável. 
Para ela, o momento é propício para uma reflexão sobre prioridades, que deve trazer mudanças reais na forma como nos relacionamos com o meio a que pertencemos. “O mundo vai passar a priorizar o que é mais importante. Vamos parar de ser reféns de um lifestyle que não conseguimos garantir o tempo todo. Ninguém, em nenhuma sessão, levou a angústia da falta do consumo, que é uma grande válvula de escape, mas que não faz falta”, diz.
Não à volta da normalidade 
Recentemente, um grupo de celebridades e cientistas trouxe a público, inclusive, um apelo contra o “regresso à normalidade”. No manifesto, publicado pelo jornal francês Le Monde, reforçam que ajustes já não são mais suficientes, pois o problema é sistêmico. “Apelamos aos líderes e cidadãos para que saiam da lógica insustentável que ainda prevalece, para trabalhar em uma profunda revisão de objetivos, valores e economias”, diz trecho do texto (leia mais abaixo).
Doutora em economia aplicada e professora no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), Kellen Rocha de Souza concorda. Para ela, é preciso sair da pandemia tendo mais que aprendido lições, as incorporado como hábitos permanentes de vida. 
“Infelizmente, não é possível prever o comportamento das pessoas no período pós-pandemia, mesmo porque isso dependerá de como as cidades e o país reagirão. Mas acredito que uma parcela da população possa, sim, se conscientizar mais. Do contrário, segundo vários cientistas, teremos outras pandemias no futuro”, argumenta. 
A especialista destaca, ainda, que a emergência em saúde nos mostrou o quão frágil é o ser humano e o quanto o planeta vive muito bem sem nós, apesar de não vivermos sem ele, além de como nossos comportamentos nos afetam. “É preciso entender que nossas atividades devem ser limitadas à capacidade de carga do planeta. Em termos individuais, nossas ações podem começar com ‘caronas’ em nossos veículos e com um melhor aproveitamento da energia solar nos proporcionada todo dia. Não existe o ‘jogar o lixo fora’”, pontua.


Transformações reais exigem reflexões além do indivíduo
Embora reconheça como louváveis manifestos como o encabeçado por artistas e cientistas estrangeiros, na medida em que provocam reflexões e debates, a antropóloga Andréa Zhouri, coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta) da UFMG, é cética em relação a uma mudança permanente de comportamento num cenário pós-pandemia. Na avaliação dela, são necessárias outras condições para que mudanças possam ocorrer de fato na sociedade.
“A consciência individual é fundamental. Mas mudanças demandam condições objetivas para se concretizarem. Condições providas por ações coletivas e políticas. Posso decidir separar o lixo em casa, por exemplo, mas se não houver coleta seletiva e tratamento adequado, minhas ações serão ineficazes. Da mesma forma, se desejo ingerir alimentos saudáveis, uma política de incentivo à produção sem agrotóxicos deve existir. A consciência de nossa localização no espaço social e do que isso provoca exige que se pense para além de si mesmo, num nível mais coletivo”, justifica. 
A antropóloga explica que crise é momento de revelação, espécie de ponto zero de observação em que se pode refletir sobre o que deu errado e criar um pensamento crítico sobre a importância que as mudanças têm para que exista algo melhor. Por outro lado, argumenta que transformações efetivas devam, obrigatoriamente, passar pela educação e pela consciência política.
“Não vejo possibilidade de, num futuro próximo, a maioria das pessoas converterem suas consciências do ponto de vista do consumo ambiental e ético. Isso demanda reflexividade, que a crise propicia, mas de forma insuficiente diante dos apelos inerentes à sociedade moderna, centrada em valores como indivíduo e status social. Uma educação para a cidadania poderia favorecer, em parte, a emergência desse debate”, coloca.
Tradução do manifesto assinado por 200 artistas e cientistas de diferentes nacionalidades e publicado pelo jornal francês Le Monde:



AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

  Brasil e Mundo ...