'Novo normal'?
Mundo pós-pandemia deve concretizar mudanças vividas no isolamento
Patrícia Santos
Dumont
A mudança de comportamento
imposta pela pandemia do novo coronavírus impactou mais do que os vínculos interpessoais, fragilizados pela falta de contato decorrente do
confinamento. Relações de consumo também mudaram. Muita gente
passou a ser mais solidária - famosos e anônimos - e consciente das mazelas
sociais. Nas redes sociais, a temática ambiental também ganhou força. Os
reflexos observados no meio ambiente, que, em meio ao caos, “respirou” mais
aliviado, segundo especialistas, são para lá de positivos. Queira Deus,
duradouros.
Especialistas se dividem quanto a
acreditar num resultado perene, passada a pandemia. Para alguns, as transformações atuais se farão cada vez mais necessárias e ficarão, por
isso, mais presentes. Outros argumentam que é preciso ir além
para que a consciência coletiva se sobreponha de verdade à individual.
Luto pela realidade
Psicóloga clínica
e familiar, Daniela Bittar tem presenciado a mudanças todos
os dias na própria vida e no consultório. Segundo ela, há uma espécie de luto
coletivo pela perda de uma realidade que nunca mais será a mesma.
“Luto pela ‘normalidade’ que se conhecia,
pelo funcionamento das coisas como eram, pelos planejamentos, pela sensação de
segurança, pela liberdade, pelo financeiro. Espera-se que, neste momento, em
que as pessoas estão reclusas, que pensem que não é preciso ser produtivo o
tempo inteiro”, reflete a profissional, clamando por um modelo de consumo mais
sustentável.
Para ela, o momento é propício para
uma reflexão sobre prioridades, que deve trazer mudanças reais na forma como
nos relacionamos com o meio a que pertencemos. “O mundo vai passar a priorizar
o que é mais importante. Vamos parar de ser reféns de um lifestyle que
não conseguimos garantir o tempo todo. Ninguém, em nenhuma sessão, levou a
angústia da falta do consumo, que é uma grande válvula de escape, mas que não
faz falta”, diz.
Não à volta da normalidade
Recentemente, um grupo de celebridades
e cientistas trouxe a público, inclusive, um apelo contra o “regresso à
normalidade”. No manifesto, publicado pelo jornal francês Le Monde, reforçam
que ajustes já não são mais suficientes, pois o problema é sistêmico. “Apelamos
aos líderes e cidadãos para que saiam da lógica insustentável que ainda
prevalece, para trabalhar em uma profunda revisão de objetivos, valores e
economias”, diz trecho do texto (leia mais abaixo).
Doutora em economia aplicada e
professora no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal
de Alfenas (Unifal-MG), Kellen Rocha de Souza concorda. Para ela, é preciso
sair da pandemia tendo mais que aprendido lições, as incorporado como hábitos
permanentes de vida.
“Infelizmente, não é possível prever o
comportamento das pessoas no período pós-pandemia, mesmo porque isso dependerá
de como as cidades e o país reagirão. Mas acredito que uma parcela da população
possa, sim, se conscientizar mais. Do contrário, segundo vários cientistas,
teremos outras pandemias no futuro”, argumenta.
A especialista destaca, ainda, que a
emergência em saúde nos mostrou o quão frágil é o ser humano e o quanto o
planeta vive muito bem sem nós, apesar de não vivermos sem ele, além de como
nossos comportamentos nos afetam. “É preciso entender que nossas atividades
devem ser limitadas à capacidade de carga do planeta. Em termos individuais,
nossas ações podem começar com ‘caronas’ em nossos veículos e com um melhor
aproveitamento da energia solar nos proporcionada todo dia. Não existe o ‘jogar
o lixo fora’”, pontua.
Transformações reais exigem reflexões
além do indivíduo
Embora reconheça como louváveis
manifestos como o encabeçado por artistas e cientistas estrangeiros, na medida
em que provocam reflexões e debates, a antropóloga Andréa Zhouri, coordenadora
do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (Gesta) da UFMG, é cética em
relação a uma mudança permanente de comportamento num cenário pós-pandemia. Na
avaliação dela, são necessárias outras condições para que mudanças possam
ocorrer de fato na sociedade.
“A consciência individual é
fundamental. Mas mudanças demandam condições objetivas para se concretizarem.
Condições providas por ações coletivas e políticas. Posso decidir separar o
lixo em casa, por exemplo, mas se não houver coleta seletiva e tratamento
adequado, minhas ações serão ineficazes. Da mesma forma, se desejo ingerir
alimentos saudáveis, uma política de incentivo à produção sem agrotóxicos deve
existir. A consciência de nossa localização no espaço social e do que isso
provoca exige que se pense para além de si mesmo, num nível mais coletivo”,
justifica.
A antropóloga explica que crise é
momento de revelação, espécie de ponto zero de observação em que se pode
refletir sobre o que deu errado e criar um pensamento crítico sobre a
importância que as mudanças têm para que exista algo melhor. Por outro lado,
argumenta que transformações efetivas devam, obrigatoriamente, passar pela
educação e pela consciência política.
“Não vejo possibilidade de, num futuro
próximo, a maioria das pessoas converterem suas consciências do ponto de vista
do consumo ambiental e ético. Isso demanda reflexividade, que a crise propicia,
mas de forma insuficiente diante dos apelos inerentes à sociedade moderna,
centrada em valores como indivíduo e status social. Uma educação para a
cidadania poderia favorecer, em parte, a emergência desse debate”, coloca.
Tradução do manifesto assinado por 200
artistas e cientistas de diferentes nacionalidades e publicado pelo jornal
francês Le Monde:



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