Caos
generalizado: adesão a protesto dos caminhoneiros aumenta e transtornos se
multiplicam
Evaldo Magalhães
Greve de
caminhoneiros nas proximidades de Juatuba, na Região Metropolitana de Belo
Horizonte
Iniciado na
segunda-feira, o protesto de caminhoneiros contra os seguidos aumentos nos
preços dos combustíveis chegou nesta quinta ao 4º dia, já
provoca desabastecimento nos postos da capital e em setores como o de
alimentação, ganhou a adesão de transportadores de passageiros do Estado.
Pelo menos duas entidades que congregam empresas e profissionais do
setor – o Sindicato dos Transportadores de Escolares (Sintesc/MG) e a
Associação das Empresas de Fretamento e Turismo do Estado de Minas Gerais
(Amifret) – confirmaram que parte de seus associados entrou em greve em
solidariedade ao movimento dos caminhoneiros.
“Também temos informações de que muitos integrantes da nossa categoria estão
dando suporte aos manifestantes em diversos pontos de rodovias que cortam o
Estado, levando água e comida para os caminhoneiros. A luta deles é a nossa
luta, já que também dependemos de preços justos de combustíveis para
trabalhar”, afirmou o presidente da Amifret, Nivaldo José Soares Júnior,
lembrando que a entidade reúne em Minas cerca de 240 empresas de transportadores
turísticos, com mais de 1,2 mil ônibus e vans.
Já o presidente do Sindicato dos Transportadores Escolares, Carlos Eduardo
Campos, divulgou nota admitindo adesão parcial de motoristas de vans que
prestam serviço em escolas mineiras – só na Região Metropolitana da capital,
são cerca de 2 mil profissionais.
“O sindicato tem conhecimento e classifica como plenamente legítima a
ocorrência de manifestações autônomas de transportadores escolares,
descontentes com a alta dos combustíveis”, informou.
Campos ressaltou, porém, que sábado está marcada reunião, na sede do sindicato,
no Parque Pedro II, Região Noroeste, “com representantes, lideranças,
entidades, cooperativas de transporte escolar da Região Metropolitana de Belo
Horizonte, para definir o posicionamento e/ ou as medidas que serão adotadas em
relação aos protestos de aumento do óleo diesel”.
“Trabalhamos com a hipótese de organizar uma manifestação pacífica de apoio aos
caminhoneiros conjugada com a arrecadação de água e alimentos para a
distribuição nos pontos de concentração nas rodovias”, disse o sindicalista.
Petroleiros
Também ontem, durante manifestação na porta da Refinaria Gabriel Passos
(Regap), em Betim, o grupo de caminhoneiros que fazia piquete na BR-381 foi
engrossado por cerca de 80 trabalhadores da Petrobras.
Segundo a direção do sindicato da categoria (Sindipetro-MG), os petroleiros,
com greve já aprovada em assembleia, apenas aproveitaram a mobilização para
fazer “um esquenta” do próprio movimento.
O diretor do Sindipetro/MG, Alexandre Finamori, disse que a alta dos preços dos
combustíveis e do gás de cozinha é reflexo direto da política de privatização
da Petrobras, contra a qual os petroleiros se insurgem.
Para ele, a Petrobrás tem subido o preço dos derivados de petróleo para se
tornar mais atrativa a investidores de fora do país. “Nenhuma empresa
estrangeira quer vir para o Brasil construir ou comprar uma refinaria com o
preço da gasolina fixado pelo Estado e tendo como objetivo cumprir uma função
social de segurar a inflação. Então, a Petrobrás tem subido o preço de tal
forma que hoje é interessante importar gasolina”, disse Finamori.

Trégua pedida por Temer não encerra paralisação
Representantes dos caminhoneiros deixaram ontem reunião com os ministros da
Casa Civil, Transportes e Secretaria de Governo afirmando que o Planalto não
apresentou propostas que levem ao fim da paralisação da categoria, que já dura
três dias.
De acordo com o presidente da Confederação Nacional dos Transportadores
Autônomos (CNTA), Diumar Bueno, novo encontro ficou agendado para hoje.
Em evento ocorrido também ontem, o presidente Michel Temer disse que pediu uma
“trégua” de até três dias na paralisação. “Pedi que na reunião se solicitasse
uma espécie de trégua para que em dois, três dias no máximo, pudéssemos
encontrar uma solução satisfatória para os caminhoneiros e para o povo
brasileiro”, disse.
“Não houve nenhuma proposta efetiva que possamos levar para a categoria. A
proposta deles foi pedir um prazo para que eles (o governo) se posicionem
amanhã (hoje) às 14h”, disse o presidente da CNTA. Segundo Bueno, a categoria
não vai se desmobilizar antes de um compromisso real por uma saída para as
demandas apresentadas.
As principais reivindicações dos caminhoneiros são a redução de impostos sobre
o preço do óleo diesel, como PIS/Cofins e ICMS e o fim da cobrança de pedágios
de caminhões que trafegam vazios.
Desabastecimento de combustível vira realidade em Minas
Não bastasse ter de arcar com o preço dos combustíveis nas bombas dos postos, o
consumidor mineiro corre o risco de enfrentar desabastecimento e interrupção de
serviços em segmentos importantes, ainda esta semana, em razão da greve dos
caminhoneiros.
Ontem pela manhã, o movimento provocava paralisações em 46 trechos de rodovias
federais que cortam o Estado, com destaque para as BRs 040, 050, 116, 153, 251,
262 e a 381.
Nos próprios postos, a perspectiva era de que, em pouco tempo, não houvesse mais
gasolina, diesel e, principalmente, álcool para atender à população, caso o
movimento persista.
Em nota, o Minaspetro, sindicato que reúne mais de 4 mil postos no Estado,
informou que “cidades em diversas regiões mineiras – incluindo a Região Metropolitana
de Belo Horizonte (RMBH) – já começam a registrar a falta de combustível em
seus estabelecimentos revendedores”.
“Os bloqueios nas rodovias que cortam o Estado, em especial a BR 381, onde está
instalada a Refinaria Gabriel Passos (Regap), impedem a chegada dos produtos
que compõem os combustíveis revendidos aos consumidores; em consequência disto,
as bases das companhias distribuidoras estão fechadas, acarretando no não
reabastecimento dos postos que operam na RMBH e no interior”, afirma o documento.
O Hoje em Dia apurou que em cidades do Centro-Oeste de Minas, como Divinópolis,
já havia postos com bombas fechadas. Na capital, estabelecimentos como os
postos Pica Pau II, na Região Oeste, Ponte Nova, na Centro-Sul, Alabastro, na
Leste, e Carijó, no Anel Rodoviário, procurados pela reportagem, registravam
aumento de 10% a 30% na procura por abastecimento. A expectativa em todos eles
era de que, nesta quinta-feira, o etanol – que tem sido preferido pelos
motoristas, em razão do preço mais em conta – acabasse, sem perspectivas de
reposição.
Passageiros
Também entidades de empresas de transporte de passageiros acusavam riscos de
comprometimento de serviços. Os sindicatos das Empresas de Transporte de
Passageiros de Belo Horizonte (SetraBH) e Metropolitano (Sintram), por exemplo,
informaram, ontem, estar enfrentando processo de desabastecimento, que “pode
inviabilizar o cumprimento do quadro de horário de viagens na
integralidade”.
“A situação é grave e pode comprometer os serviços de transporte prestados à
população da região metropolitana de Belo Horizonte”, informou o Sintram.
Mais de 2 milhões de aves sem alimentação e leite perdido
Importantes segmentos industriais de Minas do setor alimentício também
demonstraram grande preocupação em relação ao movimento dos caminhoneiros. O
conselheiro da Associação dos Avicultores de Minas Gerais (Avimig), Cláudio
Faria, relatou que, ontem, pelo menos três frigoríficos estavam totalmente
parados no Estado, em razão de problemas de transporte tanto de animais abatidos
quanto de alimentação para as criações.
“Nossa estimativa a é de que, em razão da paralisação dos caminhoneiros, mais
de 2 milhões de frangos e mais de 100 mil suínos criados em Minas estejam sem
alimentação no momento, correndo sério risco de morrer e não poder ser
utilizados pela indústria. Além disso, caso esses animais não resistam, surgirá
um novo problema: o da contaminação dos locais onde se encontram”, disse.
Folga forçada
Faria informou ainda que 6 mil trabalhadores do segmento “simplesmente voltaram
para casa” ontem, já que o fluxo logístico dos criadouros e frigoríficos não
pode ocorrer.
“A greve já provocou um enorme desarranjo no nosso setor produtivo e deixou
perdas irreversíveis. Infelizmente, acreditamos que tudo pode piorar”, acrescentou.
No setor de laticínios e derivados de leite, a situação também é considerada
crítica. Embora afirme reconhecer “a legitimidade da paralisação dos
caminhoneiros contra os constantes aumentos no preço dos combustíveis e se
solidariza com a classe”, o sindicato dos produtores (Silemg) informou que já
registra “perdas inevitáveis para toda a cadeia leiteira, como o consequente
risco de descarte de mercadorias in natura, a impossibilidade do transporte e
entrega das cargas perecíveis e a não captação do leite nas propriedades”.
De acordo com a entidade, isso gera “prejuízos aos produtores rurais,
indústria, transportadores e consumidores”. “Mais de 16 milhões de litros de
leite são captados diariamente nas fazendas mineiras e destinados à industrialização
e boa parte dessa produção está sendo perdida nos caminhões e nas fazendas
leiteiras. “Há risco Iminente de desabastecimento de leite e seus derivados”,
sustenta o documento.
Supermecados
A Associação Mineira dos Supermercados (Amis) comunicou, ontem, “sua
preocupação com as conse-quências dos bloqueios nas rodovias para o
abastecimento de gêneros básicos, notadamente o de alimentos perecíveis, tais
como frutas, legumes, verduras, carne in natura e demais categorias de produtos
resfriados, como laticínios”.
“Mesmo com o esforço do setor de supermercados para garantir o perfeito
abastecimento da população mineira, empresas filiadas à AMIS reportaram que já
começam a ter afetada a sua rotina de recebimento destes produtos em todo o
Estado”, informou a associação.
Assim como a Amis, entidades de diferentes segmentos também fizeram comunicados
oficiais, alertando os consumidores para a possibilidade de falta de produtos
ou comprometimento de serviços nos próximos dias, em razão da greve dos
caminhoneiros.
A Associação Brasileira dos Revendedores de GLP, ASMIRG-BR, por exemplo,
informou que há risco de desabastecimento “em grande parte do Brasil”. Os
Correios também detectaram atrasos na entrega de correspondências e encomendas.
O mesmo ocorreu com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm),
entidade que representa as lojas virtuais do País e considerou “gravíssima a
paralisação dos caminhoneiros, que já afeta milhares de consumidores que
dependem do serviços de transportadoras”.