POST HOC ERGO PROPTER HOC
Paulo Haddad
No início da estação da Primavera, um feiticeiro veste o seu manto
inteiramente na cor verde. As árvores crescem, as flores brotam e as paisagens
se cobrem de um verde exuberante. Muitos passam a acreditar que ocorreu uma
transformação do ambiente porque o feiticeiro vestiu seu manto. Uma falácia
causal que a Lógica Formal denomina em Latim de “post hoc ergo propter hoc”
(“depois disso, logo causado por isso”). Essa falácia lógica é também
denominada de “correlação coincidente”, que consiste na ideia de que dois
eventos que ocorram em sequência cronológica estão necessariamente interligados
através de uma relação de causa e efeito.
Muitas vezes um fenômeno que sofre mudanças por causas necessárias e
suficientes pode até mesmo se transformar quando se acionam apenas as causas
necessárias porque, eventualmente, as causas suficientes ocorreram por fatores
exógenos. Chega-se, assim, a uma conclusão equivocada sobre as causas da
transformação, baseando-se unicamente na ordem dos acontecimentos, sem levar em
consideração outros fatores que possam vir a excluir ou a confirmar tal
inter-relação ou conexão causal.
Os economistas tendem a trabalhar com modelos abstratos incrustados em
suas estruturas mentais visando a elaborar uma versão simplificada de uma
situação ou fenômeno complexo da realidade. Em geral, essa versão contém
elementos e relações em uma escala suficientemente simples para a análise
sistemática dos problemas envolvidos, e suficientemente frutífera e relevante
para a compreensão das circunstâncias complexas do fenômeno ou situação.
Os modelos abstratos dos economistas incorporam, cada vez menos,
componentes institucionais, históricos e psicossociais da realidade sobre a
qual intervêm com suas políticas econômicas. Diminuem, assim, de forma
significativa, a sua capacidade de predizer as mudanças que podem ocorrer a
partir dos instrumentos que controlam (taxa de juros básica, taxa de câmbio,
déficit ou superávit primário); produzem um sistema teoricamente consistente,
coeso e exato, o que lhes permite tergiversar sobre a política econômica com
otimismo em relação aos resultados esperados.
A atual política econômica do Governo Temer baseia-se num modelo de
austeridade fiscal, o qual pressupõe que a condição necessária e suficiente
para que haja um processo de retomada do crescimento econômico no Brasil é o
reordenamento das finanças públicas nos três níveis de Governo. E que esse
reordenamento se processará através de ajustes e reformas, algumas das quais já
iniciadas com grande sucesso.
Entretanto, experiências recentes que vêm sendo realizadas com o modelo
de austeridade, particularmente em países da União Europeia, mostram que, se o
reequilíbrio fiscal é absolutamente indispensável para criar uma expectativa
favorável ao crescimento econômico no sentido de favorecer a redução das taxas
de juros e abrir espaço para os investimentos privados nos mercados
financeiros, esse reequilíbrio não é suficiente. Há motivos para isso.
Em países como o Brasil, onde o aparelho estatal é tão mal gerenciado e
ineficiente, onde há uma inquestionável inaptidão das lideranças políticas e a
corrupção administrativa estende seus tentáculos nos três níveis de governo, o
reordenamento fiscal é um processo muito longo, intermitente, recessivo e
desalentador. A prova desse enredo confuso e intrincado é o fato do Governo
Federal trabalhar com déficit primário de R$ 170 bilhões e R$ 139 bilhões em
2016 e 2017, respectivamente. Algo absolutamente peculiar para quem defende a
austeridade fiscal.
As medidas que foram propostas até agora para a retomada do crescimento
econômico, ou não têm a intensidade e a cadência necessárias para dar um
empurrão expressivo numa economia que precisa sair do atoleiro depressivo ou
somente irão gerar resultados positivos no médio e no longo prazo. Enquanto
isso, a taxa de desemprego aberto pode caminhar para 13%, cresce o número de
empresas de diferentes escalas produtivas que poderão sair do mercado e aumenta
o nível de insatisfação popular com um governo que nasceu sob o signo da
esperança.
Assim, não há como esquecer a experiência de gestão da economia
brasileira de Campos e Bulhões que souberam, nos anos 1960, integrar com
inteligência a elaboração e implementação de um programa de estabilidade
monetária acoplado a reformas macro e microeconômicas em um plano decenal de
desenvolvimento. Uma combinação necessária e suficiente para produzir “o
milagre econômico” do início dos anos 1970. É bom lembrar que o galo canta
antes do nascer do sol. Mas o sol não nasce porque o galo canta.



