Pagar novo piso salarial a
professores é desafio para prefeituras
Bruno Moreno com Agência Estado
A Lei do Piso do Magistério vincula o aumento dos professores à variação
ocorrida no valor anual mínimo por aluno definido no Fundeb
Em tempos de queda de arrecadação de impostos e dificuldade para honrar
pagamentos, as prefeituras vão enfrentar outro desafio: o novo piso do
magistério.
Anunciado ontem pelo Ministério da Educação (MEC), o reajuste terá
impacto superior a R$ 5 bilhões nas contas das cidades brasileiras, de acordo
com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM).
O piso do salário dos professores era de R$ 2.135,64 para 40 horas
semanais e passou para R$ 2.298,80. O aumento foi de 7,64% e já começa a valer
neste mês. O índice é maior do que a inflação de 2016, fechada em 6,29%.
Apesar de o governo federal ter aprovado, no fim do ano passado, a lei
que congela os gastos públicos pelos próximos 20 anos, com reajustes apenas
pela inflação, o aumento do piso do magistério não segue esta mesma regra, e
sim a Lei do Piso do Magistério, que é federal.
“É uma lei esdrúxula, porque leva em conta a projeção de arrecadação do
Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos
Profissionais da Educação (Fundeb) e não o efetivamente arrecadado”, critica o
presidente da CNM, Paulo Ziulkoski.
De acordo com ele, as projeções são muito otimistas em relação à
realidade. Além do impacto do aumento do piso dos professores, os prefeitos
ainda terão uma fatura adicional este ano de R$ 2,3 bilhões devido ao aumento
no salário mínimo, que passou de R$ 880 para R$ 937.
No ano passado, conforme a entidade, os municípios gastaram R$ 266
bilhões com folha de pessoal, sendo que 21,5% desse valor foram destinados a
profissionais do magistério em atividade.
Ziulkoski ainda coloca que a atual Lei do Piso do Magistério inviabiliza
a educação básica, porque os municípios não terão condições de sustentar os
aumentos salariais. Enquanto isso, outras despesas perdem lugar no orçamento
das prefeituras.
“Agora, em situação de crise econômica, estados e municípios que
conseguiam pagar começam a ter dificuldades. Não é que a gente ache que o
professor não tem direito a ganho real, mas tem que ser negociado. Não pode ser
uma lei federal”
Mariza Abreu
Consultora em Educação da CNM
Mariza Abreu
Consultora em Educação da CNM
Prioridade
De acordo com dados coletados pela CNM no Sistema de Informação sobre
Orçamentos Públicos em Educação (Siope), mais de 5 mil municípios destinavam
mais de 80% dos recursos do Fundeb apenas para a folha de pagamento em 2015.
“É muito bonito fazer propaganda no lombo dos outros. Não há
com-plementação do piso como foi prometido”, questiona Ziulkoski. “A educação
não é prioridade em nenhum governo, nem Dilma, nem Temer, nem Lula”, criticou o
presidente da entidade.
Assim como os estados, os municípios também passam por dificuldades e
chegaram a solicitar ajuda à União. No fim de 2016, os prefeitos conseguiram
obter a divisão dos valores da multa do programa de repatriação de recursos
enviados ilegalmente ao exterior, o que lhes rendeu pouco mais de R$ 5 bilhões
no último dia do ano. O dinheiro foi essencial para que alguns prefeitos
conseguissem organizar as contas antes de encerrarem os mandatos.
Governo de Minas estima impacto de R$ 1,2 bilhão neste ano
A Secretaria de Planejamento e Gestão de Minas Gerais (Seplag) estima
que o novo piso do magistério implicará um gasto extra de R$ 1,2 bilhão para o
ano de 2017.
“O governo está avaliando a forma de atingir o novo valor do piso,
conforme disponibilidade de recursos, mas garante o cumprimento do acordo
firmado. Uma das opções, em decorrência da situação orçamentária e com decreto
de calamidade financeira em vigor, poderá haver complementação orçamentária por
parte do Tesouro Nacional, como determina a Lei 11.738/2008, no art. 4º”,
aponta a Seplag, em nota.
A expectativa do diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação da
Rede Pública Municipal de BH, Wanderson Rocha, é a de que a prefeitura adote
não apenas o piso nacional, mas também negocie a recomposição das perdas
acumuladas. A campanha salarial da categoria começa no mês que vem
Conforme a secretaria, o acordo com a categoria é que, em julho de 2018,
todos os professores (ativos e inativos) com carga horária de 24 horas semanais
tenham vencimentos correspondentes ao piso nacional (estabelecido para 40 horas
semanais).
A Seplag informou, ainda, que o vencimento atual pago aos professores da
Educação Básica com jornada de 24 horas semanais é de R$ 1.620,62. Além do
vencimento, os profissionais ativos e inativos com a mesma jornada semanal
recebem mais dois abonos: R$ 211,58 e R$ 150,34, que serão incorporados integralmente
ao vencimento em junho de 2017, passando a R$ 1.982,54.
Além disso, em agosto deste ano, esses mesmos professores receberão um
novo abono, de R$ 153,10, a ser incorporado integralmente aos vencimentos em
julho de 2018.
“Precisamos melhorar o salário dos professores e valorizá-los. Ao mesmo
tempo, não há recursos suficientes para dar um reajuste acima da inflação”
Maria Helena Guimarães de Castro
Secretária-executiva do MEC
Maria Helena Guimarães de Castro
Secretária-executiva do MEC
Crise
A possibilidade de que todos os municípios atendam ao novo piso é
pequena. Não bastasse a crise financeira, um estudo do MEC, realizado em
novembro, aponta que menos da metade dos municípios e de 17 estados, além do
DF, declararam conseguir pagar em 2016 ao menos o mínimo estabelecido em lei
aos professores.
O levantamento foi feito com base na declaração dos estados e
municípios. Entre os municípios, 2.533 (44,9%) declararam cumprir o valor do
piso.
Apesar de a lei federal estabelecer o piso do magistério, não há uma
punição para os gestores que não a cumprirem.




