Onde está o Banco Central?
Paulo Haddad
Durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, ocorreu uma
profunda desorganização das finanças do governo Federal. Ao longo de quatro
anos de uma gestão pública desastrosa, transformou-se o superávit primário em
um mega déficit nominal.
As despesas públicas cresceram bem acima da expansão da economia; muitos
empréstimos subsidiados foram distribuídos segundo a lógica do capitalismo de
compadrio; incentivos fiscais alimentaram o caixa de empresas com maior
capacidade de lobby para defender os seus interesses muitas vezes velados.
O resultado desse chorrilho de distorções e de malversações na alocação
dos recursos públicos foi a perda do grau de liberdade do governo Federal para
conceber e executar políticas fiscais em defesa dos níveis de renda e de
emprego, numa economia que entrava em recessão no segundo semestre de 2014, com
o risco de caminhar para uma depressão econômica a partir de 2017. Atualmente,
o esforço da equipe econômica do governo Federal se concentra, principalmente,
em domar o crescimento da despesa e da dívida pública.
Assim, o peso maior das saídas para as questões da recessão econômica,
do desemprego alarmante e da deterioração dos serviços públicos essenciais nos
estados e municípios deverá recair sobre uma gestão bem-sucedida da política
monetária do Banco Central. A preocupação é que, até o momento, a contribuição
da atual política monetária no equacionamento dessas questões tem sido
lamentável, para não dizer sofrível.
Isso porque, para controlar altas taxas de inflação, o Banco Central
está praticando uma política monetária restritiva, com base em uma taxa de
juros absurdamente elevada. Disso resultam os desestímulos ao consumo das
famílias e aos investimentos das organizações produtivas, a atração dos investimentos
externos em portfólios financeiros que ajudam a valorizar o Real e desestimulam
as nossas exportações, ampliando as desigualdades sociais de renda em benefício
dos detentores da riqueza financeira. Enfim, uma contribuição que, caso
persista, conduzirá a economia brasileira para uma paralisia e para a
especulação financeira.
Em muitos países desenvolvidos, como resposta à crise
econômico-financeira deflagrada a partir do final de 2008, os Bancos Centrais
assumiram a liderança de uma intervenção agressiva, concebida para salvar a
economia mundial de políticas nacionais extremistas e de uma depressão longa e
devastadora do tecido social. Desenvolveram políticas monetárias não
convencionais e surpreendentes (taxas de juros negativas, por exemplo) para
proporcionar às sociedades a retomada do crescimento econômico, empregos,
inflação baixa e estável, supervisão e regulamentação do sistema financeiro,
apesar de cientes de que essas políticas iriam induzir incomensuráveis custos e
riscos no futuro, por causa de danos colaterais e consequências não esperadas.
Mesmo sabendo que nossa trajetória econômica apresenta grandes
diferenças estruturais e contextuais em relação às economias das nações mais
desenvolvidas, espera-se que o nosso Banco Central não se limite, simplesmente,
a manter a meta de inflação.
E que não aguarde até que todas as incertezas da economia sejam
sensivelmente reduzidas para começar a ser proativo, inovador e o principal
protagonista para retirar o país da crise. Lembrando que políticas não
convencionais devem ser conduzidas sem hubris, ou seja, sem confiança
excessiva, sem presunção e sem arrogância.
Para controlar altas taxas de inflação, o Banco Central está praticando
uma política monetária restritiva, com base em uma taxa de juros absurdamente
elevada



