segunda-feira, 11 de julho de 2016

POLÍTICA ECONÔMICA AINDA MUITO SOFRÍVEL PARA DEBELAR A CRISE



Onde está o Banco Central?

Paulo Haddad 




Durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, ocorreu uma profunda desorganização das finanças do governo Federal. Ao longo de quatro anos de uma gestão pública desastrosa, transformou-se o superávit primário em um mega déficit nominal.

As despesas públicas cresceram bem acima da expansão da economia; muitos empréstimos subsidiados foram distribuídos segundo a lógica do capitalismo de compadrio; incentivos fiscais alimentaram o caixa de empresas com maior capacidade de lobby para defender os seus interesses muitas vezes velados.

O resultado desse chorrilho de distorções e de malversações na alocação dos recursos públicos foi a perda do grau de liberdade do governo Federal para conceber e executar políticas fiscais em defesa dos níveis de renda e de emprego, numa economia que entrava em recessão no segundo semestre de 2014, com o risco de caminhar para uma depressão econômica a partir de 2017. Atualmente, o esforço da equipe econômica do governo Federal se concentra, principalmente, em domar o crescimento da despesa e da dívida pública.

Assim, o peso maior das saídas para as questões da recessão econômica, do desemprego alarmante e da deterioração dos serviços públicos essenciais nos estados e municípios deverá recair sobre uma gestão bem-sucedida da política monetária do Banco Central. A preocupação é que, até o momento, a contribuição da atual política monetária no equacionamento dessas questões tem sido lamentável, para não dizer sofrível.

Isso porque, para controlar altas taxas de inflação, o Banco Central está praticando uma política monetária restritiva, com base em uma taxa de juros absurdamente elevada. Disso resultam os desestímulos ao consumo das famílias e aos investimentos das organizações produtivas, a atração dos investimentos externos em portfólios financeiros que ajudam a valorizar o Real e desestimulam as nossas exportações, ampliando as desigualdades sociais de renda em benefício dos detentores da riqueza financeira. Enfim, uma contribuição que, caso persista, conduzirá a economia brasileira para uma paralisia e para a especulação financeira.

Em muitos países desenvolvidos, como resposta à crise econômico-financeira deflagrada a partir do final de 2008, os Bancos Centrais assumiram a liderança de uma intervenção agressiva, concebida para salvar a economia mundial de políticas nacionais extremistas e de uma depressão longa e devastadora do tecido social. Desenvolveram políticas monetárias não convencionais e surpreendentes (taxas de juros negativas, por exemplo) para proporcionar às sociedades a retomada do crescimento econômico, empregos, inflação baixa e estável, supervisão e regulamentação do sistema financeiro, apesar de cientes de que essas políticas iriam induzir incomensuráveis custos e riscos no futuro, por causa de danos colaterais e consequências não esperadas.

Mesmo sabendo que nossa trajetória econômica apresenta grandes diferenças estruturais e contextuais em relação às economias das nações mais desenvolvidas, espera-se que o nosso Banco Central não se limite, simplesmente, a manter a meta de inflação.

E que não aguarde até que todas as incertezas da economia sejam sensivelmente reduzidas para começar a ser proativo, inovador e o principal protagonista para retirar o país da crise. Lembrando que políticas não convencionais devem ser conduzidas sem hubris, ou seja, sem confiança excessiva, sem presunção e sem arrogância. 

Para controlar altas taxas de inflação, o Banco Central está praticando uma política monetária restritiva, com base em uma taxa de juros absurdamente elevada

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