‘Não podemos fazer política
de combate à pobreza com os olhos da riqueza', diz socióloga
© Rovena Rosa/Agência Brasil '69%
das pessoas que trabalham em Paraisópolis trabalham na área de serviços: babá,
zelador, porteiro. São as pessoas que mais vão sofrer', diz Gilson Rodrigues
sobre pandemia de coronavírus
Com base em preconceitos, a sociedade quer definir qual pobre merece
receber auxílio do Estado, segundo a avaliação da socióloga Letícia Bartholo,
especialista em programas de transferência de renda. É aí, diz a pesquisadora
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que moram as armadilhas do
debate sobre programas de combate à pobreza.
"É um tom moralizante que caracteriza a sociedade brasileira e por
isso está presente em todos os setores. É você, baseado num preconceito sobre
os pobres, definir qual é o pobre meritório, que faz jus ao amparo do Estado, e
qual é o pobre não meritório", diz. "Não podemos fazer política de
combate à pobreza com os olhos da riqueza."
A discussão sobre programas de combate à pobreza no Brasil aumentou
depois que a crise gerada pela pandemia do coronavírus levou o governo a criar
o auxílio emergencial para proteger a população mais vulnerável.
A equipe do presidente Jair Bolsonaro tem falado com mais frequência
sobre uma ampliação do programa Bolsa Família. Embora não tenha apresentado
formalmente uma proposta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o
novo programa chamará Renda Brasil, reunirá programas sociais existentes e terá
valor mais alto do que o Bolsa Família.
O Bolsa Família hoje atende 14,2 milhões de famílias, com benefício que
varia em função da renda, do número de pessoas na família e idade delas. O
valor pago é, em média, de R$ 188, segundo dados de junho de 2020.
Em entrevista à BBC News Brasil, Bartholo, que foi secretária nacional
adjunta de Renda de Cidadania de 2012 a 2016, explica quais são os principais
eixos que devem ser levados em conta na hora desenhar ou reformar um programa
de transferência de renda e analisa o que considera armadilhas. Veja, a seguir,
os principais pontos:
Os eixos
Ao se pensar em um novo programa de transferência de renda ou na
ampliação do Bolsa Família, deve-se levar em conta três eixos, segundo
Bartholo.
O primeiro é a definição do público: quem vai fazer jus ao benefício. Ela
diz que, aí, é necessário considerar a dinâmica da pobreza no Brasil. "A
população pobre é formada em grande parte por pessoas que entram e saem da
pobreza com muita facilidade", diz.
Para ilustrar esse caráter volátil da renda dos mais pobres no Brasil, a
socióloga aponta que, considerando cinco trimestres, 65% da população
brasileira enfrenta ao menos um trimestre com renda mensal per capita inferior
a meio salário mínimo.
O segundo eixo é a definição do valor do benefício, que deve ser
calculado, nas palavras dela, para ser "efetivamente impactante" na
redução da pobreza.
E o terceiro ponto, diz ela, é dar segurança à população em relação ao
benefício: garantir que ele não será retirado de forma abrupta e que ele será
atualizado de forma periódica.
"O programa deve ter uma atualização monetária das linhas de
pobreza e valores de benefício. Essa atualização deve ser periódica, coisa que
ainda não temos no Bolsa Família, que tem suas atualizações feitas de forma
discricionária."
Bartholo diz que esse debate deve incluir não só economistas, mas também
especialistas em pobreza e desigualdade e em assistência social, saúde e
educação que vêm acompanhando a articulação do Bolsa Família com essas áreas ao
longo dos últimos anos.
Em artigo publicado em junho, ela e outros três especialistas no assunto
(Luis Henrique Paiva, Rodrigo Orair e Pedro H. G. Ferreira de Souza) defendem
que seja adotado um programa temporário de transferência de renda (12 a 18
meses), como uma transição do auxílio emergencial para um formato permanente.
Eles argumentam que isso permitiria aliar a urgência do tema com a necessidade
de debate.
Fazer uma mudança muito rápida, segundo os autores, "é correr o
sério risco de substituir um programa de reconhecido êxito como o Bolsa Família
por algo mal desenhado e com implementação de baixa qualidade".
Questionada sobre quais deveriam ser os parâmetros para um novo
benefício, a pesquisadora defende que seja, pelo menos, um benefício mensal de
no mínimo R$ 100 para cada indivíduo com renda familiar mensal de até meio
salário mínimo per capita, sem limite de pessoas na família.
Quão maior teria que ser o orçamento em relação ao do Bolsa Família hoje
para acomodar essa proposta? Ela diz que pelo menos quatro vezes.
O grande problema, geralmente apontado pela equipe econômica, é como
arcar com novas despesas em um orçamento já considerado apertado.
Bartholo diz que a discussão de ampliação do benefício deve vir
vinculada ao debate da reforma tributária. E reconhece que, além disso,
provavelmente teria que haver uma revisão do teto de gastos, que é o mecanismo
aprovado em 2016 que prevê que o gasto máximo que o governo pode ter é
calculado com base no orçamento do ano anterior, corrigido pela inflação.
'Mundo digital' e outras armadilhas
Um ponto que Bartholo destaca como uma grande armadilha, quando se trata
de um programa com foco na população mais vulnerável, é o pensamento de que
tudo deve migrar para o digital.
"Muitas vezes se fala, por exemplo, que o mundo é digital. 'Vamos
fazer de forma digital'. Aí você pergunta: para quem o mundo é digital? Será
que no interior do Brasil o mundo é digital como pensamos aqui de Brasília? Num
país onde praticamente 70 milhões de adultos não completarem o ensino médio? E
só conseguimos suplantar isso indo até o local, conversando com a população, ou
no mínimo conversando com quem está de fato em comunicação constante com essa
população."
Esse contato com os beneficiários dos programas sociais é feito pela
rede de assistência social nos municípios brasileiros: 8 mil centros de
referência atendem praticamente 70 milhões de pessoas vulneráveis à pobreza.
Da forma como funciona hoje, é nesses locais que essas pessoas fazem seu
cadastro, se informam e são acompanhadas. "Para elas, esse encontro cara a
cara com o poder público faz toda a diferença", diz a pesquisadora.
Bartholo avalia que, "se hoje o Bolsa Família conta com toda esta
rede de atendimento e tem qualidade reconhecida mundialmente, é porque optou
por fortalecer as redes de assistência locais".
"Construir um programa de transferência de renda baseado
completamente no acesso digital pelas pessoas e centralizado no nível federal
será, sem dúvida, um retrocesso e um bom passo para o fracasso."
Bartholo publicou em julho outro artigo com os sociólogos Pedro H. G.
Ferreira de Souza, e Luis Henrique Paiva e o economista Rodrigo Orair que
aponta que outra armadilha nesse debate está em acreditar que recursos poupados
com os chamados pentes-finos (a análise de quem recebe benefício sem ter
direito) seriam suficientes para construir um programa de transferência de
renda realmente efetivo na superação da pobreza. Eles apontam que não bastaria
apenas um "choque de gestão" para a política se tornar mais eficiente
e efetiva — embora, claro, seja dever do Estado fazer esse controle e corrigir
eventuais erros.
E o argumento recorrente no Brasil de que benefícios como o Bolsa
Família podem acomodar as pessoas e eventualmente desestimular a busca por
trabalho?
Bartholo diz que essa colocação não se sustenta e também a define como
armadilha. Ela afirma que estudos com base em resultados do Bolsa Família
demonstram que beneficiários do Bolsa Família, comparados a pessoas do mesmo
perfil não atendidas, têm mais acesso ao mercado de trabalho formal.
"Do ponto de vista das pesquisas quantitativas sabemos que
beneficiários do Bolsa Família não deixam de buscar inserção no mercado de
trabalho formal. E os estudos qualitativos, principalmente aqueles feitos com
mães beneficiárias do programa, é que o benefício fez com que elas pudessem
achar que a miséria não era mais uma sina, que a miséria não é um destino, que
os filhos e elas podem ter um novo futuro. Isso é você sair de uma condição de
resignação completa e ir para um patamar de cidadania, em que tem expectativa
de que as coisas podem mudar."
© Getty Images Pandemia do
coronavírus levou o governo a criar o auxílio emergencial para proteger a
população mais vulnerável.
Outro erro, na avaliação de Bartholo, seria mudar o nome do programa. O
ministro Paulo Guedes, contudo, chegou a mencionar que o próprio Bolsa Família
foi uma união de outros programas, ao defender o nome de Renda Brasil.
A pesquisadora argumenta que "o Bolsa Família veio de um
amadurecimento a partir dos programas anteriores, mas teve amplitude de escala
muito maior e formou, junto dele, uma rede de acompanhamento nas áreas de
saúde, assistência social e educação que o caracterizam".
No artigo, os autores dizem que batizar uma ampliação do Bolsa Família
com outro nome "só confundiria a população e causaria entre os mais pobres
a sensação de que a existência do benefício depende de manter no poder quem o
criou — sentimentos diametralmente opostos à noção de renda básica".
O Bolsa Família foi criado no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, do PT.
Impactos do auxílio emergencial
Sobre o já existente auxílio emergencial, de R$ 600, Bartholo diz que
tem sido fundamental para a proteção da população mais vulnerável durante a
pandemia. Ela cita que o benefício atinge 65 milhões de pessoas de forma direta
e mais de 120 milhões de brasileiros de forma indireta — ou seja, considerando
as famílias dos beneficiários. Isso representa mais de metade da população
brasileira, de 209,5 milhões de pessoas.
O benefício foi anunciado com duração de três meses, a ser pago a
trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e
desempregados que cumprem determinados requisitos, como renda familiar per
capita de até meio salário mínimo (R$ 522,50) ou com renda total de até três
salários mínimos (R$ 3.135). Em julho, o governo anunciou prorrogação por mais
dois meses.
A pesquisadora aponta, no entanto, pelo menos dois pontos que considera
ruins. O primeiro é deixar de fora do benefício quem recebeu rendimentos
tributáveis acima do teto de R$ 28.559,70 em 2018. Por se tratar de um cenário
de um ano e meio atrás, ela aponta que a realidade financeira dessa pessoa pode
estar diferente hoje.
O segundo tem a ver, de novo, com o acesso à tecnologia. Os
beneficiários que não estavam inscritos no Cadastro Único só tinham a opção de
fazer o pedido do auxílio por site ou aplicativo. Para Bartholo, isso dificulta
o acesso de parte do público que teria direito ao benefício.


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