'Reforma tributária tem de
ser a mais ampla possível'
Adriana Fernandes
BRASÍLIA - Depois do envio da proposta do governo de criar um imposto
para fundir PIS/Cofins, o relator da comissão mista da reforma tributária,
Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), disse que a mudança no sistema tributário "não
pode ser pequena". Segundo ele, o acerto é fazer uma reforma ampla, como
já está previsto nas propostas que tramitam na Câmara e do Senado.
Ribeiro afirmou que para o setor de serviços, considerado o mais
prejudicado com a proposta enviada pelo governo, é melhor uma proposta que
inclua a redução dos impostos pagos sobre os salários dos funcionários como
contrapartida já que o segmento não consegue abater crédito pelo modelo
proposto pelo governo. Ribeiro não quis adiantar qual será a fonte de
financiamento da desoneração, mas disse que não é um imposto aos moldes da
antiga CPMF.
Ele defendeu uma junção dos tributos sobre consumo federais com os
estaduais e municipais com a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
Disse que vai conseguir o apoio das cidades, inclusive das capitais, que estão
mais reticentes.
© Gabriela Biló/Estadão Aguinaldo
Ribeiro, deputado e relator da comissão mista, diz ser candidato a 'aprovar a
reforma tributária'
Qual será a estratégia depois do envio
da proposta do governo?
Vamos pegar as três propostas na comissão mista. Meu pessoal está
analisando e vai entregar na segunda-feira. Temos uma reação muito grande de
vários setores à proposta do ministro da Eonomia, Paulo Guedes.
Essas críticas ao projeto mudam os
planos?
Para mim, não. Não muda muita coisa porque sempre tenho defendido uma
reforma ampla, que é o que está posto na PEC 45 (da Câmara) e na PEC 110
(Senado) e ir além.
O que é ir além? É a desoneração?
É trabalhar um aumento da base de contribuição (onde o imposto é
cobrado), os desafios da tributação da nova economia. O mundo todo está
buscando isso e não vamos perder o momento de trabalhar essa lacuna que existe
em função de tudo ser novo. As novas relações que surgiram em função dos novos
hábitos de consumo, como as plataformas digitais, os big data, streaming, com
aquisição de serviços pela internet. Isso aumenta consideravelmente a base de
tributação. Essas são as empresas que mais crescem.
O sr. pretende ampliar essas empresas
com um novo tributo?
Estamos vendo como solucionar. Na minha visão, a solução dessa
tributação também está na tecnologia.
É possível ampliar a base com uma nova
CPMF?
Não estamos tratando de CPMF. Até porque não foi colocada.
O sr. é contra ou favor à volta da
CPMF?
Por convicção, eu sou contra aumentar a carga tributária do País. Eu sou
a favor da redistribuição dela. Como é que faz? Redistribui aumentando a base.
É esse o trabalho que vamos fazer. É por isso que a reforma tem que ser ampla.
Não pode ser uma reforma pequena. Se ela for pequena, vai recair sob
determinado setor. É o que a gente não quer. Se fizermos uma reforma pequena,
vamos terminar fazendo uma mudança de carga setorial.
O sr. está indicando que vai pegar a
proposta de governo e incluir num imposto amplo?
A proposta que o governo colocou é convergente do ponto de vista
conceitual da simplificação tributária. Mas eu defendo que seja incorporada às
propostas que estão postas. Todas duas são mais amplas do ponto de vista dos
impostos que são unificados.
Os municípios não querem essa reforma
ampla?
São municípios grandes. Não os pequenos. Estamos trabalhando no texto e
vamos construir o diálogo (com os grandes) para ver o que precisa
corrigir em relação ao impacto que acreditam que têm. Mas isso estará
contemplado no fundo de compensação. Que é exatamente para prever uma possível
perda e calibrar com o prazo de transição.
O setor de serviços ficará mais
tranquilo se a reforma for ampla?
Nós precisamos enfrentar este momento com soluções estruturais. O que o
País espera de nós é que possamos enfrentar os nossos problemas com mudanças
estruturais. Não adianta fazer uma reforma que não enfrente as distorções que
temos. Por essa razão, tratar, por exemplo, de tributação indireta, no consumo,
sem enfrentar o ICMS (imposto estadual), não vamos resolver as questões
de conflitos estaduais. Não vamos resolver os problemas que hoje contribuem
para o sistema complexo que temos. É mais razoável do ponto de vista político,
inclusive, que utilizemos essa energia para aprovar uma reforma mais ampla.
Talvez não seja aquela que o Brasil precise, uma radical, em matérias como essa
o bom senso manda a gente ser prudente, mas vamos ser ousados o que do ponto de
vista estrutural pode modernizar mais o nosso País.
A indústria defende a reforma porque
paga mais hoje e o setor de serviços está insatisfeito. Como sair desse
impasse?
No nosso relatório, estamos construindo uma alternativa via desoneração,
buscando as fontes necessárias para que possam custear. Não no modelo de
desoneração geral, que tem um custo muito alto, mais de R$ 300 bilhões. Fizemos
um debate com a Frente Parlamentar de Serviços. Temos na semana que vem
reuniões marcadas para avançarmos na construção de uma alternativa para a parte
do setor de serviços que tem mão de obra mais intensiva (a proposta de
reforma apresentada pelo governo aumenta a carga tributária para essas empresas).
Como seria essa desoneração?
Por faixas de renda dos salários. E vamos testar quanto podemos
desonerar e o efeito que isso tem nas cadeias que não geram crédito para
compensação. A desoneração será com esse foco: para as cadeias produtivas que
não conseguem gerar crédito. Para a parte do setor de serviços que gera crédito,
está resolvido. Ainda não posso dizer a fonte de financiamento. Precisamos
testar esses modelos colocando fontes. Eu tenho alguns valores e estou pedindo
as informações. A partir daí, vamos para cima.
Uma alíquota maior do IBS pode bancar
essa desoneração?
Aí seria fácil de resolver. A mesma coisa é a CPMF. Resolver o problema
aumentando carga tributária é o caminho mais elementar. O nosso desafio é
manter a carga e criar um ambiente em que a possamos aumentar a base. Para num
futuro próximo ter uma carga menor.
De que forma a proposta do ministro
Paulo Guedes ajuda já que o Congresso estava cobrando o projeto dele?
A proposta ajuda do ponto de vista do debate. O governo se põe no
debate. O próprio Guedes disse que não mandou uma mais ampla para respeitar o
Parlamento e a Federação. Mas disse que é a favor de uma reforma mais ampla. É
importante que a partir de agora a gente possa avançar nesse debate para
aprovarmos este ano. As quatro votações (uma reforma mais ampla com os
tributos estaduais e municipais exige dois turnos na Câmara e no Senado com, no
mínimo, três quintos de apoio em cada Casa). Por isso, foi importante a
criação da comissão mista porque esse debate já se fará a com os parlamentares
das duas Casas. Todos terão acesso ao texto que será construído no ambiente do
Congresso como um todo.
A eleição municipal não atrapalha?
Já habituamos com o debate virtual. Estamos votando, aprovamos três PECs
(Proposta de Emenda à Constituição) virtualmente, com todo mundo nas
suas bases. Se construir um texto que for validado pelas lideranças, não vejo
dificuldade não.
A recessão provocada pela covid-19
muda a história da reforma tributária?
Muda à medida que ela contribui para que a reforma seja ainda mais
necessária. A fórmula de sair dessa relação dívida pública x PIB, que aumentou
consideravelmente, é aumentar o crescimento econômico. Se avançarmos numa
transição da reforma mais rápida, podemos ter um crescimento também mais
rápido.
O governo com apoio do Centrão não
pode tentar aprovar o projeto de reforma dele antes?
O ministro foi claro. Ele fez uma fala internamente na sala do Davi (Alcolumbre,
presidente do Senado) que defendia uma reforma ampla e que está
apresentando essa proposta por respeitar a relação federativa.
Não pode ser retórica do ministro?
Se eu não acreditar na palavra das pessoas, fica difícil.
Mas o Centrão vai apoiar a reforma
ampla?
A reforma ampla é do Brasil e acho que nenhum partido vai negar a
reforma que o Brasil precisa num momento como esse. Não é uma pauta do governo.
Uma pauta do Estado.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia,
vai apoiar o nome para a sucessão no cargo que o ajudar a aprovar a reforma. O
sr. é candidato?
Sou candidato a aprovar a reforma. É o meu foco.

Nenhum comentário:
Postar um comentário