Estabilidade política e superação da crise
Cenários de desenvolvimento do atual
impasse político
Para o sucesso do país na superação da pandemia e
no enfrentamento da grave recessão que se desenha no horizonte, um fator é
fundamental: a estabilidade política. Por vezes, parece que estamos
inacreditavelmente engolfados numa verdadeira marcha da insensatez em meio a
uma tempestade quase perfeita.
Os últimos acontecimentos parecem fazer parte de um
roteiro de thriller político povoado de fantasmas e ameaças, que tendem a
intranquilizar a população, espantar investidores, desestabilizar a economia e
tornar ainda mais complexa uma situação já dificílima.
Mantida a marcha atual dos acontecimentos, podemos
cair no buraco negro de um impasse. Todo impasse requer solução. E não há
solução à vista. Seriam quatro os cenários possíveis de desdobramento da crise
política.
O primeiro, o fantasma do autogolpe, reproduzindo
processos que ocorreram na Venezuela, Peru, Itália e Alemanha. Não me parece
factível, dada as reiteradas manifestações das Forças Armadas em torno da
defesa da Constituição e da democracia. O próprio presidente Bolsonaro, em
solenidade recente, reafirmou o compromisso com a estabilidade constitucional,
apesar de suas permanentes inquietações retóricas e de espírito.
O segundo seria o impedimento do presidente pelo
Congresso Nacional, como ocorreu com Collor e Dilma, revelando a rigidez do
sistema presidencialista. Não me parece que essa alternativa esteja na ordem do
dia. A caracterização inequívoca de crime de responsabilidade não é questão
trivial, não há maioria parlamentar a favor do impeachment, e não há, ainda, o
necessário apoio popular a esta alternativa.
Em terceiro lugar, poderia ocorrer o afastamento do
presidente por via judicial como desdobramento dos inquéritos abertos na órbita
do STF ou dos processos em análise na Justiça Eleitoral. Também não acredito
nesta solução imediata. Os processos judiciais são longos, e creio que o
Judiciário, exceto se for encontrada nas investigações alguma fratura exposta,
não apostará numa confrontação definitiva.
Resta o impasse. Na falta de alternativa viável e
factível, o quarto cenário seria um empurrar com a barriga até 2022, aos
trancos e barrancos, com crises semanais a serem administradas, e sem um rumo
claro na economia e nas diversas políticas públicas. Hoje – porque a história é
feita também de acidentes de percurso – é o cenário mais provável. Mas o Brasil
suportará?
Precisamos rapidamente atrair investimentos para
reverter a profunda recessão que se avizinha e alavancar a retomada do
crescimento, gerando empregos e renda para a população. O setor público
encontra-se mergulhado em profunda crise fiscal, situação agravada com a
pandemia, e não será o investimento público que protagonizará a retomada.
A retomada virá necessariamente do investimento
privado. Mas não bastam bons fundamentos macroeconômicos, o sucesso nesta
empreitada depende de o ambiente institucional gerar confiança, expectativas
positivas, noção de que há um rumo, segurança jurídica e estabilidade legal,
regulatória e contratual. Isto está muito longe em nosso enredo de thriller
político assustador.
Por
ora, cabe a todos nós construir a maior convergência possível em torno da
defesa da Constituição, de suas instituições democráticas e da democracia
ameaçada. Não é tudo, mas já é muito.

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