G7 libera R$ 91 milhões para Amazônia e anuncia apoio a plano de
reflorestamento
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AFP/Getty Images Cúpula do G7 anuncia liberação de 20 milhões de euros para a
Amazônia
A cúpula do G7 chegou nesta
segunda-feira (26/8) a um acordo para ajudar a combater as queimadas na Floresta Amazônica.
Os líderes do grupo - formado por Alemanha, Canadá,
Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido - concordaram em liberar 20
milhões de euros (cerca de R$ 91 milhões) para a Amazônia. A maior parte do
montante será usada para enviar aviões de combate a incêndios, informou uma
fonte da Presidência francesa.
O grupo das sete maiores economias do mundo também
decidiu apoiar um plano de reflorestamento de médio prazo que será divulgado
pela ONU em setembro, acrescentou um assessor presidencial.
O presidente dos EUA, Donald Trump, não participou
da reunião em que foi fechado o acordo. Mas o presidente francês, Emmanuel
Macron, anfitrião da cúpula, afirmou que o colega americano apoia a iniciativa.
Segundo ele, Trump só não participou da sessão
sobre biodiversidade porque tinha reuniões bilaterais agendadas para o mesmo
horário.
O G7 está reunido desde sábado na cidade de
Biarritz, na França, e as queimadas na região amazônica se tornaram uma das
principais pautas do encontro.
A reação do governo brasileiro diante da gravidade
dos incêndios, que vieram a conhecimento do público na semana passada, provocou
indignação internacional e uma onda de protestos.
Críticos acusam o presidente Jair Bolsonaro de dar
"sinal verde" para a destruição da Amazônia, por meio de uma retórica
antiambientalista e da falta de ações para coibir o desmatamento.
Macron classificou as queimadas como uma
"crise internacional" e pressionou para que o tema fosse priorizado
na cúpula do G7 no fim de semana.
O que o Brasil está
fazendo?
Inicialmente, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo
Salles, minimizou os incêndios dizendo que eram consequência do período de
seca. Depois, Bolsonaro sugeriu que organizações internacionais estariam por
trás do aumento das queimadas, atuando em retaliação à redução de verbas
repassadas pelo governo.
Somente três dias após a imprensa divulgar um
aumento de 84% nos incêndios Bolsonaro fez uma reunião de emergência para
discutir a criação de uma força-tarefa e o envio de tropas do Exército para
controlar as chamas.
No sábado (24), o Ministério da Defesa afirmou que
44 mil soldados estavam à disposição. Até domingo, sete Estados brasileiros
haviam solicitado ajuda das tropas federais para debelar o fogo.
Aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) também
começaram a ser usados no fim de semana para despejar água nas regiões de
queimadas.
Bolsonaro informou no domingo, por meio do Twitter,
que aceitou a oferta de apoio do primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, para conter as queimadas.
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AFP Protestos em defesa da Amazônia aconteceram no Brasil e em outras partes do
mundo
Logo de início, o presidente a criticou a reação
internacional, acusando governos estrangeiros de interferir na soberania
nacional brasileira.
Em pronunciamento em cadeia nacional na
sexta-feira, Bolsonaro disse que "incêndios florestais existem em todo o
mundo e isso não pode servir de pretexto para possíveis sanções
internacionais".
Ameaças de boicote
Diversos países se manifestaram de maneira
contundente sobre os incêndios. Alguns chegaram a defender boicotes à carne e
produtos agrícolas brasileiros, além da derrubada do acordo comercial firmado
recentemente entre o Mercosul e a União Europeia.
Na abertura da cúpula do G7, o presidente do
Conselho Europeu, Donald Tusk, afirmou que é difícil imaginar que a União
Europeia ratifique o acordo com o Mercosul enquanto o Brasil não controlar as
chamas que destroem a Floresta Amazônica.
A declaração de Tusk se mostrou alinhada à fala de
Macron que, na sexta-feira, ameaçou deixar o acordo de livre comércio,
argumentando que Bolsonaro mentiu em relação a seu compromisso com o meio
ambiente.
A Irlanda também disse que pode derrubar o acordo,
e a Finlândia, que hoje ocupa a presidência rotativa da União Europeia, chegou
a pedir que o bloco avaliasse "urgentemente" a suspensão da
importação de carne bovina brasileira como resposta à destruição na Amazônia.
Para o presidente da Associação de
Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, por trás da
preocupação ambiental, há um mote comercial na tentativa de países europeus de
boicotar produtos brasileiros.
Qual a dimensão dos
incêndios?
Incêndios florestais ocorrem com frequência na
estação de seca no Brasil, mas dados de satélite divulgados pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram um aumento de 84% neste ano,
na comparação com 2018.
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EPA Houve um aumento de 84% nos focos de incêndios florestais em comparação com
o ano passado
De acordo com o órgão, foram detectados mais de 75
mil focos de queimada em 2019 no Brasil - a maioria na região amazônica.
A Bolívia, país vizinho, também está lutando para
conter focos de incêndio em suas florestas.
No domingo, o presidente Evo Morales disse que o
país está aberto a aceitar ajuda internacional para combater os incêndios na região
de Chiquitania. Ele anunciou ainda a suspensão da campanha eleitoral para a
reeleição, menos de dois meses antes do pleito.
Ativistas ambientais estabeleceram uma conexão
entre as atitudes de Bolsonaro em relação ao meio ambiente, e o recente aumento
no número de incêndios florestais.
Eles acusam o presidente de encorajar mineradores e
madeireiros, que provocariam incêndios deliberadamente para desmatar a terra de
forma ilegal.
Uma análise feita pela BBC mostrou que
o aumento dos registros de desmatamento e incêndios florestais coincide com a queda acentuada das
multas aplicadas por violações ambientais.
No início do mês, Bolsonaro acusou, por sua vez, o
Inpe de tentar prejudicar seu governo depois que dados divulgados pelo órgão
indicaram aumento acentuado nas taxas de desmatamento.
Por que a Amazônia é
importante?
Considerada a maior floresta tropical do mundo, a
Amazônia é um verdadeiro "armazém" de carbono, vital para diminuir o
ritmo do aquecimento global. A floresta abrange vários países, mas a maior
parte está localizada em território brasileiro.
Tem um importante papel na regulação do clima
global, na absorção de dióxido de carbono e na produção de oxigênio.
A floresta também abriga cerca de 3 milhões de
espécies de plantas e animais, além de ser o lar de 1 milhão de representantes
de povos indígenas.
'Bem comum'?
No sábado, Macron reiterou na cúpula do G7 que a
Amazônia era um "bem comum" do planeta.
"A Amazônia é nosso bem comum. Estamos todos
envolvidos, e a França está provavelmente mais do que outros que estarão nessa
mesa (do G7), porque nós somos amazonenses. A Guiana Francesa está na
Amazônia", afirmou Macron.
O jornal francês Le Monde também recorreu ao mesmo
termo usado por Macron em editorial intitulado "Amazônia, bem comum
universal".
De acordo com brasilianistas ouvidos
pela BBC News Brasil, a forma como o governo Bolsonaro vem lidando com o meio
ambiente dá munição à tese de que a Amazônia não
é do Brasil, mas "um bem comum" da comunidade
internacional.
"As ações do governo acabam alimentando essa
tese de que a comunidade internacional deveria cuidar da Amazônia. Quando o
Bolsonaro demite o diretor-geral do Inpe ou culpa as ONGs pelas queimadas,
mobiliza a opinião pública internacional", afirmou Anthony Pereira,
diretor do Brazil Institute da Universidade King's College, em Londres, no
Reino Unido.
"Mas isso não pode servir de desculpa para
violar a soberania do Brasil sobre este território. A Amazônia é brasileira",
acrescenta.
Manifestações
Além dos líderes políticos, diversas celebridades e
ambientalistas fizeram um apelo pela proteção da Amazônia.
Milhares de pessoas foram às ruas no mundo inteiro
pedindo ação a seus governos.
No domingo, o Papa Francisco também aderiu ao
clamor público para proteger a floresta.
"Todos nós estamos preocupados com os grandes
incêndios que se desenvolveram na Amazônia. Vamos orar para que, com o empenho
de todos, possam ser apagados em breve. Esse pulmão florestal é vital para o
nosso planeta", afirmou o pontífice diante de milhares de fiéis, na Praça
São Pedro, no Vaticano.
Na semana passada, a hashtag #prayforamazonia (reze
pela Amazônia) chegou ao topo das mais citadas no Twitter em todo o mundo.
Usuários da rede social também usaram a hashtag #BoycottBrazil para defender o boicote a produtos
brasileiros.


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