No calor da crise
Manoel Hygino
Uma crise
internacional que poderia ter sido evitada. Esta foi produzida em torno da
questão ambiental, que tem como centro as queimadas na Amazônia e que, por
motivos óbvios, atraíram a atenção do mundo. A imprensa, sempre tão criticada,
teve razão mais uma vez, limitando-se a transmitir o que conhecera e apurara.
Jornais de grande representatividade na comunidade brasileira, no dia 23,
tinham como manchetes de primeira página:
Folha de São Paulo:
“Queimadas acuam governo, que opta por ampliar críticas”. O Estado de São
Paulo: “Queimadas na Amazônia provocam reação mundial”. O Globo (Rio):
“Amazônia vira crise internacional”. Zero Hora (Porto Alegre): “Após críticas
de Macron, Bolsonaro anunciará medidas contra queimadas”. Valor Econômico (São
Paulo): “Amazônia vira preocupação global e gera crise ambiental”.
O Brasil inteirinho
sabe dos problemas que inquietam os produtores rurais, os moradores de áreas
atingidas pelos incêndios, ou destruição da selva, na Amazônia. Em Belo
Horizonte, tão distante do palco dos acontecimentos, teme-se o fogo que se
ergue nas fraldas da Serra do Curral, ameaçando a mataria, residências da elite
ou de proprietários de baixa renda, até casas de saúde.
É bom que todos
sintam o problema e procurem evitar danos maiores, até à vida humana. Aqui,
situamo-nos no Sudeste, de mais recursos, inclusive em equipamentos de defesa e
para debelar o fogo. Imagine-se lá nos rincões recônditos da maior floresta do
planeta. Tem-se de cuidar, ao invés de dilatar um bate-boca, fora dos padrões
de chefes de Estado ou da diplomacia, atitude que em nada ajuda, antes
atrapalha.
Pode ser que o
presidente Emanuel Macron tenha se precipitado, até para apresentar-se como
protagonista em um drama, de que o Brasil não é ator sozinho, como se
demonstrou antes da reunião do G7, em Biarritz. Aparentemente, Brasília
permaneceu na conversa, enquanto os fatos se avultavam, resultando numa crise
dispensável. Será que o papa também se precipitou?
O general Villas
Bôas, uma das grandes lideranças das Forças Armadas, enganou-se na colocação da
matéria, em recentes declarações. Os testes nucleares franceses na Polinésia,
há tantos anos, jamais serão esquecidos, mas a situação agora é outra. A pátria
de De Gaulle esteve ao lado do Brasil em inúmeras oportunidades no decorrer da
história. Não é hora, nem há razões suficientes, para desencontros. Ademais, a
Guiana Francesa faz fronteira com o Brasil, e suas angústias pela tragédia
amazônica são pertinentes a ambas as nações.
Os governos da
França e da Irlanda chegaram a anunciar o bloqueio do acordo com o Mercosul, o
que seria altamente danoso ao Brasil, se o Planalto não tomasse providências
para proteger a floresta, depois de mais de 20 anos de negociações. Logo, a
questão está equacionada e clara. Nada de suscetibilidades feridas.

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