Sessões
especiais atendem público que não abre mão do escurinho do cinema
Paulo Henrique Silva
Estrelado por Clark
Gable e Vivian Leigh, “E o Vento Levou” tem sessões hoje nos cinemas
Antes da TV por assinatura e dos sites de streaming, esperar pela
chegada de um filme na telinha não era algo tão rápido como hoje. Demorava pelo
menos um ano para o lançamento em vídeo (no antigo formato VHS) e o triplo
disso no caso da TV aberta. Quando uma continuação de “Rocky” ou “Rambo”
estreava, quem não tinha visto o original no cinema mal sabia do que se
tratava.
Apesar das múltiplas plataformas de agora, em que um clique no mouse ou
no controle remoto separa o espectador de uma produção, bastando pagar mais
para ter o filme em casa (em serviços como o VOD, video on demand), a magia da
sala escura ainda parece longe de se apagar. Prova disso é a exibição, somente
hoje, do clássico “E o Vento Levou” nos cinemas do BH Shopping, Diamond Mall e
Pátio Savassi.
O filme é de 1939, tem quatro horas de duração e já ganhou vários
formatos, mas a rede Cinemark aposta numa experiência familiar, casada com a
qualidade de imagem (projeção em 4K, de alta definição). “É um épico que marcou
história e vem atravessando gerações. Uma nova geração quer conhecer, dentro de
uma sala de cinema”, afirma a diretora de marketing Bettina Boklis.
A exibição faz parte do projeto “Clássicos Cinemark”, que contará ainda
com mais dois longas-metragens nessa leva, com horário cativo na última
terça-feria do mês: “2001: Uma Odisseia no Espaço” (30 de maio) e “O Mágico de
Oz” (27 de junho), sempre às 20h. Essa é a 13ª edição do programa, que teve um
hiato de mais de um ano desde as últimas projeções.
“Há toda uma burocracia para conseguir os filmes e é bom voltar com
títulos realmente legais. E é muito bom ver nas redes sociais o pessoal
adorando a notícia e levantando (o projeto)”, destaca Bettina, que não teme que
uma produção de 240 minutos afugente os espectadores. “Já exibimos óperas de
cinco horas. É um público diferente, que quer outras opções”, salienta.
Nicho a ser explorado
Ela assinala que, embora a rede se volte principalmente para os
lançamentos, há um nicho que pode ser bem explorado. “Há um público grande que
absorve esses clássicos. E o fato de ser uma exibição em digital traz uma
experiência que não será igualada em casa”, registra Bettina, que não descarta
a possibilidade de outros clássicos ganharem as telonas no segundo semestre.
Realizado na época de ouro de Hollywood, “E o Vento Levou” ganhou oito
estatuetas do Oscar, entre elas melhor filme e diretor. Na cerimônia, subiu ao
palco Victor Fleming, mas a produção foi atribulada e vários cineastas
conduziram as filmagens – George Cukor, Sam Wood, William Cameron Menzies e
Sidney Franklin. Fleming teve um colapso nervoso, dirigindo 45% do total.
Baseada no livro de Margareth Mitchell, a trama acompanha uma família
rica da Georgia, detendo-se principalmente em Scarlett (Vivian Leigh), uma
garota mimada que acaba se envolvendo com o bon vivant Rhett Buttler (Clark
Gable). A realidade deles é transformada pela Guerra Civil Americana.
"A Criada", filme de Chan-wook Park é um dos representantes
asiáticos que serão exibidos no Cine Humberto Mauro
Oportunidade para conferir filmes que ‘passaram batido
Perder um filme no cinema não chega a ser o fim do mundo, já que há
sempre a possibilidade de assisti-lo em outras plataformas, no conforto de
casa. Mas há ainda quem goste de ver um lançamento primeiramente na sala
escura. É para esse público que, anualmente, acontece a mostra “Inéditos/Passou
Batido”, em exibição no Cine Humberto Mauro até 31 de maio, com entrada franca.
Além de filmes mal lançados, que muitas vezes não passam de uma semana
em cartaz, em horários ruins, a mostra de 48 longas-metragens, de 29 países,
contemplando trabalhos que não chegaram aos cinemas da cidade, como o turco
“Sono de Inverno”, de Nuri Bilge Ceylan, e o brasileiro “Guerra do Paraguay”,
de Luiz Rosemberg Filho.
“Existe uma carência de salas de exibição para um tipo de filme mais
independente. Muitos dos espaços que temos hoje estão comendo mosca ao não
perceberem um nicho crescente. Além de um público interessado, há
distribuidoras novas que estão trabalhando com esse conteúdo”, registra Bruno
Hilário, coordenador do cinema do Palácio das Artes.
Até mesmo filmes que estiveram em cartaz há poucos dias em Belo
Horizonte retornarão dentro dessa programação. É o caso de “Cinema Novo”, de
Eryk Rocha, e “Os Belos Dias em Aranjuez”, de Wim Wenders. “(Em relação a este
último) ele será apresentado em 3D, tal como o diretor concebeu originalmente,
de acordo com as suas propostas estéticas”, sublinha.
O mineiro “A Cidade Onde Envelheço”, de Marília Rocha, ganhador do
Festival de Brasília de 2016, também esteve em exibição há pouco tempo, mas o
coordenador avalia que seu retorno agora é positivo para se pensar uma proposta
de dramaturgia diferente, em que se trabalha com atores e amadores e
experimentando tanto a ficção quanto o documentário.
Negociação
Outros filmes vieram do contato direto com seus realizadores. Um exemplo
é “Cavalo Dinheiro”, do português Pedro Costa. E também de algumas produções
premiadas na Mostra de Tiradentes e que não entraram em circuito comercial,
como “Aracati”, “Planeta Escarlate” e “Jovens Infelizes ou um Homem que Grita
Não é um Urso que Dança”.
Mas Bruno admite que há uma certa dependência das distribuidoras, do
cardápio que elas têm a oferecer. Por isso, por exemplo, nota-se a falta de
algumas cinematografias importantes, especialmente a latino-americana. “O
mercado acaba acompanhando algumas tendências. E, não por acaso, os latinos
estão fora do Festival de Cannes desse ano”.


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