Chegada de Trump a
Washington pode estremecer exportações brasileiras para os EUA
Bruno Moreno e
Tatiana Lagôa
Minério de ferro é um dos principais produtos de exportação de Minas
Gerais para os Estados Unidos
A posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, coloca
em dúvida os rumos das relações comerciais entre a maior potência econômica
mundial e o Brasil. No ano passado, o comércio bilateral movimentou US$ 47
bilhões.
O maior receio é que as medidas protecionistas prometidas pelo
republicano atinjam produtos fabricados por aqui como aço, automóveis, bens de
capital e produtos agrícolas.
Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços
(Mdic), os brasileiros venderam para os EUA, em 2016, US$ 23,156 bilhões e
compraram US$ 23,8 bilhões. Somente Minas Gerais foi responsável por exportar
US$ 1,84 bilhão para os americanos.
Dentre os principais produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos
estão caldeiras, máquinas, aparelhos, além de instrumentos mecânicos. Já os
mineiros vendem café, chá mate, especiarias, ferro fundido, minério de ferro,
aço, dentre outros.
Discurso
A permanência e evolução dessa parceria comercial depende da
postura que o novo presidente adotará. Trump foi eleito com um discurso populista
ao que ele chama de “exportação de empregos” gerada pela abertura econômica
norte-americana.
“O temor é grande porque os EUA são a maior economia do mundo. É um
mercado muito relevante e é estratégico para que o Brasil possa exportar
produtos de maior valor agregado”, afirma o professor de relações econômicas
internacionais da UFMG, Bernardo Palhares.
O problema se torna ainda mais grave em função de o Brasil apostar nas
exportações como única alternativa para reverter a crise, já que o mercado interno
ainda mantém tendência de encolhimento.
O consultor do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação da
Indústria de Minas Gerais (Fiemg), Alexandre Brito, avalia que a troca do
comando em Washington gera incerteza, por Trump não ter apresentado claramente
qual é seu plano de governo.
Ele, entretanto, é um pouco mais otimista e acredita que o Brasil não
seria o primeiro a sofrer. “A presença do Donald Trump pode atiçar uma política
mais protecionista. Mas o Brasil não está nessa linha de tiro, que tem a China
e o México como primeiros alvos. Porém, temos a perder com aço, produtos
agrícolas e motores, por exemplo”, destaca.
“Além do risco de o protecionismo afetar as exportações brasileiras, uma
política fiscal expansionista do Trump poderia significar aumento da inflação
no Brasil”
Reginaldo Nogueira
Coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec
Reginaldo Nogueira
Coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec
Outro ponto
Um protecionismo econômico nos EUA poderia, inclusive, atrair mais investimentos
para a América do Norte. Mais um ponto negativo para o Brasil.
“Trump pode sobretaxar a importação e reduzir impostos para produção
interna. Isso faria com que empresários redirecionassem investimentos que
viriam para Brasil, para os Estados Unidos”, afirma Palhares.
Segundo dados do Banco Central, até novembro de 2016, os empresários
brasileiros investiram R$ 2,589 bilhões nos Estados Unidos. Além desse número
aumentar, aportes de outros países, antes previstos para o Brasil, poderão
também ir para lá.
De acordo com o coordenador do curso de Relações Internacionais do
Ibmec, Reginaldo Nogueira, outro temor é que Trump aumente os juros no país, o
que levaria a uma fuga de capitais para os Estados Unidos.
Como resultado, o dólar ficaria mais apreciado frente ao real e os
produtos importados mais caros. Como consequência, a inflação brasileira
ficaria mais alta, o que impulsionaria a uma elevação dos juros.
Onda protecionista promete oportunidades para o agronegócio
Compromisso de campanha, Donald Trump quer estimular o protecionismo nos
Estados Unidos, o que ameaça deteriorar as relações comerciais com o Brasil. No
entanto, para o agronegócio, poderá abrir oportunidades de negócios. A aposta é
da profissional de relações internacionais da Confederação da Agricultura e
Pecuária (CNA), Camila Sande.
“Em termos globais, a gente vê um freio nas negociações de mega-acordos,
que foram tendência nos últimos quatro ou cinco anos: as negociações com a
União Europeia e as parcerias transatlântica e transpacífica. Um dos primeiros
atos de Trump será a renegociação desses acordos, e também do Nafta (EUA,
México e Canadá). Nesse cenário, de os EUA se retirando de negociações globais,
ou megarregionais, enxergo oportunidades para o Brasil preencher espaços com
produtos agrícolas”, avalia.
“Em termos de relação internacional propriamente dita, o Brasil não
deverá ver mudança. Até porque ele não ficou no centro das atenções de
nenhum presidente norte-americano até então”
Reginaldo Nogueira
Coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec
Reginaldo Nogueira
Coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec
Os Estados Unidos são concorrentes do Brasil na exportação de uma série
de produtos agrícolas, principalmente grãos. Para Camila Sande, com o
fechamento comercial dos EUA, o Brasil se tornar mais competitivo no mercado
global de soja, cereais, suco de laranja, carnes, entre outros. “Quando um
grande concorrente, abre uma brecha”, avalia.
Commodities
Já o coordenador do Núcleo Econômico da CNA, Renato Conchon, avalia que
as medidas de Trump podem valorizar commodities, com destaque para os
produtos do agronegócio. “E aí o Brasil pode até se beneficiar. A tendência é
que as commodities sofram valorização”, aposta.
No entanto, Conchon ressalta que a onda protecionista pode se alastrar
para outros players globais com os quais o Brasil mantém relações comerciais, e
onde haverá eleições neste ano. Como exemplo, ele cita França, Itália, Holanda
e Alemanha.
“Os candidatos nacionalistas estão despontando. Caso isso se concretize,
a gente vai ver um ano de 2017 bastante fechado ao mercado internacional”,
afirma.
Além Disso
Os cerca de 730 mil brasileiros em situação irregular nos Estados
Unidos, conforme estimativa do Ministério de Relações Exteriores, com base em
levantamentos feitos pelos consulados brasileiros nos EUA, estão com o futuro
mais incerto do que nunca.
O maior receio é quanto ao posicionamento de Donald Trump com os
imigrantes. Até o momento, a promessa do novo presidente norte-americano é de
um endurecimento contra a entrada ilegal de pessoas no país.
É o caso de João* (nome fictício para preservar a identidade) que saiu
de Carmo do Paranaíba, no Triângulo Mineiro, há 12 anos para viver o sonho
americano. Trabalha como pedreiro e recebe uma média de 8 mil dólares por mês.
Desde que saiu de Minas, só voltou ao Brasil em uma única vez, em 2011, para
uma temporada de seis meses. Quando retornou para o país norte-americano, ficou
preso por 60 dias, por causa de sua situação irregular. “O Trump é muito louco,
todos sabem disso. Agora, só Deus para olhar por nós”, conta.
A estimativa do ministério é de que haja 1,410 milhão de brasileiros nos
EUA, sendo 504 mil regulares.
(Colaborou Paula
Coura)


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