Um exemplo não seguido
Manoel Hygino
Quando se conhecem as somas percorrendo bancos nacionais e estrangeiros,
em grande parte ilegalmente desviada dos cofres públicos e das estatais,
pergunta-se se é efetivamente um crime da República que Deodoro assumiu em
novembro de 1889.
A corrupção reside não unicamente em governos das Américas ou da Europa.
Mas no Brasil de nosso tempo, ela parece alcançar o clímax. No fundo, tudo
coberto pelo dinheiro do cidadão, responsável pela manutenção da máquina
administrativa gigantesca e pelos malfeitos (o substantivo se popularizou) que
nela se consumam.
Laurentino Gomes, em seu “1889”, conta mais do que indica a capa: “Como
um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado
contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”. O
jornalista escritor observa que a complexa personalidade do imperador revelou
um conjunto notável de heranças familiares.
Pedro II recebeu do pai a austeridade no uso do dinheiro público.
Exemplo é a dotação da família real de 800 contos por ano, nunca mudada durante
todo o Segundo Reinado e corroída pela inflação. Bom lembrar que o Império
durou 67 anos de nossa história e que só o segundo imperador carregou a coroa
por quase meio século; exatamente 49 anos. No início, o montante representava
3% da despesa do governo central. Ao final, 0,5%.
Para se ter ideia de como isso influía na vida do soberano, bastaria
registrar que, para não depender do erário, Pedro se via constrangido a
recorrer a empréstimos junto a amigos e aliados. Nada escandaloso ou escabroso.
No quase meio século à frente de governo, teve de utilizar-se do expediente 24
vezes.
E não era dinheiro para despesas pessoais ou familiares. Em 1867, por
exemplo, determinou que se descontasse 25% de sua dotação orçamentária para ajuda
no esforço de guerra que a nação empreendia na longa guerra contra o Paraguai.
Além dos recursos para o conflito, Pedro os oferecia e custeava bolsas
de estudos para jovens talentosos. Cento e cinquenta e um deles obtiveram
contribuição, dos quais 41 para estágios fora do país, entre os quais os
celebrados pintores Pedro Américo e Almeida Junior. Não esqueço, como escrevi
em livro sobre medicina, que beneficiária também foi a carioca Maria Augusta
Generoso Estrela, primeira brasileira a diplomar-se para exercício da
profissão. Não era capricho da mocinha ou proteção do monarca, pois naquela
época era proibido o ensino superior a mulher por aqui. Para superar a
dificuldade, Maria Augusta estudou e se formou em Nova York.
Pedro II registrou em seu rico diário: “Não devo, e quando contraio uma
dívida cuido logo de pagá-la. E a escrituração de todas as despesas de minha
casa pode ser examinada a qualquer hora. Não ajunto dinheiro”.
Clementino comenta: Pedro II era também meticuloso na administração dos
negócios públicos. Envolvia-se em tudo, mesmo nos detalhes mais
insignificantes. Essa característica fazia dele “um modelo de empregado
público, um exemplar burocrata (...), sisudo, metódico, pautado grave...”

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