Nem de brincadeira
Valdo Cruz
BRASÍLIA - Um grupo de deputados discutia o que vai sobrar depois das delações da
Lava Jato, quando um deles soltou uma proposta: votar um projeto anistiando
todos os políticos que receberam doações legais vindas de grana de propina.
Diante da incredulidade dos presentes na viabilidade da ideia, que seria
motivo de críticas gerais, ele disse que haveria uma contrapartida. Todos os
beneficiados teriam que abandonar a carreira política.
Reflexo do clima de pânico geral que domina a política, o
"sacrifício" em troca da anistia teve aprovação unânime entre os
presentes da reunião –o pessoal anda topando tudo para fugir das garras da Lava
Jato.
Um participante do encontro diz que a ideia, por enquanto, é apenas uma
ideia, lançada quase em tom de brincadeira. Diz ele, porém, ter certeza que
hoje contaria com o apoio de mais de 90% do Congresso.
Sinceramente, não duvido. Afinal, as próximas delações, de Odebrecht e
OAS, prometem provocar um cenário de terra arrasada na política brasileira.
Pelo andar da carruagem da Lava Jato, quase nenhuma reputação ficará intacta.
A ideia da anistia surge, de forma discreta, porque muitos candidatos
alegam que não sabiam que sua doação legal teve origem em propina. Em alguns
casos, pode ser fato. Mas como separar o joio do trigo?
Não custa lembrar, contudo, o que disse o delator Sérgio Machado.
Segundo ele, todos sabiam, em maior ou menor grau, que as doações vinham de
contratos de empreiteiras com a Transpetro. Ou seja, ninguém é totalmente
inocente.
Por sinal, a delação de Machado mostra por que políticos disputam
nomeações para direção de estatais. Nada a ver com projetos de interesse do
país. Tudo a ver com esquema para angariar recursos de campanha e, pior, até
para o próprio bolso.
O mais inacreditável é que, em tempos de Lava Jato, esta turma segue
brigando por cargos. Não por acaso os escândalos se repetem.

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