As ironias da austeridade
Paulo Haddad
Um dos principais compromissos do Presidente Interino Michel Temer é o
de realizar uma gestão das finanças públicas sob um regime de austeridade. Não
há como negar a prioridade desse objetivo numa economia na qual, nos últimos
anos, a política fiscal expandiu sistematicamente as despesas públicas
financeiras e não financeiras em ritmo bem superior ao crescimento do PIB e da
própria arrecadação de impostos e taxas. Uma economia que utilizou as
instituições financeiras oficiais para ampliar de forma disfarçada o
endividamento público do governo federal para além dos limites prudenciais. Uma
economia de um governo que não teve o controle sobre a fragilidade financeira
de suas empresas.
Mas a austeridade fiscal quando se limita a cortes nas despesas governamentais
e a aumentos de impostos pode ironicamente não ter sucesso no seu objetivo
imediato de controlar a sustentabilidade da relação da dívida pública sobre o
PIB e de restaurar a imagem de solvência financeira do país. No curto prazo, a
austeridade fiscal resulta em medidas recessivas que, ao reduzir o crescimento
da economia, promovem quedas significativas na arrecadação tributária, podendo
ampliar os déficits fiscais se as despesas públicas se configurarem como
rígidas para baixo e continuarem sua trajetória de crescimento autônomo.
A narrativa do modelo de austeridade fiscal expansionista promove a
ilusão de que o reequilíbrio das contas públicas poderia por si só induzir um
novo clima de confiança entre empresários para a retomada do crescimento econômico.
O governo deixaria de pressionar os escassos recursos financeiros para
investimentos que sugam as poupanças disponíveis através da gestão da velha e
da nova dívida pública, que não para de crescer devido à acumulação de déficits
fiscais. Cada emprego gerado pelos estímulos dos gastos públicos seria
compensado pela perda de emprego causada pelo declínio dos investimentos
privados expulsos dos mercados financeiros pelas exorbitantes taxas de juros
pagas pelos títulos públicos.
Entretanto, não há consenso sobre a eficácia e a efetividade do modelo
de austeridade fiscal expansionista. Há muitas experiências de sua
implementação em diferentes contextos históricos de vários países nos quais a
economia permaneceu extremamente frágil, o endividamento aumentou e houve
perdas e danos irreparáveis para a qualidade de vida dos seus cidadãos (mais
desemprego, deterioração na qualidade dos serviços públicos essenciais,
empobrecimento da classe média, etc.)
Alguns críticos mais radicais, classificam a ideia de austeridade como
parte de uma “economia zumbi” que se compõe das ideias que, apesar de suas
inconsistências lógicas e fracassos experimentais, não morrem e continuam
voltando quando menos se espera.
Atualmente o reequilíbrio fiscal no Brasil é uma condição necessária e
indispensável para a economia voltar a crescer, mas não suficiente. Deve ser
articulado com um processo de grandes transformações econômicas e sociais para
não se tornar um exercício matemático de “corte e costura” econômica.
O crescimento econômico sustentado depende como condição
suficiente de três vetores político-institucionais: um conjunto interdependente
de reformas microeconômicas e macroeconômicas, a ampliação e melhoria dos
estoques de capitais intangíveis na economia (capital institucional, capital
cultural, capital social, capital intelectual, etc.), e um sistema de
regulamentações mais leves e exatas que estimulem a competitividade sistêmica e
o uso sustentável dos recursos ambientais.

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