Lula tem quatro dias para
se livrar de um fiasco
Josias de Souza
O festejado roteirista de cinema Billy Wilder enumerou dez mandamentos
que devem ser seguidos por quem deseja se dar bem no ofício. Diz o 6º
mandamento: “Se você está tendo problemas com o terceiro ato, o verdadeiro problema
está no primeiro ato.”
A quatro dias da fatídica votação do impeachment no plenário da Câmara,
Lula, autoconvertido em herói da resistência, tropeçou no terceiro ato. Hoje,
sua presença em cena leva mais votos para o cesto da oposição.
Se Wilder estiver certo, o real problema está no primeiro ato, aquele em
que Dilma telefonou para Lula e avisou: “Eu tô mandando o ‘Bessias’, junto com
um papel, pra gente ter ele. E só usa em caso de necessidade, que é o termo de
posse.”
Tomados em seu conjunto, os grampos que Sérgio Moro jogou no ventilador
escancararam a manobra: Lula queria o foro privilegiado do STF, não a poltrona
de ministro. Preocupava-se com o próprio pescoço, não com a pele de Dilma.
Lula tomou posse cercado pela claque do “não vai ter golpe”. Antes que
pudesse sentar na cadeira, o ministro Gilmar Mendes, do STF, suspendeu sua
nomeação. Desde então, exerce a atribuição de ministro-chefe do quarto de
hotel.
Recebe os políticos no escurinho da suíte. Com medo de grampos, exige
que os celulares fiquem do lado de fora. Em tenebrosas transações, oferece
mundos e, sobretudo, fundos a interlocutores de qualificação precária.
Lula não entrega a recompensa a vista. Emite metafóricos cheques
pré-datados. Ministérios? Emendas orçamentárias? Só depois da votação, quando o
governo poderá jogar ao mar ministros do PMDB sem correr o risco de perder as
duas dúzias de votos que imagina possuir no partido do “conspirador” Michel
Temer.
O sujeito saía dos encontros clandestinos interrogando seus botões: se
Lula não consegue garantir nem a própria posse na Casa Civil, como acreditar
que entregará o que promete?
A desconfiança potencializou-se depois que o procurador-geral Rodrigo
Janot recomendou ao STF que torne definitiva a liminar que proibiu Lula de
tomar posse. Como se fosse pouco, o chefe do Ministério Público Federal
insinuou que pode processar Dilma por criar embaraços à Lava Jato ao fornecer a
Lula o escudo do STF.
Num livro em que publicou suas conversas com Billy Wilder, Cameron Crowe
conta que ele adicionou um 11º mandamento à sua lista. Anota: ‘That’s it. Don’t
hang around’. Em tradução livre: ‘Pronto. Dê o fora’. No caso de Lula,
dependendo do resultado de domingo, pode significar algo assim: “Absorva o
fiasco, convença-se de que você é um ex-Lula e vá brincar com os netos em São
Bernardo. No mais, reze para estar solto em 2018.”

Nenhum comentário:
Postar um comentário