quarta-feira, 23 de março de 2016

OPERAÇÃO XEPA



'Mineirinho' ganhou R$ 15 milhões do Petrolão

Ezequiel Fagundes*
LUIZ CLÁUDIO BARBOSA/ESTADÃO CONTEÚDO 




SEDE EM SÃO PAULO –Grupo Odebrecht foi um dos alvos da 26ª fase da operação “Lava Jato”, iniciada ontem pela Polícia Federal

Batizada de Xepa, a 26ª fase da operação “Lava Jato” descobriu um organizado sistema de pagamento de propina instalado no Grupo Odebrecht, o “Setor de Operações Estruturadas”. Estimativa dos investigadores da força-tarefa é a de que pelo menos R$ 66 milhões em propina foram distribuídas entre 25 e 30 pessoas por meio da contabilidade paralela da maior empreiteira da América Latina.
Entre os beneficiários, identificados por codinomes e senhas, os federais vão se debruçar para esclarecer quem seria uma pessoa identificada apenas como “Mineirinho”. O apelido é citado quatro vezes nas páginas 17 e 18 no despacho do juiz federal Sérgio Moro, responsável pela “Lava Jato” em Curitiba.
De acordo com o magistrado, “Mineirinho” recebeu R$ 15,5 milhões do esquema secreto de propina operado pela Odebrecht no período de 01/10/2014 a 19/12/2014. Conforme anotações constantes nas tabelas apreendidas pela Polícia Federal (PF), três executivos da empreiteira são apontados como responsável pelo repasse ao tal de “Mineirinho”.
De acordo com os federais, “BJ”,”SN” e “CMF” são Benedicto Barbosa Júnior (chefe da Odebrecht Infraestrutura), Sérgio Luiz Neves (diretor superintendente) e Cláudio Melo Filho (diretor de Desenvolvimento de Negócios da empreiteira), respectivamente.
Conforme o portal do Hoje em Dia adiantou ontem, com exclusividade, Sérgio Luiz Neves foi detido em Belo Horizonte. Alvo de mandato de prisão temporária de cinco dias, Sérgio Neves foi encaminhado para Curitiba, base da operação “Lava Jato”, para ser interrogado, juntamente com os outros alvos da Xepa. Muito provavelmente, ele poderá revelar a identidade do “Mineirinho” citado como beneficiário do repasse de R$ 15,5 milhões.
De acordo com Moro, Benedicto Barbosa Júnior tem como subordinados Sérgio Neves e Cláudio Melo Filho.
Mensagens
Sérgio e Cláudio, segundo o despacho do magistrado, “figuram em trocas de mensagens com Fernando Migliaccio e Maria Lúcia Tavares para solicitações de pagamento para pessoa identificada apenas como Mineirinho”.
Migliaccio é apontado como um “dos responsáveis pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, que cuidava dos pagamentos subreptícios (ilícitos) efetuados pela referida empresa, por solicitação de outros executivos do Grupo Odebrecht, mediante pagamentos em espécie ou transferências bancárias no exterior”.
Já Maria Lúcia, ainda que em papel subordinado, atuava como secretária da cúpula da Odebrecht nas operações financeiras secretas do grupo.
Beneficiários
Além de “Mineirinho”, vários outros codinomes são citados. Alguns foram identificados, como por exemplo, “Feira”, que corresponderia a Mônica Regina Cunha Moura, mulher e sócia do marqueteiro João Santana.
“Os beneficiários eram identificados somente por codinomes nos registros documentais existentes. Para a efetivação dos pagamentos, a Odebrecht servia-se de prestadores de serviço”, basicamente operadores do mercado de câmbio negro que realizavam ou pagamentos no exterior ou pagamentos de vultosos valores em espécie no Brasil”, escreveu Moro.
Editoria de Arte



Colaboração de secretária ajuda a desvendar esquema
A contabilidade paralela da Odebrecht para pagamento de propina só foi desvendada graças à delação premiada de uma peça-chave do esquema: Maria Lúcia Guimarães Tavares.
Presa na 23ª etapa da “Lava Jato”, chamada de Acarajé, que teve como alvos principais o marqueteiro do PT, João Santana, e a mulher de dele, Maria Lúcia era subordinada à cúpula da empreiteira e responsável pela gerência das contas secretas do Grupo.
Segundo a força-tarefa da “Lava Jato”, a distribuição de propinas continuou mesmo com a prisão do presidente da empreiteira, Marcelo Odebrecht.
Segundo a procuradora da República Luana Gonçalves, a interceptação de e-mails comprovando a continuidade do esquema, mesmo com Marcelo preso, foi vista com surpresa.
“Para a gente chega a ser de certa foram assustador”, disse a procuradora. “Ainda se teve a ousadia de continuar a operar o pagamento de propina com o conhecimento do Poder Público”.

Doleiros
O dinheiro seria fornecido por meio de até oito contas mantidas por doleiros em favor da Odebrecht. “Nós identificamos também a existência de um sistema informatizado para o controle desses pagamentos paralelos dentro da Odebrecht”, informou a força-tarefa da “Lava Jato”.
Tal sistema incluiria até mesmo um instrumento de troca de mensagens entre os profissionais alocados naquele setor da empresa, e foi destruído a partir do momento em que a companhia passou a ser investigada.
Operação
A ação da 26ª fase da operação “Lava Jato” da Polícia Federal (PF) mobilizou cerca de 380 policiais que cumpriram, ontem, 110 ordens judiciais nos estados de São Paulo, Rio de janeiro, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Bahia, Piauí, Distrito Federal, Minas Gerais e Pernambuco.
Foram cumpridos 67 mandados de busca e apreensão, 28 mandados de condução coercitiva (quando o investigado é levado para prestar depoimento), 11 mandados de prisão temporária (cinco dias) e 4 mandados de prisão preventiva (sem prazo para acabar).
O outro lado
No meio da manhã, a Odebrecht divulgou nota informando que está ajudando nas investigações: “A empresa tem prestado todo o auxílio nas investigações em curso, colaborando com os esclarecimentos necessários”.

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