sexta-feira, 18 de março de 2016

FUNCIONAMENTO DA MÁQUINA SUJA DE BRASÍLIA



Delação de Delcídio do Amaral mostra como funciona a máquina política


  • Marcos Oliveira/Agência Sena


Relatos do senador Delcídio do Amaral ao Ministério Público Federal, decorrentes de seu acordo de colaboração premiada, revelam um pouco como funciona a máquina política no Brasil.

Os depoimentos foram prestados entre os dias 11 e 14 de fevereiro deste ano, e a delação foi homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki em 15 de março, fazendo com que o documento passe a ter valor legal nas investigações da Operação Lava Jato.

Os trechos abaixo foram selecionados entre as 254 páginas do documento divulgado pelo STF, sendo 116 páginas com a íntegra dos termos de colaboração.

Estes trechos são apresentados na ordem em que foram relatados, sem obedecer à cronologia dos fatos. Alguns itens foram editados para dar mais clareza ao texto, mantendo a máxima fidelidade ao documento original.

Preocupação federal
O governo tinha preocupação porque o processo da Lava Jato estava se alongando muito e havia interesse em acelerar a solução de pendências. O principal objetivo do Planalto era a soltura de pessoas presas, em razão da importância delas nos cenários político e empresarial
Escala frustrada
Em viagem à Europa, a presidente Dilma fez escala em Portugal para conversar com os ministros do STF Ricardo Lewandowski e Teori Zawascki para tentar essa soltura. Foi uma investida frustrada
Segunda tentativa
A próxima investida foi tentar a nomeação de um novo ministro para o STJ, que poderia auxiliar no caso. Foi pensado o nome de Nelson Schaefer, presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. A ideia de chamar um catarinense era agradar o ministro Newton Trisotto, relator da Lava Jato, para que ele "aliviasse a mão", liberando os presos e sendo mais flexível na operação
Faltou pesquisar
José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, foi conversar com o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, para que ele tentasse convencer Trisotto a participar da estratégia, mas não deu certo, porque Colombo não se dava bem com o grupo de Trisotto
Troca-troca
Uma terceira investida foi a intenção de colocar Marcelo Navarro Dantas, desembargador em Pernambuco, no lugar de Trisotto. Autorizado pela presidente Dilma, Delcídio Amaral conversou com Navarro para garantir seu compromisso em dar celeridade à Lava Jato e soltar os presos de interesse do governo, entre eles, diretores da Petrobras e empresários. A presidente se referia a esses presos pelo nome. Navarro já chegou à conversa "pautado" e sabedor do compromisso que era pedido
Vapt-vupt
A aprovação de Marcelo Navarro no Congresso foi rápida, porque já existia um acordo político nesse sentido. Delcídio não duvida que tenham ocorrido vantagens financeiras nessas tratativas
Perdeu
Navarro, como relator da Lava Jato, cumpriu o compromisso e votou favoravelmente à liberação de réus, mas o restante da turma votou contra, terminando a contagem em 4 a 1
Funcionário de carreira
Quando Delcídio do Amaral foi convidado para ser diretor de Gás e Energia da Petrobras, em 1999, Nestor Cerveró já era o gerente da área de Energia. Em 2001, Delcídio saiu da Petrobras para assumir uma secretaria no governo do Mato Grosso do Sul, já tendo trocado o PSDB pelo PT. Nesse cargo, Delcídio atuou para a nomeação de Cerveró para a Diretoria Internacional da Petrobras, o que foi confirmado numa reunião com o presidente Lula
Persona non grata
Em 2005, Delcídio conduziu a CPI dos Correios, e ficou mal visto dentro do PT. A expectativa do partido era que a CPI "desse em nada", mas acabou deflagrando o escândalo do Mensalão
Oportunidade para o PMDB
Sem apoio do partido, Delcídio ficou fragilizado, e o PMDB aproveitou a oportunidade para "adotar" Nestor Cerveró, passando a ter influência na diretoria da Petrobras
Outros objetivos
Os diretores da empresa indicados por partidos atendem as demandas dos partidos. Não se trata apenas de influência política, mas também de doações e "outros objetivos não republicanos"
Toma lá, dá cá
O PMDB passou a ter ascendência também sobre o diretor Paulo Roberto Costa. Na prática, isso implicava na escolha de empresas parceiras e fornecedoras da Petrobras. Os diretores ajudavam as empresas ligadas aos partidos, e os partidos recebiam "doações" das empresas
PMDB do B
Em 2007, o PMDB "da Câmara" condicionou a aprovação da CPMF à indicação do diretor da área Internacional da Petrobras, controlado pelo grupo do PMDB "do Senado". O nome sugerido era João Augusto Rezende Henriques, ligado a Michel Temer, mas foi vetado por Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil. Quem assumiu foi Jorge Zelada, também com apoio de Temer e do PMDB "da Câmara". Nestor Cerveró foi para BR Distribuidora
Vaquinha
Nestor Cerveró ajudou muito o PT, em especial no caso que envolve a sonda Vitoria 10000, operação feita para arrecadar valores para cobrir dívidas de campanhas do PT em Santo André (SP) e Campinas (SP)
Captador
Nestor Cerveró atuou na captação de doações ilícitas para políticos do PT e do PMDB
Grande operador
Jorge Luz, do Pará, não era um empresário, mas um grande operador, que atua na Petrobras há muito tempo, viabilizando negócios. Ele sempre teve relação próxima com Renan Calheiros, Silas Rondeau e Jader Barbalho. Estes políticos recebiam vantagens ilícitas, em especial da Diretoria Internacional da Petrobras, onde Jorge Luz atuava fortemente. Delcídio conheceu Jorge Luz através de Jorge Serpa, braço direito de Roberto Marinho
Dívida do PT
Durante a CPI dos Correios, Marcos Valério pediu para ter uma conversa reservada com Delcídio. Disse que estava sofrendo, que a situação familiar era complicada, a mulher teria tentado se matar, e os filhos estavam fora da escola. Para resolver isso, Valério precisava que o PT pagasse o que lhe devia: cerca de R$ 220 milhões, valor usado para pagar parlamentares no esquema do Mensalão. Valério já havia cobrado a dívida em conversa com Paulo Okamoto, presidente do Sebrae, que garantiu honrar a dívida. Delcídio procurou Okamoto e pediu a solução do caso, e ainda falou diretamente com o presidente Lula para que Okamoto cumprisse a promessa
P da vida
Nessa ocasião, Antonio Palocci e Marcio Thomaz Bastos reclamaram com Delcídio por ter se dirigido a Lula. "O presidente ficou puto da vida com o que você disse a ele", disse Palocci ao telefone, que também se comprometeu a resolver a situação pessoalmente

Time vermelho e time azul
Construtoras como OAS, Queiroz Galvão e Odebrecht eram empresas de confiança do governo. A Andrade Gutierrez tinha mais afinidade com o PSDB, "era mais tucana"
Roubando muito
Dimas Toledo já era diretor de engenharia de Furnas quando Lula assumiu o governo. Ele tinha apoio muito forte do PP e do PSDB, através de Aécio Neves. Quando Lula começou a trocar a diretoria de Furnas, perguntou a Delcídio: "quem é este Dimas Toledo?" "é um companheiro do setor elétrico, muito competente". Lula disse que já havia sido procurado por José Janene e Aécio Neves em defesa de Toledo. "Pelo jeito ele está roubando muito", concluiu o presidente.
Reprise
O que se vê hoje na Petrobras ocorreu sem dúvida em Furnas
Aécio e Furnas
Dimas possui vínculo muito forte com Aécio Neves. Ele operacionalizava pagamentos, e um dos beneficiários dos valores ilícitos foi Aécio Neves, assim como o PP, através de José Janene. O PT também teria recebido valores de Furnas
Mesmos jogadores
As empresas envolvidas em Furnas são as mesmas que estão sendo investigadas na Petrobras: Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Correa, Odebrecht e outras
Maninha poderosa
A mentora intelectual de Aécio Neves é sua irmã, Andréa Neves. Quando ele era governador de Minas Gerais, ela estava por trás do governo, e atendia dentro do gabinete de Aécio
Olha o Cunha
A diretoria de Furnas anterior à atual era muito ligada a Eduardo Cunha, que tinha comando absoluto da empresa
Limpeza geral
Quando assumiu o governo, Dilma teve praticamente que fazer uma intervenção em Furnas para cessar as práticas ilícitas. Atualmente, a diretoria é absolutamente técnica e da confiança da presidente
Dilma x Cunha
Esta mudança na diretoria de Furnas foi o início do enfrentamento de Dilma Rousseff e Eduardo Cunha, que ficou contrariado com a saída de seus aliados de dentro da companhia
A gravação de Mercadante
Delcídio apresentou gravação realizada por seu assessor Eduardo Marzagão em conversa com o ministro Aloísio Mercadante. Mercadante tentou entrar em contato com a esposa de Delcídio, sem sucesso e, depois, procurou Marzagão. Foram duas conversas com o ministro e uma com seu assessor Cacá, em dezembro de 2015. Mercadante disse a Marzagão para Delcídio ter calma e avaliar muito bem a conduta a tomar. Delcídio entende que o recado era para que ele não procurasse o Ministério Público Federal, o que viabilizaria o aprofundamento das investigações da Lava Jato
Dinheiro é fácil
Nesses encontros, Eduardo Marzagão disse a Mercadante que Delcídio do Amaral estava gastando dinheiro com advogados e colocou um imóvel à venda. O ministro respondeu que a questão financeira e o pagamento de advogados poderia ser solucionados
Mensageiro
Aloísio Mercadante é um dos poucos que possui confiança de Dilma Rousseff. Por isso, Delcídio entendeu que ele agiu como emissário da presidente
Promessa de apoio
Aloísio Mercadante disse que também intercederia junto a Ricardo Lewandowski e Renan Calheiros para tomarem partido favoravelmente a Delcídio no sentido de sua soltura
Ameaça
Mercadante disse ainda que, se Delcídio resolvesse colaborar com o MPF, seria responsabilizado por ter sido um agente de desestabilização
Não colou
Estas investidas influenciaram Delcídio do Amaral a realizar o acordo de colaboração premiada, já que não sentiu qualquer firmeza nas promessas de solidariedade
Bronca antiga
Relembrando a CPI dos Correios, Mercadante disse que o ato seria ainda mais grave em razão das várias "broncas" que Delcídio havia segurado, retirando os nomes de Lula e de seu filho do relatório final da CPI
Família Cerveró
Em janeiro de 2015, Delcídio do Amaral recebeu e-mail do filho de Nestor Cerveró pedindo um encontro. Delcídio então se encontrou com o advogado dos Cerveró, que relatou a dificuldade da família para pagar os honorários advocatícios. Parte dos pagamentos havia sido feita pelo Petrobras, e a família pedia a intervenção de Delcídio para que a empresa pagasse o restante. Delcídio conseguiu que fossem pagas duas faturas, totalizando R$ 747 mil
Ele vai falar
Havia ainda outras faturas a pagar, e a família Cerveró passou a indicar que, se a Petrobras não pagasse, Nestor Cerveró poderia fazer uma delação
Ação entre amigos
Na mesma época, o ex-presidente Lula pediu ajuda a Delcídio para evitar que seu amigo José Carlos Bumlai fosse preso. O risco existia dada a possibilidade de uma delação de Cerveró e de Fernando Baiano. Esta ajuda seria convencer a família Bumlai a custear a família Cerveró em troca do silêncio de Nestor. Se ele falasse, poderiam vir à tona fatos supostamente ilícitos de Bumlai, Lula e do próprio Delcídio

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