Delação de Delcídio do
Amaral mostra como funciona a máquina política
- Marcos Oliveira/Agência Sena
Relatos do senador Delcídio do Amaral ao Ministério Público Federal,
decorrentes de seu acordo de colaboração premiada, revelam um pouco como
funciona a máquina política no Brasil.
Os depoimentos foram prestados entre os dias 11 e 14 de fevereiro deste
ano, e a delação foi homologada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Teori
Zavascki em 15 de março, fazendo com que o documento passe a ter valor legal
nas investigações da Operação Lava Jato.
Os trechos abaixo foram selecionados entre as 254 páginas do documento
divulgado pelo STF, sendo 116 páginas com a íntegra dos termos de colaboração.
Estes trechos são apresentados na ordem em que foram relatados, sem
obedecer à cronologia dos fatos. Alguns itens foram editados para dar mais
clareza ao texto, mantendo a máxima fidelidade ao documento original.
Preocupação federal
O governo tinha preocupação porque o processo da Lava Jato estava se
alongando muito e havia interesse em acelerar a solução de pendências. O
principal objetivo do Planalto era a soltura de pessoas presas, em razão da
importância delas nos cenários político e empresarial
Escala frustrada
Em viagem à Europa, a presidente Dilma fez escala em Portugal para conversar
com os ministros do STF Ricardo Lewandowski e Teori Zawascki para tentar essa
soltura. Foi uma investida frustrada
Segunda tentativa
A próxima investida foi tentar a nomeação de um novo ministro para o
STJ, que poderia auxiliar no caso. Foi pensado o nome de Nelson Schaefer,
presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina. A ideia de chamar um
catarinense era agradar o ministro Newton Trisotto, relator da Lava Jato, para
que ele "aliviasse a mão", liberando os presos e sendo mais flexível
na operação
Faltou pesquisar
José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, foi conversar com o
governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, para que ele tentasse convencer
Trisotto a participar da estratégia, mas não deu certo, porque Colombo não se
dava bem com o grupo de Trisotto
Troca-troca
Uma terceira investida foi a intenção de colocar Marcelo Navarro Dantas,
desembargador em Pernambuco, no lugar de Trisotto. Autorizado pela presidente
Dilma, Delcídio Amaral conversou com Navarro para garantir seu compromisso em
dar celeridade à Lava Jato e soltar os presos de interesse do governo, entre
eles, diretores da Petrobras e empresários. A presidente se referia a esses
presos pelo nome. Navarro já chegou à conversa "pautado" e sabedor do
compromisso que era pedido
Vapt-vupt
A aprovação de Marcelo Navarro no Congresso foi rápida, porque já
existia um acordo político nesse sentido. Delcídio não duvida que tenham
ocorrido vantagens financeiras nessas tratativas
Perdeu
Navarro, como relator da Lava Jato, cumpriu o compromisso e votou
favoravelmente à liberação de réus, mas o restante da turma votou contra,
terminando a contagem em 4 a 1
Funcionário de carreira
Quando Delcídio do Amaral foi convidado para ser diretor de Gás e
Energia da Petrobras, em 1999, Nestor Cerveró já era o gerente da área de
Energia. Em 2001, Delcídio saiu da Petrobras para assumir uma secretaria no
governo do Mato Grosso do Sul, já tendo trocado o PSDB pelo PT. Nesse cargo,
Delcídio atuou para a nomeação de Cerveró para a Diretoria Internacional da
Petrobras, o que foi confirmado numa reunião com o presidente Lula
Persona non grata
Em 2005, Delcídio conduziu a CPI dos Correios, e ficou mal visto dentro
do PT. A expectativa do partido era que a CPI "desse em nada", mas
acabou deflagrando o escândalo do Mensalão
Oportunidade para o PMDB
Sem apoio do partido, Delcídio ficou fragilizado, e o PMDB aproveitou a
oportunidade para "adotar" Nestor Cerveró, passando a ter influência
na diretoria da Petrobras
Outros objetivos
Os diretores da empresa indicados por partidos atendem as demandas dos
partidos. Não se trata apenas de influência política, mas também de doações e
"outros objetivos não republicanos"
Toma lá, dá cá
O PMDB passou a ter ascendência também sobre o diretor Paulo Roberto
Costa. Na prática, isso implicava na escolha de empresas parceiras e
fornecedoras da Petrobras. Os diretores ajudavam as empresas ligadas aos
partidos, e os partidos recebiam "doações" das empresas
PMDB do B
Em 2007, o PMDB "da Câmara" condicionou a aprovação da CPMF à
indicação do diretor da área Internacional da Petrobras, controlado pelo grupo
do PMDB "do Senado". O nome sugerido era João Augusto Rezende
Henriques, ligado a Michel Temer, mas foi vetado por Dilma Rousseff, ministra
da Casa Civil. Quem assumiu foi Jorge Zelada, também com apoio de Temer e do
PMDB "da Câmara". Nestor Cerveró foi para BR Distribuidora
Vaquinha
Nestor Cerveró ajudou muito o PT, em especial no caso que envolve a
sonda Vitoria 10000, operação feita para arrecadar valores para cobrir dívidas
de campanhas do PT em Santo André (SP) e Campinas (SP)
Captador
Nestor Cerveró atuou na captação de doações ilícitas para políticos do
PT e do PMDB
Grande operador
Jorge Luz, do Pará, não era um empresário, mas um grande operador, que
atua na Petrobras há muito tempo, viabilizando negócios. Ele sempre teve
relação próxima com Renan Calheiros, Silas Rondeau e Jader Barbalho. Estes
políticos recebiam vantagens ilícitas, em especial da Diretoria Internacional
da Petrobras, onde Jorge Luz atuava fortemente. Delcídio conheceu Jorge Luz
através de Jorge Serpa, braço direito de Roberto Marinho
Dívida do PT
Durante a CPI dos Correios, Marcos Valério pediu para ter uma conversa
reservada com Delcídio. Disse que estava sofrendo, que a situação familiar era
complicada, a mulher teria tentado se matar, e os filhos estavam fora da
escola. Para resolver isso, Valério precisava que o PT pagasse o que lhe devia:
cerca de R$ 220 milhões, valor usado para pagar parlamentares no esquema do
Mensalão. Valério já havia cobrado a dívida em conversa com Paulo Okamoto,
presidente do Sebrae, que garantiu honrar a dívida. Delcídio procurou Okamoto e
pediu a solução do caso, e ainda falou diretamente com o presidente Lula para
que Okamoto cumprisse a promessa
P da vida
Nessa ocasião, Antonio Palocci e Marcio Thomaz Bastos reclamaram com
Delcídio por ter se dirigido a Lula. "O presidente ficou puto da vida com
o que você disse a ele", disse Palocci ao telefone, que também se
comprometeu a resolver a situação pessoalmente
Time vermelho e time azul
Construtoras como OAS, Queiroz Galvão e Odebrecht eram empresas de
confiança do governo. A Andrade Gutierrez tinha mais afinidade com o PSDB,
"era mais tucana"
Roubando muito
Dimas Toledo já era diretor de engenharia de Furnas quando Lula assumiu
o governo. Ele tinha apoio muito forte do PP e do PSDB, através de Aécio Neves.
Quando Lula começou a trocar a diretoria de Furnas, perguntou a Delcídio:
"quem é este Dimas Toledo?" "é um companheiro do setor elétrico,
muito competente". Lula disse que já havia sido procurado por José Janene
e Aécio Neves em defesa de Toledo. "Pelo jeito ele está roubando
muito", concluiu o presidente.
Reprise
O que se vê hoje na Petrobras ocorreu sem dúvida em Furnas
Aécio e Furnas
Dimas possui vínculo muito forte com Aécio Neves. Ele operacionalizava
pagamentos, e um dos beneficiários dos valores ilícitos foi Aécio Neves, assim
como o PP, através de José Janene. O PT também teria recebido valores de Furnas
Mesmos jogadores
As empresas envolvidas em Furnas são as mesmas que estão sendo
investigadas na Petrobras: Andrade Gutierrez, OAS, Camargo Correa, Odebrecht e
outras
Maninha poderosa
A mentora intelectual de Aécio Neves é sua irmã, Andréa Neves. Quando
ele era governador de Minas Gerais, ela estava por trás do governo, e atendia
dentro do gabinete de Aécio
Olha o Cunha
A diretoria de Furnas anterior à atual era muito ligada a Eduardo Cunha,
que tinha comando absoluto da empresa
Limpeza geral
Quando assumiu o governo, Dilma teve praticamente que fazer uma
intervenção em Furnas para cessar as práticas ilícitas. Atualmente, a diretoria
é absolutamente técnica e da confiança da presidente
Dilma x Cunha
Esta mudança na diretoria de Furnas foi o início do enfrentamento de
Dilma Rousseff e Eduardo Cunha, que ficou contrariado com a saída de seus
aliados de dentro da companhia
A gravação de Mercadante
Delcídio apresentou gravação realizada por seu assessor Eduardo Marzagão
em conversa com o ministro Aloísio Mercadante. Mercadante tentou entrar em
contato com a esposa de Delcídio, sem sucesso e, depois, procurou Marzagão.
Foram duas conversas com o ministro e uma com seu assessor Cacá, em dezembro de
2015. Mercadante disse a Marzagão para Delcídio ter calma e avaliar muito bem a
conduta a tomar. Delcídio entende que o recado era para que ele não procurasse
o Ministério Público Federal, o que viabilizaria o aprofundamento das
investigações da Lava Jato
Dinheiro é fácil
Nesses encontros, Eduardo Marzagão disse a Mercadante que Delcídio do
Amaral estava gastando dinheiro com advogados e colocou um imóvel à venda. O
ministro respondeu que a questão financeira e o pagamento de advogados poderia
ser solucionados
Mensageiro
Aloísio Mercadante é um dos poucos que possui confiança de Dilma
Rousseff. Por isso, Delcídio entendeu que ele agiu como emissário da presidente
Promessa de apoio
Aloísio Mercadante disse que também intercederia junto a Ricardo
Lewandowski e Renan Calheiros para tomarem partido favoravelmente a Delcídio no
sentido de sua soltura
Ameaça
Mercadante disse ainda que, se Delcídio resolvesse colaborar com o MPF,
seria responsabilizado por ter sido um agente de desestabilização
Não colou
Estas investidas influenciaram Delcídio do Amaral a realizar o acordo de
colaboração premiada, já que não sentiu qualquer firmeza nas promessas de
solidariedade
Bronca antiga
Relembrando a CPI dos Correios, Mercadante disse que o ato seria ainda
mais grave em razão das várias "broncas" que Delcídio havia segurado,
retirando os nomes de Lula e de seu filho do relatório final da CPI
Família Cerveró
Em janeiro de 2015, Delcídio do Amaral recebeu e-mail do filho de Nestor
Cerveró pedindo um encontro. Delcídio então se encontrou com o advogado dos
Cerveró, que relatou a dificuldade da família para pagar os honorários
advocatícios. Parte dos pagamentos havia sido feita pelo Petrobras, e a família
pedia a intervenção de Delcídio para que a empresa pagasse o restante. Delcídio
conseguiu que fossem pagas duas faturas, totalizando R$ 747 mil
Ele vai falar
Havia ainda outras faturas a pagar, e a família Cerveró passou a indicar
que, se a Petrobras não pagasse, Nestor Cerveró poderia fazer uma delação
Ação entre amigos
Na mesma época, o ex-presidente Lula pediu ajuda a Delcídio para evitar
que seu amigo José Carlos Bumlai fosse preso. O risco existia dada a
possibilidade de uma delação de Cerveró e de Fernando Baiano. Esta ajuda seria
convencer a família Bumlai a custear a família Cerveró em troca do silêncio de
Nestor. Se ele falasse, poderiam vir à tona fatos supostamente ilícitos de
Bumlai, Lula e do próprio Delcídio

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