sábado, 19 de março de 2016

APARÊNCIA NADA MAIS...





César Augusto Alves




Na última semana, Elis Regina completaria 71 anos. Tenho para mim que estaria em plena forma, assim como outras de sua geração, cantando por aí e encantando por onde passasse. Elis foi uma joia de seu tempo por diversos motivos. Pela voz, pela postura, pela personalidade forte, pela majestade que era para a música. Emprestou sua voz ao país em um Brasil que lutava mais do que aparentava lutar. Aos 71 anos, no Brasil de hoje, talvez não lutasse, pois lutar com e contra aparências é em vão. E é o que temos assistido.
Nós vivemos tempos imagéticos, onde se luta por algo e não se sabe muito bem pelo que. O país que eu, do alto de meus vinte e poucos anos, enxergo, é um país de imagens, de aparências frívolas. Um país que luta contra a corrupção, mas a tem enraizada como cultura. Um povo que briga por direitos e nunca para que se cumpram os deveres. Passeatas que seguem por um caminho de revolução sem atentar aos riscos da aparência que se protege.
Eu vivo em um país onde a aparência comanda atitudes e eventuais comoções populares. Onde um mesmo povo que vai às ruas por Justiça esbraveja ódio e palavras de ordem contra qualquer coisa que vá contra sua posição social e política. Onde pessoas que nunca acompanharam qualquer trâmite político se deixam levar por toda e qualquer faísca, sem tentar apagá-la. Incendeia-se logo Roma. Onde essa mesma pessoa não pensa duas vezes em passar um sinal vermelho (na metáfora e fora dela) da legalidade básica do dia a dia. Afinal, “isso aí não tem problema fazer errado não, ninguém vai notar”.
Um mesmo povo que dissemina informações falsas sem a menor vontade de checar credibilidade. Um mesmo povo que se ilude a cada novo herói nacional que surge, endeusando-o. Me preocupo. É um povo que está a postos para julgar (e condenar, se preciso for), como fizeram, por exemplo, com Lucélia Santos, que certa vez ousou andar de ônibus. Ou Betty Faria, que também ousou ir à praia de biquíni aos 70 anos, e não de burca. Ou com aquela paulista que foi linchada até a morte (na internet e na carne) por supostamente sequestrar crianças, sendo provada a inocência dela posteriormente – o mesmo aconteceu a um caminhoneiro acusado de pedofilia. Morreu inocente. Povo indignado que destila ódio.
É um povo machucado na alma e na rotina, que se guia pela carência na ilusão de um país perfeito. À sombra do apartidarismo, tenho medo da força que se forma em todo esse movimento que nos assola. É sombrio. O medo vem porque quando a força popular é usada às cegas, quando uma pessoa é hostilizada pela cor da roupa que usa ou quando alguém se preocupa com a cor da roupa que pretende usar para prezar por sua segurança pessoal, é de se temer mesmo. O medo vem porque é quase latente que, sim, temos milhões de motivos para lutar, para ir às ruas, para impor a vontade popular; mas temos mais motivos ainda para desconfiar do que não é aparente. Afinal, o que não se mostra, não existe até dominar a situação.
Eu aguardo pelo dia em que acordarei e saberei ter sido tudo isso um pesadelo. Que as pessoas sabem do que estão falando, não espalham inverdades e não disseminam ódio. Enquanto esse dia não chega, eu vou ouvir Elis, brindando a todo este falso brilhante, ou quem sabe lerei Fauzi Arap, com quem encerro em aspas. “E quanto mais falo sobre a verdade inteira, um abismo maior nos separa. Você não tem um nome, eu tenho. Você é um rosto na multidão e eu sou o centro da atenções. A mentira da aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é. Porque eu, eu não sou o meu nome”.

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