César Augusto Alves
Na última semana, Elis Regina
completaria 71 anos. Tenho para mim que estaria em plena forma, assim como
outras de sua geração, cantando por aí e encantando por onde passasse. Elis foi
uma joia de seu tempo por diversos motivos. Pela voz, pela postura, pela
personalidade forte, pela majestade que era para a música. Emprestou sua voz ao
país em um Brasil que lutava mais do que aparentava lutar. Aos 71 anos, no
Brasil de hoje, talvez não lutasse, pois lutar com e contra aparências é em
vão. E é o que temos assistido.
Nós vivemos tempos imagéticos, onde se
luta por algo e não se sabe muito bem pelo que. O país que eu, do alto de meus
vinte e poucos anos, enxergo, é um país de imagens, de aparências frívolas. Um
país que luta contra a corrupção, mas a tem enraizada como cultura. Um povo que
briga por direitos e nunca para que se cumpram os deveres. Passeatas que seguem
por um caminho de revolução sem atentar aos riscos da aparência que se protege.
Eu vivo em um país onde a aparência
comanda atitudes e eventuais comoções populares. Onde um mesmo povo que vai às
ruas por Justiça esbraveja ódio e palavras de ordem contra qualquer coisa que
vá contra sua posição social e política. Onde pessoas que nunca acompanharam
qualquer trâmite político se deixam levar por toda e qualquer faísca, sem
tentar apagá-la. Incendeia-se logo Roma. Onde essa mesma pessoa não pensa duas
vezes em passar um sinal vermelho (na metáfora e fora dela) da legalidade
básica do dia a dia. Afinal, “isso aí não tem problema fazer errado não,
ninguém vai notar”.
Um mesmo povo que dissemina
informações falsas sem a menor vontade de checar credibilidade. Um mesmo povo
que se ilude a cada novo herói nacional que surge, endeusando-o. Me preocupo. É
um povo que está a postos para julgar (e condenar, se preciso for), como
fizeram, por exemplo, com Lucélia Santos, que certa vez ousou andar de ônibus.
Ou Betty Faria, que também ousou ir à praia de biquíni aos 70 anos, e não de
burca. Ou com aquela paulista que foi linchada até a morte (na internet e na
carne) por supostamente sequestrar crianças, sendo provada a inocência dela
posteriormente – o mesmo aconteceu a um caminhoneiro acusado de pedofilia.
Morreu inocente. Povo indignado que destila ódio.
É um povo machucado na alma e na
rotina, que se guia pela carência na ilusão de um país perfeito. À sombra do
apartidarismo, tenho medo da força que se forma em todo esse movimento que nos
assola. É sombrio. O medo vem porque quando a força popular é usada às cegas,
quando uma pessoa é hostilizada pela cor da roupa que usa ou quando alguém se
preocupa com a cor da roupa que pretende usar para prezar por sua segurança
pessoal, é de se temer mesmo. O medo vem porque é quase latente que, sim, temos
milhões de motivos para lutar, para ir às ruas, para impor a vontade popular;
mas temos mais motivos ainda para desconfiar do que não é aparente. Afinal, o
que não se mostra, não existe até dominar a situação.
Eu aguardo pelo dia em que acordarei e
saberei ter sido tudo isso um pesadelo. Que as pessoas sabem do que estão
falando, não espalham inverdades e não disseminam ódio. Enquanto esse dia não
chega, eu vou ouvir Elis, brindando a todo este falso brilhante, ou quem sabe
lerei Fauzi Arap, com quem encerro em aspas. “E quanto mais falo sobre a
verdade inteira, um abismo maior nos separa. Você não tem um nome, eu tenho.
Você é um rosto na multidão e eu sou o centro da atenções. A mentira da
aparência do que eu sou e a mentira da aparência do que você é. Porque eu, eu
não sou o meu nome”.

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