Manoel Hygino
O bichinho assustou o Brasil, ganhou
renome mundial, sobrepujou distâncias continentais, assumiu aparência bélica,
exigiu forças armadas para combatê-lo, mais perigoso que o ebola, que mobilizou
o sistema de saúde do planeta. O animalzito voador venceu fronteiras e alarmou
extensas regiões da Terra. Mas também serviu para obscurecer a pérfida imagem
provocada pelos escândalos revelados no foro federal de Curitiba na “Lava Jato”
e as investigações da Polícia Federal.
A propósito, Waldir de Pinho Veloso,
professor de direito e escritor, em seu periódico pessoal para os amigos, faz
observações adequadas. Porque a primeira impressão era de que a dengue
constituía novidade no Brasil, tal o torvelinho da divulgação por todos os
instrumentos de comunicação e na tribuna das casas legislativas. Destarte,
gerou medo em muitos países pela perspectiva de eventual calamidade.
Mas lá pelos anos 40 do século
passado, era comum em minha cidade deparar equipes de mata-mosquitos,
envergando uniforme de brim-cáqui, percorrendo as ruas e casas pra eliminar o
atrevido voador, que só mal levava à população. Assim, como faziam os
bate-paus, indivíduos contratados pela administração municipal para combater e
prender os maus elementos que molestavam a paz noturna e o sossego.
De modo que, efetivamente, nada de
novo há sob o sol. Aliás, Waldir lembra que, no Brasil, os primeiros relatos de
dengue datam do fim do século XIX, em Curitiba, e início do XX, em Niterói. Na
capital fluminense, o mosquito (a presidenta usa “mosquita”) já era um
problema, mas a preocupação era, de fato, com a transmissão da febre amarela.
Quando os anos cinquenta chegaram ao fim, o Aedes aegypti foi erradicado graças
a providências oportunas do poder público. Uma década depois, relaxaram-se as
medidas e o vetor foi reintroduzido em todos os estados. O resultado agora se
vê, e como dói.
Não é só a liberdade que exige
vigilância para prevalecer. Também acontece na área da saúde pública, como se
verificou e tanto sacrifício exigiu das autoridades e dos sanitaristas. O
mosquito da febre amarela é o da dengue, transmissor do vírus chikungunya e do
vírus zika.
Entusiasmados, talvez, pelas efêmeras
temporadas carnavalescas e com o oferecimento ao cidadão de bens que lhe satisfaçam
interesses imediatos, foi-se “deixando para lá”, a saúde, que deveria ser
absolutamente prioritária. O terreno foi invadido crescente e perigosamente por
agentes nocivos ao bem-estar físico e à vida, inclusive muriçoca, carapanã,
mosquito-prego, fincão, fincudo, sovela, perereca ou bicuda, conforme a região
do país. Os próprios nomes dos bichinhos – muriçoca ou carapanã (que quer dizer
“mosquito pintado”) são de origem tupi. Do que se conclui, como observa Waldir,
que – antes de aqui desembarcarem os europeus – o animalito incômodo e
traiçoeiro já era conhecido e tinha nome.
O alvoroço agora é em busca do tempo
perdido. Assustamo-nos com as “mosquitas”, aqui e alhures, e com o volume de
dinheiros desviados do erário e das estatais, outra calamidade cuja extensão
não se imagina fosse tanta e tamanha. Pagamos elevado preço pela omissão e
insensatez.

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