História de Cristina J. Orgaz – BBC News Mundo – BBC News Brasil

Depois de quatro mandatos como chanceler, Angela Merkel deixou o poder em dezembro de 2021© Getty Images
A Alemanha está
passando por um momento um tanto turbulento. Seus indicadores
econômicos estão deixando a desejar há anos, e ameaçam seu status de
“milagre econômico”. E, com a fragilidade da principal economia da zona do euro, os países vizinhos também vão sofrer.
O país não é mais o Exportweltmeister, o “campeão mundial de exportações”, como era conhecido nos mercados internacionais.
No auge da hiperglobalização, a Alemanha chegou a ser o maior
exportador do mundo. O gás russo fornecia combustível barato às suas
indústrias, e a China era um grande parceiro comercial.
Mas esse mundo dominado pela Alemanha já não existe mais. Acontecimentos como o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), as tarifas de Donald Trump, a invasão da Ucrânia pela Rússia e a ascensão da China, que passou de compradora a concorrente, afetaram seu modelo industrial.
Não foram as únicas causas.
“Talvez o maior choque de todos tenha vindo da tecnologia“, diz Wolfgang Münchau, diretor da publicação especializada EuroIntelligence e autor do livro Kaput: The End of the German Miracle (“Kaput: o Fim do Milagre Econômico Alemão”, em tradução livre).
“A Alemanha de hoje tem uma das piores redes de telefonia celular da
Europa. O fax ainda reina no Exército e nos consultórios médicos. E há
muitas lojas que ainda só aceitam dinheiro em espécie.”
“Para dar um exemplo de como o país ficou para trás, no início os
dirigentes da indústria automotiva alemã, em sua maioria homens,
consideravam os carros elétricos brinquedos para meninas”, escreveu o
autor.
Para Münchau, esse declínio vem se desenvolvendo há anos. “As piores
decisões foram tomadas durante o longo reinado de Angela Merkel. Na
década de 2010, a Alemanha aumentou sua dependência do gás russo, investiu menos em fibra óptica e infraestrutura digital, e aumentou sua dependência das exportações.”
“É um modelo que, por diversos fatores, se tornou obsoleto.”

Em outubro, a Volkswagen registrou uma queda de 64% nos lucros do
terceiro trimestre. A Mercedes-Benz e a BMW também registraram
perdas© Getty Images
Apesar de a Alemanha ser celebrada como líder do mundo ocidental,
houve, segundo Münchau, uma falta de reformas econômicas significativas e
um foco excessivo na política externa em detrimento da inovação e do
planejamento econômico de longo prazo.
Hoje, as grandes empresas do setor químico, de engenharia e
automotivo estão sofrendo — e, com elas, as redes empresariais menores
que fornecem componentes.
O exemplo mais evidente foi apresentado recentemente pela Volkswagen.
O maior empregador do setor privado da Alemanha ameaça fechar fábricas
no país pela primeira vez em 87 anos de história.
Made in Germany já foi um símbolo da tecnologia mais
avançada e confiável, mas a Alemanha não soube adaptar sua indústria
mecânica ao modelo digital, segundo Münchau.
Além disso, neste mês, o governo de coalizão liderado por Olaf Scholz
entrou em colapso, deixando o país sem um orçamento geral e forçando a
convocação de novas eleições para fevereiro de 2025.
Mas como é possível que uma das nações tecnologicamente mais avançadas do mundo tenha ficado para trás?
Nesta entrevista, Wolfgang Münchau analisa os diversos fatores que
arrastaram a principal economia da zona euro para este momento
conturbado.
BBC News Mundo – A Alemanha tem hoje uma economia com
crescimento muito baixo, ao qual ninguém está acostumado. O que vai
acontecer na Europa?
Wolfgang Münchau – A Europa vai sofrer. A Alemanha
foi seu motor de crescimento, mas agora uma Alemanha que não cresce está
politicamente menos disposta a ter grandes programas de apoio à União
Europeia (UE). O país é um grande contribuinte líquido para seu
orçamento.
Mas não se pode contar com a Alemanha estagnada para financiar a UE
da mesma forma que antes, e ela pode relutar em financiar a guerra na
Ucrânia.
Porque se não há crescimento, não há margem fiscal para expandir o
orçamento. Por isso, veremos decisões difíceis, e todas elas estão
interligadas.
BBC News Mundo – Há algum país que possa substituir a Alemanha como motor da Europa?
Münchau – Não acredito que haja nenhum, sobretudo
por uma questão de tamanho, a Alemanha tem 85 milhões dos 500 milhões de
habitantes da União Europeia, e sua economia é cerca de 20% maior que a
segunda maior economia da UE.

Com seus 80 milhões de habitantes e poder exportador, a Alemanha é a economia mais forte do continente europeu© Getty Images
BBC News Mundo – Quando começou o milagre econômico alemão?
Münchau – Começou realmente depois da Segunda Guerra Mundial.
No fim da década de 1940, houve um período de novas empresas e muito
dinamismo na economia, com base na engenharia e na indústria.
Os oleodutos e os reatores nucleares foram as engrenagens que
impulsionaram a economia alemã. Eram a força vital do seu modelo
industrial. Foram estes oleodutos que mais tarde dariam à Alemanha
acesso ao petróleo norueguês e ao gás russo. Essa primeira fase do
milagre durou até o início da década de 1970.
O período de 1980 a 1990 foi mais problemático porque a unificação
custou muito dinheiro. Mas, em 2005, chegaria uma segunda fase, que
durou até aproximadamente 2018.
A Alemanha viveu um período bem-sucedido entre 2005 e 2015, conhecido como “milagre alemão moderno”.

O fechamento das centrais nucleares e o fim da energia barata se deveram a razões políticas, e não econômicas© Getty Images
Entre os fatores que contribuíram para este sucesso, estão as
reformas do mercado de trabalho introduzidas pelo chanceler Gerhard
Schröder em 2003, que levaram à moderação salarial, além do gás barato
da Rússia, da liberalização do transporte marítimo e da logística de
contêineres.
E também havia a forte demanda de bens industriais alemães por parte
de economias em rápido crescimento, como a China ou a Índia.
BBC News Mundo – O que indica que “o milagre” acabou?
Münchau – Em termos de dados e estatísticas
publicadas, podemos ver isso por volta de 2018. Mas tem sido um processo
progressivo, cujas causas remontam a muitos anos atrás.
O que aconteceu com a Alemanha é que ela se tornou muito dependente
de algumas indústrias, em especial da indústria automotiva. Isso é
bastante raro.
A maioria dos países grandes, como Estados Unidos, China, Brasil ou
Japão, possui indústrias diversificadas. Eles não dependem de um ou dois
setores.

O governo de coalizão da Alemanha se desintegrou no início deste mês —
e agora há eleições gerais marcadas para 23 de fevereiro de 2025© Getty
Images
Mas a Alemanha se tornou muito dependente dos automóveis, dos produtos químicos e também das máquinas de engenharia mecânica.
Essas três indústrias eram extremamente importantes para a economia alemã e sofreram problemas semelhantes desde 2018.
BBC News Mundo – Quais foram esses problemas?
Münchau – Um deles foi a crise do aumento dos preços
da energia, que se tornou um problema específico após a invasão da
Ucrânia por Vladimir Putin. Mas, no caso do setor automotivo, aconteceu
outra coisa: não conseguiu inovar.
Não está na vanguarda dos veículos elétricos. Continuou vendendo seus
automóveis antigos movidos a combustível, e investiu nas tecnologias
erradas.
O que vemos agora é que a Tesla e os chineses são os líderes em veículos elétricos, e os alemães ficaram para trás.
De certa forma, a obsessão da Alemanha com a indústria destaca a
incapacidade do país de aceitar que as economias ocidentais modernas são
baseadas em serviços, e não em manufatura.
BBC News Mundo – Um amigo seu disse para você não escrever
este livro, porque a Alemanha tem um histórico de se recuperar quando
menos se espera. Isso pode acontecer desta vez? Ela pode renascer?
Münchau – Esta crise é diferente das anteriores,
quando os problemas eram a competitividade e os custos. Esta é a crise
em que a Alemanha, como país, está vendendo produtos obsoletos, que já
não estão na vanguarda da tecnologia.
Isso se deve ao fato de a Alemanha ter perdido o século 21 em termos
de toda a revolução digital. Passou anos investindo nas tecnologias
equivocadas. Nos automóveis, isso é óbvio porque podemos ver.
Mas também vimos uma digitalização lenta das indústrias existentes. A
tecnologia digital invadiu os dispositivos mecânicos em que o país era
líder, e não soube se adaptar.
BBC News Mundo – Este fenômeno na indústria está relacionado com a aversão dos alemães à digitalização que você menciona em Kaput?
Münchau – Acho que sim. É possível ver isso em
muitas áreas da vida pública e em muitos setores do governo que ainda
usam aparelhos de fax. Da mesma forma que nos consultórios médicos.
Isso também pode ser observado na telefonia e na cobertura de
celular, que é muito fraca em muitos lugares, e na implantação de fibra
óptica, que também está muito atrasada.
A Alemanha praticamente não tem nenhuma representação em termos de inteligência artificial. Não fez esses investimentos. E esse é o problema de uma economia que se especializa demais.
A mudança na geopolítica também jogou contra eles. Muitas coisas aconteceram juntas.
BBC News Mundo – Você acha que a sociedade alemã é tecnofóbica?
Münchau – Sim. E não se trata apenas do digital.
Existe uma atitude antitecnologia que prevalece na sociedade. Isso se
aplica ao dinheiro eletrônico ou até mesmo aos cartões de crédito.
Vejamos o exemplo da energia nuclear. A Alemanha nunca esteve perto de um acidente. Mesmo assim, decidiu se livrar das suas usinas nucleares, enquanto em outros países elas são uma parte muito importante do seu fornecimento de energia barata.
BBC News Mundo – No livro, você diz que o sucesso da Alemanha
nas décadas passadas lançou as bases para a crise atual. Ou seja, o que
permitiu à Alemanha ser bem-sucedida no passado é agora o que está
prejudicando o país. Isso é um pouco paradoxal, não?
Münchau – Exatamente. O que foi um ponto forte em um
período é a base para a fraqueza agora. O país era muito dependente da
Rússia e da China e, desde que a geopolítica corresse bem, esse era um
ótimo modelo que produzia crescimento e prosperidade. O mesmo acontece
com a tecnologia.
Mas ambos os fatores mudaram, enquanto as empresas permanecem as mesmas, ainda tentando fazer negócios na Rússia e na China.
Existem boas empresas alemãs, mas os grandes lucros não estão sendo
obtidos na área de engenharia, como costumava ser o caso — mas, sim, no
campo da inteligência artificial e tecnologias digitais.
As grandes margens de lucro que as empresas alemãs costumavam
desfrutar agora diminuíram. Acho que esse é o ponto-chave. A Alemanha
não se adaptou, e é por isso que está na situação atual.

Em 2005, o social-democrata Gerhard Schröder foi sucedido pela conservadora Angela Merkel© Getty Images
BBC News Mundo – Fiquei surpresa ao ler que “as piores
decisões para a Alemanha foram tomadas durante o longo reinado de Angela
Merkel, quando ela era celebrada como a líder do mundo livre”. O que
aconteceu nesse período?
Münchau – Merkel se concentrou principalmente na
política externa. Não estava interessada em reformas econômicas. Não
acredito que ninguém se lembre de nenhuma reforma relevante aprovada na
época dela, com exceção do aumento da idade para aposentadoria.
É claro que ela foi uma figura indispensável na Alemanha. Era
impossível formar uma coalizão sem seu apoio ou sua presença. Ela também
era muito popular pessoalmente, mas foi um bom período.
O crescimento econômico foi forte, e os governos geralmente não resolvem problemas quando tudo está indo bem.
A Alemanha se despediu de muitos avanços técnicos durante esse
período. Foi também durante seu mandato que o país se tornou fortemente
dependente da China e da Rússia e decidiu acabar com a energia nuclear.
Foram tomadas muitas decisões que, em retrospectiva, são consideradas
como equivocadas. Merkel estava por trás de um amplo acordo de
cooperação em termos de investimentos com a China.
Veja bem, não a estou culpando pessoalmente por tudo o que deu errado
na Alemanha. Não estou atribuindo a culpa a nenhuma pessoa em
particular.
Hoje, a Alemanha tem uma economia de crescimento muito baixo, e as
pessoas se perguntam o que aconteceu. E o que eu argumento no meu livro é
que essas decisões ruins foram tomadas nas décadas anteriores.

Quase metade do PIB da Alemanha costuma depender do seu comércio exterior© Getty Images
BBC News Mundo – Mas Merkel enfrentou de frente a crise do
euro em 2008, a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, as ondas de
migração para a Europa e a pandemia de covid-19?
Münchau – Ela brilhou como líder diplomática
europeia em todas essas áreas. Ela tinha um relacionamento muito próximo
com Obama nos Estados Unidos. Trabalhou com Putin.
Tinha uma presença bastante global, mas não era alguém que pensasse
estrategicamente sobre a força econômica e a geopolítica. Ela tinha
outras prioridades.
Sua grande força na política alemã foi a capacidade de liderar
coalizões entre partidos de esquerda e de direita. Não é algo fácil. Era
uma gestora muito, muito boa. E é por isso que sobreviveu por tanto
tempo.
Não quero tirar seu mérito. Estou apenas dizendo que muitos dos
problemas que a Alemanha tem hoje foram resultado de erros previsíveis
cometidos por ela e durante seu mandato. Isso ficou claro.
A política energética foi provavelmente o caso mais extremo, mas tem também o caso da indústria automotiva.
Observe as grandes gigantes da tecnologia do mundo. Quase todas são
dos Estados Unidos. Algumas, da China. Não há nenhuma europeia.
Mas a Alemanha é um país que poderia ter tido isso. É uma grande
economia. Tem muito dinheiro. Mas isso faz parte do legado de Merkel, e
vai ser muito difícil reverter essa situação.