domingo, 21 de janeiro de 2024

O COMBALIDO E FORA DE MODA MST CHEGA AOS 40 ANOS

 

Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, SP, BRASÍLIA, DF, E PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) – O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) completa 40 anos com objetivos e perspectivas diversas das que motivaram sua criação, um histórico de conflitos com fazendeiros, ruralistas e governos antagônicos, certa desilusão com o PT e desafios que incluem dificuldade de novos quadros, esvaziamento político e cerco bolsonarista.

Fundado durante um encontro nacional realizado de 21 a 24 de janeiro de 1984 em Cascavel (PR), o MST se tornou o movimento brasileiro pela reforma agrária mais famoso dentro e fora do país.

Protagonista de invasões de terras vistas por grupos de esquerda como instrumentos de pressão legítimos e, por grupos de direita, como violações violentas da propriedade privada, manteve-se no centro das atenções do embate político nestas últimas décadas.

Após atravessar a gestão Jair Bolsonaro sob ameaças (o ex-presidente defendia enquadrar as ações do grupo como terrorismo), teve estremecimento com o governo Lula 3 diante da ocupação de uma fazenda da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e foi pressionado por uma CPI na Câmara dos Deputados.

Embora carregue a fama, o MST é apenas um dos movimentos críticos da concentração fundiária. Diferenciou-se de outros pela capacidade de organização e a capilaridade. Presente em 25 estados, optou por não ter presidente e toma decisões de maneira colegiada.

Nesse período, destacaram-se João Pedro Stedile, 70, fundador e cabeça pensante do MST; José Rainha, 63, comandante carismático das invasões que terminou proscrito; e João Paulo Rodrigues, 44, principal figura da geração que nasceu e cresceu em assentamentos.

Foram eles que, em momentos e circunstâncias diferentes, tomaram a dianteira nas tratativas com os governos, que no período se dividiram entre oposição aberta (Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro), tímida aproximação (Itamar Franco) e alinhamento sujeito a turbulências (Lula e Dilma Rousseff).

O ápice das invasões do grupo ocorreu no fim do primeiro e começo do segundo mandato de FHC (PSDB), em 1998 e 1999, de acordo com os dados compilados anualmente pelo Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da CPT (Comissão Pastoral da Terra).

Foram quase 600 em cada um daqueles dois anos, além de ações em prédios públicos.

Em maio de 2000, o governo editou medida provisória que impediu a desapropriação de áreas invadidas, o que resultou em redução das ações do MST.

Com Lula no poder, a medida foi descartada e as ocupações voltaram a crescer, embora em número bem menor do que no período mais tenso sob FHC —que teve uma fazenda sua em Buritis (MG) invadida pelo MST em 2002. A média de ações nos dois primeiros mandatos de Lula, de 2003 a 2010, ficou em cerca de 350 ao ano.

Já sob Dilma (2011-2016) esse tipo de mobilização caiu para uma média de cerca de 215 ao ano, sob Temer (2016-2018) recuou para abaixo de 200, e atingiu seu menor índice sob Bolsonaro (2019-2022), com média de menos de 50 ocupações ao ano (o período coincidiu, em parte, com a pandemia da Covid-19).

Sob Lula 3, a CPT diz que só no primeiro semestre de 2023 ocorreram 71 ocupações de terras. Os dados do segundo semestre ainda não foram divulgados.

Embora alinhado, o PT foi por várias vezes alvo de críticas do MST, que se desiludiu logo nos primeiros anos de Lula 1 com a possibilidade de uma mudança radical na realidade fundiária brasileira.

“O governo do presidente Lula e da Dilma fez bastante, mas nós precisamos avançar. Precisamos colocar a reforma agrária no orçamento da União”, resume o deputado federal Marcon (PT-RS), militante e beneficiário da reforma agrária, morando até hoje no Assentamento Capela, em Nova Santa Rita (RS).

Na visão do deputado, os maiores desafios daqui para a frente são estruturar os assentamentos e dar perspectivas às novas gerações.

“Precisamos achar o que fazer com essa juventude. É agregar valor na produção, ter acompanhamento técnico, infraestrutura. Hoje, na metade dos nossos assentamentos no Rio Grande do Sul deveria ser feita uma estátua das famílias assentadas, pela forma [precária] como elas estão vivendo.”

Stedile afirma que a nova geração não tem a mesma “têmpera” do passado. “Já está mais acomodada. Já consegue entrar na universidade. Então, o jovem sem-terra ou assentado está mais vagaroso para as atividades militantes.”

O MST surgiu em meio à mobilização de camponeses na CPT, órgão da ala progressista da Igreja Católica. O ano, 1984, representava o estertor do regime militar.

O principal método sempre foi a invasão —ou ocupação, como reivindica o movimento e a CPT— de terras. A estratégia é pressionar os governos a assentar quem mora sob lonas (o MST diz que há hoje cerca de 70 mil famílias ainda acampadas).

Doze anos depois de sua criação, o MST viveu em 17 de abril de 1996 um de seus capítulos mais dramáticos, quando 19 trabalhadores sem-terra ligados ao movimento foram assassinados por policiais militares durante protesto em uma rodovia de Eldorado do Carajás (PA).

O caso teve grande repercussão nacional e internacional, o que acabou fortalecendo o nome do movimento.

A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ministra da Agricultura no governo Bolsonaro e hoje uma das principais líderes do agronegócio no Congresso, afirma que o MST não soube se modernizar.

“Há 40 anos, até tinha sentido o trabalho que eles faziam. Nós tínhamos muita terra improdutiva no Brasil. Mas o MST ter hoje como o seu mantra, sua missão, invasão de propriedade está fora de época. Chamar atenção invadindo terra, isso para mim é inconcebível nos dias de hoje.”

A ex-ministra afirma que o movimento precisa se reinventar, lutando para que os assentamentos sejam produtivos, e rechaça as críticas do MST ao agro.

“Não existe esse agro mais. Eu até queria saber onde está esse agro improdutivo. Pode ter casos isolados, mas latifúndios, isso é uma coisa que ficou também no passado. Eu acho que o MST precisa olhar melhor e ver que o agro brasileiro é tecnificado, trabalhou e ficou independente do governo. É um setor que hoje sustenta a economia brasileira.”

Com a chegada do PT ao poder, a afinidade ideológica freou de certa forma a oposição barulhenta que dava fama ao MST, além de o Bolsa Família ter esvaziado adesões e aplacado demandas que inflavam o movimento.

Os números gerais da reforma agrária mostram que as desapropriações (47 milhões de hectares), assentamento de famílias (615 mil) e verbas discricionárias para ações no setor (R$ 16 bilhões em valores nominais, sem correção) encontraram seu ápice nos dois primeiros mandatos de Lula.

Todos esses indicadores começaram a declinar sob Dilma e caíram ainda mais, alguns simplesmente sendo paralisados, sob Temer e Bolsonaro.

Nos últimos anos, igrejas evangélicas avançaram também sobre os assentamentos. O bolsonarismo e os ruralistas mantêm o cerco sobre o MST nas redes sociais e no Congresso. Na gestão Bolsonaro, praticamente a única política para o setor foi promover uma entrega recorde de títulos de terra a assentados —vista como forma de esvaziar o movimento.

De acordo com dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), em 2023, o primeiro ano de Lula 3, não houve decretos desapropriatórios editados, 51 mil hectares foram incorporados ao programa de reforma agrária, contra 34 mil no último ano de Bolsonaro, e 14 mil novas famílias foram assentadas, o dobro de 2022.

Já o orçamento discricionário do Incra, usado nas ações finalísticas da reforma agrária, foi o menor desde pelo menos 2003, R$ 300 milhões.

O sociólogo e professor da UnB (Universidade de Brasília) Sérgio Sauer, estudioso de temas ligados aos movimentos agrários, cita cinco pontos que, em sua visão, exprimem a relevância do MST:

1) É um dos movimentos que materializam a saída de uma situação de restrições políticas para uma de organização social e popular no processo de redemocratização; 2) deu visibilidade nacional e internacional à situação de profunda desigualdade social, impunidade e violência no campo; 3) agregou à demanda por terra bandeiras como direito à educação e condições dignas de trabalho; 4) produziu reflexão política e teórica sobre a reforma agrária, e 5) incluiu o direito ao trabalho como uma das justificativas para o acesso à terra.

Ele vê na busca pela agroecologia a principal bandeira do MST no momento. O arroz orgânico plantado no Rio Grande do Sul é um exemplo. Embora em uma escala bem pequena em relação ao arroz tradicional, o MST é o maior produtor do país e da América Latina.

O professor e sociólogo Zander Navarro, também com ampla atuação acadêmica e profissional na área, avalia que o MST perdeu a sua razão de ser.

Ele considera que, sem o movimento, dificilmente teria ocorrido a ampla distribuição de terras entre a segunda metade dos anos 1990 e 2010 —e também vê papel do grupo na consciência política por parte das famílias mais pobres do campo. Mas afirma que a reforma agrária é uma política que, na medida em que é atingida, se esgota.

“A necessidade de uma reforma agrária deixou de existir porque a demanda social pelo acesso à terra praticamente se esgotou no Brasil. Então, é claro que, neste século, aos poucos e cada vez mais visivelmente, o MST perdeu sua razão de existir. Cumpriu o seu papel em grande medida. Temos que aplaudir. Isso foi muito importante, mas em uma bela hora terminou, é isso aí. É algo que no Brasil nenhuma autoridade teve a coragem de dizer.”

NORMALMENTE QUEM DECIDE FAZER O CERTO CONTRA A MAIORIA ACABA SENDO PERSEGUIDO E MORTO

 

História por Notas & Informações  • Jornal Estadão

No inesquecível desabafo do presidente Lula da Silva em março do ano passado, ao comentar seus dias na prisão, havia um quê de maldição: “Só vai estar tudo bem quando eu f… esse Moro”. Ao que parece, não era apenas o petista que estava com essa obscena disposição de vingança contra Sérgio Moro. O hoje (ainda) senador da República, que foi ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, juiz da Lava Jato e, nessa condição, algoz de políticos e empresários de variados carizes, está em acelerado processo de decomposição.

Em dezembro passado, segundo se soube há poucos dias, o ministro Dias Toffoli determinou a abertura de um inquérito no Supremo Tribunal Federal contra Moro e algumas das estrelas do time da Lava Jato, a pedido da Procuradoria-Geral da República, num caso de duas décadas atrás. Eles são acusados por um empresário e ex-deputado estadual paranaense de tê-lo obrigado a atuar como uma espécie de “agente infiltrado” para grampear políticos e empresários. Como o inquérito corre sob sigilo, não há muitos detalhes, mas o que veio a público é assustador – o suficiente para dizimar o pouco que ainda restava de credibilidade de Sérgio Moro e daquele time da Lava Jato.

Observação: No Brasil, para descobrir a corrupção e a maladragem dos políticos só agindo dessa forma que se consegue descobrir a podridão por trás da nossa política, fora disso, são todos inocentes.

A esta altura, pouco importa o desdobramento desse caso. Pode-se dizer que a eventual comprovação de inocência de Moro e dos demais suspeitos é irrelevante, pois o estrago para a reputação dos envolvidos já estará feito. Não serão poucos os que aqui verão uma espécie de justiça poética, uma vez que a Lava Jato, consciente e ativamente, usou o vazamento de pormenores picantes das investigações como uma espécie de antecipação do julgamento dos suspeitos, levando a opinião pública a relacioná-los implacavelmente à corrupção e a outros crimes diversos mesmo antes de qualquer comprovação, quase sempre com base apenas em delações e muitas vezes ao arrepio das garantias constitucionais.

Mas o infortúnio de Sérgio Moro e do time da Lava Jato não parece ser um fato isolado, e sim parte de uma espiral de desmoralização total da operação que messianicamente pretendeu salvar o Brasil da corrupção. Desde o momento em que o Supremo decidiu, entre abril e junho de 2021, desqualificar Sérgio Moro para julgar Lula da Silva, deixando o petista livre para concorrer à Presidência, parece haver uma sistemática tentativa de tratar a Lava Jato como essencialmente maligna e de considerar que todos os acusados pela operação como pobres vítimas do lavajatismo.

Essa percepção foi reforçada pelo próprio ministro Toffoli quando, ao anular as provas de inaudita corrupção obtidas a partir da delação de executivos da Odebrecht, qualificou a prisão de Lula como “um dos maiores erros judiciários da história do País”, fruto de uma “armação” da Lava Jato – cujos operadores, segundo Toffoli, tinham um “projeto de poder”, de “conquista do Estado”, chocando o “ovo da serpente dos ataques à democracia”. Ou seja: a Lava Jato resumia, em si mesma, tudo o que de pior havia no País.

Observação: Segundo esses comentários, a Lava Jato foi pior do que a corrupção reinante e duas pessoas que foram candidatos tinham um projeto de poder, isso é um absurdo e ninguém pode acreditar nessa história mal contada.

A julgar pelo andar da carruagem, descobriremos em breve que nunca houve corrupção na Petrobrás, que todas as provas e confissões foram inventadas e que tudo não passou de um plano doentio para destruir reputações e para arruinar o Brasil – como, aliás, voltou a afirmar o presidente Lula da Silva na quinta-feira passada, quando declarou que a Petrobrás foi vítima de “mancomunação” entre a turma da Lava Jato e o governo americano. Como escreveu a colunista Elena Landau neste jornal, “mais um pouco, vamos ter de pagar indenização para corruptos confessos”.

Comentário: Olha o que hoje os corruptos falam e podem falar sem nenhuma punição.

Com a aniquilação moral de Sérgio Moro e da Lava Jato, tem-se, como consequência natural, a redenção moral de tantos quantos foram pilhados em falcatruas diversas ao longo das trepidantes investigações anticorrupção na história recente. Ressalve-se que obviamente não se trata de ver aí uma ação concertada entre os diversos interessados, ainda que seja tentador ligar os pontos, mas é inevitável constatar que há poucos insatisfeitos com o destino de Sérgio Moro – desmoralizado por Bolsonaro, desqualificado pelo Supremo e possivelmente despejado do Congresso. Que fim melancólico para aquele que se dispôs a ser a palmatória do mundo.

ISRAEL NÃO CRIOU O HAMAS QUE FOI CRIADO NA PALESTINA NA DÉCADA DE 1940

História por Laith Essam – Serviço árabe da BBC News  • BBC News Brasil

Membros do Hamas© Getty Images

Há quem afirme que o Hamas “foi, no início, um um projeto israelense”. A acusação é bem antiga, e pode parecer chocante, mas voltou a ganhar força após o ataque do grupo palestino a Israel em 7 de outubro.

Membros do movimento rejeitam categoricamente a existência dessa relação, assim como altos funcionários israelenses, que a consideram infundada.

Mesmo antes do ataque do Hamas a Israel, a afirmação já tinha sido feita e repetida por um ex-ministro palestino em uma entrevista à BBC e aparecido em vários jornais estrangeiros. Ativistas de destaque também a mencionaram nas redes sociais nas últimas semanas.

Décadas atrás, a acusação já foi defendida publicamente pelo ex-presidente egípcio Hosni Mubarak, por um senador republicano diante do Congresso dos EUA e por funcionários do serviço de segurança interna de Israel, o Shin Bet.

Mas o que há de verdade nisso?

O longo trabalho do Hamas

O Movimento de Resistência Islâmica Hamas não surgiu do nada em 1987. Antes disso, já havia percorrido um longo caminho, que pode ser dividido – de forma bem simplificada – em duas etapas:

  • As primeiras raízes do movimento nos territórios palestinos surgiram em meados da década de 1940, com o estabelecimento das primeiras ramificações da Irmandade Muçulmana em Gaza, no bairro Sheikh Jarrah de Jerusalém e em outros lugares.
  • A segunda etapa viria com a frustração dos jovens da Irmandade Muçulmana com os líderes árabes após o “revés” representado pela derrota para Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967 e com as primeiras ideias sobre uma possível luta armada.

De acordo com os registros da Irmandade Muçulmana, grande parte da história da organização islâmica nos territórios palestinos era de natureza religiosa, de apoio e de conscientização. Eles também construíram mesquitas e instituições sociais.

Esses documentos dizem que, nos primeiros anos em territórios palestinos, a Irmandade Muçulmana concentrou-se na preparação intelectual, cultural e espiritual dos jovens — mais que no treinamento militar.

A Irmandade Muçulmana foi fundada no Egito em 1928 com a missão de defender os ensinamentos do Alcorão e com o objetivo de aplicar em todos aspectos da vida as leis islâmicas, a Sharia.

A organização se expandiu para outros países árabes e também inspirou outros movimentos islâmicos com seu modelo que combina ativismo político com trabalho de caridade.

A história da Irmandade Muçulmana no Egito passou por períodos difíceis: desde a proibição até à prisão e tortura de milhares de seus membros. Em 1966, o famoso pensador islâmico Sayyid Qutb foi executado© Getty Images

Khaled Meshal, atual líder do Hamas no exterior, aponta que os militantes islâmicos foram forçados a se ausentar dos territórios palestinos por diferentes períodos nas décadas de 1950 e 1960 por conta das ondas nacionalistas árabes seculares, bem como da onda comunista.

De acordo com declarações de Meshal à imprensa, os militantes islâmicos não eram bem-vindos.

Na próxima parte deste texto, vamos nos concentrar nos eventos que levaram ao surgimento do Hamas, de 1967 até o nascimento do movimento, em 1987.

Sinais de ‘luta armada’

A transformação nos métodos usados na “luta contra Israel” começou a ganhar forma após Israel derrotar os árabes na Guerra dos Seis Dias, que ocorreu entre 5 e 10 de junho de 1967.

Nos meses que antecederam a guerra, um conflito entre árabes e judeus parecia iminente. Em maio daquele ano, o Egito tinha mobilizado milhares de soldados na fronteira com Israel e instituiu um bloqueio naval a este país no estreito de Tiran.

Então, na manhã de 5 de junho, Israel conduziu inesperados ataques aéreos contra o Egito e a Síria.

Nos dias seguintes, Israel batalhou contra os exércitos desses países e também da Jordânia, saindo finalmente vitorioso. O conflito consolidou o poderio militar de Israel e aumentou significativamente seu tamanho, tomando a península do Sinai do Egito, as colinas de Golã da Síria e a Cisjordânia da Jordânia.

Em seu livro de memórias, O Minarete Vermelho, o primeiro porta-voz do movimento Hamas, Ibrahim Ghosheh, fala das repercussões que a derrota teve sobre os jovens do movimento Irmandade Muçulmana.

Ghosheh diz que tanto ele quanto outros de sua geração ficaram insatisfeitos com uma conferência que havia sido convocada pela Controladoria-Geral da Irmandade na Jordânia “porque não apresentou soluções claras para o futuro da Palestina e não pediu o início da construção jihadista islâmica”.

No final da década de 1960, a juventude da Irmandade realizou operações militares contra Israel, mas sob a bandeira do movimento Fatah© Getty Images

Ghosheh acrescenta que o caso levou os jovens da Irmandade – entusiasmados a lutar contra Israel – a trabalhar no que chamaram de “movimento corretivo”, que defendia o uso de armas, ao contrário do que defendiam membros mais experientes da Irmandade Muçulmana.

Como resultado, chegou-se a um acordo secreto com o movimento Fatah para treinar e dar habilidades de combate a esses jovens membros da Irmandade.

O Fatah é um movimento secular fundado por Yasser Arafat nos anos 1950 com o objetivo inicial de empreender uma luta armada contra Israel para criar um Estado palestino.

Depois, o movimento se tornou um partido e passou a defender a solução de dois Estados (fórmula de paz que prevê um Estado palestino independente ao lado de Israel). Com o tempo, seu poder diminuiu.

Ghosheh diz que o treinamento com o Fatah começou em 1968 e terminou em 1970, após a descoberta de membros da Irmandade no chamado “movimento corretivo” e depois do “Setembro Negro” — guerra civil na Jordânia que teve seu auge em setembro de 1970 e que opôs as forças do país à Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

A OLP foi criada nos anos 1960 por países árabes para representar os palestinos no cenário internacional. Yasser Arafat assumiu a liderança da organização em 1969 e lá ficou até sua morte, em 2004. O Fatah tem sido por décadas o grupo mais forte dentro da OLP.

O Setembro Negro deixou milhares de palestinos que viviam na Jordânia mortos e desalojados.

Durante esse período, a Irmandade Muçulmana experimentou vários conflitos internos entre os “líderes tradicionais” e a “geração mais jovem”.

Enquanto os jovens pressionavam para adotar a abordagem de luta contra Israel, os líderes insistiam em priorizar a “construção do Estado”. Essa divisão levou vários membros do movimento a desertar e a formar “grupos nacionais e movimentos militantes que abraçaram a luta armada”.

Também aumentou a pressão sobre o grupo, que já enfrentava dificuldades devido à quantidade de oponentes e à presenção de outros movimentos intelectuais e nacionais palestinos.

‘Criaram o Hamas para enfrentar Yasser Arafat’

A “suspeita sobre uma suposta relação” entre Israel e o grupo islâmico do qual o Hamas surgiu apareceu nas décadas de 1970 e 1980.

O ex-presidente egípcio Hosni Mubarak foi um dos que levantaram essa suspeita, quando acusou o movimento Hamas de ser uma criação israelense.

Mubarak aparece em um vídeo antigo com vários oficiais militares egípcios dizendo: “Israel criou o Hamas para trabalhar contra a OLP”.

Mubarak não foi o único a fazer essa afirmação: Ron Paul, ex-membro da Câmara dos Representantes dos EUA que concorreu à Casa Branca em 1988 disse ao Congresso em 2009: “Se olharmos para a história, descobriremos que Israel encorajou e ajudou a criar o Hamas, com o objetivo de confrontar Yasser Arafat”.

Acampamento do Fatah na Jordânia em 1970, onde Yasser Arafat aparece sorrindo© Getty Images

Além disso, o ex-ministro e membro da delegação palestina durante as negociações secretas em Oslo em 1993, Hassan Asfour, disse à BBC em setembro de 2023 que “o Hamas nasceu após um acordo entre alguns países árabes e Israel – no âmbito de um projeto dos EUA – que buscava uma alternativa à OLP”.

O professor palestino de Relações Internacionais da Universidade do Catar Ahmed Jamil Azm comenta sobre a origem desta acusação.

“Os próprios israelenses são parte dessas acusações. As divisões internas entre os palestinos também desempenharam um papel na origem dessas acusações”, diz o professor.

Azm também abordou as antigas declarações de Mubarak.

“O discurso do regime egípcio mudava de acordo com seus interesses, e talvez essas acusações tenham sido feitas em um contexto de hostilidade com a Irmandade Muçulmana ou em um momento de tensão com o Hamas.”

“Por outro lado, Hosni Mubarak e seu diretor de inteligência, Omar Suleiman, tiveram uma relação muito positiva com o Hamas durante diferentes períodos, a ponto de facilitar a entrada de armas na Faixa de Gaza”.

Junho de 1967: David Ben-Gurion (um dos fundadores de Israel) e Isaac Rabin (chefe do Estado-Maior do exército israelense) lideram um grupo de soldados em frente à Cúpula da Rocha, na área ocupada de Jerusalém© Getty Images

Pode-se dizer que as acusações de uma suposta (e nunca comprovada) “relação proibida” entre o Hamas e Israel foram feitas em fases posteriores à guerra de 1967, quando a Irmandade Muçulmana iniciou a chamada “fase da mesquita” nos territórios palestinos.

Essa etapa, que segundo algumas fontes durou até 1975, caracterizou-se pelo trabalho de “construção de mesquitas”, “mobilização da nova geração (…) e concentração e aprofundamento da doutrina para enfrentar o movimento sionista”, segundo explica o acadêmico Khaled Hroub em seu livro Hamas: Pensamento e Prática Política.

Hroub acredita que os militantes islâmicos fizeram investimentos significativos após a guerra de 1967, com a validação do discurso islâmico alternativo em oposição ao discurso nacionalista, tão ligado à guerra perdida.

O autor afirma que “a fase seguinte de construção institucional estendeu-se de meados da década de 1970 até ao final da década de 1980, e viu o estabelecimento de grupos de estudantes islâmicos, clubes, sociedades de caridade e outras entidades que se tornaram centros de encontro da nova juventude islâmica”.

‘Fui chefe do Shin Bet e fui testemunha do surgimento do Hamas’

Em 1981, o jornal New York Times conversou com o então governador militar israelense em Gaza, Yitzhak Segev.

“Os fundamentalistas islâmicos recebem alguma ajuda israelense”, disse Segev ao Times. “O governo israelense me deu um orçamento, e o governo militar fornece apoio às mesquitas.”

No artigo, uma justificativa para isso é apresentada: o dinheiro era destinado a fortalecer a formação que concorria com a OLP.

No entanto, Yaakov Peri, que trabalhou como chefe do Shin Bet (agência de inteligência interna) israelense, disse em uma entrevista publicada recentemente: “Fui chefe da agência de 1988 a 1995. Testemunhei a ascensão do movimento Hamas e lembro que nossa avaliação revelou que era mais como um movimento social e que trabalhava para satisfazer as necessidades das pessoas.”

“Muitas pessoas boas em Israel acusaram o Shin Bet de apoiar o aparato político do Hamas como uma alternativa à OLP, mas isso não é verdade.”

Campo Nuseirat, Gaza, 1970: a Irmandade Muçulmana acreditava que a abordagem da ‘luta armada’ não poderia ser adotada antes de preparar várias gerações e trabalhar para reformar a sociedade© Getty Images

Se analisarmos as declarações do fundador do movimento Hamas, o xeque Ahmed Yassin, ele não parece ter visto a questão das verbas israelenses como um problema.

Yassin confirmou que Israel pagava salários como potência que ocupava o território, acrescentando: “Eles começaram a oferecer pagar pensões e salários aos funcionários que aceitassem voltar a trabalhar”.

Yassin acrescentou que Israel estava tendo esses gastos com o objetivo de garantir que a vida voltasse ao normal após a ocupação de Gaza.

‘Confluência involuntária de interesses’

Roni Shaked, pesquisador do Instituto Truman da Universidade Hebraica, disse em uma entrevista à BBC que Israel não tinha problemas com movimentos sociais religiosos, acrescentando que a Irmandade não representava qualquer ameaça na época.

Shaked, que foi funcionário do Shin Bet durante a década de 1970, disse que Israel nunca financiou os militantes islâmicos e que suas contribuições se limitavam a conceder licenças para a construção de mesquitas.

O discurso do ex-oficial de inteligência coincide com o de Ahmed Azm.

Ambos acreditam que o fato de o movimento islâmico não querer confrontar Israel – promovia a existência de movimentos que não adotaram a luta armada – levou a uma situação “involuntária”.

Israel desviou sua atenção dos militantes islâmicos em detrimento de suas ações contra os movimentos seculares como o Fatah, mas Shaked e Azm não acreditam que isso tenha significado o apoio à Irmandade.

No contexto de questionamentos sobre a natureza da relação do governo israelense com a comunidade islâmica e a questão do “financiamento ou licenças de Israel para a construção de mesquitas islâmicas”, encontramos um livro intitulado A política de Israel em relação aos dotes islâmicos na Palestina, publicado em 1992 pelo escritor britânico Michael Demper.

Nele, Demper diz que uma das primeiras ações que o governador militar israelense tomou em 1967 foi nomear um oficial israelense como responsável por assuntos religiosos na Faixa de Gaza – e seu trabalho era gerar vínculos entre o governo militar, o movimento islâmico e grupos cristãos.

Embora o escritor britânico relate que Israel permitiu a construção de mesquitas entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 1980 como forma de encontrar um equilíbrio com a OLP, não fala sobre a relação entre Israel e os responsáveis pelas mesquitas que receberam financiamento do país.

‘Foi negligência… E nunca financiamos o Hamas’

Patrulha israelense em Gaza em 1973© Getty Images

Em Israel, não há consenso sobre a abordagem que o governo utilizou para enfrentar o crescimento do movimento islâmico dentro de Gaza.

Embora existam ex-funcionários israelenses que expressem “arrependimento” pela atuação do país relativa ao Hamas, há também testemunhos como o de Shalom Harari, que era oficial da inteligência militar em Gaza nessa época.

“Israel nunca financiou o Hamas, e Israel nunca armou o Hamas…Houve avisos sobre os islamistas que foram ignorados, mas a razão por trás disso foi a negligência, e não o desejo de os fortalecer”, disse ele ao New York Times.

Nesse contexto, Ahmed Yassin afirmou que “Israel estava monitorando as instituições militantes islâmicas, como o faz com qualquer outra instituição, e estava tentando encontrar equilíbrios… Deixando cada grupo crescer à sua maneira até chegar o momento em que se enfrentam uns aos outros”.

‘Os resultados caíram sobre suas cabeças’

O estabelecimento da Sociedade Islâmica e da Academia Islâmica é uma das principais razões apontadas por aqueles que acusam Israel de contribuir para o surgimento do Hamas.

Documentos da Irmandade dizem que esta fase do século passado ocorreu sob “o guarda-chuva da lei israelense (…) e que suas atividades se limitavam a meros aspectos religiosos (…) Não infringiram a lei e não entraram em confronto com as autoridades israelenses.”

O líder espiritual do Hamas, Ahmed Yassin, contou sobre essa época: “Não podíamos entrar em conflito com a ocupação, e daí surgiu a ideia das instituições islâmicas. A Sociedade Islâmica, em 1976, era uma sala em uma mesquita e se concentrava principalmente em atividades esportivas.”

No livro Intifada, de 1990, os escritores israelenses Ehud Yaari e Ze’ev Schiff afirmam que “a administração civil israelense contribuiu significativamente para o desenvolvimento do movimento islâmico que mais tarde ganharia destaque com o início da Primeira Intifada. Israel permitiu-lhes assumir posições de poder e influência nas comunidades locais, e também lhes permitiu estabelecer todos os tipos de instituições.”

Homens do Hamas em Gaza, 1992. A decisão de criar o Hamas surgiu depois de a Irmandade Muçulmana ter grandes desafios© Getty Images

Os dois autores israelenses afirmam que “Israel se iludiu ao pensar que pode exercer controle sobre os militantes islâmicos e aproveitar-se de sua ascensão enquanto limita a influência da Organização para a Libertação da Palestina (…) Israel aprendeu a lição, mas é tarde demais.”

Líder do Hamas, Ibrahim Ghosheh diz: “Não é culpa da Irmandade ou do Sheikh Yassin que Israel acredite que conceder uma licença à Academia Islâmica ajudará a equilibrar a tendência secular da OLP e a tendência religiosa da Irmandade. Se os sionistas erraram em suas estimativas, os resultados acabaram caindo sobre suas cabeças.”

Alguns estudiosos mencionam que as autoridades israelenses não apenas permitiram que o movimento islâmico estabelecesse instituições, mas também deram sinal verde para que outras facções nacionais estabelecessem instituições de todos os tipos: clubes, associações, sindicatos e redações de imprensa.

Abdullah al-Hourani, autor do livro Sociedades de Caridade na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, publicado em 1988, diz que o número de associações em Gaza antes da Primeira Intifada, em 1987, chegava a 62 – das quais apenas 4 estavam associadas à Irmandade.

As mais proeminentes eram a Academia Islâmica e a Sociedade Islâmica.

‘Erro estratégico’

Homens armados do Fatah conversam com um homem encapuzado do Hamas em 1993© Getty Images

O professor de Relações Internacionais Ahmed Jamil Azm diz que Israel cometeu um erro estratégico e tático: “Nunca houve uma estratégia clara, Israel está sempre confiante em sua superioridade como grande potência”.

“Por exemplo, após a ocupação de Gaza em 1967, tentou se comunicar com a sociedade por meio de oportunidades econômicas, impulsionando a liderança local representada por famílias notáveis e permitindo a realização de eleições municipais.”

“Mas a tomada de decisão foi baseada em fundamentos de segurança, e não em uma compreensão realista das verdadeiras dimensões da ocupação e das consequências que ela estava tendo… Esses métodos não podem ser aceitos pela sociedade como alternativa à resistência à ocupação.”

Ronni Shaked, pesquisador do Instituto Truman da Universidade Hebraica, avalia que, apesar de ter sido alertado sobre o perigo potencial que o movimento islâmico poderia representar no futuro, Israel nunca entendeu isso completamente e se confundia ao abordar o tema.

Shaked diz que o então governante militar israelense em Gaza, Yitzhak Segev, havia expressado temor com as condições no território “devido à semelhança que tinham com a situação em Teerã antes da revolução”.

Khan Yunis, sul da Faixa de Gaza, 1969: a sociedade de Gaza testemunhou uma transformação estrutural e o surgimento de movimentos sociais que produziram uma nova realidade© Getty Images

Shaked acrescenta: “O xeque Ahmed Yassin enganou Israel para se dedicar a combater os comunistas enquanto trabalhava para construir jardins de infância e criar gerações, preparando-as para resistir a Israel”.

O pesquisador acredita que Israel ainda acha que alcançará estabilidade eliminando o Hamas e dando aos palestinos oportunidades de emprego e benefícios econômicos. “Isso não é verdade… Se o Hamas for eliminado, novos movimentos nacionais de resistência surgirão depois”, avalia.

A luta contra Israel

Ahmed Yassin retomou a tarefa de liderar o aparato militar do Hamas aproximadamente um ano após a sua libertação© Getty Images

A mudança radical nos métodos da Irmandade Muçulmana contra Israel ocorreu em 1983, quando o grupo realizou uma conferência na Jordânia na qual decidiu “permitir que seus quadros na Cisjordânia e Gaza organizassem ações militares e as iniciassem o mais rápido possível quando tivessem as condições adequadas,” segundo o livro de memórias do primeiro porta-voz do Hamas.

Um ano depois dessa conferência, Israel desferiu um golpe mortal na primeira célula militar na Faixa de Gaza, prendendo todos seus membros.

Os combatentes respondiam a Ahmed Yassin, que os liderou por 13 anos.

Eles foram presos com cerca de 80 armas que estavam guardadas na casa de Yassin, em preparação para uma ação militar contra Israel.

Mas Yassin passou apenas alguns meses detido, pois se beneficiou de um grande acordo de troca de prisioneiros entre Israel e a Frente Popular para a Libertação da Palestina, e foi libertado em 1985.

Embora esse golpe inicial tenha sido doloroso para os combatentes – especialmente porque a ala “militar” do movimento estava apenas começando, era inexperiente e tinha capacidades muito modestas -, as bases ideológicas do grupo permaneceram sólidas, permitindo que ele se reorganizasse.

Por tentativa e erro, eles finalmente conseguiram organizar sua ala militar.

Mas, mesmo na época, parecia que Israel não dava importância à mudança de estratégia desses grupos, nem tinha consciência do alcance que eles haviam obtido dentro e fora dos territórios palestinos,

Isso permitiu que os combatentes desenvolvessem ainda mais suas ferramentas.

Essas estratégias e a mudança de foco da Irmandade para a “luta armada” seriam reveladas publicamente com o anúncio da criação do Movimento de Resistência Islâmica Hamas em 14 de dezembro de 1987, um dia após o início da Primeira Intifada.

Não há dúvida de que a história do Hamas é caracterizada pela ambiguidade e falta de documentação. Muitos membros do movimento atribuem essa falta de registros às condições de segurança – além dos contextos políticos e sociais – que cercaram a Irmandade Muçulmana desde sua formação nos territórios palestinos.

No entanto, é possível responder à pergunta se Israel “fabricou” o Hamas analisando a falácia que a própria pergunta representa.

Israel não “fabricou” o Hamas, mas a complexa rede de longo trabalho social da Irmandade Muçulmana, produzida em meio à ocupação e à resistência palestina a ela, acabou dando origem ao Hamas, como confirmam Shaked e Azm.

Assim, pode haver espaço para o debate sobre as acusações de que Israel teria pelo menos ignorado o movimento durante seu início, ou mesmo tentado explorar sua presença quando já havia se tornado uma força crescente na luta palestina.

Mas o contexto histórico do movimento islâmico e as circunstâncias em que ele surgiu demonstram que a acusação de que o Hamas é “uma invenção de Israel” não tem fundamento.

 

POLICIAIS BRASILEIROS DEVEM USAR OBRIGATORIAMENTE CÂMARA CORPORAL NOS SEUS UNIFORMES?

 

História por TULIO KRUSE, FERNANDA PERRIN, IVAN FINOTTI E NELSON DE SÁ  • Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, SP, WASHINGTON, EUA, MADRI, ESPANHA, E TAIPÉ, TAIWAN (FOLHAPRESS) – As polícias de ao menos 25 países utilizam câmeras corporais que registram suas ações em serviço. Ao redor do mundo, a discussão sobre o uso do equipamento tem variado entre o otimismo e a incerteza em relação aos resultados.

Pesquisas apontam para uma grande variação na eficácia da tecnologia para coibir casos de violência –praticada por e contra agentes de segurança–, aumentar a produtividade no atendimento a ocorrências e gerar confiança na polícia. O motivo está na diferença das regras para o uso dos equipamentos, como a autonomia do policial para acionar a gravação, o acesso do público às imagens e como elas devem ser manejadas durante uma investigação.

Enquanto no Brasil há estados em que o acionamento da câmera é automático, caso de Santa Catarina, em países como Reino Unido, Estados Unidos e França o uso é diferente: na maior parte dos departamentos, os policiais acionam a gravação manualmente.

Na Europa, o equipamento é utilizado há quase 20 anos, mas o objetivo principal não é reduzir a letalidade policial. O foco é melhorar o serviço prestado pelos agentes de segurança à população. Em 2014, a polícia de Londres adotou as câmeras para todos os policiais que trabalham em contato com o público.

Além de proteger os policiais e servir como evidência, a introdução das câmeras corporais na Alemanha teve uma justificativa extra. Como aumentou o número de cidadãos que começaram a filmar as ações policiais com o celular, o equipamento da corporação passou a servir como um contraponto à possíveis edições maliciosas do conteúdo.

Na Ásia, a violência contra policiais durante protestos serviu de pretexto para dar início ao uso de câmeras pela polícia, mas há receio de que o equipamento possa servir para cercear manifestações políticas.

Em Hong Kong, onde os testes começaram em 2013, as câmeras foram implantadas amplamente a partir de 2017. Uma das justificativas eram episódios de violência em eventos públicos, com as câmeras servindo para, por exemplo, comprovar ataques a policiais. Mas organizações acusaram policiais de romper suas próprias normas ao usar as câmeras em protestos políticos no final do ano, gravando indivíduos, não a multidão.

A implementação está iniciando em Portugal neste ano, e os primeiros equipamentos já foram entregues à Polícia Marítima. No Japão, a previsão é que policiais passem a usar o equipamento ao longo de 2024.

“Análises sugerem que restringir a discricionariedade [autonomia] dos agentes para ligar e desligar câmeras corporais pode reduzir o uso da força pela polícia, mas é necessário mais avaliações”, diz o texto de uma das pesquisas mais abrangentes sobre o tema, feita em 2020 na Universidade George Mason, dos EUA, que revisou 30 estudos sobre câmeras corporais em vários países. Esse ponto é citado em diversos outros estudos que avaliaram o uso da tecnologia, em departamentos de polícia americanos e em outros países.

Essa hipótese tem sido reforçada por análises mais recentes. “Uma revisão abrangente de 70 estudos sobre o uso de câmeras corporais constatou que a maior parte das pesquisas sobre câmeras corporais não demonstrou efeitos consistentes ou estatisticamente significativos”, afirma o Instituto Nacional de Justiça dos EUA, braço do Departamento de Justiça americano voltado para estudos e avaliação de políticas públicas.

Segundo o órgão, mais estudos são necessários para permitir uma análise do impacto do uso das câmeras

No Brasil, levantamento da FGV (Fundação Getulio Vargas) apontou redução de redução de 57% nas mortes por intervenção policial nos batalhões da PM de São Paulo entre 2021 e 2022, em comparação com as unidades que não usavam o equipamento. Já em Santa Catarina, pesquisa feita por universidades do Reino Unido e pela PUC-Rio apontou queda de até 61% no uso de força pelos agentes de segurança.

Em lugares onde o uso excessivo da força é central no debate público, há maior preocupação com brechas nas regras e com o risco de que as câmeras não sejam usadas da maneira como mandam os protocolos.

É o que pode ter ocorrido em 30 de julho do ano passado em Guarujá, no litoral paulista. Imagens de uma câmera corporal mostram que, às 7h45 daquele dia, o sargento da PM Eduardo de Freitas Araújo apontava um fuzil em direção à porta de um barraco.

Na ação, um homem que estava dentro do imóvel foi morto. Ele não aparece na imagem no momento do tiro –apenas o fuzil do policial e a porta. O sargento e outros três PMs disseram em depoimento que o policial gritou “larga a arma” ao suspeito.

A cena, porém, não tem som. A defesa dos policiais afirmou que as câmeras “estavam em ‘modo recall’, ou seja, por descuido, não foram acionadas para o ‘modo evidência'”. O “recall” é um tipo de gravação armazenada em qualidade mais baixa e sem som, destinado a situações corriqueiras que não envolvem perigo.

Para passar do “recall” para o “evidência”, é preciso que o próprio PM aperte um botão. As diretrizes da PM exigem que isso seja feito em qualquer ação policial ou abordagem, para que a ocorrência seja gravada com qualidade total.

O caso gerou a primeira denúncia criminal contra policiais da Operação Escudo, ação mais letal da PM paulista desde o massacre do Carandiru, com 28 mortos. A operação tem sido citada por especialistas brasileiros como um exemplo de que a câmera, sozinha, não resolve o problema da violência policial.

Neste caso, porém, o vídeo serviu como o principal elemento de acusação. A defesa dos policiais afirma que a acusação parte “de análise equivocada dos fatos, não havendo razões jurídicas para que as acusações prosperem”.

No Brasil, ao menos oito estados têm PMs que usam câmeras na farda: São Paulo, Minas Gerais, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Roraima, Rondônia e Santa Catarina. O Paraná deve iniciar seu programa a partir de fevereiro. E o Ministério da Justiça elaborou um projeto de lei que busca institucionalizar o uso das câmeras pelas forças de segurança do país.

Em São Paulo, porém, há dúvidas sobre a continuidade do uso das câmeras pela PM. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou em dezembro que os equipamentos não têm nenhuma efetividade para a segurança dos cidadãos e renovou o contrato do programa apenas até junho. O orçamento foi reduzido e um estudo que havia mostrado o impacto das câmeras foi descontinuado.

“Não é um problema de desenho do programa, e sim de supervisão da tropa”, diz a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, que estudou o programa de câmeras corporais da PM paulista.

As câmeras da PM paulista têm uma particularidade: elas são programadas para filmar durante todo o turno, enquanto na maior parte do mundo é o próprio policial quem decide quando gravar.

Esse é considerado um dos maiores problemas no uso das câmeras no mundo todo, quando a questão é controle policial. “Os estudos mostram que os policiais acionam a câmera, em média, em só um terço das ocorrências, em várias polícias nos Estados Unidos, no mundo todo”, diz Samira.

Em Santa Catarina, primeiro estado brasileiro a adotar a tecnologia, a gravação se inicia automaticamente após policiais comunicarem ocorrências ao centro de controle da PM. Houve resistência da categoria a esse sistema, mas o Tribunal de Justiça do estado confirmou que essa deve ser a regra.

A gravação apenas após acionamento do botão manual, por decisão do policial, é a regra no mundo. Há outros modelos: em Louisville, no estado americano de Kentucky, por exemplo, isso ocorre quando a arma do policial é retirada do coldre.

O custo do programa é diretamente afetado pelo método de acionamento da câmera. Quanto mais gravações, mais espaço de armazenamento nos bancos de dados será necessário. Em São Paulo, o custo total foi de R$ 7 milhões por mês no ano passado, considerando todo o valor destinado ao programa no orçamento.

O acesso às imagens por policiais sob suspeita é outro aspecto citado como crítico por especialistas. Esse acesso, em São Paulo e Santa Catarina, é permitido. Os PMs podem ver as imagens das próprias câmeras por meio de um aplicativo de celular.

“Essas tecnologias vieram para ficar, elas ajudam muito no processo de planejamento de segurança pública”, diz o professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP. Ele foi um dos coordenadores de um estudo que mostrou uma queda nas mortes de policiais e de suspeitos em São Paulo nos batalhões que usam a tecnologia, além de um aumento de produtividade. Outras pesquisas feitas com a PM de São Paulo chegaram a conclusões semelhantes.

“Em outros países, não se discute abandonar esse recurso. Na Europa e nos Estados Unidos, estão investindo muito pesadamente nisso porque em todo o espectro de tecnologia, e principalmente tecnologia de imagem, o custo disso era absurdo e, a cada ano, diminui”, diz o professor.

JAPÃO É O 5º PAÍS DO MUNDO A FAZER POUSO NA LUA

História por Redação  • Revista Planeta

Agência de exploração espacial japonesa confirma façanha, mas registrou falhas na geração de energia solar pela sonda. País almejava revolução com pouso de alta precisão, mas confirmação pode demorar um mês.A Agência de Exploração Aeroespacial do Japão (Jaxa) informou que seu Módulo de Aterrissagem Inteligente para Investigar a Lua (Slim, na sigla em inglês) fez um pouso bem-sucedido na superfície lunar às 0h20 do sábado do horário local (12h20 desta sexta-feira [19/01] em Brasília).

Com isso, o Japão entra para o seleto grupo de países a que realizaram uma alunissagem, ao lado de Estados Unidos, antiga União Soviética, China e Índia.

“Pela tela, parece que o Slim pousou na Lua. Estamos verificando o status”, disse o oficial da Jaxa, Shin Toriumi, durante uma transmissão ao vivo. Cerca de duas horas depois, a informação foi confirmada pela Jaxa em coletiva de imprensa.

Representantes da Jaxa ressalvaram, porém, que o sistema de geração de energia por painéis solares não estava funcionando, e que a sonda estava sendo alimentada por baterias de reserva que durariam algumas horas.

A descida começou a 15 quilômetros do solo lunar e levou 20 minutos, tendo início à 00h00 do horário local – ou seja, na virada de sexta-feira para o sábado. Durante o processo, a sonda escaneou a área do pouso em busca de rochas e pedregulhos que pudessem comprometer uma aterrissagem suave. O Slim é equipado com uma almofada planejada para amortecer o impacto do pouso.

O que há de especial no pouso?

Com o Slim, também conhecido como “Moon Sniper”, os japoneses queriam fazer um pouso de precisão sem precedentes na história da exploração do corpo celeste: não se desviar mais que 100 metros do alvo planejado – uma meta ambiciosa diante da acuidade convencional de vários quilômetros.

Contudo a Jaxa antecipou que pode levar até um mês para se verificar se a sonda de fato cumpriu a missão, aterrissando perto da cratera Shioli, próximo a uma área coberta por rochas vulcânicas.

Segundo a agência de exploração espacial, a tecnologia de pouso da sonda abriria um leque de possibilidades para outras missões lunares, permitindo pousar “onde quisermos, em vez de onde é fácil”. O Slim pode ser uma ferramenta poderosa para a futura exploração de regiões íngremes da Lua, possível fonte de recursos necessários à vida, como água, oxigênio e combustíveis.

 

LULA RESSUSCITOU CHAVES, COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS E IMPLI9CÂNCIA COM EUA EM ABREU LIMA

Governo anuncia investimento de R$ 8 bilhões na conclusão da refinaria que foi símbolo da Lava Jato e de falta de planejamento, apostas equivocadas, desperdício de dinheiro público e corrupção

Por Eliane Cantanhêde – Jornal Estadão

O presidente Lula, que gosta de brincar com fogo, já queimou a largada em 2024 ao trazer de volta às manchetes a refinaria Abreu e Lima, que carrega dois fantasmas e uma advertência: o maior escândalo de corrupção da história, as ligações perigosas de Lula e do PT no contexto externo e o risco de andar na contramão, quando o mundo todo e o Brasil em particular caminham em direção à energia verde. Energia verde com refinaria?

Não satisfeito, Lula sobrepôs um erro ao outro: a aposta na Abreu e Lima e a implicância com os EUA. Segundo ele, seus governos fizeram tudo certinho e a Lava Jato foi culpa da “mancomunação” do Departamento de Justiça americano com “juízes e procuradores”, porque os EUA nunca aceitaram que o Brasil tivesse uma Petrobras. Delírio? Autoengano? Ou me engana que eu gosto?

Presidente Lula durante cerimônia de retomada das obras da Refinaria Abreu e Lima
Presidente Lula durante cerimônia de retomada das obras da Refinaria Abreu e Lima Foto: Ricardo Stuckert/PR

A Abreu e Lima entrou para a história como símbolo da Lava Jato e de falta de planejamento, apostas equivocadas, desperdício de dinheiro público e corrupção. Já começou errada. Lula interveio no plano de investimento da Petrobras, e assim surgiu o projeto, em 2005, com previsão de US$ 2,5 bilhões. Dez anos depois, quando a obra foi abandonada pela metade, os custos atingiam US$ 20 bilhões.

A Abreu e Lima, idealizada em parceria com a PDVSA venezuelana, também traz de volta as imagens e “mancomunações” de Lula com Hugo Chávez, mentor intelectual e primeiro executor do desmanche da Venezuela rumo a uma ditadura. Depois de receber Nicolás Maduro com honras e salamaleques em 2023, Lula puxa o fantasma de Chávez para a cena logo no comecinho de 2024.

E o anúncio de que a Petrobras vai injetar R$ 8 bilhões na conclusão da obra veio exatamente quando Marina Silva, do Meio Ambiente, se esgoelava em Davos para convencer o mundo de que o Brasil, anfitrião da COP-30, em 2025, lidera a transição da energia fóssil para a energia verde. Investir em refinaria de diesel enquanto, no mundo todo, caminhões e ônibus movidos a combustão estão num caminho sem volta?

A Petrobras, epicentro da Lava Jato, embolou seus dirigentes com empreiteiras, partidos aliados ao PT e Planalto, mas a corrupção é só uma parte, e a menor, da sua tragédia naqueles tempos. Os maiores prejuízos foram com a má gestão e a ingerência política – e populista – nos preços dos combustíveis. Pagar mais caro e vender mais barato não dá certo.

 

PARA OS BORGES A FELICIDADE PERFEITA SERIAM OS LIVROS DA BIBLIOTECA

A resposta deve variar de acordo com a realidade de quem responder à pergunta

Por Leandro Karnal – Jornal Estadão

Como será o lugar da felicidade perfeita? Você já imaginou seu Paraíso, querida leitora e estimado leitor? A resposta deve variar de acordo com a realidade de quem responder à pergunta. Um espaço de vinhos únicos, sexo constante, séries incríveis em telas eternas e sem cansaço? Talvez. Jorge Luís Borges (1899-1986) era escritor e amante da leitura. Supôs o gozo eterno em uma… biblioteca.

Quando éramos crianças (e os professores desejavam punir alunos inquietos), enviavam-nos à biblioteca. Interessante: para mestres que deveriam estimular o gosto pela leitura como tarefa primordial, o calabouço da dor era o lugar dos livros. Na faculdade, a gente reforçava: “Esta é a carga de leituras do semestre”. Carga? Significa peso! Todo aluno se acostumou: livros finos são menos penosos do que os grossos. O paraíso de Borges era o inferno discente. Imagino uma ficção bonita: um professor argentino, no início do século 20, envia o pequeno aluno Jorge Luís para a biblioteca, a fim de que a criança se ilumine em um sorriso. Condenado às delícias eternas!

Quadro 'The Book Worm', de Carl Spitzweg
Quadro ‘The Book Worm’, de Carl Spitzweg Foto: Museu Grohmann

É excepcional uma criança ou jovem amarem lugares silenciosos, com conversas interiores apenas. São meteoros raros. O anseio de silêncio cresce com o tempo. Afogada nos barulhos urbanos, na invasão de sons e de assédios de toda forma, a pessoa adulta passa o dia em uma rave permanente nas ruas e no trabalho. Isso ajuda a querer isolamento ao fim do expediente, refúgio no lar, em si e em um livro. O silêncio tornou-se um item fundamental do chamado pós-luxo: a noção atual do verdadeiro conforto. Nada mais de salas com dourados e veludos. Não! Apenas o afago do silêncio com um livro. O desejo de Borges pode parecer estranho para alguns. Para mim, o verdadeiramente exótico é alguém querer uma dose maior de barulho e de sociabilidade, após ter sido tragado, o dia todo, no redemoinho. Parece um náufrago que, saindo de uma quase morte, chega com esforço à margem e pede água!

Há remédios contra o excesso de telas e de Zap, até na educação. Michel Desmurget, doutor em neurociências, lançou um livro forte e uma indicação: A Fábrica de Cretinos Digitais (editora Vestígio). Ele alertava, em 2019, contra o dano do excesso de telas na mente infantil. Chegamos a 2023. Passamos pela experiência pandêmica. O mundo virtual expandiu-se. A escola presencial minguou, e o problema é grave. O novo livro do autor chama-se Faça-os Ler! Para Não Criar Cretinos Digitais (Vestígio). Com dados muito objetivos, ele desenvolve análises sobre os benefícios insubstituíveis derivados da leitura sistemática de textos bons. Para tudo o que Desmurget afirma sobre crianças, eu amplio as conclusões, incluindo adultos e minha pessoa.

Dados inquietantes da recente obra do neurocientista: “Essa tendência de abandono progressivo da leitura também é observada nos Estados Unidos. Entre 1976 e 2016, a porcentagem de alunos do ensino médio que não leram nenhum livro ‘por prazer’ no ano anterior aumentou de 11% para 34%. Ao mesmo tempo, a proporção de leitores diários (livros ou revistas) caiu de 60% para 16%”.

No Brasil? Uma pesquisa acrescenta o dado do valor de capa, como impeditivo da leitura. Além de todos os dramas de avanço das mídias sociais e das telas, temos ainda um desafio social e econômico. Apenas 16% da população brasileira é consumidora de livros, de acordo com uma nova pesquisa da Câmara Brasileira do Livro, realizada pela Nielsen BookData. Nos EUA e na França, os jovens não querem mais ler. Aqui, aparentemente, não querem e, mesmo se quisessem, não poderiam.

Talvez a biblioteca física não seja mais um Paraíso. Lendo autores como Desmurget, parece que ela se torna um espaço de salvação, uma zona de refúgio, uma área que nos preserva da maré que ameaça invadir tudo. Ademais, não vivíamos, há 40 anos, num éden de leitores entusiasmados que disputavam a tapa obras em grandes armários de livros. Eram escassos antes e continuam agora. A diferença está na estrutura da própria educação, que vê nos computadores um gancho de interesse para pescar jovens dispersos. Se é assim, erramos feio. A Finlândia e outros países começaram o grande passo, no campo de celulares e telas em sala de aula. A Holanda deu mostras de seguir o mesmo caminho, separando celulares e sala de aula.

Por isso, temos de trabalhar. A conversa com outras pessoas torna-se obrigatória. O celular deixa-a onipresente e eterna, todavia pouco densa. A lucidez precisa de pausas de leitura e de silêncio. Não ler em paz, recolhido, é estimular uma vida de zumbi que vaga sem sentido, atrás de uma tela (des)esperançosa.

Você leu esta crônica, minha cara leitora e meu estimado leitor? Celebre, pois somos, talvez, os últimos de uma longa tradição que se extingue. Pessoas que amam livros, adoram bibliotecas, veneram o silêncio e a reflexão: constaremos como sobreviventes exóticos de uma era passada? O Paraíso de Borges se esvazia por inanição.

 

PRESENÇA E ATUAÇÃO DOS MARKETPLACES NA ECONOMIA BRASILEIRA

 

Milena Cohen – PUC-RIO

De forma a descobrir se o marketplace está ou não plenamente solidificado no

Brasil, este capítulo apresenta informações sobre a presença e atuação dos

marketplaces na economia brasileira, bem como a relação dos consumidores com essa

forma de comércio.

2.1. A Era da internet e as mudanças no consumo

Para entender a realidade do marketplace, hoje, é importante saber como esse

modelo surgiu. Nascido em meados da década de 1990, com as empresas Amazon e

Ebay, o marketplace segue revolucionando a forma de se consumir. No Brasil, a

chegada do marketplace não foi imediata, sendo que os primeiros indícios dele no país

são apenas do início dos anos 2000 (E-COMMERCE BRASIL, 2019).

De qualquer forma, ainda levou mais algum tempo para que ele se tornasse o

sucesso que é atualmente. Segundo Nicolau (2020), o ‘’boom’’ do marketplace, no

Brasil, é recente, sendo que sua grande expansão se deu a partir de 2016, mas, até

hoje, segue forte. O autor ainda afirma que, em 2019, o comércio eletrônico teve um

faturamento total de 27 bilhões, no Brasil, e que, no mesmo período, o marketplace

teve uma receita de 18 bilhões.

O consumidor brasileiro tem, cada vez mais, buscado se adequar às tendências

do mercado. Dessa forma, desde que começou a se popularizar, os marketplaces

invadiram as casas e fizeram um enorme sucesso. Esse fato é tão relevante que, de

acordo o blog NEILPATEL ([S.I.], 2020), o Brasil é o terceiro país que mais faz compras

pela internet, liderando o ranking de comércio eletrônico na América Latina, com

participação nas compras de 59,1%, enquanto o segundo colocado, México, representa

apenas 14,2% do montante.

Esse perfil é resultado direto da popularização da internet e do aumento do

acesso das classes mais baixas (C e D) a ela, ajudando a corroborar o forte poder de

compra que a população já começa a mostrar. Ainda que esse aumento só tenha sido

realmente notado há pouco tempo, em 2013, Pires (2013) já escrevia sobre isso em

uma coluna do website E-commerce:

O mercado eletrônico encontra-se em constante crescimento dentro das

classes mais baixas. O aumento do acesso à Internet pelas classes C e D e

uma considerável melhora na segurança da Internet criam um cenário de

oportunidades. (PIRES, 2013)

Arraes (2019) diz que o comportamento do consumidor foi profundamente

transformado pela internet, visto que, antes, para se escolher a melhor opção de

compra, o consumidor precisava andar muito e ir a diversas lojas até conseguir ter, em

mãos, o comparativo real de preços. Hoje, esse mesmo comparativo de preços é

passível de ser feito com apenas alguns cliques, facilitando e otimizando a vida dos

clientes.

O uso da internet contribui para a mudança no comportamento do consumidor.

Em 2018, de acordo com a 39ª edição do Webshoppers, desenvolvido pela Ebit

| Nielsen, o e-commerce brasileiro apresentou crescimento nominal de 12% no

volume de pedidos e ganhou 10 milhões de consumidores que fizeram, pela

primeira vez, uma compra online. Isto se dá, principalmente pela inclusão

digital que vem acontecendo no país, por meio da expansão do mercado de

smartphones e do acesso à banda larga. (CZARNOBAI, 2019).

Nesse sentido, além de propiciar ganhos ao mercado e mais acesso à

informação, a internet mudou o comportamento do consumidor brasileiro, de tal forma

que, hoje, principalmente após o cenário imposto pela pandemia do novo Coronavírus,

deverá se tornar tendência comprar por meio de alguns cliques diretamente do conforto

da casa.

Vantagens do Marketplace para os consumidores

Um dos principais pontos positivos, para os consumidores, dentro dos

marketplaces, é a oportunidade de poder comparar o preço de um mesmo produto em

várias lojas. Dessa forma, em segundos, os consumidores sabem qual loja trará maior

vantagem econômica.

Além disso, o fato de lojas pequenas estarem dentro de um ambiente maior,

mais seguro e muito mais conhecido faz com que os consumidores tenham mais

segurança e confiabilidade na hora da compra. Segundo o site E-commerce, um dos

fatores que mais atrai os consumidores é a existência de promoções. Isso acontece

porque o consumidor com acesso ao comparativo de preços já busca por produtos que

lhe tragam vantagem econômica maior.

Portanto, a existência de promoções ou outros atrativos é um incentivo a mais

para uma loja ser a escolhida para a compra. O marketplace “é considerado vantajoso

para o consumidor, visto que reúne diversas marcas e lojas em um só lugar, facilita a

procura pelo melhor produto e melhor preço” (ZACHO, 2017).

Outras vantagens de comprar em marketplaces é o fato de ele: oferecer mais

opções de fretes, que vão desde preços altíssimos até preços irrisórios ou

gratuitamente; permitir que o consumidor saiba o tempo estimado para a entrega

chegar até seu endereço; e não deixar que uma venda seja perdida, uma vez que, caso

o produto não esteja em estoque, a empresa dona do marketplace pode ela mesma

comprar o produto, revende-lo ao cliente e ainda garantir que a entrega seja enviada

dentro do prazo previamente estipulado.

A Figura 3 ilustra o que o consumidor considera mais importante no marketplace

de acordo com a pesquisa realizada.

Figura 3: Confiança em Marketplace

Fonte: Ebit/Nielsen

De acordo com a pesquisa realizada pela Ebit/Nielsen, mais da metade dos

entrevistados diz ser fiel a um marketplace, o que é muito importante para a empresa,

pois garante um público fixo para o consumo de seus produtos. Outro aspecto bastante

interessante é o fato de que, para o cliente, o mais importante é a segurança ao fazer a

compra. Assim, estar sob a égide de um marketplace ajuda lojas pequenas a

conseguirem vender e, ao mesmo tempo, traz certa tranquilidade para o consumidor

em potencial. Por fim, a reputação da loja vendedora, a quantidade de vendas já

realizadas, a presença ou não de dados confiáveis para contato e os comentários de

outros compradores também ajudam a assegurar o consumidor de que o marketplace é

um ambiente seguro e confiável.

Por último, a Figura 4 mostra qual o principal motivo para que os consumidores

usem o marketplace.

Figura 4: Comportamento do consumidor

Fonte: Ebit/Nielsen

Não é novidade que o comparativo de preços está em primeiro lugar, haja visto

que o preço de um produto age como um dos maiores diferenciais dessa modalidade.

Dessa maneira, ter uma variedade grande de valores, que consiga satisfazer tanto o

consumidor de classe média baixa quanto o que possui maior renda, apesar de ser um

desafio, também é um grande atrativo. O consumidor, ao acessar o marketplace,

encontra muitas informações em uma plataforma só, e isso é uma enorme vantagem

quando se está pensando em adquirir um produto.

2.5. Vantagens dos Marketplaces para os vendedores

Há muitas vantagens para lojistas, produtores, vendedores e comerciantes em

ambientes de comércio eletrônico, como o marketplace. Pode-se citar como duas

delas: a visibilidade que o comércio ganhará em uma plataforma maior e mais

conhecida, levando muitos usuários e clientes com necessidades e condições

econômicas diversas a terem contato diário com o comércio; e acréscimo nos lucros

devido ao aumento de vendas.

Já que o investimento é baixo, uma vez que o marketplace oferece ao vendedor

tudo o que ele precisa para iniciar suas vendas (local virtual para vender, opções de

Marketing, exibição de produtos e diferentes opções de entrega), o lucro gerado com o

uso dessa plataforma é praticamente garantido e certo. Não é preciso, também, um

conhecimento muito específico em informática para acessar e cadastrar uma loja e

produtos em um marketplace, o que acaba por agir como mais uma vantagem para os

vendedores, que, muitas vezes, não têm conhecimento na área.

2.6. Marketplace dentro do E-commerce

O marketplace é uma modalidade do E-commerce, é importante que se entenda

que cada um possui suas particularidades. “Enquanto um e-commerce se baseia na

comercialização de produtos e serviços por meio de um site focado apenas nas vendas

de uma só loja virtual, o marketplace conta com uma proposta mais abrangente.”

(RIBEIRO, 2020, p.02).

Dessa maneira, no marketplace, por exemplo, o estoque é descentralizado, o

preço do produto é definido pelo o fornecedor; há intermédio de negócio; e a logística é

acertada entre o fornecedor e o cliente. Por sua vez, no e-commerce: o estoque é

centralizado; a própria marca é quem define o preço do produto; a logística é feita por

meio do fornecedor, que passa ao varejista e, então, ao cliente; e somente a

modalidade de compra e venda é possível de ser realizada.

Apesar dessas diferenças importantes, ambos se complementam. O

marketplace tem feito um rendimento bastante positivo dentro do e-commerce. A figura

5, retirada da 42ª edição da Webshoppers, realizada pela Ebit/Nielsen em parceria com

a Elo, demonstra o faturamento do marketplace nacional no 1º semestre de 2020, que

teve um crescimento de 56% se comparado com o mesmo período do ano passado

(2019).

Figura 5: Faturamento de Marketplaces

Fonte: Ebit/Nielsen

UM MARKETPLACE DIGITAL IGUAL AO DA STARTUP VALEON PODE AJUDAR QUALQUER NEGÓCIO?

Moysés Peruhype Carlech e Fernanda – Jet.

Sim e podemos ajudar muito a alavancar as suas vendas e tornar a sua empresa mais competitiva no mercado se forem utilizados os serviços da Startup Valeon e temos a certeza que vamos melhorar o seu posicionamento digital e utilizando uma boa estratégia comercial podemos trazer retorno financeiro para a grande maioria dos negócios das empresas da nossa região do Vale do Aço, afinal de contas, já atingimos a marca de mais de 100.000 acessos.

O sucesso do modelo dos marketplaces está expresso nos números registrados no último ano: o crescimento em 2020 chegou a 52%, acima dos 41% do segmento de e-commerce.

Essas informações foram apuradas pela E-bit/Nielsen, que também indica que o total de pedidos do marketplace chegou a 148,6 milhões, um crescimento de 38% em relação a 2019, o que resultou em um faturamento de R$ 73, 2 bilhões para o segmento.

A atenção recebida pelos “shoppings virtuais” tem razão de ser. São gerenciados por empresas que arcam com a parte operacional e, com isso, as lojas cadastradas podem se dedicar ao cuidado de suas páginas e às ofertas de produtos.

Para quem tem um e-commerce, os marketplaces devem ser vistos como uma oportunidade reforçar as estratégias de vendas.

Outro fator importante é a possibilidade de ampliar seus pontos de interação com o cliente, o que atende ao comportamento omnichannel do público.

Porém, para aproveitar melhor as possibilidades, é importante que você saiba quais são as vantagens do marketplace e como ele pode auxiliar o desenvolvimento do seu negócio.

1- Otimização dos recursos

A estruturação de um e-commerce não é simples. E, por mais que você faça tudo certo, os resultados precisam de tempo para serem consolidados.

Ao integrar a sua loja a um marketplace, esse processo é facilitado. Ao mesmo tempo em que trabalha para fortalecer a sua marca, o lojista tem como expor seus produtos num canal que já conta com uma audiência significativa.

Basta que o lojista negocie e pague a mensalidade do marketplace para que possa começar a negociar seus produtos ou serviços. Além disso, essas operações oferecem expertise, tráfego, visitação e mídia para que seus parceiros possam desenvolver seus negócios.

2- Alcance de clientes

Desenvolver uma loja virtual própria e recorrer às redes sociais para divulgar produtos ou serviços requer um trabalho de divulgação para alcançar um número maior de clientes.

Com o marketplace, esse trabalho ganha ainda mais abrangência e, com isso, é possível gerar um fluxo maior de consumidores, uma vez que há modelos próprios de divulgação, o que acaba favorecendo as empresas que o integram.

Além disso, esses “shoppings virtuais” , como o da Startup Valeon, não divide os custos de marketing  com os seus parceiros custeando ele próprio o processo de aquisição de clientes nas redes sociais.

3- Volume de dados

Os marketplaces têm o costume de oferecer aos seus parceiros diversos dados sobre as suas vendas e seus desempenhos dentro da plataforma e faz métricas diárias das consultas dos seus clientes.

Essas informações são bastante estratégicas para qualquer empresário que deseje desenvolver o seu comércio online e melhorar o seu desempenho na internet.

Isso porque conseguem planejar suas ações, promoções e precificar produtos e serviços com mais eficiência, o que aumenta as chances de converter os visitantes do marketplace em seus clientes.

4- Integração com outras ferramentas

Muitos empresários podem acreditar que ao entrar para um marketplace não poderá usar suas ferramentas digitais favoritas: CRMs, software de preços ou inventários.

Porém, não existe essa limitação e as empresas podem seguir usando seus mecanismos de otimização de resultados.

É possível explorar tantos as informações fornecidas pelos marketplaces quanto os dados gerados pelos seus mecanismos de gestão e controle, o que pode fortalecer ainda mais suas estratégias online.

5- Aumento de vendas

Com uma estrutura corretamente desenvolvida, processos de divulgação bem construídos e apoio aos parceiros, os marketplaces conseguem atrair um bom volume de visitantes para o seu site.

Quanto maior a exposição de produtos ou serviços, maior são as chances de aumentar as suas vendas. É preciso apenas que as lojas online saibam trabalhar seus produtos ou serviços na internet e convencer os consumidores de que conta com as melhores mercadorias e preços.

6- Diversificação de público

Com um número maior de pessoas tendo contato com seus produtos ou serviços, há possibilidade que alcance consumidores que, em um primeiro momento, não conseguiria atingir.

Isso contribui para a diversificação do seu público-alvo e faça com que a sua base de clientes possa crescer.

Isso favorece não apenas as suas vendas, mas também estimula os lojistas a buscarem novos produtos ou desenvolverem novos serviços para atender a sua nova demanda.

Esse processo é essencial para que as empresas ganhem mercado e busquem constantemente o seu desenvolvimento.

Agora que você já sabe quais as vantagens do marketplace, que tal descobrir como eles podem auxiliar no crescimento dos pequenos negócios?

Marketplace e o crescimento das empresas

Construir um modelo próprio de venda online é um desafio para as empresas, porém pode ser bastante recompensador.

Em 2020, o setor teve um crescimento de 41% se comparado com o ano anterior e a expectativa é de que siga alcançando bons resultados em 2022, até em razão da aceleração do processo de transformação digital.

Dessa forma, com um trabalho bem-feito, as empresas podem conquistar boa margem de lucro com o comércio eletrônico. Afinal, o perfil do consumidor tem mudado e ficado aberto às compras online.

Mas, para isso, é necessário utilizar um site como a da Startup Valeon que ofereça boa experiência para os consumidores e conte com estrutura logística e capacidade de estoque para dar conta do trabalho.

O marketplace é uma opção que pode potencializar ainda mais um comércio eletrônico, pois conta com um modelo de negócio estruturado e testado.

Assim, empresas de qualquer setor conseguem melhorar o desempenho de seus e-commerces ao estabelecer mais um canal de divulgação e venda.

Para aproveitar melhor as oportunidades, é importante contar com as ferramentas adequadas para fazer a gestão da operação.

Exemplo disso é a plataforma comercial da Startup Valeon, que tem suas páginas desenvolvidas justamente para conectar a sua loja aos principais consumidores do mercado.

Com isso, além de ter todo o suporte necessário para destacar seus produtos na internet, o lojista tem como gerenciar todo o universo envolvido com as suas vendas online, seja na loja própria ou no marketplace.

Num único local, por exemplo, pode fazer a gestão de estoque, o que evita a perda de clientes pela falta do produto. O e-commerce é uma modalidade de negócio que deve seguir ganhando espaço e conquistando novos clientes. O empresariado deve ficar atento a esse mercado e aproveitar as vantagens do marketplace para aumentar a sua presença online e ter acesso facilitado a uma base sólida de usuários.

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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