quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL É CAPAZ DE PREVER COM 87% DE PRECISÃO O ANO DA SUA MORTE

 

História por Victor Pacheco  • Showmetec

Como seria uma inteligência artificial que consegue indicar um possível ano de morte de usuários, com base em dados de pessoas que possuem um mesmo estilo de vida? Esta é a ideia da Universidade da Dinamarca com o modelo de linguagem Life2vec, que ainda não tem data de lançamento, mas é um avanço importante para o cuidado com a saúde pública. Entenda os detalhes.

O desenvolvimento da Life2vec 

Novidade teve assertividade acima de 70% (Foto: Reprodução/MidJourney)© Fornecido por Showmetech

Universidade de Tecnologia da Dinamarca se uniu à Universidade Técnica de Istambul, Northeastern University e à Universidade de Copenhague para a criação de um modelo de linguagem que consegue prever a idade de morte de uma pessoa com uma assertividade de até quatro anos.

O modelo de linguagem foi treinado para calcular como os fatores da vida pessoal das pessoas podem influenciar na saúde, levando em consideração o estresse e a exposição a doenças durante sua rotina. Dados de janeiro de 2008 a dezembro de 2015 de um grupo de mais de 2,3 milhões de pessoas entre 35 e 65 anos foram utilizados— a mortalidade nessa faixa etária é mais difícil de prever.

A primeira etapa foi marcada pelo envio de dados para que o treinamento da inteligência artificial. Os desenvolvedores perceberam que, logo após aprender os padrões de vida das pessoas, a IA já conseguiu superar outras redes neurais avançadas para prever dados como personalidade e momento da morte com alta precisão.

Utilizamos o modelo para abordar a questão fundamental: até que ponto podemos prever eventos no seu futuro com base nas condições e eventos do seu passado? Cientificamente, o que é entusiasmante para nós, não é tanto a previsão em si, mas os aspectos dos dados que permitem ao modelo fornecer respostas tão precisas Sune Lehmann, professor da Universidade da Dinamarca e primeiro autor do artigo.

Uso na prática

Dados reais foram utilizados para gerar previsões (Foto: Reprodução/Shutterstock)© Fornecido por Showmetech

O artigo publicado na revista Nature informa que a Life2vec é mais focada em fazer previsões com base em dados reais e, aplicando os parâmetros de testes em dados de pessoas que já morreram, houve uma assertividade de 78%. A inteligência artificial, quando colocada à prova, conseguiu adivinhar quando as pessoas morreram apenas ao receber dados de seu dia a dia.

Para testar a assertividade, informações de 100 mil pessoas foram dadas à inteligência artificial e, nesta lista, 50 mil morreram e a outra metade não. Os médicos sabiam disso, mas a IA não. Por ser um modelo de linguagem que, basicamente, lê dados das pessoas, ele conseguiu concluir a data de morte por meio de informações sobre salário, honorários, tipo de trabalho, indústria presente e acesso a benefícios sociais.

Pessoas do gênero masculino possuem uma maior probabilidade de morrer mais cedo. Ter algum problema de saúde mental, como depressão ou ansiedade, também contribuiu para um menor tempo de vida restante. Quem ocupava algum cargo de gestão e um bom salário foi colocado na coluna de alta sobrevivência pela Life2vec.

Os dados dos seis milhões de dinamarqueses também incluem registros de visitas a profissionais de saúde ou hospitais, diagnóstico, tipo de paciente e grau de urgência. O conjunto de dados abrange informações de 2008 a 2020, mas em várias análises, os pesquisadores se concentram no período de 2008 a 2016 e em um subconjunto de indivíduos com restrição de idade.

Quando isso deve estar disponível?

Uso na prática ainda tem muitos fatores (Foto: Reprodução GizModo Kannada)© Fornecido por Showmetech

Ainda em desenvolvimento, há uma grande discussão no uso da inteligência artificial que consegue prever a morte das pessoas por meio do uso de dados. Seria necessário compartilhar informações sensíveis para que a previsão aconteça de forma assertiva.

Além disso, lembre-se que ela foi treinada com base em dados de cidadãos da Dinamarca, então para ser usada por outros países, seria necessário usar os dados das pessoas que moram nestes locais para que erros de previsão de morte não aconteçam.

Estamos trabalhando ativamente em maneiras de compartilhar alguns dos resultados de forma mais aberta, mas isso exige que mais pesquisas sejam feitas de uma forma que possa garantir a privacidade das pessoas no estudo. Sune Lehmann, professor da Universidade da Dinamarca e primeiro autor do artigo.

É importante acompanhar o uso de perto: empresas de seguro podem passar a usar a Life2vec como um argumento para acelerar a aquisição de uma apólice. Profissionais de RH também podem usar isso para tomar decisões de contratação e, a depender de quem tiver acesso aos dados, o sigilo protegido por lei, como de quem vive com HIV, pode ser colocado à deriva.

Você acredita que poderemos ver uma ferramenta como esta no Brasil? Diga pra gente nos comentários!

GOVERNO LULA FARÁ VÁRIAS TROCAS DE MINISTROS EM 2024

 

História por CdB  • Correio do Brasil

Ao longo deste ano que termina, Lula avaliou o desempenho de cada ministro tem deixado claro que pretende substituir aqueles que não atenderam às suas expectativas. Em uma reunião recente, realizada no último dia 20, todos os 38 ministros apresentaram um balanço de 2023 e delinearam suas metas para 2024.

Por Redação – de Brasília

Ao longo do primeiro ano de mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez uma série de ajustes na equipe, por questões pontuais. Mas, no início do próximo ano, fontes do Palácio do Planalto confirmaram à reportagem do Correio do Brasil que haverá uma reforma ministerial mais completa. A chegada das eleições municipais, momento em que Lula espera um crescimento significativo no número de dirigentes petistas no comando de cidades estratégicas, em todo o país, amplia o arco político na sede do governo federal.

Ministro da Defesa, José Múcio poderá deixar a pasta, no início do ano que vem© Fornecido por Correio do Brasil

Ao longo deste ano que termina, Lula avaliou o desempenho de cada ministro tem deixado claro que pretende substituir aqueles que não atenderam às suas expectativas. Em uma reunião recente, realizada no último dia 20, todos os 38 ministros apresentaram um balanço de 2023 e delinearam suas metas para 2024.

Para o ano que vem, uma das alterações já confirmadas será a do ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, no dia 8 de Janeiro, uma data histórica para homenagear o próximo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro da Defesa, José Múcio, é outra possível baixa, tendo já sinalizado sua intenção de deixar o cargo.

Na berlinda

O nome do ministro da Defesa tem sido citado como um dos que podem deixar o governo na reforma ministerial, embora não haja, da sua parte, decisão tomada. Múcio tornou-se ministro a convite de Lula, que via nele a capacidade de fazer o que, de certa maneira, deveria ser executado ao longo de 2023: pacificar a caserna e criar um ambiente de respeito ao governo Lula, sem golpismos ou insubordinações.

Aparentemente, a missão do ministro foi conquistada, com a volta das Forças Armadas às casernas. Múcio, no entanto, tem reclamado que se sente sozinho no governo. Nos bastidores, não faltam comentários sobre a falta de cooperação entre os ministros e das críticas permanentes do PT. A saída de Flávio Dino, que ele tinha como seu grande aliado, foi outro fato que o fez ponderar sobre a permanência no governo, para o próximo ano.

Lula está satisfeito com Múcio e não gostaria de sua saída, mas tampouco age para cessar as críticas ou para pedir que haja uma mudança de postura de alguns ministérios na relação com os militares. Na Defesa, a reclamação é que há uma relação difícil de algumas pastas com os fardados.

Reserva

Múcio tem dito, a interlocutores, que gostou do ministério e de seus temas, e que valeria ficar para trabalhar pela aprovação de duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC) que seriam um marco de sua gestão. A primeira é a que vetaria militares na política. Quem decidisse se candidatar seria automaticamente transferido para a reserva.

A outra a proposta, apresentada pelo senador Carlos Portinho (PL-RJ) e que deve ser abraçada pelo governo, estabelece que pelo menos 2% do Produto Interno Bruto (PIB) do ano anterior sejam destinados para o orçamento da Defesa nacional. Haveria um aumento gradual, ano a ano, até se chegar a esse patamar.

Outros ministros, no entanto, constam na lista de possíveis substituições, entre elas a ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos. A presença de ministros como Fernando Haddad (Fazenda), Nísia Trindade (Saúde) e Camilo Santana (Educação), no entanto, está aparentemente assegurada, em face da desenvoltura que assumiram diante de pastas estratégicas para o presidente.

ESTE ANO FOI UM DOS MAIS VIOLENTOS DEPOIS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

 

História por IGOR GIELOW  • Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O mundo vive uma epidemia de guerras. A combinação entre o número de conflitos, os incidentes e as mortes ligadas a eles tornou 2023 o ano de violência mais disseminada no planeta desde o fim do segundo confronto mundial, em 1945.

As mortes estão no maior ponto desde então, com a exceção de 1950, quando eclodiu a Guerra da Coreia e tombaram mundialmente 550 mil pessoas, e 1994, quando o genocídio dos tutsis em Ruanda criou um desvio sangrento na curva, com 800 mil mortes.

Segundo a recém-lançada Pesquisa de Conflitos Armados, do britânico IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, na sigla inglesa), houve 14% mais pessoas mortas em 2023 em relação a 2022: 267,7 mil faleceram.

Já os incidentes violentos ligados a embates subiram 28% ante o período anterior, passando a 137,8 mil. Aqui é importante estabelecer a metodologia: o IISS mede os dados de maio de 2022 a junho de 2023, o que deixa meio ano de violência de fora de uma conta fechada —incluindo a brutal guerra entre Israel e Hamas, que causou mais de 20 mil mortos em pouco mais de dez semanas até aqui.

Só o crescimento apontado de mortes já supera em muito a demografia, já que a população mundial aumentou cerca de 1% ao longo de 2023, chegando aos 8,1 bilhões de habitantes. Nesse sentido, 1950 e seus 2,5 bilhões de habitantes e 1994, com seu 5,6 bilhões, foram proporcionalmente anos bem mais brutais em número de vítimas, mas de forma concentrada em dois eventos únicos.

Outro conflito marcante do pós-guerra, no Vietnã, teve segundo estimativas conservadoras 1,3 milhão de mortes, mas ao longo de 20 anos de combates. No caso do massacre dos tutsis pelos hutus em Ruanda, a matança ocorreu em meros três meses.

O IISS usa contas próprias e se alimenta de bases reconhecidas, como a do UCDP (Programa de Dados de Conflitos de Uppsala, elaborado pela universidade da cidade sueca homônima), do Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, ONG americana) e de órgãos como a Cruz Vermelha.

Há, portanto, algumas diferenças estatísticas que permitem leituras variadas, mas o cenário é sombrio, dando corpo à impressão de tragédias sucessivas no noticiário: guerra na Ucrânia, conflito no Oriente Médio, tensões que vão da península coreana à Guiana, passando por Taiwan.

Pelos dados do Acled, nota-se a fatalidade em níveis na série histórica do pós-guerra só comparáveis a 1950 e 1994, anos de exceção. Já o UCDP, que mede desde 1975 o número de conflitos, nunca viu tantos: 183, ante um pico anterior de 176 em 2016.

Um motivo para isso envolve países como o Brasil e o México. “Vemos uma grande proliferação de conflitos com atores não-estatais”, afirma a editora da publicação do IISS, Irene Mia. Ela conta 459 grupos armados controlando a vida de 195 milhões de pessoas, a maioria (145 entidades e 79 milhões de moradores) na África.

Mas o Brasil chama a atenção devido à espiral de violência associada ao narcotráfico e ao crime organizado. Ocupa o terceiro lugar no mundo em eventos (10,6 mil) e o sexto, em mortes (8,3 mil), sempre naquele período encerrado em 30 de junho de 2023.

“É de certa forma natural e esperado que conflitos como Ucrânia, Palestina e agora a ameaça de conflito entre Venezuela e Guiana ganhem uma grande atenção e gerem forte apreensão”, afirma o gerente de projetos do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani.

“Ao mesmo tempo, ofuscam as mortes por homicídios. Dentro destas mortes cotidianas, o Brasil é campeão com quase 50 mil por ano [aí somando a violência urbana regular]”, diz, citando estudo das Nações Unidas deste ano que mostrou que esse tipo de fatalidade é 5 vezes maior do que as registradas em guerras e 20 vezes, em atentados terroristas.

A invasão promovida por Vladimir Putin da Ucrânia, que completará dois anos em fevereiro, confirma também a volta da guerra entre Estados como fonte de desgraça. A crise europeia é líder tanto em mortes quanto em eventos violentos, nas contas do IISS, após passar anos na categoria de “conflito congelado”.

O nome é dado a confrontos que mantêm algum grau de violência, mas sem um avanço significativo, como foi o caso da guerra civil no leste da Ucrânia, bancada pela Rússia desde 2014. Morreram talvez 14 mil pessoas lá, mas a maioria no primeiro ano de combates. A tensão, contudo, nunca cessou, e desaguou no fevereiro de 2022

Isso mostra que “conflitos congelados sempre explodem”, diz o analista de segurança no Oriente Médio do IISS, Emile Hokayem. Outra prova disso é o fim da novela acerca de Nagorno-Karabakh, enclave histórico da Armênia que ficou no Azerbaijão após o fim da União Soviética, em 1991.

Por três décadas, Baku e Ierevan travaram duas guerras e várias escaramuças. Ao fim, numa campanha surpresa de 24 horas em setembro passado, os azeris tomaram a região para si, causando um êxodo de 120 mil pessoas. Houve poucas mortes, contudo —o conflito havia figurado no ranking dos 36 mais ativos do IISS em 2020 e 2021.

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL É UM SISTEMA COMPUTACIONAL CAPAZ DE REALIZAR TAREFAS QUE EXIGEM INTELIGÊNCIA HUMANA

 

Amanda Lemos – Revista Exame

Saiba quais são os tipos de inteligências artificias, quais são as empresas que as desenvolvem e como acessar uma para começar a usar imediatamente

Máquinas inteligentes; saiba o que é inteligência artificial, como ela funciona e onde pode ser encontrada hoje (zf L/Getty Images)

Para entender o que é inteligência artificial (IA), vamos recorrer à definição do dicionário. Segundo o Cambridge, o termo está relacionado ao desenvolvimento de sistemas de computador capazes de realizar tarefas que exigem inteligência humana, como percepção visual, reconhecimento de fala, tomada de decisão e tradução entre idiomas.

Ela envolve a criação de algoritmos e modelos que permitem que as máquinas processem informações, aprendam com dados, tomem decisões, resolvam problemas e interajam com o ambiente de maneira inteligente. 

O objetivo é permitir que as máquinas simulem aspectos do pensamento, como o raciocínio, a compreensão da linguagem natural, o reconhecimento de padrões e a tomada de decisões para realizar tarefas.

A IA pode ser fraca ou forte. A fraca é quando sistemas de IA são especializados, mas que  possuem limitações e não podem entender ou fazer tarefas fora da sua área. Como exemplo, temos os chatbots de ecommerce, que são projetados para interagir em conversas de texto ou voz. 

A IA forte ainda é apenas um conceito teórico. Seria a forma mais avançada de inteligência artificial, onde a tecnologia poderia desenvolver habilidades cognitivas e de raciocínio comparáveis ou superiores às dos seres humanos.

Como no filme Ex-Machina (2014), onde um androide demonstra não apenas habilidades físicas, mas também uma compreensão sofisticada de emoções, desafiando a fronteira entre humanos e máquinas.

Outro conceito essencial para se aprender é o significado de redes neurais, que são sistemas de computação com nós interconectados que funcionam como os neurônios do cérebro humano. Elas podem reconhecer padrões escondidos e correlações em dados brutos, agrupá-los e classificá-los, e –com o tempo– aprender e aperfeiçoar. 

Quais são os tipos de inteligências artificiais?

A IA se divide em quatro tipos principais:

Machine learning (aprendizado de máquina) – é como se o computador aprendesse com exemplos e experiências anteriores para melhorar seu desempenho. Por exemplo, se você ensinar a um programa de IA como reconhecer imagens de gatos, ele poderá aprender a identificar gatos em novas imagens com base no que aprendeu anteriormente.

Deep learning (aprendizado profundo) – é uma subárea da IA que utiliza redes neurais profundas para aprender e extrair informações de grandes conjuntos de dados. Ao contrário das redes neurais tradicionais, as redes de aprendizado profundo têm várias camadas ocultas que permitem que elas aprendam representações complexas e abstratas dos dados. Essa abordagem possibilita o reconhecimento de padrões e o processamento de informações de maneira mais precisa. Ele tem sido amplamente usado no reconhecimento de imagem e processamento de linguagem natural.

Processamento de Linguagem Natural (Natural Language Processing) – área da que se concentra em ensinar computadores a entender e interagir com a linguagem humana de forma natural. Isso envolve o desenvolvimento de algoritmos e técnicas que capacitam os computadores a ler, compreender, interpretar e gerar texto, seja escrito ou falado.

Visão computacional – é como ensinar um computador a enxergar e entender o mundo como nós. Assim como nossos olhos capturam informações visuais, a visão computacional permite que os computadores processem e interpretem essas informações, abrindo caminho para uma ampla gama de aplicações práticas, como carros autônomos, segurança por vídeo, reconhecimento de padrões e melhorias na saúde e medicina.

Conheça as principais inteligências artificiais comerciais

O mercado está cheio de aplicações de inteligência artificial. Segundo uma pesquisa de 2022 encomendada pela IBM, 41% das empresas no Brasil implementaram ativamente a tecnologia em 2021.   

O IBM Watson é uma plataforma de inteligência artificial e análise de dados desenvolvida pela IBM. O Watson é conhecido por sua capacidade de processar e compreender grandes volumes de dados não estruturados, como texto, imagens e vídeos, e fornecer insights valiosos a partir deles.

Ele tem sido aplicado em várias áreas, desde saúde e medicina, onde ajuda no diagnóstico médico e pesquisa de tratamentos, até atendimento ao cliente, onde oferece suporte automatizado e personalizado.

O Google também entra na lista de empresas que despontam em IA. O Google Cloud AI, uma das plataformas fornecidas pelo Google Cloud, também oferece uma variedade de serviços e ferramentas para empresas desenvolverem e implantarem soluções de IA. 

Entre as ferramentas oferecidas pelo Google está uma que permite treinar modelos de aprendizado de máquina personalizados, mesmo sem experiência prévia em ciência de dados. O Cloud AutoML, por exemplo, simplifica o processo de criação de modelos para tarefas como classificação de imagens, reconhecimento de texto e detecção de objetos.

Inteligências artificiais podem substituir seres humanos?

As inteligências artificiais têm a capacidade de automatizar tarefas, tomar decisões com base em dados e realizar ações específicas de maneira eficiente. Embora as IA possam superar os seres humanos em certas tarefas específicas, como processamento de dados em larga escala, reconhecimento de padrões complexos ou cálculos precisos, é importante lembrar que elas ainda possuem limitações.

As IA não têm consciência, emoções ou intuição humana. Elas são projetadas para resolver problemas específicos dentro de seus domínios de especialização. Embora possam executar tarefas com velocidade e precisão, as IA não têm a capacidade de compreender o contexto amplo, exercer julgamento ético ou aplicar um senso de empatia, criatividade e pensamento crítico como os seres humanos.

Como surgiu a inteligência artificial

A imagem de um ser artificial remonta a tempos antigos e está presente em várias culturas. Na Grécia Antiga, existiam histórias e mitos que mencionavam a criação de seres artificiais por artesãos. Por exemplo, na mitologia grega, Hefesto, o deus do fogo e da metalurgia, foi retratado como criador de autômatos de metal para auxiliá-lo em suas tarefas. 

Essas representações simbólicas de seres artificiais, embora não fossem verdadeiras inteligências artificiais como entendemos hoje, revelam a presença ancestral da ideia de criar seres mecânicos ou artificiais que imitem a forma e as habilidades humanas.

Um pouco de história

Antes de chegar na década de 1950, quando o termo foi amplamente usado, temos que voltar para 1943, quando Walter Pitts e Warren McCulloch contribuíram para o conceito de neurônios artificiais. Em um trabalho, a dupla propôs um modelo matemático simplificado para representar o funcionamento dos neurônios no cérebro.

Essa ideia foi revolucionária, pois possibilitou a construção de redes neurais artificiais, que são sistemas compostos por muitos neurônios artificiais interconectados. Essas redes neurais podem aprender a partir de dados e melhorar seu desempenho ao longo do tempo.

Foi então, com o inglês Alan Turing, que tudo mudou, explica o professor de ciência da computação Diego Nogare.

Em 1950, Turing publicou um artigo chamado “Computing Machinery and Intelligence” (Máquinas Computacionais e Inteligência), no qual ele propôs o famoso “Teste de Turing”. Esse teste, também conhecido como o “Jogo da Imitação”, propunha que a verdadeira inteligência poderia ser demonstrada se uma máquina pudesse se passar por um ser humano em uma conversa escrita e enganar um juiz humano.

O trabalho de Turing lançou as bases para a pesquisa em IA, estabelecendo a questão central de como podemos definir e avaliar a inteligência em máquinas. Ele também antecipou questões éticas e filosóficas relacionadas à IA, incluindo a natureza da mente, a capacidade das máquinas de pensar e a possibilidade de consciência artificial.

A primeira vez em que a palavra “inteligência artificial” foi usada, foi durante uma conferência de Dartmouth, realizada em 1956. O professor de Stanford John McCarthy, um dos organizadores da conferência, usou o termo pela primeira vez para descrever o objetivo de criar máquinas que pudessem exibir inteligência semelhante à humana. 

Desde então, a expressão “inteligência artificial” tem sido amplamente utilizada para descrever o campo de pesquisa e desenvolvimento de sistemas e tecnologias que possuem características cognitivas e podem realizar tarefas que normalmente requerem a inteligência humana.

IA no passado

A inteligência artificial (IA) foi utilizada de várias maneiras, embora as aplicações fossem mais limitadas devido às restrições tecnológicas e de conhecimento da época. 

Na década de 1950, alguns marcos importantes foram estabelecidos. Em 1958, John McCarthy desenvolveu a linguagem de programação LISP, que se tornou uma das principais linguagens para trabalhar com IA nas décadas seguintes.

Também nesse ano, Frank Rosenblatt propôs o Perceptron, um modelo de rede neural artificial que introduziu uma nova abordagem para representação de redes neurais.

Em 1959, surgiram as primeiras implementações de algoritmos genéticos, inicialmente chamados de evolução automática. Esses algoritmos visavam introduzir pequenas mutações em sistemas e observar se haveria melhorias significativas.

Embora os resultados iniciais não tenham sido muito promissores, os algoritmos genéticos evoluíram ao longo do tempo, tornando-se mais eficientes e funcionais.

Na década de 1960, os primeiros sistemas inteligentes de tradução de texto começaram a ganhar relevância. Eles foram usados principalmente para traduzir conteúdos escritos em russo relacionados ao programa espacial, como o Sputnik.

No entanto, até por volta de 1966, os resultados não eram satisfatórios e muitos pesquisadores desacreditavam na possibilidade de fazer esses sistemas funcionarem de maneira eficiente.

No início dos anos 1970, houve uma onda de pesquisa que propôs o uso de elementos racionais mais simples para compor sistemas mais complexos, conhecida como abordagem de “Métodos Fracos” ou “IA Fraca”.

Embora esses métodos fossem gerais, eles não eram escalonáveis ou muito complexos. 

Essas pesquisas abriram caminho para os chamados “Sistemas Especialistas”, que eram projetados para resolver problemas específicos de forma satisfatória.

Conforme os sistemas especialistas foram expandidos para outras áreas, como a medicina, percebeu-se a necessidade de considerar a incerteza nos modelos. Isso levou ao desenvolvimento de métodos para lidar com fatores de incerteza nas decisões tomadas pelos sistemas de IA.

IA atualmente

A IA está passando por um crescimento significativo, impulsionado por avanços tecnológicos e pela crescente demanda por soluções inteligentes. 

Um exemplo notável desse avanço é o ChatGPT, uma das aplicações de IA mais conhecidas. O ChatGPT, desenvolvido pela OpenAI, utiliza a tecnologia de processamento de linguagem natural para interagir com os usuários de maneira conversacional. Essa tecnologia tem sido usada em várias áreas, desde assistentes virtuais e suporte ao cliente até chatbots em plataformas de mídia social.

Além do ChatGPT, existem muitos outros exemplos de uso comercial de IA. Na área da saúde, por exemplo, a IA está sendo aplicada no diagnóstico médico, análise de imagens médicas e descoberta de medicamentos. 

Na indústria, a IA está sendo usada para otimizar processos de produção, gerenciar cadeias de suprimentos e realizar manutenção preditiva. No setor financeiro, ela é utilizada para análise de dados, detecção de fraudes e previsão de mercado. Esses são apenas alguns exemplos que mostram como a IA está transformando diferentes setores comerciais.

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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

IVES GANDRA CRITICA O STF PELOS JULGAMENTOS DE 8 DE JANEIRO

 

História por Paulo Silva Pinto  • Poder360

O advogado Ives Gandra, 88 anos, disse que algumas decisões do STF (Supremo Tribunal Federal) têm contrariado a Constituição pelo que chama de “invasão de competência” do Poder Legislativo.

Ele também criticou o Supremo pelos julgamentos de acusados do 8 de Janeiro. Disse que os julgamentos virtuais limitam a possibilidade de defesa. Mencionou o excesso de prisões temporárias como uma falha dos julgamentos da Lava Jato e do 8 de Janeiro. “As limitações de direito de defesa que houve [na Lava Jato] foram menores do que as limitações do direito de defesa que estamos tendo hoje”, disse em entrevista ao Poder360 em 22 de novembro.

Gandra citou o caso da descriminalização do aborto, em julgamento pelo STF, como exemplo de algo que, na sua avaliação, extrapola as atribuições dos ministros. Gandra afirmou que só o Legislativo pode decidir mudanças nas regras

O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, disse em outubro que o fato de a Constituição brasileira ser abrangente resulta em “protagonismo” da Corte. Gandra discorda. “Exatamente por ser ampla é que [a Constituição] foi específica”, afirmou o advogado.

Gandra afirmou que os constituintes de 1988 buscaram alterar a situação em que o Executivo era dominante. Mas hoje, disse, chegou-se a outra situação indesejável, em que o domínio é do Judiciário.

Leia abaixo a transcrição completa da entrevista:

Poder 360 – O senhor mencionou em várias ocasiões que algumas decisões do STF não poderiam ter sido tomadas pela Corte, só pelo Congresso Nacional. Por que essas decisões foram tomadas pelo STF na sua avaliação?

Ives Gandra – A minha posição é de quem viveu aqueles 20 meses de [Congresso] Constituinte. Os constituintes estavam saindo de um regime com um poder dominante, o Executivo, e 2 Poderes que cumpriam funções mais secundárias. Eles desejavam ter um equilíbrio, harmonia absoluta dos Poderes. Liberdade, autonomia, mas independência entre os poderes. Por isso, o título 4º da Constituição é o mais exaustivamente declinado, do artigo 44 ao 135, para dizer as competências de cada um, para evitar a invasão. Mais do que isso, expuseram no Artigo 49 inciso 11 da Constituição que caberia ao Poder Legislativo zelar pela sua competência normativa perante os outros Poderes. Isto é, não permitindo que os outros Poderes invadissem a sua competência normativa. E no artigo 103 parágrafo 2º nem nas ações diretas de inconstitucionalidade, por omissão, o Poder Judiciário poderia legislar. Declarada a omissão do Congresso Nacional em fazer uma lei que a Constituição impunha, eles davam a obrigação, declaravam a inconstitucionalidade por omissão, e pediam para o Congresso fazer a lei. Mas não faziam a lei. Então a invasão de competência normativa do Supremo Tribunal Federal era absolutamente impossível na visão do constituinte. É isso o que eu tenho dito. É o que eu escrevi entre 1988 e 1998. Então esse é o 1º ponto. O 2º ponto, com o qual eu não concordo também [baseia-se em] uma corrente doutrinária dos países parlamentaristas, em que não há uma nítida separação de Poderes. Os tribunais constitucionais em Portugal, na Itália, na Alemanha funcionam quase como a Comissão de Constituição e Justiça [da Câmara e do Senado]. Em Portugal são eleitos, não são indicados pelo governo. Não é como o Poder Judiciário desses países, em que o magistrado entra fica a vida inteira. Nesses países parlamentaristas, onde o Executivo, Legislativo e Judiciário têm uma interpenetração, em que os tribunais constitucionais não são nem órgão propriamente só do Poder Judiciário nem do Poder Legislativo, mas uma espécie de poder intermediário, em que os ministros são colocados com mandato, muitas vezes esses tribunais têm interferência naquilo que eles denominam jurisprudência constitucional: tentar auxiliar o Poder Legislativo a fazer as leis. Lá o Poder Executivo, de governar, sai do Poder Legislativo. O chefe de governo sai do Legislativo, então não há uma nítida a separação de Poderes. Essa teoria é própria dos sistemas parlamentaristas em que não há essa nítida separação de Poderes. O sistema presidencial não. É um modelo americano, em que há nítida separação. Os Poderes são colocados como independentes e harmônicos na Constituição, permitindo ao Legislativo zelar pela sua competência perante a invasão pelo Judiciário. Então, a meu ver, do ponto de vista de um professor universitário desde 1964de alguém que advoga há 65 anos, com todo o respeito que eu tenho por todos os ministros do Supremo, eu entendo que não foi isso o que os constituintes decidiram. É por essa razão que apesar dos meus 88 anos, de já poder estar mais tranquilamente no ócio da idade, eu continuo batendo na tecla na esperança de que um dia o Supremo volte a ser o que era aquela época do Moreira Alves, Oscar Correia, Sydney Sanches, Ilmar Galvão e Cordeiro Guerra. Aqueles que fizeram com que o Supremo fosse a mais respeitada instituição do país. Quando saía um ministro na rua, todos diziam: lá vai um ministro do Supremo. Porque eles eram o Poder JudiciárioComo eles são bons, os atuais ministros, a minha esperança, minha luta permanente, é tentar ver se um dia eles voltam a ser o que eram os grandes ministros que fizeram o nome do Supremo Tribunal Federal.

Quando, na sua avaliação, o Judiciário brasileiro passou a invadir as prerrogativas do Legislativo?

Eu tenho impressão [que foi no] início do 1º governo Lula em 2003. Nós tivemos em um mês as aposentadorias de 3 ministros: Moreira Alves [22.abr.2003], Ilmar Galvão [2.mai.2003] e Sydney Sanches [15.abr.2003]. Normalmente, quando entrava o ministro, em 6 meses ele passava a raciocinar como a Corte raciocinava. Ele se adaptava àquele estilo próprio do Supremo Tribunal Federal. Mas aquilo [aposentadorias próximas] descompassou. A adaptação não se fez como se faria no passado.

Por outro lado, durante algum tempo, nós tivemos o ministro Carlos Ayres, o ministro Joaquim Barbosa, que era presidente do Supremo. Combateram a corrupção, o Petrolão, o Mensalão. Foram ministros que passaram também para a história. Mas já havia essa tendência. No impeachment da presidente Dilma [Rousseff, em 2016], o ministro Lewandowski, que também foi um grande desembargador, fez aquela separação entre alguém que sofria impeachment, mas não perdia direito político, quando a Constituição claramente dizia que a pena do impeachment era inelegibilidade por 8 anos. Ele legislou. Fez uma mudança o texto constitucional.

Nós começamos a ter essa tendência, que no fim do governo Bolsonaro e neste governo do presidente Lula se acentuou, de o Supremo decidir o que é a democracia, quem pode ser preso, por opiniões políticas. O artigo 53 da Constituição diz que o parlamentar é inviolável nas suas manifestações, na sua palavra. Daniel Silveira [disse] uma série de bobagens. Os eleitores que votaram nele, a meu ver, deveriam ter se preocupado com a maneira como ele falou sobre o Supremo Tribunal Federal. Mas foi uma manifestação de alguém que, pela Constituição, é inviolável em sua palavra. Foi condenado por 8 anos. A Lei de Segurança Nacional [em que se baseou a condenação] está abaixo da Constituição. Houve uma nova legislação, em que se criou o flagrante perpétuo. Um vídeo é colocado como se fosse um flagrante. Estou fazendo um programa de televisão. Se daqui a 10 anos esse programa ainda existir, eu posso ser condenado. Reescreveram o Código Penal. Eu não tenho nenhum preconceito contra homossexuais. Mas, na prática, foi discutido na Constituição se deveria ser colocado homem e mulher no casamento. Foi colocado lá homem e mulher depois de um debate em que queriam não colocar. Pode-se garantir os direitos dos homossexuais com contratos, mas o casamento no estilo tradicional, capaz de gerar filhos pelo moto próprio, só poderia ser entre homem e mulher. O Supremo legislou [ao permitir o casamento de pessoas do mesmo gênero]. Eu interpreto o que está na Constituição. Quando dizem que a Constituição pode ser relativizada, eu entendo que não. A lei pode ser mais inteligente ou menos inteligente que o legislador. Quando eu vejo uma lei publicada, eu tenho que ver se essa lei se adapta a todo o contexto legislativo. Na lei, eu tenho o sistema anterior. Na Constituição, não é o que acontece. Eu tenho que respeitar porque não existe o sistema anterior. A vontade do legislador [constituinte] tem que prevalecer porque eu não tenho nenhum outro referencial, senão a vontade daquele que foi eleito para o povo para fazer uma Constituição. Tenho impressão que aí começou o empoderamento do Supremoque interferiu diretamente, nós vimos, nas eleições, quando alguns órgãos da opinião pública nos últimos dias foram censuradosBasta dizer que a Universidade de Gotemburgo, da Suécia, disse o Brasil é uma democracia relativa porque aqui eu tenho presos políticos, eu não tenho liberdade de expressão. Talvez pela própria idade, de 88 anos, eu [seja] um constitucionalista clássico. Acho que não existe neoconstitucionalismo, consequencialismo, jurisprudência constitucional. Existe a Constituição. Só existe um tipo de constitucionalismo: é ler o que está na Constituição, o que os constituintes pretenderam. Não inovar. Não está na Constituição, mas eu estou fazendo porque eu entendo que é isso que o povo está querendo. Quem pode interpretar a opinião do povo não é o Supremo, é o Congresso Nacional. E se o povo não gosta do Congresso, que eleja novo Congresso 4 anos depois. O que eu defendo não é nada contra as pessoas, que eu considero bons ministros, idôneos, é contra a interpretação que estão dando de um texto constitucional que é diferente da minha. Mas eu tenho a impressão, porque eu vivi, a grande maioria deles [ministros] não viveu aquele momento da Constituinte, que eu represento o pensamento que está na Constituição.

Um argumento de ministros do STF é que a Constituição Brasileira é muito ampla e isso exige da Corte interpretações de decisões que são incomuns em outros países. Qual sua avaliação sobre esse argumento?

Exatamente por ser ampla é que ela foi específica. Por exemplo, a Constituição Americana tem 7 artigos. Quase tudo está jogado para a legislação ordinária dos Estados. Eu mesmo participei com mais 140 juristas do julgamento da questão do aborto, na Suprema Corte Americana. Nós fomos admitidos como professores de direito internacional como amicus curiae naquele processo. Nós mostramos que nenhuma Constituição do mundo, por exemplo, dizia que a mulher tem o direito ao aborto. Mas diversas constituições do mundo mostravam que a vida começa na concepção. Esse argumento auxiliou a vitória do governo do Mississipi[contra uma] instituição das mulheres defendendo o direito do aborto. [Mostrou-se] que a matéria não era direito constitucional porque não estava em nenhuma Constituição do mundo esse direito. O que os ministros do Supremo têm feito? Em que está exatamente a minha divergência com eles? Eles entendem que se eu tenho uma lei, eu pego um princípio constitucional e digo o seguinte: eu não vou mais interpretar a lei. Vou interpretar o que está no princípio constitucional. E quanto mais genérico ele for, interpretações mais variadas pode dar. Por exemplo o princípio da dignidade humana. As mulheres defendem que o princípio da dignidade humana é o direito ao aborto. Quem defende o direito do nascituro defende que o princípio da dignidade humana é a defesa da vida desde a concepção. O mesmo princípio com teses absurdamente opostas. Como é que se pode fazer um princípio constitucional com teses opostas, com possibilidades de teses opostas, poder ser aplicado ao povo? Com o povo tendo a interpretação através dos seus delegados, os seus representantes que foram eleitos e não apenas por um homem só [o presidente da República]. Quando o Supremo esquece o que eles disseram [constituintes] e passa a interpretar um princípio de acordo com a interpretação de 11 cidadãos eleitos por um homem só e não por 140 milhões de brasileiros [na época da Congresso Constituinte], nós estamos tendo uma intervenção no Poder Legislativo da parte do Poder Judiciário. No caso do aborto existe o artigo 124 do Código Penal. Tem que ser mudado pelo Congresso. Quando o Supremo diz “eu vou discutir o aborto fazer uma nova lei”, é ele que está legislando, não é o Legislativo. Se for fazer para princípio, eles podem fazer tudo, não precisamos mais do Poder Legislativo. Eles pegam o princípio e fazem a lei que quiserem. O artigo 49 inciso 11 diz o seguinte: cabe ao Poder Legislativo, ao Congresso Nacional zelar por sua competência normativa perante os outros Poderes que são só 2: o Executivo e o Judiciário. Se, por exemplo, tivéssemos [usado] a teoria da jurisprudência constitucional, [colocando] na Constituição que pode o Supremo Tribunal Federal, em caso de dúvida, interpretando os princípios gerais, decidir e fazer as leis em lugar, não teria problema nenhum. Eu interpretaria como [estaria]escrito na Constituição. Não foi isso que os constituintes puseram. Com todo o desconforto que me dá. Nunca discuti, até 2003, a competência do Supremo. Ao contrário, todos os meus livros até aquele momento são livros de admiração de respeito. Agora admiração e o respeito continuam. O que acontece é que eu tenho divergências. Eu acho que o Supremo que deveria representar o Brasil era aquele até 2003. E até um pouco mais de 2003 com alguns ministros. Mas de 2017 para cá eu tenho impressão de que eles foram se empoderando num direito que a Constituição a meu ver não lhes deu. Como eles são intérpretes da Constituição e podem mandar prender quem quiser, quem seja contra, e evidentemente o Poder Legislativo não tem esse poder, nem o Executivo, o que que acontece? Hoje nós vemos que procuramos fugir de uma época em que tínhamos um poder dominante –que era o Poder Executivo– e 2 Poderes acólitos, para uma outra época em que o Poder dominante indiscutivelmente é o Poder Judiciário. Diz ao Legislativo a lei que quer fazer, diz ao Executivo como é que tem que se conduzir. E isso dá uma força que, a meu ver, o constituinte não deu. Eu sou um velho professor, defendendo as teses que muitos dizem que são teses de dinossauro. Mas eu não interpreto nada diferente do que está escrito: harmônicos e independentes. O soberano na democracia, quem diz o que é democracia, não é o Poder Judiciário, não é o Poder Legislativo, não é o Poder Executivo. É o povo. E o povo só pode dizer através dos seus representantes, aqueles que elegeu para dizer em nome dele. Por essa razão é que em 1º lugar aparece o Poder Legislativo. É um Poder com situação e oposição, 100% da representação nacional. Depois aparece o Poder Executivo. É a maioria que lá está, porque a oposição não está no Poder Executivo. E por fim um poder técnico, que só existe ao lado de duas funções essenciais à administração da Justiça chamadas advocacia e Ministério Público. Eu me permito divergir, não sei até quando vão me calarMas eu nunca ataco pessoas. É uma divergência doutrinária. Eu [estou] em fim de carreira, em fim de vida também, eu não vou me calar. Eu nunca me calei até os 88 anos. Sou um modesto advogado de província. Mas aos 88 anos vou continuar dizendo a mesma coisa: nós temos invasões de competência. [Isso] não está na Constituição, no que os constituintes desejavam.

Ainda sobre as decisões do STF, há avaliações de que algumas decisões recentes da Corte em processos criminais têm semelhanças com métodos criticados quando usados pela Lava Jato. Qual a sua avaliação sobre isso?

Eu discordo muito. Não sou penalista. Sempre trabalhei em direito público, administrativo, constitucional. Agora, a morte, por exemplo desse rapaz [Cleriston Pereira da Cunha], eu acho algo dramático. Um cidadão que desmaiou quando foi preso, que tinha problemas sérios de coração e de diabetes, que os próprios cidadãos de lá, os médicos, diziam que desde julho quando ele corria desmaiava, que deveria ter prisão domiciliar. A Defensoria Pública e o Ministério Público, que é o titular da ação penal, aquele que pode fazer a ação penal, aquele que é exclusivo, privativo no exercício da ação penal segundo a Constituição, não segundo a orientação do Supremo, em setembro pediu que ele fosse para prisão domiciliar porque ele corria risco de vida. Esse pedido da Procuradoria Geral da República não foi examinado até a morte dele em novembro. Essa burocracia, isso de não levar em consideração que são seres humanos que estão presos, sem nenhuma folha corrida penalmente, sem que tenham podido se defender. Os vídeos, que mostravam que havia infiltrados, não foram apresentados pelo governo, que era responsável e que tinha notícia de um grupo que iria para lá [as sedes dos Poderes]. E que não ia dar golpe de Estado, porque sem armas não se dá golpe de Estado, no máximo era uma baderna. Todos pensam que o Código do Processo Penal existe para a defesa da sociedade. Não é verdade. Existe para a defesa do acusado, porque, se a sociedade fizesse Justiça pelas próprias mãos, nós tínhamos linchamentos públicos a toda hora. Existe nos países democráticos e civilizados um Código de Processo Penal para dar garantia ao acusado de defesa. O direito de defesa amplo só existe na democracia. Por isso está no artigo 5º, inciso 54 da Constituição em que se declara com clareza que a ampla defesa nos processos administrativos Judiciários é assegurado no país e o devido processo legal. O que nós estamos tendo? Dificuldade de acesso às provas, vídeos que não são apresentados e julgamentos virtuais, em que o advogado manda uma sustentação oral que não sabe se vai ser ouvida ou não pelo ministro. Aquele direito de defesa próprio do advogado na defesa do seu cliente. Ele defende a democracia. O que é a verdadeira democracia é se não a defesa do cidadão? Ele não pode fazer. As sessões são virtuais. Manda-se as sustentações orais umas 48 horas antes na esperança de que o ministro com todas as obrigações que tem vá se sentar numa cadeira e ouvir todas as sustentações orais. Ele é obrigado quando a sessão é presencial. Quantas vezes tentando no Supremo eu olhava e, à medida que sustentava, eu percebia, pelas reações dos ministros, se um argumento era mais forte do que o outro. A sustentação oral é um privilégio próprio do exercício da advocacia, porque o advogado é, no Sistema Judiciário do país, tão importante quanto o magistrado e quanto membro do Ministério Público. Nenhum dos 3 existe se faltar algum. E o direito de defesa só existe nas democracias. Nas ditaduras não há direito de defesa. A sensação que eu tenho é que nós estamos caminhando para uma restrição do direito de defesa que não é bom para democracia brasileira. E é contra isso que eu também tenho procurado combater com todo o respeito as figuras dos ministros. Mas isso tem que ser dito.

Um dos casos em análise pelo STF é o do tenente coronel Cid. Qual sua avaliação sobre esse caso?

Como eu não li o processo, estou apenas dizendo o que li nos jornais. De repente meu nome foi citado, numa carta, que eu [teria] respondido a um major, que não era meu aluno na escola do Exército. Eu só dava aula para coronéis que viriam a ser generais no fim do ano. Eu dava explicação, qual era a extensão do artigo 142[da Constituição]. Dizia em nenhum momento que isso justificaria um golpe do Estado. Não há como, até porque, desde outubro, quando houve aquele movimento na Universidade de São Paulo em defesa da democracia, se o senhor pegar o meu Instagram, as minhas manifestações, inclusive na Câmara dos Deputados e no Senado, eu dizia que o risco de um golpe de Estado no Brasil era zero, sub zero multiplicado por zero. Porque como professor da escola do Exército, e mais de 90% dos generais tendo ouvido aulas minhas nos últimos 33 anos, eu sabia a mentalidade deles, que jamais dariam um golpe de Estado, desrespeitariam a Constituição por inteiro. Aliás, era o que também nas aulas de direito constitucional eu dizia. Nunca houve risco nenhum de golpe. Aquelas pessoas que foram às portas do Exército, o Exército respeitava a manifestação popular. Parece que ele [Cid] fez uma delação premiada, que está sendo examinado. Mas eu não vi o processo. O advogado tem o hábito de só se manifestar em profundidade sobre um processo tendo examinado. A sensação que eu tenho é que muitas vezes nós estamos tendo prisões primeiro provisórias depois preventivas que se prolongam além do tempo sem que haja um julgamento, sem que o processo ande, o que faz com que nós tenhamos 1º um encarecimento brutal do governo, que é obrigado os sustentar os presos que lá estão então. Todo preso que fica muito tempo lá e podia ter um julgamento mais breve, isso está sendo pago pelo Estado. É um ônus sobre o contribuinte brasileiro. Em 2º lugar, não é justo. Em 3º lugar, se a legislação penal é para defesa do acusado, quando se tem um julgamento no Supremo Tribunal Federal já com o preso, isso tem preferência sobre os outros processos. Os próprios ministros dão essa preferência. Minha posição é de respeito de um lado, mas não de concordância. Eu acho que teriam que ser punidos como baderneiros, como quebra-quebra de instalações públicas, como muitas vezes nós vimos inclusive manifestações populares quebrarem banco, prédios quando o povo entra e não respeita o patrimônio de ninguém. Baderneiros têm que ser punidos. Mas, como golpistas, ficando preso sem que os processos andem, não é o que eu estudei em direito.

O senhor chegou a trocar mensagens com o tenente coronel Cid por WhatsApp ou por outro meio?

Eu não conheço o tenente coronel Cid. Nem esse major eu conhecia, porque o único contato que está lá é que ele me fez uma consulta em 2017 [sobre o artigo 142] e eu respondi qual era a interpretação. Não conheço pessoalmente. As aulas que eu dei sempre foram para coronéis. Mesmo que seja inspirador de um golpe: quem leu o que eu escrevi [não pode entender isso]. O artigo 142 jamais seria para um golpe. Seria para intervenções pontuais, praticamente sem possibilidade de ser utilizado. Por quê? Porque teria que haver o pedido ou do Legislativo do Judiciário. Eu sei que ninguém pediria isso para as forças armadas. É que eu dizia sempre e é o que está escrito.

Sobre as prisões temporárias que se prolongam, como o senhor mencionou, isso é uma coisa que foi muito criticada no período da Lava Jato. O senhor acha que ali houve excesso também ou não?

Da Lava Jato, eu escrevi, eu sempre fui contrário à limitação do direito de defesa. Em livro que foi editado pelo Conselho Federal da Ordem [dos Advogados do Brasil] e de que fui eu o coordenador, eu e Marcos da Costaeu dizia que sentia que havia também limitações ao direito de defesa. Mas eu entendo que as limitações de direito de defesa que houve foram menores do que as limitações do direito de defesa que estamos tendo hoje.

Um projeto em discussão no Congresso limita decisões monocráticas do STF. Qual sua avaliação sobre isso?

Em 1º lugar, eu sou o contrário àquele projeto dos senadores que querem mandato para os ministros do Supremo. Eu acho que nesse sistema tem que ter independência até o momento da aposentadoria como membro do Poder Judiciário que é num país presidencialista. Não é uma corte constitucional como a da Itália, de Portugal, da Alemanha no sistema parlamentar. Agora, decisões monocráticas que prevalecem no tempo quando na verdade o Supremo Tribunal é um colegiado de garantia da Constituição e deveria agir como colegiado, evidente que eu pessoalmente não posso aceitar [que] um ministro em nome de 11 ministros tome uma decisão que vai prevalecer por 1 ano ou 2 anos até que o processo venha ser julgado. Exigir o colegiado é uma segurança para o cidadãoNão fica na dependência da interpretação de 1 homem só. É isso que está na Constituição, no artigo 102. Então [é necessário] eliminar a possibilidade de decisões monocráticas que prevalecem durante muito tempo, como se o Supremo tivesse decidido. Não foi o Supremo que decidiu. Foi um 11 avos. Portanto sou contra um aspecto [mandato] e favorável a outro [limitar decisões de 1 só ministro].

O senhor tem uma avaliação sobre a criação do juiz de garantias cuja implantação o STF jogou obrigatória?

Nesse ponto, eu estou com o ministro Luiz Fux. Eu acho que um juiz de garantia vai atrasar ainda mais o processo. Eu participei de 3 bancas examinadoras de magistratura, duas para magistratura federal e uma para estadual. Sei perfeitamente da competência daqueles que são aprovados. Eu examinei com os meus companheiros de banca nos 3 concursos em torno de 6.000 a 7.000 candidatos. Em 1 da federal eu tive só 19 juízes aprovados. No outro, só 21. No da estadual, 57. Então acho que o magistrado está preparado para decidir. É muito duro passar em um exame. Eu tinha pena dos candidatos, da maneira como eram massacrados. Nós sabemos que, uma vez escolhido um magistrado, ele iria decidir sobre a vida, o destino das pessoas. Nós tínhamos uma responsabilidade grande. Se ele é bom, porque passou por um concurso de magistratura, por que 2 juízes, um para ouvir o processo e outro para julgar? Sou contra o juiz de garantias. Já com este sistema é tão lenta a Justiça, imagine complicar ainda mais com 2 juízes.

Algum item que não tem sido perguntado aqui sobre qual o senhor gostaria de falar?

Tenho admiração por todos os ministros que eu conheci desde a minha 1ª sustentação oral em 1962, quando 5 dos ministros que lá estão não tinham nascido. Tenho uma admiração muito grande por todos os ministros Supremo, pela instituição. Respeitando os ministros, como um velho, eu tenho um sonho, como tinha Martin Luther King, em relação aos Estados Unidos, quando ele dizia [querer] ver brancos e negros unidos para fazer uma pátria maior. Meu grande sonho de velho é um dia termos de novo o Supremo sendo o guardião da Constituição, aquele que sustenta a Constituição, mas não um Poder Legislativo complementar, nem um poder corretivo do Executivo. Fazer com que voltássemos a ter o Supremo da época do ministro José Carlos Moreira Alves. Esse é o grande sonho que eu tenho, com respeito. Como eu conheço os ministros, sei que eles têm competência para isso. Eu posso continuar com meu sonho: que eles voltem a ser o que era o Supremo.

GOVERNO QUER ELEVAR IMPOSTOS DOS MAIS RICOS

 

História por Mariana Schreiber – Da BBC News Brasil em Brasília  

Economista ressalta que estão no radar do governo medidas para cortar impostos, como aumentar a faixa de isenção do IR, quanto aumentar tributos, como o retorno da taxação de dividendos© Getty Images

Após a histórica promulgação da reforma tributária sobre consumo, que vai simplificar impostos sobre bens e serviços comercializados no Brasil, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve enviar em até 90 dias ao Congresso uma proposta de ampla modificação da tributação da renda no país, que vai ter impacto direto no bolso dos brasileiros.

Para Bráulio Borges, economista-sênior da consultoria LCA e pesquisador-associado da FGV, o governo tentará, nessa segunda etapa da reforma tributária, elevar sua arrecadação, com aumento de impostos, sobretudo sobre brasileiros mais ricos.

Em entrevista à BBC News Brasil, ele nota que o rombo nas contas públicas continua como um grande desafio para o governo, com impactos negativos sobre custo do dólar, inflação e taxa de juros, afetando o desempenho da economia.

Por isso, acredita Borges, a gestão Lula vai tentar acelerar a revisão do Imposto de Renda (IR), buscando reforçar o caixa.

“Essa segunda etapa da reforma tributária que envolve Imposto de Renda e desoneração da folha pode gerar algum aumento de carga tributária. E o governo precisa disso para cumprir as metas fiscais de 2025 e 2026”, avalia.

Borges ressalta que estão no radar do governo tanto medidas para cortar impostos, como aumentar a faixa de isenção do Imposto de Renda para a classe média e desonerar a folha de pagamento das empresas, quanto aumentar tributos, como a volta da taxação de dividendos (parte do lucro das empresas distribuídos aos sócios).

Mas o saldo geral, avalia, tende a ser de aumento da arrecadação.

Governo deve enviar em até 90 dias ao Congresso uma proposta de ampla modificação da tributação da renda no país, que vai ter impacto direto no bolso dos brasileiros© Lula Marques/ Agência Brasil

Apesar do esperado empenho por mais receitas, o economista não acredita que o governo tente mudar regimes de tributação especial, que garantem impostos reduzidos para empresas e profissionais liberais, como o Simples Nacional e o Lucro Presumido.

Borges engrossa a crítica a esses regimes, duramente questionados por economistas como Armínio Fraga, Samuel Pessoal e Sergio Gobetti.

Na visão deles, regimes especiais deveriam beneficiar apenas pequenos negócios, o que não seria o caso de parte das empresas atendidas, já que o limite de faturamento anual para estar no Simples, por exemplo, está em R$ 4,8 milhões.

Para o pesquisador da FGV, esses regimes viraram um “vespeiro” difícil de mexer, devido à força de entidades de classe que representam profissionais liberais beneficiados pelos impostos menores, como advogados, médicos e economistas.

“O Simples beneficia principalmente vários profissionais liberais que têm muito poder, que têm seus interesses representados por entidades de classe poderosas. Os próprios políticos, muito deles, são profissionais liberais”, ressalta.

O prazo de 90 dias para envio das propostas de reforma do Imposto de Renda e de desoneração da folha de pagamentos ao Congresso está previsto na reforma tributária recém-aprovada no Congresso.

Essa reforma determina a substituição de cinco tributos (PIS, Cofins e IPI, de competência federal; e ICMS e ISS, de competências estadual e municipal, respectivamente) por um Imposto sobre Valor Adicionado (IVA).

O IVA é um imposto que incide de forma não cumulativa, ou seja, somente sobre o que foi agregado em cada etapa da produção de um bem ou serviço, excluindo valores pagos em etapas anteriores. O modelo acaba com a incidência de impostos em cascata, um dos problemas históricos do sistema tributário brasileiro.

Com a reforma, a cobrança de impostos também deixará de ser feita na origem (local de produção) e passará a ser feita no destino (local de consumo), uma mudança que visa dar fim à chamada “guerra fiscal” — a disputa por cidades e Estados por meio da concessão de benefícios tributários, com objetivo de atrair o investimento de empresas.

Essas mudanças vão simplificar o atual sistema e acabar com distorções tributárias, tendo forte impacto no crescimento, assinala Borges, citando estudos internacionais sobre IVA e projeções feitas para o caso brasileiro por ele e outros economistas.

Ele ressalta que o texto final aprovado pelo Congresso não é o ideal, por ter criado muitas exceções (produtos com alíquota reduzida que acabam elevando o IVA padrão) e adotar um prazo longo de transição. Ainda assim, diz, o novo modelo será “muito melhor que o atual” e deve impulsionar o PIB (Produto Interno Bruto, soma de bens e serviços do país) em mais de 10% no longo prazo.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista, feita por telefone e editada por concisão e clareza.

“Reforma ideal seria realmente ter uma alíquota única, sem muitas exceções, com uma transição um pouco mais rápida”, diz Borges© Getty Images

BBC News Brasil – Qual sua avaliação sobre o resultado final da reforma tributária aprovada no Congresso?

Bráulio Borges – A reforma ideal seria realmente ter uma alíquota única, sem muitas exceções, com uma transição um pouco mais rápida. Mas a gente já sabia que o ideal seria muito difícil. Quase nenhum país do mundo tem um sistema de IVA com alíquota única. A maior parte tem três, quatro alíquotas, alguns até chegando a cinco ou seis, como a índia.

Na prática, a gente acabou, no processo de negociação política, criando quatro tipos de alíquota (na reforma brasileira), porque, além da alíquota padrão, tem a alíquota zerada, tem a alíquota reduzida e tem uma alíquota específica para os profissionais liberais, com um desconto em relação à alíquota padrão.

E a transição vai acabar sendo um pouco mais longa, principalmente do ponto de vista de empresas e consumidores, que (a substituição dos impostos) começa em 2026 e acaba em 2033.

E isso foi necessário por várias razões. Primeiro, para dar uma certa previsibilidade para as empresas poderem se adaptar, principalmente empresas que já tinham feito seus planos de negócio considerando o sistema tributário atual.

E também porque em 2017 uma lei complementar federal regularizou todos os benefícios fiscais que os estados brasileiros haviam concedido até aquele momento, com validade até 2032.

Não à toa, decidiu-se por uma transição que só vai ter o novo sistema pleno lá em 2033.

E porque uma transição longa não é boa? Porque, as empresas vão ter que conviver com dois sistemas diferentes durante esse período. Isso pode criar algum tipo de aumento temporário da complexidade.

Então, na prática, foi feito o possível.

Até parafraseando o que o ex-ministro Maílson da Nóbrega disse numa entrevista recentemente: o Brasil perdeu a oportunidade de ter o melhor IVA do mundo, mas, ainda assim, o que a gente aprovou, certamente, é um sistema muito, mas muito melhor do que o que a gente tem hoje.

Histórica promulgação da reforma tributária sobre consumo vai simplificar impostos sobre bens e serviços comercializados no Brasil© Lula Marques/Ag. Brasil

BBC News Brasil – Segundo uma projeção sua de 2020, uma reforma para adoção do IVA nos moldes propostos inicialmente tinha potencial de elevar o PIB potencial brasileiro em 20% em 15 anos. Será preciso refazer as projeções?Qual sua avaliação o texto aprovado no Congresso?

Borges – Em vez de começar pelo meu estudo, que é muito específico pro Brasil, vale a pena olhar pra uma evidência geral. E, pra isso, tenho citado um trabalho de 2020 de um autor internacional (Bibek Adhikari) que avaliou 33 países que implementaram reformas tributárias como essa que o Brasil está adotando, ou seja, substituindo tributos cumulativos sobre o consumo por tributos não cumulativos.

Ele chegou à conclusão que essas reformas, em média, aumentaram o PIB dos países em 6% dez anos depois da reforma.

É um impacto importante.

Agora, o que chama a atenção nesse trabalho é a segmentação quando ele olha para países por nível de desenvolvimento, ou seja, com PIB per capita semelhantes. Em particular, quando ele analisa países de renda média similar à do Brasil, a conclusão é que o PIB ficou, em média, 33% maior dez anos depois da reforma.

São números expressivos, até maiores do que os 20% que estimei. E é interessante lembrar que esse estudo pegou casos do mundo real e, como eu já disse, praticamente nenhum país adotou o modelo ideal do IVA.

Todos esses países tiveram que fazer algumas concessões, com várias alíquotas, com prazo de transição e, mesmo assim, os impactos econômicos são expressivos.

Queria começar citando essa evidência mais abrangente e internacional, porque acho que ela ajuda a dar uma ideia do que esperar para o caso brasileiro.

E, no caso brasileiro, fiz um estudo em 2020 em que eu estimei em 20% o impacto no PIB (em 15 anos).

A partir do desenho final da PEC aprovada no Congresso, pretendo fazer uma atualização dessa estimativa, muito embora ainda vá depender também das leis complementares que vão ser discutidas no Congresso ano que vem (regulamentando pontos da reforma).

Por exemplo, vai ter uma pressão enorme de todos os setores para colocar seus produtos na cesta básica (e assim ter uma alíquota reduzida).

Se isso acontecer, vai desvirtuar o que é a cesta básica e vai ter que aumentar a alíquota padrão.

E, se você aumenta a alíquota padrão, você pode tirar um pouco da potência da reforma (para impulsionar o PIB).

Então, para poder atualizar esse meu número, também precisarei aguardar um pouco os detalhes dessas leis complementares.

Ainda assim, diria que o impacto tende a ser menor do que os 20%, justamente porque houve uma desidratação da reforma (até a aprovação final no Congresso), mas ainda diria que seria de dois dígitos, entre 10% e 15% de impacto.

BBC News Brasil – Esse impacto econômico ainda vai demorar, ou pode ter algum efeito mais imediato?

Borges – Talvez, por algum efeito de antecipação do futuro melhor, gerado pela reforma, as expectativas mais otimistas possam gerar mais investimento hoje, e aí podem gerar mais PIB.

Mas eu acho que esse efeito de antecipação tende a ser pequeno, justamente porque a gente ainda tem uma parte grande da reforma que depende das leis complementares, que só devem ser aprovadas no final do ano que vem.

Acho que a gente começa a colher mais os frutos disso realmente em 2025 em diante.

BBC News Brasil – Críticos dizem que a reforma vai aumentar carga tributária e criar o maior IVA do mundo (segundo projeções inicias do governo, pode chegar a 27,5%, mas a alíquota ainda não está definida). Existe esse risco?

Borges – Muitos críticos da reforma tributária são do tipo “não li e não gostei”.

Agora, deixando de lado essas críticas muito politizadas, tem sim críticas pertinentes, associadas, primeiro, a essa desidratação, que foi um pouco excessiva.

Considero injustificável a alíquota (menor) para profissional liberal.

Basicamente, você está beneficiando advogado rico, economista rico, e alguns outros profissionais liberais que têm faturamento anual de mais de R$ 4,8 milhões, pois quem está no regime tributário Simples (empresas com limite de faturamento de R$ 4,8 milhões) não é acessado pela reforma.

Isso foi pressão do (presidente do Senado, Rodrigo) Pacheco, pressionado pela OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

Tem essa questão da alíquota (do IVA brasileiro ser alta). De fato, se a gente olhar para a média dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), a alíquota média do IVA está em torno de 19%, 20%, e o país que tem a alíquota mais alta hoje, a Hungria, é de 27%.

O Brasil poderia ter uma alíquota de 22% com esse sistema, segundo contas que o próprio governo fez e que nós da LCA também fizemos para a CNI (Confederação Nacional da Indústria).

Só que esses 22% viraram (possivelmente) 27% de alíquota padrão porque a gente foi concedendo vários benefícios de tratamentos diferenciados.

O principal deles, que surgiu muito por pressão do agro e dos supermercados, foi a desoneração (zerar o IVA) da cesta básica. Custa caro, só a (desoneração da) cesta básica aumenta a alíquota em quase dois pontos percentuais.

E as pessoas não entendem que quando você desonera a cesta básica para todo o mundo, na prática, você está desonerando o arroz, o feijão, tanto para o rico quanto para o pobre.

Por isso que eu, Bernard Appy (secretário extraordinário da Reforma Tributária) e a maioria dos analistas, defendemos o modelo de cashback, de devolução do imposto pago sobre a cesta básica, em que a devolução ocorreria somente pra um determinado público, por exemplo, que recebe bolsa família, ou que tem uma renda de até um salário mínimo.

Se você realmente fizesse esse modelo de devolução do cashback focalizado, na prática, você poderia ter uma alíquota padrão bem mais baixa, do que os 27%, 27,5% que estão estimando.

Com relação ao tamanho da carga, a carga agregada sobre o consumo não vai aumentar, isso (essa crítica) faz parte do lobby querendo evitar a aprovação da reforma.

Hoje, o Brasil arrecada 12,5% do PIB com esses cinco tributos que estão sendo substituídos pelo IVA e o imposto seletivo (tributo adicional que incidirá sobre produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, como cigarros e bebidas alcoólicas).

A reforma foi desenhada para arrecadar esses mesmos 12,5% do PIB com os novos impostos.

BBC News Brasil – A reforma da tributação do consumo levou muito tempo amadurecendo. O governo deve encaminhar ao Congresso uma ampla reforma da tributação da renda, junto com a desoneração da folha de pagamento das empresas. Essa proposta está amadurecida? Como o senhor vê as chances de aprovação?

Borges – Acho que esse tema está menos amadurecido que a reforma do IVA. Tem já estudo feito, mas a discussão política está menos avançada.

Por outro lado, acho que o governo tende sim a acelerar um pouco a discussão ao longo de 2024, porque essa segunda etapa da reforma tributária que envolve Imposto de Renda e desoneração da folha pode gerar algum aumento de carga tributária.

E o governo precisa disso para cumprir as metas fiscais de 2025 e 2026.

BBC News Brasil – Mas o aumento de carga tributária tende a aumentar as resistências a essa segunda parte da reforma, não?

Borges – É por isso que acho que o governo vai ter que ceder e fazer algum tipo de discussão de reforma administrativa (para cortar despesas com funcionalismo), como o Arthur Lira (presidente da Câmara) tem sinalizado.

A verdade é que a reforma administrativa não traz economia fiscal no curto prazo, mas acho que é um simbolismo.

E também a história das emendas (recursos federais que os parlamentares destinam para investimentos em seus redutos eleitorais).

Não vamos ignorar que já existe pressão para aumentar ainda mais o montante de emendas parlamentares que são impositivas (obrigatórias).

Então, acho que o jogo político para aprovação dessa reforma vai envolver, tanto a discussão da reforma administrativa, mas também de aumentar ainda mais o naco que o Congresso tem de poder dentro do Orçamento da União.

BBC News Brasil – O que o senhor espera dessa segunda etapa da reforma tributária?

Borges – Essa segunda etapa tem tanto medidas que vão gerar oneração, aumento de carga, como medidas que vão gerar desoneração. O ideal para o governo é que o saldo seja um ganho líquido de receitas.

E de onde virão as medidas que podem geral algum tipo de oneração?

A principal delas é a história de taxar os dividendos (distribuídos pelas empresas aos acionistas), que hoje são uma renda isenta no Brasil. Uma alíquota de 15% ou 20% gera uma arrecadação expressiva, já tem estimativas falando de R$ 50 bilhões a R$ 70 bilhões por ano.

Mas tem outras frentes de oneração também, por exemplo, (eliminar ou alterar) o Juros Sobre Capital Próprio, que é outro tipo de dividendos (que permite às empresas reduzir o pagamento de Imposto de Renda).

Tem também as deduções com gastos de saúde e educação do Imposto de Renda, que hoje beneficiam principalmente os mais ricos. O governo pode propor uma redução dessas deduções ou até a extinção.

Então, do lado das onerações você tem principalmente essas três medidas que citei.

E do lado da desoneração, o governo deve propor a desoneração horizontal da folha (de pagamento das empresas), que custa caro.

Só a desoneração dos 17 setores que o governo agora acabou de ter o veto derrubado pelo Congresso significa uma renúncia de quase R$ 20 bilhões por ano.

E, ainda, nessa parte de desoneração existe um anseio do governo de aumentar ainda mais a faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física e corrigir as faixas superiores que não são corrigidas pela inflação já há muitos anos.

Essas mudanças, vale lembrar, serão feitas para melhorar a progressividade (tributar mais os mais ricos) no nosso sistema e para melhorar a eficiência também, porque a gente tem um Imposto de Renda de Pessoa Jurídica hoje no Brasil que é muito complexo.

Mas também (servirão) para aumentar a carga tributária.

Essa terceira motivação não estava presente na discussão da reforma do IVA e estará presente nesse segundo bloco de reforma.

Segundo Borges, governo vai ter que ceder e fazer algum tipo de discussão de reforma administrativa© Getty Images

BBC News Brasil – O Simples Nacional e o Lucro Presumido, sistemas especiais de desconto na tributação de empresas, são muito questionados por economistas. Espera alguma mudança, ou há muita resistência?

Borges – Acho que isso é um vespeiro que ninguém tem coragem de atacar.

Na verdade, existe pressão no Congresso para aumentar ainda mais o limite de faturamento do Simples (hoje de R$ 4,8 milhões ao ano).

BBC News Brasil – Por que há esse vespeiro tão grande?

Borges – Porque o Simples beneficia principalmente vários profissionais liberais que têm muito poder, que têm seus interesses representados por entidades de classe poderosas.

Os próprios políticos, muito deles, são profissionais liberais.

É óbvio que, se você passa a tributar dividendo a 15% ou 20%, isso afeta o Lucro Presumido e o Simples também (pois as empresas desses sistemas costumam distribuir dividendos para seus sócios), mas a gente sabe que as mudanças necessárias no Simples e no Presumido vão muito além disso.

O Simples, por exemplo: R$ 4,8 milhões de faturamento de corte é muito alto, numa ampla comparação internacional. Vários países tendem a adotar regime simplificados para pequenas e microempresas, mas, convenhamos, uma empresa que tem um faturamento anual de R$ 4,8 milhões não é micro nem pequena.

Agora, realmente, é muito difícil o governo atacar isso.

BBC News Brasil – O governo conseguiu aprovar algumas medidas de aumento de arrecadação no Congresso. Isso é suficiente para cumprir a meta fiscal de zerar o rombo nas contas públicas em 2024, ou será um desafio?

Borges – O governo conseguiu aprovar quase todas as medidas (de aumento da arrecadação) que ele tinha enviado para o Congresso em agosto.

A questão é que o Congresso desidratou algumas delas e existe também um ceticismo muito grande com relação aos números (de expectativa de arrecadação) que o governo apresentou para cada uma dessas medidas.

Então, isso não afasta a necessidade de um contingenciamento, o congelamento temporário de despesas, em fevereiro ou março.

Isso já está sensibilizando a ala mais política do governo, que não quer esse bloqueio de despesas em pleno ano de eleições municipais.

E aí a discussão virou mudar a meta fiscal para evitar o bloqueio, o que tem gerado muito ruído.

Lembro que as metas de resultado primário que foram estabelecidas no início desse ano não saíram do nada.

Chegar num superávit (dinheiro que “sobra” nas contas do governo, economia para pagar os juros da dívida) de 1% (do PIB) em 2026 tem uma lógica.

Hoje, o Brasil precisa de um superávit primário de pelo menos 1% do PIB por ano para que a dívida pública não suba como proporção do PIB.

Então, quanto mais tempo a gente ficar com um resultado primário negativo, distante 1% de superávit, a dívida vai continuar subindo, o que não é sustentável.

Uma coisa é a dívida subir quando parte de uma dívida baixinha, outra coisa é a dívida subir quando você já parte de um nível de dívida desconfortável, como é o caso atual Brasil (a dívida pública brasileira está em 75% do PIB, com tendência de alta).

Então, na prática, a discussão sobre reduzir a meta no ano que vem, antes mesmo do ano começar, para evitar esse bloqueio (de gastos), acaba alimentando um risco com relação à própria sustentabilidade fiscal.

E isso é contraproducente para a política monetária (definição da taxa básica de juros pelo Banco Central), porque o câmbio fica depreciado (e dólar mais caro pressiona a inflação).

É contraproducente também para a taxa de juro longo.

Hoje, o Brasil, para se financiar com títulos públicos (com vencimento) de 20 anos, 30 anos, o governo brasileiro está tendo que pagar um juro real de 5,5% ao ano.

É um absurdo de juro real isso. E isso tem impacto financeiro sobre as contas públicas, tem impacto sobre as empresas também, sobre crédito imobiliário (porque os juros pagos pelo governo servem de referência para os juros de mercado).

Vou te dar um exemplo concreto (do impacto da questão fiscal na economia).

Com base nos meus estudos, digo que hoje a nossa taxa de câmbio (o valor do dólar) poderia ficar perto de R$ 4,70, e não nos R$ 4,90 que está, se não tivesse surgido todo esse ruído envolvendo a meta fiscal desde outubro.

E, se o câmbio tivesse a R$ 4,70, a inflação estaria ainda mais baixa, o Banco Central poderia sinalizar que iria cortar (a taxa básica de juros, Selic) mais rápido do que está sinalizando, e a gente teria aí um todo um ciclo virtuoso (na economia).

BBC News Brasil – Esse ano o PIB surpreendeu positivamente os economistas. Qual sua expectativa para 2024?

Borges – Não estou muito otimista com crescimento do PIB brasileiro no ano que vem.

Estou achando que vai ser um crescimento mais na faixa de 1% a 1,5%, por vários fatores.

Primeiro, vamos lembrar que o mundo vai crescer menos no ano que vem do que nesse ano, principalmente a China, que é o principal parceiro comercial brasileiro.

O PIB chinês vai crescer (segundo projeções) um ponto percentual menos do que neste ano.

Segundo, vamos lembrar que a Argentina, que é o principal comprador de produtos manufaturados brasileiros, vai ter um tratamento de choque, um freio brusco no consumo, com esse pacote (de medidas econômicas) do Javier Milei (presidente recém-empossado).

Então, o cenário internacional é bem pior.

E quando a gente vem para dentro do Brasil, vamos lembrar que o PIB agropecuário esse ano cresceu 18% e o ano que vem vai cair 2%, pelas projeções de safra de grãos do IBGE e da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).

Então, é muito difícil imaginar que o Brasil vai repetir o crescimento de 3% que a gente teve em 2022 e também em 2023.

AS ARMADILHAS DA INTERNET E OS FOTÓGRAFOS NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR

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