Equador e Colômbia priorizam a proteção do meio ambiente, em especial
da Amazônia. Brasil e outros defendem exploração do hidrocarboneto – em
nome do crescimento e supostamente no interesse das populações mais
pobres.No plebiscito de 20 de agosto, a maioria da população do Equador
tomou a decisão histórica de barrar novas explorações de petróleo numa
região amazônica responsável por cerca 12% da produção do combustível
fóssil no país.
Objeto da consulta popular foi o destino do Bloco 43, um grupo de
campos de extração de petróleo localizados no Parque Nacional Yasuni:
59% dos participantes votaram pelo fim da exploração.
O movimento vai no mesmo sentido da Colômbia, cujo atual governo
busca barrar novas perfurações em seu território. No entanto, em outras
partes da América do Sul a exploração segue avançando e há forte defesa
de que tais recursos são fundamentais para o crescimento e geração de
riqueza.
O tema gerou uma cisão entre os países amazônicos, especialmente por
parte da Colômbia, cuminando uma conclusão vista como vaga, durante a
última Cúpula da Amazônia, realizada no começo de agosto. Naquele
encontro, o governo do presidente Gustavo Petro almejava um acordo pela
proibição de novas explorações petrolíferas na Amazônia, o que foi
rechaçado especialmente pelo Brasil.
Campeão latino-americano do petróleo
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva visa inclusive
ampliar a produção na Margem Equatorial na Amazônia, o que gerou
controvérsia com parte da atual gestão e especialistas da área. Em 22 de
agosto, a Advocacia-Geral da União (AGU) publicou um parecer concluindo
que a elaboração de uma avaliação não impede o Ibama de conceder
licença ambiental para explorar petróleo e gás na foz do Rio Amazonas.
Desde 2017, o Brasil é o maior produtor de petróleo da América
Latina: o último boletim da Associação Nacional de Petróleo (ANP) sobre o
tema, referente a junho, acusou um recorde de 4,324 milhões barris
extraídos por dia. Em 2022, o hidrocarboneto foi a segunda maior fonte
de receita de exportação brasileira, atrás apenas da soja, com 42,5
bilhões de dólares, ou 12,5% do total exportado.
Outro integrante do Conselho da Amazônia que aposta na exploração do
petróleo é a Guiana, que encontrou vastas reservas de hidrocarbonetos em
2015. Em 2022, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o país
teve o maior crescimento no mundo: a alta de 57,8% de seu Produto
Interno Bruto (PIB) foi amplamente apoiada pelo petróleo.
Ainda na América do Sul, a Argentina optou recentemente por avançar
na exploração de Vaca Muerta, uma das maiores reservas de gás natural e
petróleo do mundo. O projeto é controverso, inclusive por envolver a
técnica de fraturamento hidráulico (fracking), considerada de alto risco
para o meio ambiente. Na campanha das eleições presidenciais de 2023,
nenhum dos principais candidatos sugeriu medidas que afetassem tal
exploração.
Preocupação de ricos?
Um argumento frequente contra os avanços no combate às mudanças
climáticas em países menos desenvolvidos é o que essa deveria ser uma
responsabilidade das nações mais ricas, já que historicamente foram as
que mais emitiram poluentes.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano
Pires, avalia que medidas como as de Equador e Colômbia podem reduzir a
oferta de energia, especialmente num cenário de demanda em alta,
aumentando a inflação, o que atingiria com intensidade os mais pobres.
Em 2019, um aumento de preços de combustíveis após o fim de subsídios
foi catalisador de uma série de protestos que tomaram o Equador por
semanas. Pires argumenta que o desenvolvimento socioeconômico demanda
energia e que crescimento é fundamental para maior igualdade. Portanto,
em sua concepção, o movimento contra as explorações tenderia a aumentar a
pobreza.
De acordo com o pesquisador da Rystad Energy Aditya Ravi, a economia
equatoriana depende significativamente das exportações, de cujas
receitas o petróleo bruto representa mais de 30%. As perdas com a
recente decisão poderão representar quase 1,2% do PIB do país, segundo
suas estimativas. Além disso, ele avalia que a decisão terá impacto nos
preços ao consumidor.
O diretor da 350.org na América Latina, Ilan Zugman, avalia o
plebiscito de 20 de agosto de 2023 no Equador como um excelente exemplo
de preocupação popular com as mudanças climáticas, já que efeitos como
secas, enchentes ou deslizamentos de terra normalmente atingem em grande
maioria justamente essa parcela da população.
Segundo Zugman, os cidadãos estão “exigindo maiores iniciativas de
adaptação por parte dos governos locais, para conter um pouco todos
esses impactos: “É algo que vem mudando e não está mais restrito somente
às classes alta e média.”
A coordenadora de projetos do Instituto ClimaInfo, Carolina Marçal,
reconhece que os países do chamado Sul Global, entre eles a Colômbia e o
Equador, estão entre os menores emissores de carbono. No entanto: “O
ônus e as consequências da crise climática são compartilhados por todos
os habitantes do planeta de forma injusta. Então, querendo ou não, todos
nós temos o dever de tomar ações e medidas.”
Compensações dos desenvolvidos
Para diminuir as desigualdades causadas pelos diferentes níveis de
emissões entre países desenvolvidos e os mais pobres, tem-se sugerido
com frequência que os primeiros transfiram recursos aos outros como
compensação.
Em 2008, o então presidente do Equador, Rafael Correa, fez uma
proposta aos países mais ricos para não explorarem as reservas do Parque
Nacional Yasuni em troca de verbas. O projeto não foi adiante, assim
como algumas outras iniciativas, uma das quais previa a transferência
anual 100 bilhões de dólares dos países mais ricos aos menos
desenvolvidos para o combate às mudanças climáticas.
Marçal espera que o exemplo do Equador possa inspirar outras
democracias, principalmente nos países ricos, a cumprir suas promessas.
Em sua visão, é necessária uma reforma da estrutura financeira global
para viabilizar um modelo de desenvolvimento de baixo carbono no Sul
Global.
Pires concorda com a visão de que se “há interesse em preservar o
meio ambiente, deve haver financiamento” por parte dos países mais
ricos. No entanto, ele é cético que estas verbas por si só sejam capazes
de gerar desenvolvimento nas nações mais pobres.
Possíveis pressões
Com um governo que preza a imagem externa de proteção ambiental,
ambientalistas avaliam que pode haver frustração com o Brasil nessa
esfera, especialmente diante das recentes medidas dos vizinhos.
Para assegurar uma liderança nesta posição, Zugman avalia que o país
“precisa fazer mais, não basta apenas zerar o desmatamento”: “O Brasil
precisa tomar uma decisão firme e buscar realmente reduzir a exploração
de petróleo e gás.” Ele não vê a possibilidade de usar a influência que o
país tem para liderar uma iniciativa de diálogo com os países mais
desenvolvidos e criar um pacto pela redução da queima de combustíveis
fósseis.
Em algum momento, o presidente Lula “vai ter que realmente se expor, e
escolher de qual lado está, se ele está do lado da Amazônia, dos povos
indígenas, do meio ambiente, ou se vai seguir conectado com essa
indústria suja do passado”, resume Zugman.
Para Marçal, o plebiscito no Equador “deve servir de inspiração para a
população brasileira e especialmente para o governo brasileiro, de que
essa é a única decisão compatível com o atual contexto de crise
climática”: “Se queremos realmente protagonizar uma política climática a
nível global, precisamos deixar o petróleo no chão”, afirma a
coordenadora do Instituto ClimaInfo.
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Privilégios de poucos, gestão ineficiente
e a herança de um sistema de Previdência generoso demais. Esses são
três importantes fatores que impactam os gastos com servidores no
Brasil, segundo diferentes especialistas ouvidos pela reportagem.
A discussão de como resolver esses problemas está na ordem do dia,
mas a busca de soluções trouxe de volta um antigo debate, se o Brasil
quer um Estado mínimo ou um Estado de bem-estar social.
“A nossa Constituição definiu que o Brasil teria um Estado de direito
pleno, com saúde pública, base escolar ampla, da pré-escola ao nível
superior, e uma rede de assistência social, e isso sinalizou que haveria
um gasto maior”, diz Felipe Drumond, consultor da República.org,
entidade dedicada a incentivar o debate sobre servidores.
“Claro que existem distorções que precisam ser combatidas, pois temos
supersalários, carreiras com ganhos muito acima do mercado, e muita
gente ainda fazendo atividades manuais que já poderiam ter sido
digitalizadas. Mas a gente precisa aprofundar a discussão para saber
qual é o melhor caminho.”
O gasto com salário de servidores, considerando União, estados e
municípios, por exemplo, está na média global, mostram dados do FMI
(Fundo Monetário Nacional).
No Brasil, o salário pago no setor público equivale a 8,9% do PIB
(Produto Interno Bruto). É menor que a média na Finlândia (10%) e na
China (9,8%), mais que o Peru (6,2%) e o Chile (6,8%), mas praticamente
igual a Espanha e Áustria (ambos com 9%).
Os gastos no país estão acima dos de economias que integram o G20 –o
bloco dos países mais ricos–, como França (8%), Reino Unido (7,3%) e
Alemanha (5,9%). Os custos com a folha, no entanto, vão distanciando o
Brasil da média internacional quando se olha as carreiras no detalhe.
A diferença salarial entre público e privado, chamada de prêmio, é um
indicador das distorções que oneram o Estado, afirma Samuel Pessôa,
pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getulio Vargas).
Ele cita o paralelo feito por um estudo do Banco Mundial, “Um Ajuste
Justo”. O documento mostra que os prêmios são muito baixos e
praticamente não existem nos municípios onde se concentra a demanda por
serviços à população –educação, saúde e assistência social, e chega a
faltar gente.
Nos estados, já aparecem prêmios maiores para algumas funções. Na
média, se paga 30% mais, diz o estudo. A União, por sua vez, concentra
os desequilíbrios.
Profissionais de direito têm prêmio de 80% e especialistas em gestão
pública chegam a receber mais de 100%, segundo levantamento que detalha
as diferenças por atividades, feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada).
Em 2022, no entanto, olhando a série histórica, o gasto com
funcionalismo no governo federal havia alcançado 3,4% do PIB, o menor
patamar desde 2008.
“Esse fato, na minha opinião, justifica a política mais dura contra
salários feita durante o governo [Jair] Bolsonaro”, diz Pessôa, avisando
que considera a sua fala polêmica.
“No final do ano passado, eu escrevi uma coluna dizendo que a herança
econômica do Paulo Guedes não era maldita, porque ele entregava as
finanças públicas mais arrumadas. Como Bolsonaro é uma figura difícil de
adjetivar, o texto irritou muita gente, mas, se olharmos os números com
frieza, foi o que ocorreu.”
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discorda. O próprio
Guedes conta ter feito uma reforma silenciosa, lembra José Celso Cardoso
Jr., secretário de Gestão de Pessoal, do Ministério da Gestão e da
Inovação.
“Na verdade, ele [Guedes] promoveu arrocho de salários, paralisou
concursos e contratações, deixando que as aposentadorias fossem
esvaziando e sucateando inúmeras áreas”, afirma Cardoso.
“É o pior tipo de reforma possível, baseada no envelhecimento, na
aposentadoria dos servidores e na corrosão inflacionária de seus
salários.”
O governo mudou, mas as discordâncias persistem. O presidente da
Câmara, Arthur Lira (PP-AL), voltou a falar em tirar da gaveta a reforma
administrativa de Guedes, argumentando que é preciso rever privilégios
do funcionalismo, conter gastos e melhorar o atendimento à população.
A proposta é colocar em votação a PEC (proposta de emenda à
Constituição) 32. O texto flexibiliza contratação e estabilidade, além
de remodelar a progressão nas carreiras.
A gestão Lula considera o texto uma punição aos servidores. Defende
mudanças gradativas, por meio de portarias, decretos ou projetos de
leis, que vão buscar a melhora na seleção de pessoal, via concursos, a
realocação dentro da máquina pública e o aprimoramento das carreiras.
Carlos Ari Sundfeld, professor titular da FGV Direito SP, que estuda a reforma administrativa, sugere cautela nessa discussão.
Ele lembra que a administração pública não suporta colocar todo mundo
no regime efetivo dentro do Orçamento limitado. Os governos, justamente
na tentativa de buscar saídas para obter mais eficiência e gastos
menores, já tornaram o regime de trabalho muito diversificado –e cita
exemplos.
As prefeituras e empresas estatais fazem terceirização de mão de obra
para saúde, educação, segurança e assistência social, o que tem custos
menores e também reduz o uso da burocracia pública. A OS (organização
social) se tornou constante no atendimento à saúde.
Há também presença forte de temporários, que têm um regime mais simples, rápido e barato de admissão e gestão.
A administração pública ainda adotou o residente na área jurídica. É
um sistema similar ao usado com médicos. Ele substitui o concurso
público para novos advogados, cuja remuneração é mais alta e cresce
muito depressa após o ingresso.
Nesse contexto, Sundfeld considera inadequado dizer que o Estado gasta demais.
“Há um teto para gastar com pessoal, o pacto do Brasil nessa área
está na Lei de Responsabilidade Fiscal, e eu desconheço algum esforço de
cálculo que mostre que o limite é alto e gastamos demais”, afirma ele.
“No entanto, é verdade que precisamos rever certos segmentos, como o
jurídico –juiz, promotor, advogado, defensor–, que ganham valores
extraordinariamente acima da iniciativa privada por funções
equivalentes. Você pode dizer que não existe juiz na iniciativa privada,
mas tem profissional jurídico de alto nível, como os juízes, então,
podemos comparar. Nesse caso, daria para distribuir melhor os recursos.”
Segundo levantamento da República.org, uma das poucas comparações
internacionais sobre essa atividade foi realizada em 2016 pelo FMI. O
levantamento mostrou que a distorção local extrapola fronteiras.
Comparando as despesas com os judiciários de 42 países, a do Brasil era a
maior, com 1,4% do PIB.
Quase 90% do seu orçamento é representado por gastos com salários,
vencimentos e subsídios, incluindo benefícios como auxílios-moradia e
creche, apesar dos altos salários.
No último ano, segundo a República.org, os magistrados receberam em
média R$ 55,6 mil, quando o teto constitucional, estabelecido pelo
rendimento máximo de um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), era
de R$ 39,3 mil. Em abril, o valor subiu R$ R$ 41,6 mil.
Procurada pela reportagem para comentar a questão, a AMB (Associação
dos Magistrados Brasileiros) não se manifestou até a publicação deste
texto.
O auge das distorções, no entanto, ocorre quando se inclui os
inativos na conta. O gasto com servidor sobe, então, para 13,5% do PIB.
A demora em fazer as reformas previdenciárias ainda vai pesar por
muitos anos. Um passivo enorme está entrando só agora, afirma o
economista Paulo Tafner, que atuou para mudar as leis previdenciárias.
O rombo na União com Previdência de civis e militares já está perto
de R$ 95 bilhões por ano. Nos estados, passa de R$ 110 bilhões.
“Na prática, o gasto com pessoal é uma combinação de ativos com
inativos, e se olhar vai ver que em muitos estados os gastos com
inativos já superam os com ativos”, diz Tafner.
“Está acontecendo o que eu falava 20 anos atrás: o peso dos inativos
vai bloquear o aumento de salário com ativos, pois ainda tem muita gente
trabalhando que vai se aposentar pelas regras antigas, antes da reforma
de 1998. Eles têm integralidade de vencimentos. Começo a temer que
vamos precisar de uma nova reforma mais cedo do que imaginava.”
As práticas funerárias comuns no mundo todo deixam uma pegada
de carbono significativa. No texto abaixo, Becca Warner explora como
ela poderia planejar um sepultamento mais ecologicamente correto para si
mesma.
Não são muitos de nós que gostam de falar sobre a morte. É sombrio, triste e propenso a nos jogar em uma espiral existencial.
Mas a verdade desconfortável é que, como alguém que se preocupa com o
meio ambiente, percebi que precisava parar de ignorar a realidade dela.
Quando partimos, nossos corpos precisam de um lugar para ir – e as
formas como normalmente cremamos ou enterramos corpos no Ocidente têm um
custo ambiental assustador.
A maioria das pessoas no Reino Unido (de onde venho) é cremada quando
morre, e queimar corpos não é bom para o planeta. As estatísticas são
leituras que nos fazem torcer o nariz.
Uma cremação típica no Reino Unido é alimentada a gás e estima-se que
produza 126 kg de emissões CO2e (‘CO2 equivalente’, métrica usada para
quantificar as emissões de vários gases de efeito estufa com base em sua
capacidade de aquecer a atmosfera)- aproximadamente o mesmo que dirigir
por mais de cinco horas.
Nos Estados Unidos, a média é ainda maior, em 208 kg de CO2 equivalente.
Talvez não seja a atividade mais intensiva em carbono que faremos em
nossas vidas – mas quando a maioria das pessoas em muitos países opta
por se desvanecer no ar quando morre, essas emissões aumentam
rapidamente.
Enterrar um corpo não é muito melhor. Em alguns países, a sepultura é
revestida com concreto, um material intensivo em carbono, e o corpo é
colocado em um caixão de madeira ou aço, que consome muitos recursos.
Fluidos de embalsamamento altamente tóxicos, como o formaldeído,
frequentemente são usados, e eles infiltram no solo junto com metais
pesados que prejudicam ecossistemas e poluem o lençol freático.
E só o caixão pode ser responsável por até 46 kg de CO2 equivalente, dependendo da combinação de materiais utilizados.
Eu passo meus dias tentando impactar o planeta o mínimo possível –
reciclando caixas de cereal, pegando o ônibus, escolhendo tofu em vez de
carne. A ideia de que minha morte exigirá um último ato venenoso é
difícil de aceitar.
Estou determinada a encontrar uma opção mais sustentável.
Meu primeiro ponto de referência é o Natural Death Centre, uma organização beneficente sediada no Reino Unido.
Pego o telefone e fico contente em encontrar Rosie Inman-Cook do
outro lado da linha – uma pessoa comunicativa e direta que é rápida em
me alertar sobre a falta de confiabilidade de muitas práticas
alternativas de cuidados com a morte.
“Sempre há empresas aproveitando a onda, vendo uma mina de dinheiro,
inventando coisas. Há muitos produtores de caixões e pacotes funerários
que vão te vender algo ‘ecológico’ e plantar uma árvore. Você tem que
ter cuidado.”
O aviso dela me faz lembrar de algumas “urnas ecológicas” sobre as quais li.
Algumas são biodegradáveis, de modo que as cinzas enterradas podem se
misturar com o solo e crescer em uma árvore; outras misturam cinzas com
cimento para que possam fazer parte de um recife de coral artificial.
Essas opções oferecem uma espécie de novidade ecológica: o que seria
um fim mais adequado para um amante do oceano do que repousar entre os
recifes ou para um fanático por florestas se “transformar” em uma árvore
após a morte?
O único problema é que, por mais sustentável que seja a urna, as
cinzas depositadas nela são produto de uma cremação intensiva em
carbono.
Então, posso evitar que meu corpo se torne uma nuvem negra de fumaça?
A área de atuação de Inman-Cook são os enterros naturais. Isso
envolve enterrar um corpo sem quaisquer barreiras para a decomposição –
sem fluidos de embalsamamento, sem revestimentos de plástico ou caixões
de metal.
Tudo isso significa zero emissões de CO2, de acordo com uma análise
recente realizada pela empresa britânica de certificação de
sustentabilidade Planet Mark.
O corpo é enterrado em uma cova relativamente rasa, que pode ser o
jardim de alguém ou, mais frequentemente, um local de enterro natural.
Alguns locais de enterro natural permitem que as sepulturas sejam
marcadas com pedras ou outros marcadores simples; outros são mais
rigorosos e não permitem nenhuma marcação.
Tratam-se de bosques ou outros lugares ricos em vida selvagem,
frequentemente gerenciados de maneira a apoiar ativamente a conservação.
“É [sobre] criar espaços verdes para a vida selvagem, lugares
agradáveis para as pessoas visitarem, plantar novas florestas ao mesmo
tempo – e é um legado positivo”, diz Inman-Cook.
Mas e quanto aos materiais nem tão naturais que entram no corpo
humano – produtos farmacêuticos, microplásticos, metais pesados?
Certamente eles não pertencem ao solo. Uma solução pode vir na forma de
um caixão feito de fungos.
O Loop Living Cocoon alega ser o primeiro caixão vivo do
mundo. É feito de micélio de cogumelo de uma espécie nativa e não
invasiva, que também é usada para criar painéis isolantes, embalagens e
móveis. Falei com seu inventor, Bob Hendrikx.
“O melhor que podemos fazer é morrer na floresta e simplesmente ficar
lá”, diz ele. “Mas um dos problemas que enfrentamos é a degradação do
solo – a qualidade do solo está ficando cada vez pior, especialmente nos
locais de enterro, porque há muita poluição lá. O corpo humano também
está ficando mais poluente.” Microplásticos, por exemplo, agora foram
encontrados no sangue humano.
Caso contrário, essas substâncias podem se infiltrar no lençol
freático. Algumas espécies de fungos foram encontradas decompondo
microplásticos, e pesquisas futuras podem descobrir maneiras de
aproveitar isso para enterros humanos.
Mas com base nas pesquisas atuais, o impacto real dos caixões de
cogumelos de hoje é difícil de saber. Pergunto a Rima Trofimovaite,
autora do relatório da Planet Mark, quais são os prováveis benefícios de um caixão de cogumelos.
Ela diz que há dados limitados sobre se os corpos humanos poluem o solo após um enterro natural em uma cova rasa.
Mas, segundo ela, é provável que a maioria dos poluentes seja
“eliminada no nível adequado com os organismos certos” quando enterrados
apenas alguns metros abaixo do solo, sem a necessidade de fungos
adicionais.
“Na minha opinião, essa alternativa continua tendo importância.
Reconhecemos que o enterro natural é a opção de menor emissão, porém,
nem todos se sentem confortáveis sendo envolvidos por um sudário de
algodão. Alguns indivíduos podem inclinar-se a favor de um caixão de
cogumelos devido à sua forma distintiva.”
No entanto, por mais ecologicamente sustentável que seja um enterro
natural – com ou sem fungos – a terra continua sendo preciosa.
Especialmente nas cidades, o espaço verde para enterros naturais em
bosques é escasso. Foi isso que levou a jovem estudante de arquitetura
Katrina Spade a investigar o que poderia ser feito para tornar os
enterros nas cidades menos desperdiçadores.
Sua solução é lógica: compostar o corpo em um recipiente de aço
hexagonal, reduzindo-o a um solo rico em nutrientes que a família pode
colocar em seu jardim.
Spade lançou a Recompose, a primeira instalação de
compostagem humana do mundo, em Seattle, em 2020. O estado de Washington
foi o primeiro nos EUA a legalizar a compostagem humana no mesmo ano, e
a prática agora é legal em sete estados americanos. Outras instalações
de compostagem humana surgiram no Colorado e em Washington.
Até agora, a Recompose já compostou cerca de 300 corpos. O
processo ocorre ao longo de cinco a sete semanas. Deitado em seu
recipiente especializado, o corpo é cercado por lascas de madeira,
alfafa e palha. O ar é cuidadosamente monitorado e controlado, para
criar um ambiente confortável para os micróbios que aceleram a
decomposição do corpo.
Os restos mortais são eventualmente retirados, transformados em cerca
de duas carriolas de composto. Os ossos e dentes – que não se decompõem
– são removidos, decompostos mecanicamente e adicionados ao composto.
Qualquer implante, marca-passo ou articulação artificial é reciclado sempre que possível, diz Spade.
Sem a necessidade de queima intensiva de energia, a compostagem humana tem uma pegada de carbono muito menor do que a cremação.
Em uma avaliação do ciclo de vida conduzida pela Universidade de
Leiden e pela Universidade de Tecnologia de Delft, usando dados
fornecidos pela Recompose, o impacto climático de compostar um
corpo foi encontrado como uma fração da cremação: 28 kg de CO2e em
comparação com 208 kg de CO2e nos EUA.
Quando pergunto a Spade sobre a produção de metano – um gás de efeito
estufa particularmente prejudicial que é liberado quando a matéria
orgânica apodrece – ela explica que os recipientes são arejados para
garantir que haja oxigênio suficiente. Isso evita o processo anaeróbico
que causa a decomposição, diz ela.
Transformar um corpo humano em solo também nos lembra que “não
estamos adjacentes à natureza, somos parte da natureza”, diz Spade. Essa
mudança em nosso relacionamento com o mundo natural é um benefício
ambiental difícil de quantificar, mas é “crítico para a situação do
planeta”, diz ela.
Será que qualquer pessoa pode ser compostada? Faço essa pergunta a
Spade porque quero saber se eu “me qualificaria” para ter o mesmo
destino que a casca de uma banana.
A resposta é, de forma geral, sim – mas não se eu tiver morrido de
Ebola, uma doença priônica (um tipo raro de doença cerebral
transmissível) ou tuberculose, já que esses patógenos não foram
demonstrados como sendo decompostos pela compostagem, diz Spade.
Enquanto ela descreve o processo, me ocorre que roupas provavelmente
não seriam bem-vindas no recipiente de compostagem. Em vez disso, os
restos são envoltos em linho, e as famílias que optam por realizar uma
cerimônia podem cobri-los com lascas de madeira orgânica, palha, flores e
até cartas de amor trituradas.
“Em um caso, uma família trouxe pimentões vermelhos e cebolas roxas
que acabaram de amadurecer no jardim de seu ente querido – foi tão
bonito”, lembra Spade. O corpo entra em um “recipiente de transição”,
onde a equipe da Recompose assume.
Eles retiram o envoltório de linho, mas não as flores e vegetais.
Secretamente, espero que minha família realmente faça isso. Imagino
cestas de pinhas, montes de cogumelos, talvez algumas das minhas amadas
plantas de casa.
Tudo isso está parecendo muito natural – mas há outra opção de baixo carbono que gira em torno de um elemento diferente: a água.
A “cremação aquática” (também conhecida como “aquamação”, “hidrólise
alcalina” ou “resomação”) é uma alternativa à cremação tradicional e foi
o método escolhido pelo Arcebispo Desmond Tutu, que ajudou a acabar com
o apartheid na África do Sul.
É um processo completamente mais suave e limpo do que a cremação, produzindo apenas 20 kg de CO2e.
“Isso é uma grande diferença”, diz Trofimovaite. “Você reduz
enormemente as emissões com a resomação em comparação com a cremação por
chama.”
Aproximadamente 1.500 litros de água são misturados com hidróxido de
potássio e aquecidos a 150°C. Em apenas quatro horas, o corpo humano é
reduzido a um líquido estéril.
Mais de 20.000 pessoas foram cremadas aquaticamente nos últimos 12 anos, principalmente nos EUA.
A maior provedora de funerais do Reino Unido, a Co-op Funeralcare,
recentemente anunciou que introduzirá essa prática ainda este ano.
A rapidez da cremação aquática a torna uma ótima opção econômica. A
Co-op prevê que o custo seja comparável ao da cremação por chama – cerca
de £1.200 (R$7.375) com suporte básico, mas sem serviço funerário.
Os enterros naturais podem ter um preço semelhante, mas os custos
geralmente são muito mais altos, dependendo do local de sepultamento
individual.
A compostagem é muito mais cara, custando $7.000 (R$ 34.160) – um
pouco mais do que o enterro padrão médio no Reino Unido, que custa
£4.794 (R$29.790).
Falo com Sandy Sullivan, fundador da Resomation – uma empresa que
vende equipamentos de cremação aquática para funerárias em toda a
América do Norte, Irlanda e Reino Unido (e planeja fazer o mesmo na
Holanda, Nova Zelândia e Austrália no próximo ano).
Ele é paciente quando digo que estou imaginando o processo como um
tipo de derretimento e que não tenho certeza de como me sinto em relação
a isso.
“Isso é o que você obtém no final”, diz ele, segurando um grande saco
transparente cheio de um pó branco brilhante. “Isso é farinha, aliás”,
ele acrescenta rapidamente.
O ponto é que o produto final é seco, semelhante a cinzas. A farinha é
uma representação do que é devolvido à família e consiste apenas nos
ossos, que foram triturados mecanicamente (como ocorre após a cremação
por chama).
O tecido mole do corpo se desintegra na água e desaparece pelos canos até a estação de tratamento de água.
O saco de farinha de Sullivan representa a lembrança física que é tão
importante para muitas famílias. Isso demonstra o que Julie Rugg,
diretora do Grupo de Pesquisa de Cemitérios da Universidade de York, no
Reino Unido, diz ser central para grande parte do nosso pensamento sobre
práticas funerárias.
“Diante da morte, buscamos consolação. E tem sido muito interessante
ver como houve um conflito, em alguns casos, entre o que é sustentável e
o que as pessoas encontram como consolo”, diz ela. Sacos de cinzas de
ossos e composto ajudam a superar isso oferecendo algo tangível, uma
âncora para nossa tristeza.
Conforme considero as várias opções que aprendi – derretimento,
compostagem, micélio – meus pensamentos retornam à minha primeira
conversa com Inman-Cook.
Estou impressionado com a simplicidade do enterro natural, a ausência
de qualquer badalo, assobio, recipiente ou câmara. Fico contente em
saber que, com base em tudo o que aprendeu durante sua análise
científica, Trofimovaite chegou à mesma conclusão.
“Eu tentaria torná-lo o mais natural possível”, ela me diz. “Os
enterros naturais são os mais atraentes.” Mas um enterro natural sem
marcação é um exemplo perfeito do conflito identificado por Rugg.
“Alguém diz que adora a ideia de ser enterrado em um belo prado, mas
não pode colocar nada sobre o túmulo”, diz ela. Rugg descreve o
“jardinagem guerrilheira” ocorrendo em um local de enterro natural, por
um membro da família determinado a marcar secretamente o túmulo de seu
ente querido com trevos distintos.
“O que precisamos alcançar é um sistema que nos permita sentir que
nossa perda é especial. Precisamos pensar sobre a sustentabilidade em
uma escala que ainda ofereça consolo.”
A resposta, parece-me, poderia estar em reimaginar o que “especial”
pode significar. Como diz Rugg, em um jardim memorial típico “você não
consegue se mexer por causa de placas por todos os lados. Resistimos ao
desaparecimento dos mortos e, na verdade, achamos isso menos consolador
do que podemos pensar.”
Saio da conversa com um claro entendimento de que, supondo que eu
tenha evitado desaparecer em uma nuvem de fumaça, uma das coisas mais
úteis que posso fazer é recusar a reivindicação de qualquer parcela de
terra em particular.
Espero que minha família possa encontrar consolo na ideia de que eu
ficaria mais feliz me tornando parte de uma paisagem. Por que ser apenas
uma árvore quando posso me tornar uma floresta?
Conheça as ferramentas ‘queridinhas’ da atualidade, que geram
economia de tempo e redução de custos nas rotinas pessoais e
profissionais
A implementação de novas tecnologias vem fazendo a diferença nas
rotinas pessoais e profissionais ao redor do mundo. Elas já estão
presentes em inúmeras ações, atividades e tarefas cotidianas, mesmo que
não percebamos. As inteligências artificiais, em especial, chegaram para
facilitar e otimizar o dia a dia, com base no comportamento humano. Um
relatório da Kinea Investimentos mostra que o mercado global de
inteligência artificial movimentou US$ 383 bilhões em 2021 e US$ 450
bilhões em 2022, apontando uma tendência de crescimento relevante do
setor para 2023.
“Coisas simples como serviços de streaming, aplicativos, câmeras de
reconhecimento facial e compras no e-commerce são bons exemplos, e todos
eles claramente otimizam nosso tempo e solucionam problemas”, pontua
Joel Backschat, fundador da comunidade Orange Juice e CIO do Grupo
FCamara, ecossistema de tecnologia e inovação que potencializa o futuro
de negócios.
Pensando nisso, o executivo listou cinco importantes ferramentas de
inteligência artificial que já estão no nosso dia a dia, trazendo
inúmeras vantagens, especialmente para profissionais que precisam de
facilitadores no mercado. Confira:
ChatGPT
Em primeiro lugar está um dos assuntos mais comentados do momento: o
ChatGPT, IA que tem como objetivo principal melhorar a experiência de
diálogo com bots e a qualidade das respostas. Como o próprio nome diz, o
chat (conversa) funciona respondendo tanto às perguntas simples como às
mais complexas, só que de maneira completa e com linguagem menos
robótica, mais natural. Ele é capaz de oferecer diálogos mais orgânicos
por utilizar uma linguagem baseada em aprendizado, ou seja, ela capta
nuances de diálogos humanos.
“O bate-papo inteligente cria, considerado o sonho de todos seres
humanos, processa e apresenta dados ao seu interlocutor de um jeito
‘humanizado’. Por isso, acredito que o ChatGPT é uma das ferramentas
mais inteligentes já criadas. Ele mudou a forma como as pessoas se
comunicam, tiram dúvidas e produzem, gerando rumos inovadores para
diversos setores”, comenta Joel.
Midjourney
O aplicativo tem como principal função criar imagens por meio da
inteligência artificial, funcionando em um servidor no Discord. Os bots
criam ilustrações de forma rápida e eficaz, personalizadas de acordo com
o pedido do usuário.
“Em resumo, a ferramenta usa seus algoritmos para traduzir
solicitações de texto em imagens. Além do Midjourney, recomendo também a
Blue Willow, IA com a mesma funcionalidade de gerar imagens, sendo
acessível a todos, independente do nível de experiência e conhecimento.
Inclusive, é possível testar através do servidor da Orange Juice”, conta
Backshat.
Copy
Comumente usada para tarefas de copywriting, é a queridinha de quem
trabalha com postagens, redações, marketing e afins, pois ajuda a criar
ótimos resumos, manchetes chamativas, posts interessantes, além de
textos e artigos impecáveis. “A melhor qualidade dessa ferramenta é o
serviço de edição eficaz que possui, porque traz uma nítida otimização
de tempo e redução de custos”, fala Joel.
Tome
A Tome é mais uma ferramenta que veio para revolucionar o tempo de
trabalho de profissionais e estudantes. Sua principal aptidão é criar
apresentações de slides através da solicitação inicial do usuário, que
traz um descritivo do que ele precisa. Em seguida, a ferramenta indica a
melhor forma para esse storytelling/conteúdo ser exposto.
“Eu, particularmente, acho incrível a indicação da ferramenta, porque
ela realiza desde o título inteligente até o layout, estrutura do
texto, opção de gráficos e muitas outras coisas, o que ao meu ver, é uma
grande revolução no setor”, complementa o executivo.
Adobe Firefly
Recentemente lançada, a nova ferramenta da Adobe é mais um modelo de
inteligência artificial focado na geração de imagens. Ela permite que
usuários usem comandos de texto capazes de ajustar ou até mesmo alterar
imagens com extrema agilidade e eficácia. A ideia do Adobe Firefly é
usar do banco de imagens da Adobe (Adobe Stock) para gerar novas imagens
a partir do que você procura na barra de pesquisa, gerando uma
qualidade excepcional, além de ser capaz de gerar novas imagens.
“Por ser uma novidade no mercado, a Adobe já entendeu o funcionamento
de outras ferramentas semelhantes e foi capaz de aprimorar seu
lançamento, trazendo ainda mais inovações e facilidades quando se trata
de lapidar imagens. O trabalho final é de muita qualidade. Tem tudo para
cair no gosto dos usuários”, conclui Joel.
CARACTERÍSTICAS DA VALEON
Perseverança
Ser perseverante envolve não desistir dos objetivos estipulados em
razão das atividades, e assim manter consistência em suas ações. Requer
determinação e coerência com valores pessoais, e está relacionado com a
resiliência, pois em cada momento de dificuldade ao longo da vida é
necessário conseguir retornar a estados emocionais saudáveis que
permitem seguir perseverante.
Comunicação
Comunicação é a transferência de informação e significado de uma
pessoa para outra pessoa. É o processo de passar informação e
compreensão entre as pessoas. É a maneira de se relacionar com os outros
por meio de ideias, fatos, pensamentos e valores. A comunicação é o
ponto que liga os seres humanos para que eles possam compartilhar
conhecimentos e sentimentos. Ela envolve transação entre pessoas. Aquela
através da qual uma instituição comunica suas práticas, objetivos e
políticas gerenciais, visando à formação ou manutenção de imagem
positiva junto a seus públicos.
Autocuidado
Como o próprio nome diz, o autocuidado se refere ao conjunto de ações
que cada indivíduo exerce para cuidar de si e promover melhor qualidade
de vida para si mesmo. A forma de fazer isso deve estar em consonância
com os objetivos, desejos, prazeres e interesses de cada um e cada
pessoa deve buscar maneiras próprias de se cuidar.
Autonomia
Autonomia é um conceito que determina a liberdade de indivíduo em
gerir livremente a sua vida, efetuando racionalmente as suas próprias
escolhas. Neste caso, a autonomia indica uma realidade que é dirigida
por uma lei própria, que apesar de ser diferente das outras, não é
incompatível com elas.
A autonomia no trabalho é um dos fatores que impulsionam resultados dentro das empresas. Segundo uma pesquisa da Page Talent, divulgada em um portal especializado, 58% dos profissionais no Brasil têm mais facilidade para desenvolver suas tarefas quando
agem de maneira independente. Contudo, nem todas as empresas oferecem
esse atributo aos colaboradores, o que acaba afastando profissionais de
gerações mais jovens e impede a inovação dentro da companhia.
Inovação
Inovar profissionalmente envolve explorar novas oportunidades,
exercer a criatividade, buscar novas soluções. É importante que a
inovação ocorra dentro da área de atuação de um profissional, evitando
que soluções se tornem defasadas. Mas também é saudável conectar a
curiosidade com outras áreas, pois mesmo que não represente uma nova
competência usada no dia a dia, descobrir novos assuntos é uma forma
importante de ter um repertório de soluções diversificadas e atuais.
Busca por Conhecimento Tecnológico
A tecnologia tornou-se um conhecimento transversal. Compreender
aspectos tecnológicos é uma necessidade crescente para profissionais de
todas as áreas. Ressaltamos repetidamente a importância da tecnologia,
uma ideia apoiada por diversos especialistas em carreira.
Capacidade de Análise
Analisar significa observar, investigar, discernir. É uma competência
que diferencia pessoas e profissionais, muito importante para contextos
de liderança, mas também em contextos gerais. Na atualidade, em um
mundo com abundância de informações no qual o discernimento,
seletividade e foco também se tornam grandes diferenciais, a capacidade
de analisar ganha importância ainda maior.
Resiliência
É lidar com adversidades, críticas, situações de crise, pressões
(inclusive de si mesmo), e ter capacidade de retornar ao estado
emocional saudável, ou seja, retornar às condições naturais após
momentos de dificuldade. Essa é uma das qualidades mais visíveis em
líderes. O líder, mesmo colocando a sua vida em perigo, deve ter a
capacidade de manter-se fiel e com serenidade em seus objetivos.
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A oposição ao governo federal criticou a
fala do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que disse
haver possibilidade e pressupostos legais para a prisão do ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL), no caso das joias.
Especialistas em direito também consideram que o chefe da polícia
errou ao avançar em sua fala. Apesar de não enxergarem ilícitos na
conduta, apontam que o episódio abre margem para a politização do caso e
para comprometer a isonomia da investigação.
Andrei Rodrigues declarou em entrevista ao UOL na sexta-feira (25)
que não conhece os detalhes da investigação, mas que há a previsão legal
para uma eventual prisão preventiva de Bolsonaro.
O diretor-geral afirmou que, dada a sua função, não participa dos
trabalhos de investigação, acrescentando que essas atividades são feitas
com responsabilidade, focada na qualidade da prova e dando autonomia
para as equipes.
“O cenário é a lei, o que está no Código Penal, o que está no Código
de Processo Penal, o que está na Constituição, que é a nossa lei maior. E
dentro desse arcabouço jurídico legal, há sim a possibilidade de
prisão, possibilidade de busca e apreensão, que temos feito várias. Não
descartamos nenhuma das hipóteses”, afirmou.
Andrei acrescenta a sequência, novamente, que não conhece os
elementos que foram colhidos e que a prisão não é uma “vontade própria
do investigador”, exigindo o atendimentos aos requisitos legais.
“Há pressupostos legais. O que a equipe precisa se pautar, volto a
insistir, é na responsabilidade e na qualidade da prova. Deve-se pautar
pelo que está na lei e pelo que se está apurando. Se nessa conjunção de
elementos se chegar a essa conclusão, que há obstrução, que há
necessidade para a garantia da ordem pública, enfim, se os requisitos
legais são atingidos, esse é um caminho e eu aqui falo hipoteticamente”,
completou.
A fala provocou a reação de aliados de Bolsonaro, que falam em
aparelhamento da PF. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a pedir a
prisão do diretor-geral por abuso de autoridade.
“Não há motivos para pré-condenação de Bolsonaro em absolutamente
nada do que está sendo acusado, pois sequer há crime. O chefe da PF dar
esse tipo de declaração, além de parecer torcida de um cupincha do
[ministro da Justiça] Flávio Dino, mostra que ele aparelhou uma
respeitada corporação para perseguir adversários políticos. Quem tem que
ser preso é ele por abuso de autoridade”, afirmou à reportagem, por
meio de nota.
Na mesma linha, o líder do PL no Senado, Rogério Marinho (RN) também
apontou abuso de autoridade na fala do diretor-geral e disse ainda que
há uma antecipação ilegal da conclusão da investigação.
“O agente do Estado que, na condição de diretor-geral da Polícia
Federal, afirma que, com base na sua experiência e nas provas às quais
teve acesso, existe indícios de corrupção, antecipa-se ilegalmente à
conclusão das apurações e ofende gravemente o princípio republicano”,
afirmou.
O senador Sergio Moro (União Brasil-PR), ex-juiz da Operação Lava
Jato, também criticou Andrei Rodrigues e considerou a sua declaração
inapropriada.
“Não vejo causa para uma prisão preventiva do ex-presidente
Bolsonaro. Lula só foi preso após ter sido julgado. Também foi
inapropriada a declaração do diretor da PF sobre o tema, já que a
questão cabe aos delegados da investigação e não à direção da PF”,
afirmou o parlamentar.
Moro ainda lembrou o caso do ex-diretor da PF Fernando Segovia que
foi demitido em 2018 após uma série de polêmicas, como ao afirmar em
entrevista que havia uma tendência para que o inquérito contra o então
presidente Michel Temer (MDB) fosse arquivado.
“Agora, é a mesma coisa só que de sinal trocado. A direção da PF precisa manter a institucionalidade.”
O também senador Alessandro Vieira (MDB-SE), por outro lado,
considerou que não há problemas na fala de Andrei Rodrigues, que teria
tomado cuidado de deixar claro não ter acesso aos detalhes da
investigação.
“As falas do diretor da PF foram todas no campo das possibilidades
jurídicas, sempre com o cuidado de ressaltar o seu desconhecimento do
conteúdo das investigações que envolvem o ex-presidente”, afirma.
Procurada, a Polícia Federal informou em nota que os inquéritos são
conduzidos pela equipe de investigação, seguindo a Constituição, a
legislação penal e processual penal em vigor e os normativos internos.
“Qualquer eventual pedido de medida cautelar é de responsabilidade da
equipe de investigação e sujeito aos pressupostos legais, conforme o
diretor deixa claro durante a entrevista”, afirma.
POLITIZAÇÃO DO CASO
Especialistas em direito indicam que não há irregularidades na fala
de Andrei Rodrigues, mas consideram inadequada a sua postura relativa ao
caso. Acrescentam que ela pode comprometer a isonomia da investigação,
além de dar margem para a politização do caso.
O professor de direito e advogado Wagner Gundim afirma que o problema
não está exatamente no que foi dito e sim em quem fez as declarações.
“Importante estabelecer que, até pelo contexto da matéria, ele foi
ouvido como um especialista, tanto que a análise que ele faz do ponto de
vista técnico é muito imparcial, ele fala em preencher os requisitos,
deixa muito claro que não tem acesso a todos os documentos”, afirma
“No entanto, o fato de a declaração ser constitucional, legal não
significa que do ponto de vista moral e político não haja problema […] o
problema é que não dá para dissociar o especialista da função que ele
exerce, um cargo de indicação, vinculado a Presidência da República.
Acaba abrindo espaço para a politização”, completa.
O advogado Arthur Rollo afirma que falas como a de Andrei Rodrigues podem reforçar o discurso bolsonarista de perseguição.
“Ele deveria ter parado [a resposta] lá no ‘não conheço os autos’.
Quando ele continua, acaba opinando numa coisa que ele não conhece.
Ninguém deve falar numa coisa que a gente não conhece. Fizeram uma
pergunta concreta. Ele responde ‘em tese’, mas fica impossível não
desvincular do caso concreto.”
Para Arthur Rollo, o chefe da política não tem que opinar, “até em
respeito aos subordinados dele que estão atuando nos inquéritos”.
“Embora tenha falado ‘em tese’, tomados todos os cuidados, ele foi
perguntado duma situação concreto. Imagina se sai um mandado na semana
que vem”, completa.
O advogado Renato Stanziola Vieira, presidente do Instituto
Brasileiro de Ciências Criminais, afirma que a posição de Rodrigues foi
dentro do limite técnico.
“Eu acho que ele foi muito técnico, trabalhou com a hipótese não só
de prisão como de outras medidas cautelares. Ele foi muito claro que tem
que defender a Constituição e o Código Penal e mais de uma vez disse
que não está a frente da investigação”, afirma.
Vieira ainda acrescenta que Rodrigues também não disse em nenhum
momento se os pressupostos foram atendidos e apenas teria explicado
quais são.
A Embraer ultrapassou a fabricante de aviões norte-americana Cessna, do grupo Textron Company, no setor de jatos particulares e se tornou a mais popular nos Estados Unidos.
Por 15 anos, o jato executivo Cessna Citation Excel foi o líder de
operação no país. Mas, em 2023, o Phenom 300 da empresa brasileira
passou a ser o modelo mais usado pelos norte-americanos. As informações
são da Bloomberg.
Dados da Federal Aviation Administration (Administração
Federal de Aviação dos EUA) mostram que o Phenom 300E teve 360.300
decolagens e pousos registrados em aeroportos norte-americanos nos
últimos 12 meses até agosto deste ano.
No mesmo período, o Cessna Citation Excel decolou e pousou 358.900 vezes –1.400 a menos que o jato particular da Embraer.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) comemorou a conquista. Em publicação no X (ex-Twitter) neste sábado (26.ago.2023), afirmou que a Embraer é “um orgulho nacional” e disse que o feito é “uma prova cabal da confiança dos passageiros estadunidenses na segurança e qualidade das aeronaves” da fabricante brasileira.
Embora seja menor por acomodar até 9 passageiros, o Phenom 300E é
considerado mais econômico. Ele queima menos combustível, possui mais
velocidade e alcance e custa cerca de 1/3 a menos que o Cessna Citation
Excel, afirmou o consultor de aviação privada, Brian Foley, em
entrevista à Bloomberg.
A Embraer descreve o Phenom 300 como o “jato executivo de maior sucesso da última década” e o veículo de categoria leve “mais vendido por 10 anos consecutivos”. Segundo a empresa brasileira, o equipamento também é o “jato single-pilot [de um só piloto] mais rápido e de maior alcance em produção”.
Em outubro de 2021, a Embraer fechou um acordo de
US$ 1,2 bilhão para entregar 100 aeronaves Phenom 300E à NetJets,
companhia área norte-americana do bilionário Warren Buffett.
As empresas realizaram outra negociação neste ano, mas dessa vez envolvendo a venda do jato executivo Praetor 500. O acordo de mais de US$ 5 bilhões estabelece a entrega de 250 unidades do modelo até 2025.
No ano passado, a venda de jatos particulares correspondeu a cerca de
27% dos US$ 4,2 bilhões registrados pela Embraer com a comercialização
de aeronaves.
Além de ter se tornado a preferida nos EUA, a empresa brasileira
também tem vendido mais jatos particulares ao país norte-americano.
Dados da Gama (Associação
Geral de Fabricantes de Aviação dos EUA, na sigla em inglês) mostram
que, em 2005, por exemplo, a Embraer entregou somente 20 aeronaves do
tipo, enquanto em 2022, o número subiu para 102.
No entanto, a Cessna ainda lidera o mercado de vendas nos Estados
Unidos. Somente no ano passado, a fabricante de aviões norte-americana
entregou 178 aeronaves privadas –76 a mais que a Embraer.
Jatinho Phenom 300 da Embraer é o mais usado nos EUA
O medo dos cidadãos japoneses e as críticas recebidas da China não
foram suficientes para evitar que o Japão começasse a lançar no Oceano
Pacífico, na quinta-feira (24/8), as águas residuais tratadas da usina
nuclear de Fukushima.
Mais de um milhão de toneladas de águas residuais foram acumuladas
desde o tsunami de 2011, que danificou gravemente as instalações da
usina.
Segundo o governo japonês, o risco de contaminação é mínimo, devido
aos processos empregados de filtragem da água. E o plano recebeu o
respaldo do organismo de controle nuclear das Nações Unidas, a Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Mas a iniciativa gera controvérsias na região. As comunidades locais
receiam que possíveis danos ambientais venham a prejudicar a pesca e
outras atividades econômicas.
O plano também enfrenta forte oposição da China, que é o principal
comprador de frutos do mar japoneses. Pequim acusa o Japão de tratar o
oceano como seu “esgoto particular” e considera que a AIEA é um
organismo “unilateral”.
Na quinta-feira (24/8), assim que o Japão deu início ao lançamento
das águas, o governo chinês anunciou que irá proibir todas as
importações de mariscos da região, para “proteger a saúde dos
consumidores chineses”, segundo a alfândega do país.
Calcula-se que esta medida irá causar graves danos econômicos e o
próprio Japão reconheceu que suas empresas sofrerão um golpe
“significativo”.
Juntos, Hong Kong e a China importam todos os anos mais de US$ 1,1
milhão (cerca de R$ 5,4 milhões) em produtos originários do mar do
Japão. Este valor representa quase a metade das exportações japonesas de
frutos do mar.
A Coreia do Sul também proíbe, há muito tempo, alguns produtos
marinhos do Japão, mas não teceu maiores comentários na quinta-feira
passada.
O primeiro-ministro sul-coreano, Han Duck-soo, afirmou que “o
importante, agora, é se o Japão irá seguir rigorosamente os padrões
científicos e fornecer informações de forma transparente, como prometeu à
comunidade internacional”.
Seul e Tóquio vêm estreitando relações diplomáticas, apesar de suas
profundas desavenças históricas. Eles se uniram em aliança com os
Estados Unidos, frente às ameaças da Coreia do Norte e da China.
Mas a maior parte dos sul-coreanos se opõe à liberação da água de
Fukushima e manifestantes tentaram invadir a Embaixada japonesa em Seul
na quinta-feira. Outras manifestações de indignação também foram
registradas em Hong Kong e em Tóquio.
Desde o desastre de 2011, a Tepco – empresa proprietária da usina de
Fukushima – vem bombeando água para resfriar os reatores nucleares
danificados.
Com isso, a usina produz diariamente água contaminada – cerca de 100 m³ por dia – que é armazenada em gigantescos tanques.
Até o momento, já são mais de 1 mil tanques cheios de água. O Japão
afirma que esta solução não é sustentável a longo prazo e, por isso,
começou a liberar gradualmente essa água no Oceano Pacífico. Estima-se
que este processo leve 30 anos.
O lançamento de águas residuais no oceano é uma prática rotineira nas
usinas nucleares. Mas esta situação é resultado de um acidente e não um
descarte nuclear típico.
A Tepco filtra as águas de Fukushima através do seu Sistema Avançado
de Processamento de Líquidos, que reduz a maior parte das substâncias
radioativas a padrões de segurança aceitáveis, com exceção do trítio e
do carbono-14.
O trítio e o carbono-14 são, respectivamente, formas radioativas de hidrogênio e carbono. É difícil separá-los da água.
Estas substâncias estão presentes no ambiente natural, na água e até
nos seres humanos, pois são formadas na atmosfera terrestre e podem
entrar no ciclo da água. Ambas emitem baixos níveis de radiação, mas
podem trazer riscos se forem consumidas em grandes quantidades.
Antes de serem lançadas no oceano, as águas residuais filtradas são
diluídas com água do mar, para reduzir a concentração das substâncias
ainda presentes.
A Tepco defende que seu sistema de válvulas impede a liberação acidental de águas residuais sem diluição.
E o governo japonês acrescenta que os níveis finais de trítio — cerca
de 1.500 becqueréis por litro — são muito mais seguros do que os níveis
exigidos pelos órgãos reguladores para o descarte de resíduos
nucleares, ou pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a água
potável.
A Tepco também afirma que os níveis de carbono-14 estão dentro dos
padrões internacionais de segurança. A empresa e o governo japonês
realizaram estudos para demonstrar que a água descartada trará pouco
risco para os seres humanos e para a vida marinha.
Muitos cientistas também apoiaram o plano.
“A água descartada será uma gota no oceano, tanto em volume quanto em
radioatividade. Não há evidências de que esses níveis extremamente
baixos de radioisótopos tenham efeito prejudicial à saúde”, disse o
patologista molecular Gerry Thomas, que trabalhou com cientistas
japoneses em pesquisas sobre a radiação e assessorou a AIEA nos
relatórios produzidos pela agência sobre Fukushima.
O que dizem os críticos?
Mas nem todos estão convencidos pelos argumentos da empresa e do governo japonês.
Antes do anúncio da aprovação do plano pela AIEA, a ONG Greenpeace
publicou relatórios levantando preocupações com o processo de tratamento
conduzido pela Tepco. Ela afirma que não é suficiente para remover as
substâncias radioativas.
Para os críticos do plano, o Japão deveria, por enquanto, manter a
água tratada nos tanques, o que permitiria ganhar tempo para desenvolver
novas tecnologias de processamento e para que a radioatividade restante
fosse reduzida de forma natural.
Alguns cientistas também estão preocupados com o plano japonês. Eles
defendem que são necessários mais estudos sobre os possíveis efeitos
desses resíduos sobre o leito oceânico e a vida marinha.
“Vimos uma avaliação inadequada do impacto radiológico e ecológico.
Estamos preocupados não só com o fato de que o Japão talvez não consiga
detectar o que está jogando na água [do mar], nos sedimentos e nos
organismos, mas também, se isso acontecer, de ser incapaz de remover [o
material contaminado]. Não há como colocar o gênio de volta à garrafa”,
explicou à BBC o biólogo marinho Robert Richmond, professor da
Universidade do Havaí.
Tatsujiro Suzuki, professor de engenharia nuclear do Centro de
Pesquisa para a Eliminação de Armas Nucleares da Universidade de
Nagasaki, no Japão, declarou à BBC que o plano “não levaria
necessariamente a uma contaminação grave ou prejuízo público, se tudo
correr bem”.
Mas, como a Tepco falhou em 2011 e não conseguiu evitar o desastre,
ele teme que um possível acidente possa liberar água contaminada sem
tratamento.
Diversos analistas defendem que a reação da China não é motivada
apenas por preocupações ambientais, mas também por questões políticas.
As relações entre Tóquio e Pequim se deterioraram nos últimos anos. O
Japão vem se aproximando dos Estados Unidos e demonstrando seu apoio à
ilha autônoma de Taiwan, reclamada pela China.
“Este incidente é mais um sintoma do que uma causa da deterioração
das relações sino-japonesas”, afirma o especialista em política exterior
chinesa Neil Thomas, do think tank (centro de pesquisa e debates) Asia
Society Policy Institute.
Para ele, “Pequim talvez tivesse feito menos escândalo pela liberação
da água se suas relações com Tóquio estivessem em melhor posição”.
É provável que o Japão “repudie esta crítica, mas é pouco provável
que faça algo provocador”, segundo o professor James D. J. Brown,
especialista em política exterior japonesa, do campus da Universidade
Temple no Japão.
“Embora o governo do Japão esteja profundamente preocupado com as
ações que considera agressivas do Partido Comunista Chinês, ele entende
ser conveniente manter relações estáveis com seu maior vizinho”, explica
o professor.
E talvez não seja necessário esperar muito tempo. Afinal, há quem
acredite na possibilidade de que a China não cumpra com a proibição de
importação de frutos do mar do Japão.
“As dificuldades econômicas cada vez maiores da China podem fazer com
que qualquer proibição seja relativamente breve e limitada, para
reduzir o impacto negativo sobre os importadores chineses e o sentimento
dos empresários”, acrescenta Thomas.
Como o Japão está respondendo às críticas?
O governo do Japão e a Tepco lançaram amplas campanhas de educação
pública. O primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, prometeu “alto
nível de transparência” no processo.
A Tepco se comprometeu a publicar dados em tempo real sobre os níveis
de radioatividade da água, em um portal dedicado a explicar o processo
de tratamento e descarte das águas de Fukushima em diversos idiomas.
Delegações estrangeiras e meios de comunicação – incluindo a BBC –
foram convidados a realizar visitas guiadas às instalações de
processamento. E, no front diplomático, Tóquio iniciou conversações com
seus vizinhos.
Textos publicados no site do Ministério das Relações Exteriores do
Japão destacam que outras usinas nucleares da região, especialmente na
China, liberam água com níveis de trítio muito mais elevados.
A BBC conseguiu confirmar alguns dos números fornecidos pelo governo
japonês com informações das usinas nucleares chinesas disponíveis ao
público.
Mas o maior argumento pode ser o relatório da AIEA, publicado pelo
chefe da agência, Rafael Grossi, durante sua visita ao Japão, em julho. O
relatório foi divulgado após uma investigação que durou dois anos.
A agência concluiu que a Tepco e as autoridades japonesas estão
cumprindo com os padrões internacionais de segurança em diversos
aspectos, que incluem as instalações, inspeções e conformidade,
monitoramento ambiental e avaliações de radioatividade.
Grossi afirmou que o plano teria “impacto radiológico insignificante para as pessoas e para o meio ambiente”.
*Com colaboração de Tessa Wong, Yuna Kim e Chika Nakayama.
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) desembarca em Belo Horizonte
nesta segunda-feira (28) para participar de agendas ao lado de
correligionários de Minas Gerais. Em meio aos eventos com aliados, o
capitão reformado vai receber o título de cidadão honorário do estado, a reboque de decreto assinado em 2019 pelo governador Romeu Zema (Novo).
O roteiro da comitiva de Bolsonaro tem uma parada na Associação
Médica de Minas Gerais (AMMG), para o encontro com colegas de partido e,
depois, passagem na Assembleia Legislativa para a cerimônia de
cidadania honorária. Há, ainda, expectativa pela visita a uma Igreja
Católica.
A semana do ex-presidente pode ter, também, um depoimento à Polícia
Federal. Ele foi intimado a falar sobre o caso de empresários que
utilizaram um grupo de WhatsApp para debater a possibilidade de um golpe
de estado. A oitiva foi agendada para o próximo dia 31. No mesmo dia,
Bolsonaro também terá de falar com os investigadores sobre a suposta
venda de joias pertencentes ao Estado brasileiro.
No que tange ao caso das joias, Bolsonaro vai prestar depoimento ao
mesmo tempo em que outras sete pessoas vão ser ouvidas. Na lista de
interrogados simultaneamente estão, por exemplo, a ex-primeira dama
Michelle Bolsonaro e o ex-ajudante de ordens do capitão reformado, o
tenente-coronel Mauro César Barbosa Cid.
A segunda-feira, vale lembrar, vai marcar a primeira passagem de
Bolsonaro por BH desde 30 de junho, quando o ex-presidente foi tornado
inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele estava na cidade
quando a decisão da Suprema Corte foi oficializada.
Antes de Minas, Goiás
No início deste mês, Bolsonaro recebeu uma homenagem similar à
honraria que vai ganhar em Minas Gerais. Durante solenidade na
Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), ele foi condecorado
com o título de cidadão honorário goiano. Assim como no caso mineiro, a
homenagem a Bolsonaro também foi aprovada em 2019 em Goiás, por meio de
lei sancionada pelo governador Ronaldo Caiado (União Brasil).
Sempre que aterrissa em Minas Gerais, Bolsonaro costuma rememorar a
facada sofrida em Juiz de Fora, na Zona da Mata. Ele levou o golpe em
setembro de 2018, a cerca de um mês do primeiro turno eleitoral daquele
ano. O presidente costuma dizer que “renasceu” em solo juiz-forano e, no
ano passado, chegou a visitar a Santa Casa de Misericórdia da cidade,
onde recebeu os primeiros cuidados após o ataque.
“Em várias oportunidades, quando se manifestou sobre essa tentativa
de assassinato, ele disse que renasceu em Minas Gerais. Então, se ele
admite que renasceu em Minas Gerais, agora, o estado, através de seus
representantes, vão formalizar esse nascimento, dando a ele a certidão,
que é o título de cidadania honorária”, disse, na semana passada, o
deputado estadual mineiro Coronel Sandro (PL), que encabeçou as
articulações para garantir a entrega do título no plenário da Assembleia
Legislativa.
Embate na Assembleia
O requerimento que pede a convocação de reunião especial do
Parlamento para conferir a cidadania honorífica a Bolsonaro tem 26
assinaturas. A maioria das subscrições foi dada por deputados de
partidos à direita. Entre os parlamentares do PL, há a expectativa pela presença de Zema no evento, possibilidade confirmada por uma fonte do Palácio Tiradentes ouvida pela Itatiaia.
O movimento para homenagear Bolsonaro, porém, rendeu críticas na
Assembleia. A deputada Bella Gonçalves, do Psol, ironizou a passagem do
ex-presidente por BH.
“Espero também que avisem para o Bolsonaro que a placa não é de ouro,
porque se não ele vende. Vende placa de ouro de cidadania honorária,
vende joias e pede Pix para fazer harmonização facial. O senhor não é
bem-vindo em Minas Gerais”, protestou.
Bruno Engler (PL), o deputado estadual de Minas mais próximo a
Bolsonaro, defendeu a deferência ao aliado. “(Não há) comprovação
nenhuma de que vendeu as joias. Segundo, não é prática de crime. Um
presidente que, ao contrário daquele que é apoiado pela esquerda, nunca
foi condenado por nada”, contrapôs, em menção a Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Posse simbólica e possível ida a igreja
Para o evento na Associação Médica de MG, o diretório estadual do PL
espera receber cerca de 500 lideranças locais. A atividade servirá como
posse simbólica do deputado federal Domingos Sávio na presidência da
legenda em Minas. Como mostrou a Itatiaia, Bolsonaro
deve encerrar o périplo por BH com uma atividade religiosa na Comunidade
Católica Mundo Novo, em Venda Nova. Antes de todos os compromissos,
haverá um almoço com aliados.
“Queremos construir projetos que visam, primeiramente, o
desenvolvimento de Minas Gerais, e isso passa por cidades estratégicas,
como a capital Belo Horizonte. Estamos adiantados nesse caminho,
debatendo abertamente entre todos os componentes das bancadas federal e
estadual e acredito que, em breve, já teremos tudo resolvido”, afirmou
Domingos Sávio, na semana passada.
Lei sancioanada este mês ajuda a tirar o estigma da educação profissional e a conecta também com a universidade
Por Renata Cafardo – Jornal Estadão
O ensino técnico no Brasil sofre com o estigma de ser apenas um bom
caminho para os pobres, já que os jovens ricos vão para a universidade. É
curioso quando se compara com números internacionais. Na Finlândia, 68% dos alunos cursam o ensino técnico e na Suíça, 84%. Será que tem tanto pobre assim por lá? E tanta gente que não vai para a faculdade?
Claro que não. A verdade é que o preconceito dos brasileiros não
estimula investimentos e só 10% dos jovens estão na educação
profissional e tecnológica, conhecida como ensino técnico, no País. E
eles nem são os mais pobres, infelizmente. Pesquisas recentes mostram o
interesse gigante pelos cursos técnicos entre os jovens, mas não há
vagas para todos e é preciso fazer seleção.
O ensino técnico no mundo contemporâneo é visto como uma forma de dar
significado à escola para o adolescente, muitas vezes perdido entre o
sonho do emprego ideal e uma aula chata de Física. Ele pode ser um
grande mobilizador de teoria e prática, dando ao trabalho um princípio
educativo.
Quando é bem feito, o técnico cursado junto com o ensino médio é um
grande articulador das disciplinas da formação básica, como Português,
História, Biologia. Faz o aluno refletir sobre como a aprendizagem está
ligada à sua vida e a uma profissão.
Alunos
de escolas técnicas são os que mais entram em universidades se
comparados ao restante da escola pública Foto: ROBERTO SUNGI
Tanto é verdade que alunos de escolas técnicas são os que têm
melhores notas em vestibulares se comparados com o restante da escola
pública – são eles os que entram na universidade, contrariando a ideia
de que seriam renegados a parar de estudar no ensino médio. Pesquisas
também mostram que países cujos estudantes de 15 anos têm melhor desempenho em avaliações internacionais investem no ensino técnico junto com o médio.
Uma lei sancionada neste mês, que passou despercebida por causa da confusão do novo ensino médio,
exige agora que faculdades validem como créditos as disciplinas
cursadas no ensino técnico, em áreas semelhantes. A intenção, segundo a
deputada federal Tábata Amaral (PSB-SP), relatora do projeto de lei, é justamente a de deixar mais claro que ensino técnico e universidade podem ser um objetivo comum.
O sentido também é o de que hoje o profissional não está pronto
quando termina um curso técnico ou uma faculdade. Os conhecimentos se
entrelaçam, se completam e são constantemente atualizados diante de um
mercado de trabalho em transformação.
Os detalhes de como isso vai se dar nas universidades ainda precisam
ser regulamentados, mas a lei ainda prevê articulação dos currículos com
empresas, como é comum fora do Brasil, expansão de vagas e a criação de
uma avaliação da qualidade dos cursos, tudo isso numa grande política
nacional de educação profissional e tecnológica.
O presidente Lula, que foi aluno do ensino técnico, posou feliz ao
lado de Tábata na sanção da lei e garantiu apoio. Uma das grandes
especialistas no assunto, a suíça Uschi Backes-Gellner, da Universidade
de Zurique, diz que não haverá sucesso em programas de fortalecimento do
técnico em países onde o estigma de uma educação “menos importante” se
mantiver. Com expectativa de reindustrialização e um número de jovens “nem-nem” que só cresce, o Brasil já devia ter assimilado a mensagem.